Em Pedaços


Talento em Apogeu

Diane Kruger é uma profissional admirável. Inquieta com a figura de bela da vez não raro a ela conferida em blockbusters e comédias românticas, a alemã não se mantém acomodada no espaço a ela confiado, principalmente, pela indústria hollywoodiana e de tempo em tempo se dedica a dramas – produzidos em seu continente natal – que exigem mais de sua capacidade interpretativa. Nesta toada, Em Pedaços (Alemanha, 2017) ratifica o talento da atriz, às vezes camuflado por obras fugazes, e se firma enquanto o ápice de sua maturidade artística - não à toa reconhecida e premiada no Festival de Cannes.

No filme Kruger vive ora de forma dilacerada ora de modo aparentemente resignado a dor de uma mulher que perdera de uma só vez marido e filho vitimados por um ataque neonazista, enredo desenvolvido pela direção e roteiro de Fatih Akin em três atos lineares, dos quais os dois primeiros são marcados pela chuva, cuja presença, onipresente como em Blade Runner (1982), sugere, decerto, o estado de espírito nebuloso de uma sociedade. Trabalhados com certa previsibilidade, dada a falta de intenção, nítida, de criar mistérios e surpresas para o espectador desvendar, tais atos tem como exceção a esse panorama a interessante e peculiar menção ao fato de num passado recente o falecido consorte da personagem principal ter cumprido pena na prisão por tráfico de drogas, o que denota o interesse do diretor por explorar o sofrimento daquela viúva em contraponto:
- a intolerância e ódio racial de seus próprios compatriotas,
- a relativização da culpa dos assassinos, em virtude dos ilícitos pretéritos cometidos pelo morto, tal como ventilado tanto pelo policial que investigara o atentado quanto pelo advogado de defesa dos réus durante o julgamento desses.
Com efeito, Akin prepara o terreno para chacoalhar o público em definitivo já no ironicamente ensolarado ato final deflagrado a partir do ponto de virada que encerra o terço imediatamente anterior: o equivocado veredicto dos assassinos. Dentro deste contexto, a decisão da protagonista por fazer justiça com as próprias mãos, ante a ineficiência do Poder Judiciário, inevitavelmente faz lembrar de Lady Vingança (2005) - ou até mesmo de Kill Bill (EUA, 2003) -, mas, as semelhanças param por aí ao passo que Em Pedaços dispõe de autenticidade própria graças ao viés político nele existente, qual seja a abordagem do crescimento do neonazismo e demais movimentos segregacionistas a ele equivalentes. Num mundo onde o conceito de fronteira tem sido cada vez mais discutido ante os êxodos rotineiramente causados por guerras e/ou pela miséria de países pobres, a xenofobia e o preconceito complementam um cenário no qual a protagonista, despedaçada, buscará, assim como o ronin tatuado em seu corpo, deixar os inimigos em igualdade de estado, rivalidade essa enaltecida, vale novamente ressaltar, pela qualidade do desempenho de Kruger que transita entre a dúvida, a desesperança e o desprezo no que tange o projeto de justiça e de encerramento de um ciclo imaginado por sua personagem e que, aliás, justifica e dota o título do longa-metragem de uma exemplar sagacidade.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Aus Dem Nichts

Direção: Fatih Akin
Roteiro: Fatih Akin, Hark Bohm
Elenco: Adam Bousdoukos, Asim Demirel, Aysel Iscan, Cem Akin, Christa Krings, Denis Moschitto, Diane Kruger, Hanna Hilsdorf, Hartmut Loth, Henning Peker, Jannis Papadopoulos, Jessica McIntyre, Johannes Krisch, Karin Neuhäuser, Laurens Walter, Numan Acar, Rafael Santana, Samia Muriel Chancrin, Siir Eloglu, Torsten Lemke, Ulrich Brandhoff, Ulrich Tukur, Uwe Rohde, Yannis Economides, Youla Boudali
Produção: Ann-Kristin Hofmann, Fatih Akin, Herman Weigel, Nurhan Sekerci-Porst
Fotografia: Rainer Klausmann
Trilha Sonora: Josh Homme
Montagem: Andrew Bird
Estreia: 09/11/2017
Duração: 106 min.

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