EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 25 de maio de 2017

Corra!



Não Fosse a Conclusão...

Sim, Corra! (EUA, 2017) é um filme interessante, divertido e mordaz. Não, Corra!, ao contrário do que muitos defendem, não chega a ser o melhor título do ano nem o primor cinematográfico que o hype prega.
Neste sentido, a enorme expectativa gerada pela enxurrada de odes a produção acaba um tanto frustrada quando já próximo ao fim o longa-metragem abandona a toada de suspense que correta e eficientemente ditava o ritmo da narrativa para, então, mergulhar no terror em sua faceta gore e, desse modo, entregar uma solução um tanto simplista e aquém das problemáticas instigantes em torno do racismo propostas durante os dois primeiros atos da obra.

Assim, quanto mais a produção se afasta do tom de paródia a Adivinhe Quem Vem Para Jantar? (EUA, 1967), mais se aproxima de Frankenstein em sua essência conceitual aqui fundida, como já dito, a elementos do cinema gore, caminho esse que acaba pondo quase que tudo a perder, tamanha é a banalização do conflito. Dito isso, faz-se mister enfatizar que, apesar de sua insatisfatória conclusão, o trabalho dispõe de duas primeiras partes muitíssimo bem filmadas – sobretudo no que atine a discussão racial e construção do suspense – e interpretadas, com destaque para as atuações precisas do casal de protagonistas Daniel Kaluuya e Allison Williams, hábeis em projetar todas as nuances de seus respectivos personagens.  
Essa coleção de pontos positivos, repita-se, acaba prejudicada pela supracitada conclusão simplória que impede Corra! de alcançar notas maiores, o que, em última instância, denota que o considerável número de comentários entusiasmados a seu favor parece ser fruto de uma carência do público por trabalhos minimamente criativos e inteligentes. Ante a sede qualquer copo d’água é festejado como um açude.

Ficha Técnica

Título Original: Get Out
Direção, Roteiro: Jordan Peele
Fotografia: Toby Oliver
Produção: Edward H. Hamm Jr., Jason Blum, Jordan Peele, Sean McKittrick
Elenco: Allison Williams, Ashley LeConte Campbell, Betty Gabriel, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, Caren L. Larkey, Catherine Keener, Daniel Kaluuya, Erika Alexander, Geraldine Singer, Ian Casselberry, Jeronimo Spinx, John Wilmot, Julie Ann Doan, Lakeith Stanfield, LilRel Howery, Marcus Henderson, Richard Herd, Rutherford Cravens, Stephen Root, Yasuhiko Oyama
Montagem: Gregory Plotkin
Trilha Sonora: Michael Abels
Estreia no Brasil: 18/05/2017
Duração: 104 min.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Elon Não Acredita na Morte


Aquém das Referências

Visivelmente inspirado por Filho de Saul (Hungria, 2015), o nacional Elon Não Acredita na Morte (Brasil, 2016), tal qual o oscarizado filme, narra a trajetória de busca obstinada de um homem por um ente querido, utilizando para tanto uma câmera posicionada quase sempre às costas do personagem, na altura de sua nuca. Contudo, as semelhanças param por aí, na medida em que se o somatório dessa narrativa com tal fotografia já ameaça tornar cansativo aos olhos do público o celebrado trabalho húngaro - risco esse amenizado pelas chocantes sequências de horror de guerra inseridas no decorrer da jornada que agregam relevância a trama e, consequentemente, ao longa-metragem -, a produção brasileira, por seu turno, não galga resultado parecido, tendo em vista o enorme vazio que marca o desenrolar da caminhada do personagem principal à procura de sua mulher, o que torna o desenvolvimento do enredo arrastado e a experiência de assisti-lo um suplício. Tal falta do que dizer e mostrar deixam a impressão de que o roteiro seria melhor aproveitado caso ajustado ao formato de um curta-metragem, não sendo, desta feita, as referências fílmicas do projeto¹ suficientes para salvá-lo.
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1.     Neste sentido, cabe ainda citar os ecos de Gaspar Noé e seu Irreversível (França, 2002) percebidos, sobretudo, na sequência em que o protagonista adentra num prostíbulo, dados os enquadramentos sufocantes com predomínio de paleta de cores rubro-negra

FICHA TÉCNICA


Direção: Ricardo Alves Jr.

Produção: Ricardo Alves Jr., Thiago Macêdo Correia

Roteiro: Ricardo Alves Jr., Germano Melo, Diego Hoefel, João Salaviza

Elenco: Rômulo Braga, Clara Choveaux, Lourenço Mutarelli, Grace Passô, Germano Melo

Fotografia: Matheus Rocha

Estreia Brasil: 27/04/2017

Duração: 76 min.

domingo, 30 de abril de 2017

Nerve – Um Jogo Sem Regras



Quando Problematizar Não Convém

Em tempos de Baleia Azul¹ é lastimável constatar o quanto Nerve – Um Jogo Sem Regras (EUA, 2016) faz questão de ser tolo e não se debruçar sobre a problemática que apenas lhe serve de pano de fundo, qual seja o excesso de exposição de jovens no ambiente virtual, a forma inconsequente com que buscam dar tempero as suas vidas e o desespero que marca as tentativas de preencher o vazio existencial que não raro caracteriza a adolescência e início da fase adulta.

Neste passo, ao invés de fomentar um pensamento autocrítico no público alvo, a produção se limita a cumprir a tarefa de entreter, valendo-se para tanto de: um par romântico, sequências de aventura e suspense e um final feliz. Dito isso, é uma pena que os perfis psicológicos dos personagens, sobretudo os participantes do jogo, sejam tratados com tanta superficialidade, o que, é óbvio, visa não problematizar demais o enredo para, assim, não perder plateia – como se para existir o entretenimento precisasse abdicar da densidade, teoria, há de se convir, equivocada e implodida por filmes como Logan e Batman – O Cavaleiro das Trevas.
Dentro deste contexto, chama a atenção como as cenas que envolvem o risco de morte a que se sujeitam os participantes do jogo são quase todas desenvolvidas às pressas, ao passo que missões pueris como experimentar um vestido em uma loja de luxo são tratadas em ritmo menos frenético resultando, desta feita, em passagens mais interessantes e bem construídas, estratégia que denota a intenção final de divertir sem incomodar os jovens nem apavorar os pais. Por isso, correta a avaliação de Edu Fernandes sobre Nerve, a saber:
“Muito se fala sobre os malefícios das redes sociais e da exposição virtual de nossas intimidades. Esse filme de apelo juvenil usa a fórmula de um thriller de ação para convidar a uma reflexão sobre o tema [...]. A receita funciona e entretém, só resta saber qual parcela do público absorverá o subtexto”.
Ao contrário do que irresponsavelmente o longa-metragem pode levar a pensar, o Nerve da vida real não torna ninguém mais popular nem interessante, não proporciona inícios de namoros nem concede premiações em dinheiro aos participantes. O Nerve da vida real serve tão somente como método de fuga, como um grito abafado de socorro de pessoas com problemas de socialização e/ou familiares, realidade preocupante e melancólica que o Nerve cinematográfico sequer tenta entender.
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1.Leia mais sobre o jogo da Baleia Azul em http://veja.abril.com.br/brasil/garota-morta-em-represa-poe-jogo-do-suicidio-na-mira-da-policia/. Acesso em 30.04.17.
2. Revista Preview. Ano 7. ed. 83. São Paulo: Sampa, Agosto de 2016. p.53.

Ficha Técnica

Título Original: Nerve
Direção: Ariel Schulman, Henry Joost
Roteiro: Jessica Sharzer
Elenco: Juliette Lewis, Arielle Vandenberg, Brian 'Sene' Marc, Danielle DeWulf, Dave Franco, Dillon Mathews, Ed Squires, Emily Meade, Emma Roberts, Jonny Beauchamp, Kelsey Lynn Stokes, Kimiko Glenn, Machine Gun Kelly, Marc John Jefferies, Marko Caka, Miles Heizer, Rosemary Howard, Samira Wiley, Toshiko Onizawa
Produção: Allison Shearmur, Anthony Katagas
Fotografia: Michael Simmonds
Montagem: Jeff McEvoy, Madeleine Gavin
Trilha Sonora: Rob Simonsen
Estreia: 25/08/2016 (Brasil)
Duração: 96 min.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Manchester à Beira Mar



Sem Volta Por Cima

É interessante como a campanha promocional de Manchester à Beira Mar (EUA, 2016) leva a crer que o principal assunto do filme é a relação entre um tio e seu sobrinho e a forma reticente com que o primeiro encara a ideia de ter de mudar de cidade para exercer o papel de tutor do menor. Neste diapasão, embora tal mote tenha sua devida dose de importância para a trama, o que realmente importa no longa-metragem é o que está por trás do comportamento solitário e antissocial do protagonista e, sobretudo, o que o impede de voltar em definitivo para sua cidade natal.
Com efeito, tal revelação é feita sem pressa nem espetacularização, através de idas e vindas no tempo – no que se destaca o eficiente trabalho de montagem. A sutileza, desta feita, impera em respeito a dor dos personagens, quando não em atenção a suas próprias personalidades e fases de vida, daí restar compreensível, por exemplo, o egoísmo do jovem sobrinho, bem como a forma alienada com que lida com o luto, afinal, sua juventude lhe propicia uma espécie de redoma na qual os problemas são bem diversos e menores que os do universo adulto, campo esse preenchido com a introversão de Lee Chandler (Casey Affleck) que carrega nos ombros a responsabilidade por um drama familiar e a certeza de que jamais irá superar isso, daí não haver para ele – ao contrário da interpretação de alguns – qualquer renascimento ou segunda chance.

Dito isso, o modo taciturno, lacônico e introvertido do personagem principal se adéqua de maneira exata ao estilo de interpretação aparentemente inexpressivo de Casey Affleck, cujo modus operandi preza por um minimalismo passível de fracasso sem um roteiro a contento. Felizmente esse não é o caso de Manchester à Beira Mar que registra não um trabalho arrebatador do ator, mas sim a ocasião em que sua maneira de atuar melhor se encaixa a um papel¹. Dentro deste contexto, para seu personagem inexistem momentos de catarse ou de desespero à flor da pele - exceto por algumas brigas de bar e por uma cena passada no interior de uma delegacia que o diretor Kenneth Lonergan, aliás, logo interrompe para evitar uma exposição exagerada da dor do personagem -; por conseguinte, o que sobra para Lee Chandler é o vazio existencial, às vezes interrompido por breves lampejos de relaxamento que no máximo lhe ensejam um sorriso de canto de boca – como visto na sequência em que o sobrinho conduz uma embarcação – mas que jamais significarão felicidade plena, afinal o buraco em sua alma é fundo demais, sendo, assim, o trauma e o arrependimento impasses que nele estarão sempre entranhados².
Dada a trajetória de seu protagonista que, marcado profundamente por uma tragédia, segue vagando sem motivo para continuar respirando e sem qualquer perspectiva de dar a volta por cima, Manchester à Beira Mar naturalmente termina de maneira um tanto amarga, resultado que não poderia ser diverso, uma vez que a vida não é um conto de fadas ou, como cantava o poeta, “a vida realmente é diferente, [...] a vida é muito pior”³.
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1. Oportunidade e reconhecimento que, por exemplo, sua equivalente feminina, Kristen Stewart, também vai aos poucos angariando.
2.  Realidade, vale frisar, compreendida, após certa demora, pelo sobrinho do protagonista em cena de notável inteligência, na medida em que comunica tudo aquilo que pretende sem qualquer diálogo.
3.  BELCHIOR, Apenas um Rapaz Latino-Americano.

Ficha Técnica

Título Original: Manchester By The Sea
Direção e Roteiro: Kenneth Lonergan
Fotografia: Jody Lee Lipes
Produção: Chris Moore, Kevin J. Walsh, Kimberly Steward, Lauren Beck, Matt Damon
Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Lucas Hedges, Amanda Blattner, Anna Baryshnikov, Ben O'Brien, C.J. Wilson, Gretchen Mol, Heather Burns, John J. Burke, Josh Hamilton, Kyle Chandler, Liam McNeill, Mark Burzenski, Mary Mallen, Matthew Broderick, Quincy Tyler Bernstine, Tate Donovan, Tom Kemp, William Bornkessel
Montagem: Jennifer Lame
Trilha Sonora: Lesley Barber
Estreia no Brasil: 19.01.2017
Duração: 135 min.