EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 25 de junho de 2017

Vermelho Russo



Arte e Metalinguagem


Filmes que buscam borrar a fronteira entre ficção e realidade são sempre desafiadores para roteiristas e diretores já que um ponto fora da curva pode comprometer todo o projeto e seu resultado final dada a probabilidade de a obra se tornar confusa e, por conseguinte, insatisfatória. Responsável pela assinatura do script – em conjunto com a atriz protagonista Martha Nowill – e da direção de Vermelho Russo (Brasil / Portugal / Rússia, 2016) Charly Braun tira de letra tais tarefas numa obra de nuances autobiográficas, eis que baseada nos relatos de Nowill sobre os percalços e frustrações proporcionados pela arte enquanto profissão, contexto esse em que até o próprio cineasta se inclui na narrativa enquanto personagem.
Somente esse viés um tanto documental, um tanto metalinguístico já seria o bastante para tornar interessante o longa-metragem que, insatisfeito, vai ainda além (viva!) ao se debruçar sobre o método Stanislavski de atuação ensinado em plena Moscou, aqui lindamente filmada em sua geografia e arquitetura - neste sentido, o passeio da câmera pelas paisagens russas soa apaixonado tal como Woody Allen uma vez já fizera em Paris (vide Meia Noite em Paris¹) e tantas outras em Nova Iorque (vide o clássico Manhattan²). Some-se a isso a análise também apresentada sobre uma relação de amizade das personagens principais marcada por conflitos, incertezas e também muito carinho e o que se tem é um trabalho extremamente saboroso, daqueles que parecem cunhados por Noah Baumbach ou Alexander Payne. Já a presença de Martha Nowill, por seu turno, pode, sem exagero, ser compreendida como uma espécie de personificação nacional de uma Greta Gerwig ao modo Frances Ha³ (EUA/2013) ou até da Lena Dunham do seriado Girls em versão mais amadurecida, comparações essas que exemplificam o quão diversificadas as produções cinematográficas brasileiras tem se tornado. Felizmente.
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1.     Leia mais sobre Meia Noite em Paris em http://setimacritica.blogspot.com.br/search?q=Meia-Noite+em+Paris.
2.   Leia mais sobre Manhattan em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/04/wes-anderson-possui-uma-latente.html.
3.     Leia mais sobre France Ha em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/11/frances-ha.html.

Ficha Técnica

Direção: Charly Braun
Roteiro: Charly Braun, Martha Nowill
Elenco: Elena Babenko, Esteban Feune de Colombi, Maria Manoella, Martha Nowill, Michel Melamed, Mikhail Troynik, Soraia Chaves
Produção: Charly Braun, Eliane Ferreira
Fotografia: Alexandre Samori
Montagem: Caroline Leone, Charly Braun
Estreia: 27/04/2017 (Brasil)
Duração: 90 min.

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