EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Cidade Onde Envelheço



Umbigo Refletido

Em A Cidade Onde Envelheço (Brasil/Portugal, 2016) chega a ser cômico – não fosse trágico – o quão procedentes são as pontuais reclamações e observações de duas portuguesas residentes no Brasil acerca de hábitos do povo tupiniquim. Deixando de lado possíveis notas sobre metáforas envolvendo colonizador e colonizado, eis que o filme de Marília Rocha não possui tal pretensão, o que se percebe são olhares estrangeiros que, além de revelar choques culturais, servem de alerta para que melhoremos desde nosso vocabulário coloquial, permeado por expressões repetitivas e gírias irritantes, além da forma passiva com que aceitamos serviços prestados de maneira desleixada e, sobretudo, a falta de preocupação do brasileiro quanto a não incomodar o outro seja com falta de educação seja com pedidos descabidos como o de dar uma tragada no cigarro alheio.
Vale lembrar que em sendo os diálogos frutos de improviso¹, as ponderações feitas pelas atrizes ganham em autenticidade, afastando-se da possibilidade de serem apenas palavras postas em suas bocas por Marília Rocha que também assina o roteiro. Neste passo, Rocha se limita a garantir um número de reclamações que não se torne intolerável aos ouvidos do público nem faça das personagens seres pedantes, tarefa executada com êxito bastante para, sem exagero, garantir veracidade as acusações de modo tal que das poucas vezes em que essas surgem a atenção do espectador acaba tomada pelas mesmas, sendo, desta feita, aquilo que de mais interessante e significativo o longa-metragem apresenta, já que no campo emotivo não há muito com o que contar tendo em vista a carência de calor que marca a relação entre as duas imigrantes, resultado do comportamento blasé de Francisca (Francisca Manuel) que acaba por influenciar toda a obra.
Tamanha frieza parece fazer parte da proposta narrativa de Marília Rocha daí porque não pode ser encarada necessariamente como um defeito, ainda que inegavelmente dificulte a empatia da plateia. Nesta toada, talvez certa quantidade de monotonia presente na produção pudesse ser aplacada se ao invés de perder tempo com sequências que nada acrescentam – como as cenas em que as mulheres dançam – fosse investido um pouco mais nas emoções e, principalmente, na saudade. Por um lado, o foco preponderante sobre as relações interpessoais estabelecidas principalmente entre as portuguesas e os brasileiros dispõe de inconteste relevância - ainda mais para os nacionais que ganham a oportunidade de refletir sobe seu equivocado conceito de que regras existem para ser quebradas – mas, por outro lado, deixa um tanto incompleta uma análise que poderia ser mais abrangente, aspecto esse em que A Cidade Onde Envelheço só teria a ganhar se fizesse de Belo Horizonte, com sua natureza e arquitetura diversas daquilo que a cidade natal das protagonistas oferece, um cenário responsável por aumentar a incômoda nostalgia sentida por elas.
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1.     Neste sentido sugere-se a leitura dos textos presentes em http://revistapreview.com.br/entrevista/ajudamos-escrever-historia-diz-atriz-cidade-onde-envelheco/ e http://mulhernocinema.com/entrevistas/marilia-rocha-fala-sobre-os-bastidores-e-o-feminismo-de-a-cidade-onde-envelheco/.

Ficha Técnica

Direção: Marília Rocha
Roteiro: João Dumans, Marília Rocha, Thais Fujinaga
Elenco: Elizabete Francisca, Francisca Manuel, Jonnata Doll, Paulo Nazareth, Wanderson Dos Santos
Produção: João Matos, Luana Melgaço
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Montagem: Francisco Moreira
Duração: 99 min.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

La Land – Cantando Estações



 Nem Tanto ao Mar Nem Tanto à Terra

Beneficiado por uma temporada de premiações marcada pela baixa concorrência, La La Land – Cantando Estações (EUA, 2016) não chega a ser a obra-prima propagada por tantos, embora possua inquestionáveis méritos. Dito isso, a história do encontro entre um homem e uma mulher que a princípio se detestam, mas que não custam a se apaixonar não possui nada de novo, podendo o mesmo ser dito quanto a ambientação de tal fórmula no formato musical, daí que para dar um ar de ineditismo à trama o roteiro de Damien Chazelle traça um paralelo metafórico, nem tão relevante, entre as estações do ano e o irradiar de um amor, passando pelo arrefecimento até o afastamento.
Neste passo, o longa-metragem cresce e se torna comprometido com a verdade dos sentimentos justamente quando encara a tristeza sem receio de corromper a receita de bolo usada como ponto de partida. Trocando em miúdos, os caminhos profissionais trilhados pelos protagonistas levam ao sucesso de seus respectivos projetos individuais os quais, por seu turno, caminham por vias paralelas que, como sabido, não se cruzam. Assim, na medida em que o rumo de cada um acaba por deixar o outro distante, La La Land se torna factível e melancólico, acertando ao abandonar o tom de conto de fadas e abraçar a frustração inerente a um amor que insiste em existir a despeito dos fatores que o impedem de ser vivido no tempo presente.
Não obstante tal viés também já tenha sido visto em outras obras que como La La Land fazem a radiografia de um relacionamento, a realização em comento concede novo fôlego e valor a tal linha narrativa graças, sobretudo, a sequência em que o personagem de Ryan Gosling imagina como teria sido a vida ao lado de sua paixão caso algumas escolhas fossem diferentes¹, aspecto esse em que a toada musical se justifica para além de uma homenagem ao gênero e entrega um dos mais belos e tristes retratos de um sentimento vitimado pelo tempo e pela individualidade, ocasião essa na qual a produção não comete o erro de apontar “a” ou “b” como culpados, deixando o espectador, então, com o nó na garganta ainda mais apertado ao lembrar-lhe que ser adulto possui dessas complexidades que levam a razão a triunfar sobre a emoção.

La La Land, cabe dizer, não mostra sua maturidade de imediato, sendo a espera por esse desabrochar apaziguada pelo carisma de Gosling (incrível ao piano) e Emma Stone que juntos sempre funcionam em cena, o mesmo podendo ser dito quando separados, aspecto esse em que a atriz, em performance superlativa, acaba acumulando pontos a mais porque seu papel assim permite - vide , por exemplo, o close por ela enfrentado enquanto canta a belíssima The Fools Who Dream².
Em resumo, o que está por vir em La La Land se revelará arrebatador; sendo aquilo que antecede tal epifania muitíssimo agradável, ainda que não localizado no mesmo patamar de excelência. Trata-se, portanto, de um conjunto que não dispõe de semelhante grau de qualidade do início ao fim, circunstância que pode ser ignorada, relativizada ou valorizada conforme o gosto do freguês. Seja qual for a opção, um pensamento, contudo, parece não poder ser deixado de lado: as acusações de plágio praticadas por alguns contra La La Land são exageradas, afinal, o que se vê é um filme que transita conscientemente por uma linha tênue sem resvalar na mera cópia, sendo suas referências, óbvias, voltadas a um tributo, seja ele adequado ou não dentro do enredo. Neste sentido, as semelhanças estéticas de suas sequências musicais para com as vistas em títulos como Fama, Cantando na Chuva e Amor, Sublime Amor funcionam sim enquanto homenagem, denotando que a direção de Damien Chazelle, por um lado, é um primor quanto a carinhosa tarefa por ele assumida de recriar cenas de musicais clássicos, embora careça, por outro lado, de dose maior de originalidade - característica também percebida no roteiro como outrora mencionado - restando, por conseguinte, evidente a superestimação feita em torno de seu nome desde Whiplash – Em Busca da Perfeição (EUA, 2014) - um trabalho comum, a não ser pelo excelente sincronia entre trilha musical e edição.
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1.   A pergunta “e se?” passa então a ecoar por todo o filme, lembrando questões também levantadas em Mr. Nobody (Canadá, 2009), cuja crítica pode ser acessada em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/11/mr-nobody.html.
2.    A trilha musical de La La Land merece todos os aplausos recebidos uma vez que consegue algo visto com pouca frequência: fazer de sua canção-tema, City os Stars, uma espécie de personagem do filme.

Ficha Técnica

Título Original: La La Land

Direção e Roteiro: Damien Chazelle

Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, J.K.Simmons, Amiée Conn, Ana Flavia Gavlak, Callie Hernandez, Cameron Brinkman, Candice Coke, Finn Wittrock, Hemky Madera, Jason Fuchs, Jessica Rothe, John Legend, Kiff VandenHeuvel, Meagen Fay, Miles Anderson, Rosemarie DeWitt, Sandra Rosko, Sonoya Mizuno, Trevor Lissauer, Zoë Hall

Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt

Fotografia: Linus Sandgren

Montagem: Tom Cross

Trilha Sonora: Justin Hurwitz

Estreia: 19/01/2017 (Brasil)

Duração: 127 min.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Até o Último Homem



Estrategicamente Contido

Até o Último Homem (EUA/Austrália, 2016) tem sido saudado como a reconciliação de Mel Gibson com a indústria cinematográfica hollywoodiana após uma série de escândalos envolvendo seu nome. Neste passo, as várias indicações a prêmios recebidas pela obra parecem ser resultado não das qualidades técnicas e narrativas que o longa-metragem, aliás, nem sequer possui, mas sim da forma respeitosa com que o artista reverencia um herói de guerra norte-americano. Trata-se, desta feita, de um projeto estrategicamente feito para agradar um público específico nos moldes por este admirados.
Assim, a toada novelesca com que Gibson filma o primeiro ato no qual o protagonista enfrenta a fúria de um pai bêbado (Hugo Weaving, como de costume eficiente), ao mesmo tempo em que descobre o amor e alista-se para prestar serviço na II Guerra Mundial é de uma platitude deveras incômoda, ignorada, contudo, pela temporada de premiações dado o tom de patriotada com que é abordada a história do soldado que salva muitas vidas mesmo sem pegar em armas.
Adiante, o segundo ato marca a transição entre aquilo que se passa fora e dentro do conflito armado, daí ser desenvolvido em meio ao período de treinamento dos combatentes - numa estrutura de roteiro que faz lembrar semelhante divisão vista em Nascido Para Matar (EUA, 1987). Tal ato, vale dizer, é o que de melhor Até o Último Homem oferece graças ao talento cômico de Vince Vaughn, responsável por injetar humor na trama e dissipar por uns preciosos instantes o enfado. Dito isso, é uma pena que o personagem do ator seja deixado de lado no ato seguinte passado em campo de guerra, afinal, sua contribuição poderia, por certo, ajudar a tornar realmente digna de elogio uma fração do filme na qual Gibson - embora por vezes relembre o quanto seu vigor estético, à moda Sam Peckinpah, é voltado para a brutalidade e não para dramas familiares e relações amorosas - utiliza  um método lastimavelmente contido, caracterizado por dourar a pílula da carnificina sempre que possível para, por óbvio, não desagradar espectadores mais sensíveis.
Tamanha falta de destemor somada a planos cuja fotografia pretensamente épica é acrescida de uma canhestra trilha musical edificante tornam o produto superficial, o que prejudica até a esforçada atuação de Andrew Garfield, na medida em que o comportamento de seu personagem é exaltado sem que seja cogitada qualquer curva fora da linha por ele praticada. Não fosse o bastante, o lado inimigo é mostrado apenas quando os japoneses matam sem piedade ou quando sucumbem perante os yankees, denotando, por conseguinte, a visão unilateral de um trabalho cujo potencial se bem aproveitado poderia gerar um libelo pacifista tão eloquente e significativo quanto, por exemplo, Johnny Vai à Guerra (EUA, 1971).
Pelo menos a superestimada aceitação do título poderá servir para deixar Mel Gibson menos acanhado e formulaico em sua próxima empreitada. Aguardemos.

Ficha Técnica

Título Original: Hacksaw Ridge
Direção: Mel Gibson
Roteiro: Andrew Knight, Robert Schenkkan
Elenco: Andrew Garfield, Vince Vaughn, Hugo Weaving, Sam Worthington, Luke Bracey, Teresa Palmer, Ben O'Toole, Benedict Hardie, Firass Dirani, Goran D. Kleut, James Mackay, Luke Pegler, Matt Nable, Milo Gibson, Nathaniel Buzolic, Ori Pfeffer, Rachel Griffiths, Richard Roxburgh, Robert Morgan, Ryan Corr
Produção: Bill Mechanic, Brian Oliver, Bruce Davey, David Permut, Paul Currie, Terry Benedict, William D. Johnson
Fotografia: Simon Duggan
Montagem: John Gilbert
Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams
Estreia: 26/01/2017 (Brasil)
Duração: 139 min.