Olhar Instigado



Compreensão Direcionada

Embora se chame Olhar Instigado (Brasil, 2017) o filme de Chico Gomes e Felipe Lion não faz jus ao título na medida em que apresenta equívocos graves que comprometem, sobretudo, a pretendida provocação do espectador quanto a sua compreensão sobre a arte urbana, senão vejamos:

Preliminarmente, a produção peca no recorte escolhido, ao passo em que elege três protagonistas cujas falas por vezes são desinteressantes e até desarticuladas, aspecto esse em que não cabe especular sobre eventual desnível intelectual entre os mesmos, haja vista que as muitas gírias e conclusões vagas proferidas não são exclusividades desse ou daquele personagem, sendo, ao contrário, comuns a todos.
Destarte, seria, então, possível ser menos criterioso com as figuras abordadas e imaginar que o tratamento cinematográfico a elas dado almeja que se expressem nem tanto por meio de suas palavras, mas, principalmente, através de suas obras? A resposta é negativa considerando-se, dentro desse contexto, outra problemática do recorte: a ausência de valor de algumas das criações e intervenções mostradas.
Tal constatação, cabe ponderar, não se aplica a Alexandre Orion que consegue sim se comunicar com êxito por intermédio de seus trabalhos - que, aliás, poderiam facilmente render outro documentário dedicado somente a eles - no que se incluem seu incrível mural Apreensão, bem como Ossário, sua intervenção em túneis paulistanos que chama atenção pela beleza, modus operandi e significado.
Já quanto aos demais entrevistados o caldo entorna. Explique-se:
a) Olhar Instigado acompanha, não raro de maneira enfadonha, o processo de criação de uma obra de arte interativa que ao fim lamentavelmente fracassa em seus objetivos, conclusão que resulta tão frustrante para seu respectivo criador, Pato, quanto para o espectador que sente, assim, ter perdido tempo com algo ineficaz, viés esse em que o longa-metragem há de ter sua responsabilidade atenuada, uma vez que o risco de ser insatisfatório o resultado final da experiência registrada é comum a qualquer documentário que, na medida do possível, se exime de intervir na realidade filmada - tal ressalva, portanto, há de incidir sobre a conclusão do projeto, mas não possui o condão de sanar o erro de ‘casting’ alhures comentado.
b) No que tange a abordagem de um pichador, a discussão a respeito de sua atividade ser encarada como arte não é explícita. O filme, na verdade, assim sugere de maneira velada ao passo em que dá voz aos pichadores que defendem a intervenção em muros alheios como forma de demarcarem sua presença na cidade e, em especial, em locais que, segundo seu julgamento, não são mais tratados como coisa pública. Nesse diapasão, o erro imperdoável reside não no fato do filme hastear tal bandeira e sim na opção de não ouvir também o outro lado: proprietários de imóveis cujas paredes foram pichadas. A opinião externa, desta feita, é tomada apenas quando conveniente, vide o caso de uma dona de casa que manifesta o quanto a vista de seu quintal foi embelezada pelo painel Apreensão, o que, há de se convir, demonstra um método maniqueísta de propagar um ponto de vista (equívoco, cabe lembrar, também percebido, a despeito de seus inegáveis méritos, no elogiado Era o Hotel Cambridge).
Nesta toada, a vontade de convencer a plateia quanto aos argumentos do pichador é tão latente que a produção perde a oportunidade de ouro de explorar a fundo a dubiedade presente no fato de tal figura, ressalte-se, ser também um pintor profissional de edifícios. Ao abrir mão desse rico ponto de análise Gomes e Lion demonstram seu desejo de, no lugar de instigar o olhar do público, direcionar o mesmo por uma trilha previamente firmada, o que configura uma manipulação torpe que tenta a todo custo avalizar e tornar importante para uma comunidade determinadas obras e atividades que, como observado por Alexandre Orion, às vezes podem ser de interesse apenas de seu criador e de uma meia dúzia de amigos que, desta feita, buscam quebrar sua invisibilidade perante a sociedade, ainda que a um custo, no caso do picho, moral e legalmente discutível, lado da moeda esse que Olhar Instigado procura deixar virado para baixo.

FICHA TÉCNICA

Direção e Roteiro: Chico Gomes, Felipe Lion
Estreia: 09/03/2017
Duração: 70 min.

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