EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 18 de junho de 2017

Elvis & Nixon



Mama take this badge for me


Considerando a estapafúrdia razão que levou Elvis Presley a, em 1970, buscar um encontro na Casa Branca com o presidente Richard Nixon pouco antes de sua renúncia, Elvis & Nixon (EUA, 2016) acerta em cheio no tom ao não se levar a sério e assumir-se enquanto comédia, ainda que de maneira sutil. Dentro deste contexto, a forma sucinta com que a trama se desenvolve denota a correta intenção de não ‘encher lingüiça’ em torno de um acontecimento efêmero, permitindo, assim, que o foco paire sobre aquilo que é estritamente necessário para o correto transcorrer da narrativa: compreender o estado de espírito e motivações de Elvis, mesmo que tal estratégia implique deixar um tanto de lado o presidente Nixon, magistralmente interpretado por Kevin Spacey - para o lamento do espectador a quem resta lidar com o desejo não satisfeito de ver o ator mais tempo em cena.
Seja como for, a estrutura narrativa construída em torno do cantor não há de ser contestada, eis que de fato é por ele e através dele que a história surge e se impulsiona, seja em virtude do viés depressivo que a fama e sua clausura lhe proporcionam, seja em decorrência de suas excentricidades – no que se incluem a adoração pelo caratê, a ambição tresloucada de se tornar um agente federal para de modo infiltrado delatar ‘comunistas’ e demais agressores da pátria americana, bem como a rebeldia demonstrada por meio da quebra de todos os protocolos de comportamento a ele impostos antes de adentrar no salão oval. Neste aspecto, dada a falta de semelhança física, é inevitável o estranhamento causado pela escalação de Michael Shannon para o papel do rockstar; contudo, é impossível ao mesmo tempo não se deliciar com sua atuação contida e não raro hilária. Eis o tipo de resultado que somente grandes atores alcançam.

Ficha Técnica

Direção: Liza Johnson
Roteiro: Cary Elwes, Hanala Sagal, Joey Sagal
Elenco: Michael Shannon,  Kevin Spacey, Evan Peters, Ashley Benson, Ahna O'Reilly, Alex Pettyfer, Colin Hanks, Hanala Sagal, Ian Hoch, Johnny Knoxville, Kamal Angelo Bolden,  Nathalie Love, Ritchie Montgomery, Sky Ferreira, Tate Donovan, Tracy Letts
Produção: Cassian Elwes, Holly Wiersma
Fotografia: Terry Stacey
Montador: Michael Taylor, Sabine Hoffmann
Trilha Sonora: Ed Shearmur
Estreia: 16/06/2016 (Brasil)
Duração: 86 min.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Capitão Fantástico



Erros e Acertos

É comovente a forma como Capitão Fantástico (EUA, 2016) durante seus dois primeiros atos demonstra comprometimento para com a verossimilhança dos sentimentos experimentados pelos personagens. Neste sentido, nuances vão sendo aos poucos descortinadas para mostrar que por mais interessante que possa parecer a proposta educacional ministrada por Ben Cash (Viggo Mortensen, ótimo como de costume) a seus filhos, a imposição de um modo de vida selvagem e contrário a sociedade de consumo capitalista possui lá sua falhas éticas que, por vezes, denotam certo abuso do pátrio poder.
Tal julgamento, vale dizer, decorre não de uma manipulação do olhar do espectador porventura empregada pelo diretor Matt Ross e sim das impressões, por vezes ambíguas, expostas por alguns personagens coadjuvantes – com especial destaque para o filho mais novo e a esposa falecida do protagonista. Ressalte-se, contudo, que o genitor da prole faz o que faz imbuído da melhor das intenções: tornar seus rebentos cidadãos de bem, saudáveis e detentores de pensamento crítico, objetivo, portanto, comum a qualquer pai. O problema, dentro deste contexto, é que entre o querer, o fazer e o conseguir existem certos vácuos equivocadamente preenchidos por condutas amparadas pela ideia de que os fins justificam os meios, daí frequentemente, em detrimento da liberdade de ir e vir e de pensamento dos filhos, o pai acabar por enclausurá-los numa redoma sufocante, esquecendo, assim, que amar também implica permitir que cada um siga suas próprias escolhas.
Essas complexas relações familiares, como outrora dito, são construídas com extremo cuidado para que nenhum personagem seja enquadrado na simplória divisão entre bom e mau.  Não a toa, nem as figuras mais agressivas, como, por exemplo, o sogro/avô interpretado por Frank Langella, podem ser vistos como vilões, eis que agem tomados pela emoção e na certeza de estarem fazendo não apenas o que é melhor para si como, sobretudo, para o resto da família. Os erros e acertos são, desta feita, comuns a todos, sendo, repita-se, cativante o carinho e respeito do filme pelos personagens que em meio a tropeços seguem tentando fazer o melhor.
Dito isso, é uma pena que, já em seu terço final, Capitão Fantástico se renda a uma toada fantasiosa que inclui o resgate de um cadáver, afastando-se, por conseguinte, da verdade das emoções a que tanto se dedicara até então. Tal ato compromete a perfeição que o longa-metragem ameaçava alcançar na medida em que banaliza uma obra a princípio tão interessada em entender a fundo seus personagens, bem como as virtudes e consequências de suas decisões. Lamentável corpo estranho...

Ficha Técnica

Título Original: Captain Fantastic
Direção e Roteiro: Matt Ross
Elenco: Viggo Mortensen, Ann Dowd, Annalise Basso, Charlie Shotwell, Elijah Stevenson, Erin Moriarty, Frank Langella, Galen Osier, George MacKay, Hannah Horton, Kathryn Hahn, Missi Pyle, Nicholas Hamilton, Rex Young, Samantha Isler, Shree Crooks, Steve Zahn, Teddy Van Ee, Trin Miller,
Produção: Jamie Patricof, Lynette Howell Taylor, Monica Levinson, Shivani Rawat
Fotografia: Stéphane Fontaine
Montador: Joseph Krings
Trilha Sonora: Alex Somers
Estreia: 22/12/2016 (Brasil)
Duração: 118 min.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Logan



Adeus e Boas-Vindas

Sem dúvida a melhor decisão tomada pelos produtores de Logan (EUA, 2017) foi abdicar de fazer deste um filme para a família e, ao invés disso, entregar um trabalho voltado ao público adulto, o que permite um nível de comprometimento com a trama e com os personagens infinitamente superior na medida em que concessões não precisaram ser feitas para evitar o choque dos mais novos. Assim, o que se vê é uma trama na qual a decadência e a violência ditam as regras em meio a diálogos impróprios, vulgares que bem espelham o estado de espírito de seus interlocutores – aspecto esse em que chama positivamente a atenção o palavreado chulo e mergulhado em raiva do Prof. Xavier aqui surpreendente e magnificamente interpretado por um Patrick Stewart no auge de sua maturidade artística.
Dentro deste contexto, a opção de não seguir a linha narrativa comum aos filmes de heróis deixa Logan livre para, por exemplo:
- abrir mão de um algoz específico em prol de uma vilania representada por toda uma sociedade decrépita e preconceituosa;
- apresentar uma jornada desesperançosa, marcada pelo definhamento de um personagem icônico, daí inexistir a pretensão de mostrar Wolverine como o colosso de outrora.
Nestes termos, o longa-metragem sabiamente se dispõe a acompanhar os últimos dias de vida de Logan, o que, há de se convir, já é por si só uma ideia bastante corajosa e, por isso, animadora. É claro que o interesse por continuar lucrando com a franquia X-Men permanece, contudo, a obra em comento indica que a indústria já se dá por satisfeita com tudo o que fora explorado em torno das figuras lideradas de um lado por Xavier e de outro por Magneto e, assim, trata de deles se despedir – com uma dignidade ímpar na medida em que não são aqueles tratados como meros produtos de entretenimento e sim como seres deveras complexos e fustigados pelas chagas do tempo – além de plantar a semente para o amanhã ao apresentar os novatos que representarão a próxima geração dos mutantes nos cinemas, aspecto esse em que salta aos olhos a arrebatadora presença de Dafne Keen num papel infantil que supera em virulência aquilo que um dia fora visto por meio da Hit-Girl em Kick-Ass – Quebrando Tudo (EUA, 2010), haja vista que para sua Laura/X-23 não sobra espaço para alívio cômico, sendo seu percurso, desta feita, caracterizado somente por dor e instinto de sobrevivência, essências essas que se coadunam com os derradeiros passos do próprio Logan que aqui recebe a interpretação definitiva de Hugh Jackman² tamanhas as notas de sofrimento físico e psicológico concedidas pelo ator ao personagem. Ao lado da revelação Keen e de um memorável Patrick Stewart, Jackman forma uma linha de frente de elenco em estado de graças conduzida com inconteste eficiência por James Mangold, um diretor envolvido com o material que tem em mãos como há tempos não se via.
Logan possui um único senão, qual seja o excesso de semelhanças entre a história de X-23 para com a de Eleven do seriado Stranger Things, similitude que por vezes incomoda mas que não chega a comprometer de maneira grave o resultado da obra e muito menos do trabalho da respectiva atriz que, por certo, poderá em outras ocasiões retomar o papel e ter a oportunidade de trilhar caminhos que tornem as personagens menos parecidas. O futuro parece promissor.
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1.  Leia mais sobre Kick-Ass em http://setimacritica.blogspot.com.br/search?q=Kick+Ass.
2. Ator que, aliás, já havia provado seu talento seja nas oportunidades anteriores em que interpretou o mutante, seja na elogiada participação em Os Miseráveis (EUA, 2012).

Ficha Técnica

Direção: James Mangold
Roteiro: David James Kelly
Elenco: Hugh Jackman, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Dave Davis, Doris Morgado, Elise Neal, Elizabeth Rodriguez, Eriq La Salle, Jaden Francis, Juan Gaspard, Julia Holt, Lauren Gros, Patrick Stewart, Richard E. Grant, Sienna Novikov, Stephen Merchant
Produção: Hutch Parker, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg
Fotografia: John Mathieson
Montagem: Dirk Westervelt, Michael McCusker
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Estreia: 02/03/2017 (Brasil)
Duração: 135 min.