EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 11 de julho de 2017

Uma Família de Dois



Crossover de Clichês

Uma Família de Dois (França, 2017) não almeja em momento algum ser original e, assim, se apropria sem qualquer traço de vergonha, de elementos narrativos clichês vistos em obras como Três Solteirões e um Bebê (EUA, 1987) e À Procura da Felicidade (EUA, 2006). Para ser mais exato o longa-metragem configura uma espécie de cruzamento, com pitadas cômicas, de Kramer vs. Kramer (EUA, 1979) com o nacional Pequeno Segredo (2015), não fazendo, desta feita, o menor esforço para evitar a previsibilidade.
Em sua porção comédia o filme não funciona uma vez que banaliza a realidade dos personagens tornando-a insuportavelmente feliz e desprovida de problematizações tal qual um comercial de margarina – circunstância essa, aliás, assumida de maneira expressa pelo roteiro que em certa ocasião insere o protagonista, um dublê cinematográfico, em um diálogo sobre a dificuldade de manter um relacionamento amoroso enquanto pai solteiro, fala essa que logo se revela uma encenação para as câmeras feita em um momento de trabalho, ou seja, num ambiente tão fake quanto a pretensa alegria absoluta mostrada no cotidiano mantido entre aquele e a filha.
Já em sua faceta dramática Uma Família de Dois igualmente tropeça seja porque a transição feita entre o início de tal gênero e o fim da toada humorística não é trabalhada satisfatoriamente seja porque, como já dito, os artifícios da narrativa utilizados para tanto incomodam dada a similitude para com tantos outros novelões já filmados. Neste sentido, na tentativa de evitar que tal viés dramático resultasse insuportável a produção se vale de Omar Sy que, apesar de ótimo como de praxe, não é milagreiro a ponto de salvar um trabalho prejudicado desde sua concepção graças a um roteiro preguiçoso e piegas que ainda tenta já próximo ao término aplicar um plot twist cujo efeito é nulo porque amparado por mais uma ideia repetida.
A propósito, o título é um remake de Não Aceitamos Devoluções (México, 2013), informação essa, convenhamos, de pouca relevância já que a obra há de ser escrutinada de forma autônoma e não sob a sombra de eventuais qualidades ou defeitos daquela que oficialmente lhe inspirara.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Demain Tout Commence
Direção: Hugo Gélin
Roteiro: Eugenio Derbez, Hugo Gélin, Jean-André Yerles, Leticia López Margalli, Mathieu Oullion
Elenco: Alice David, Anabel Lopez, Anna Cottis, Antoine Bertrand, Antoine Gouy, Ashley Walters, Ben Homewood, Cécile Cassel, Clémence Poésy, Clémentine Célarié, David Lowe, Deepak Anand, Elaine Caulfield, Ginnie Watson, Gloria Colston, Guillaume Bouchède, Howard Crossley, Mona Walravens, Natacha Andrews, Noémie Kocher, Omar Sy, Raphael von Blumenthal, Raquel Cassidy
Produção: Philippe Rousselet, Stéphane Célérier
Fotografia: Nicolas Massart
Montador: Grégoire Sivan, Valentin Feron
Trilha Sonora: Rob Simonsen
Estreia: 06/07/2017 (Brasil)
Duração: 118 min.

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