EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Melhores de 2016

Traumático em muitos aspectos, 2016 foi, por outro lado, um ano a ser comemorado pelo cinéfilo residente em Belém. Repleto de ótimos títulos, o período contou com a projeção de obras de posicionamentos políticos contundentes, daí perceber-se a recorrência de assuntos como a intolerância religiosa e racial, a opressão de direitos fundamentais como a vida, a supressão da liberdade de ir e vir, de expressão e a violência contra a mulher. Dito isso, segue a lista das melhores produções exibidas na capital paraense ao longo desses doze meses:

1.   Aquarius
Envolto em polêmicas, Aquarius se mostra superior a essas na medida em que enquanto clássico instântaneo deixa cravado seu lugar de destaque na história do cinema nacional graças, entre outras coisas, a um roteiro inspiradíssimo e a direção virtuosa de  Kleber Mendonça Filho.

2.   O Quarto de Jack
Tocante, O Quarto de Jack emociona, provoca nó na garganta e, o que é melhor, sem jamais soar como um dramalhão ainda que grandes os riscos de assim se comportar.

3.   O Clube
Pablo Larraín mais uma vez demonstra notável capacidade de tornar envolvente assuntos aparentemente áridos para o âmbito do cinema de ficção.Voltando o olhar para o cotidiano de padres vivendo em isolamento numa casa de penitência, o diretor cria imagens chocantes além de diálogos estarrecedores numa abordagem dura, honesta e, portanto, realista dos fatos.   

4.   O Abraço da Serpente
Tal qual um documentário antropológico, O Abraço da Serpente aborda a causa indígena e as consequências nefastas da colonização sobre um povo que, além de ter sua cultura irremediavelmente agredida por missionários, ainda enfrentou um histórico de privações, submissão e extermínio.

5.   Agnus Dei
A ferrenha crítica aos dogmas da igreja católica realizada em Agnus Dei fomenta reflexões quanto aos direitos da mulher sobre o próprio corpo e das crianças quanto a vida, o que coloca a obra no panteão das produções que melhor exploraram as agruras enfrentadas por aquelas que decidem ou são levadas a vestir o hábito. Leia a crítica em: http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/12/agnus-dei.html

6.   Cinco Graças
Em 5 Graças a violência contra a mulher é fruto de uma chancela concedida pelo Estado com esteio em uma cultura religiosa misógina que recebe apoio inclusive do próprio gênero vilipendiado. Esse contexto da guarida estatal sobre atos de desrespeito a vontade e a liberdade individual feminina é o responsável por tornar a trama revoltante e a mensagem feminista impactante.

7.   O Regresso
O Regresso reúne o melhor de dois mundos presentes na filmografia de Alejandro González Iñárritu, uma vez que alia com perfeição o seu fascínio pela desgraça ao dinamismo da linguagem clássica do cinema norte-americano. Leia a crítica em: http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/04/o-regresso.html

8.   Os Cowboys
A história de uma garota desaparecida e da busca efetuada pelo respectivo pai ganha nuances bastante diferentes das vistas em títulos com temática parecida na medida em que a tensão em Os Cowboys é desenvolvida em meio ao caldeirão étnico-cultural que é a França atual.

9.   O Julgamento de Viviane Amsalem
A partir de recursos mínimos O Julgamento de Viviane Amsalem se impõe como um poderoso libelo feminista em defesa de mulheres ignoradas em suas vontades, sendo assim um colosso na luta contra a misoginia e a opressão masculina silenciosa ou estridente.

10.  Os 8 Odiados
Quentin Tarantino reinsere em seu cinema uma linguagem teatral (algo que não ocorria desde suas estreia em Cães de Aluguel) e aproveita tal toada para esbravejar contra a segregação racial da maneira politicamente incorreta que lhe é costumeira.

11. Boa Noite, Mamãe
12. Boi Neon
13. A Chegada
15. Capitão América – Guerra Civil
17. A Comunidade
20. A Juventude
23. Meu Nome é Ingrid Bergman
24. O Contador
25.  O Filho de Saul

Melhor Direção: Kleber Mendonça Filho (Aquarius)

Melhor Ator: Leonardo DiCaprio (O Regresso)

Melhor Ator Coadjuvante: John Turturro (Mia Madre)

Melhor Atriz: Lou de Laâge (Agnus Dei)

Melhor Atriz Coadjuvante: Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)

Melhores Efeitos Especiais: Doutor Estranho

Melhor Fotografia: Emmanuel Lubezki (O Regresso)

Melhor Roteiro Adaptado: O Quarto de Jack

Melhor Roteiro Original: Aquarius

Melhor Montagem: A Chegada/O Abraço da Serpente

Melhor Direção de Arte: A Chegada/O Conto dos Contos

Melhor Figurino: O Conto dos Contos

Melhor Trilha Sonora: Os 8 Odiados

Melhor Documentário: Francofonia – Louvre Sob Ocupação

Melhor Animação: Anomalisa

Melhor Curta-metragem: Piper

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Demônio de Neon



Forma que Aprimora o Conteúdo

Durante considerável parte dos créditos iniciais de Demônio de Neon (EUA/Dinamarca/França, 2016), Nicolas Winding Refn mantém suas iniciais junto aos demais nomes apresentados. A partir de tal prática, comumente adotada por cineastas de renome do cinema mudo¹, o diretor afirma com todas as letras que o filme em início é um trabalho de autor, tal qual definido, por exemplo, pelos realizadores da Nouvelle Vague. Dito isso, resta averiguar se o longa-metragem é de fato um exercício cinematográfico peculiar no qual se mostra latente a assinatura de seu criador ou se, ao contrário, a apresentação das inicias de Refn não passa de um ato presunçoso e ególatra.

Inicialmente cabe dizer que a trama sobre uma jovem aspirante a modelo vitimada pelo incômodo que sua beleza causa naqueles que a rodeiam já fora narrada em outras ocasiões seja com radicalismo, como em Viridiana (Espanha, 1961)², seja numa toada poética tal como visto em Beleza Roubada (Reino Unido/França/Itália, 1996), daí que se no conteúdo Refn não inventa a roda, cabe, então, checar se é na forma que o artista impõe seu estilo próprio. Neste passo, a conclusão é agradavelmente positiva na medida em que Demônio de Neon revela uma construção visual e sonora ímpar. Dentro deste contexto, o design de produção clean contrasta com as personalidades imundas das figuras que cercam a protagonista, seres esses não raro inseridos em sequências enigmáticas provavelmente inspiradas por David Lynch. Tais recursos formais, instigantes aos olhos e cérebro, dissipam a obviedade que ameaça pairar sobre a trajetória da personagem principal e transformam seu drama em uma verdadeira história de terror, leia-se filme de gênero. Assim, todas as provocações, sobretudo visuais, feitas por Refn – no que se inclui a polêmica cena de necrofilia – ganham razão de ser uma vez que corretamente buscam causar incômodo e choque, algo que os filmes de horror, em sua grande maioria conformados em pregar sustos baratos, há muito deixaram de fazer, motivo pelo qual é exacerbada a repulsa daqueles que tal como Mariane Morisawa afirmam que “o filme é uma coleção de imagens de certo impacto que perde a força justamente por querer apenas chocar”³.
 Embora dotado de inegáveis méritos, Demônio de Neon ainda não é o filme de autor perseguido por NWR, dado, como já dito, a carência de ineditismo do enredo, característica essa que pode ser estendida até mesmo a Drive (EUA, 2011), seu trabalho de maior sucesso, face as muitas similitudes deste para com Taxi Driver (EUA, 1976). Seja como for, enquanto segue na busca pelo almejado trabalho d’auteur, o dinamarquês tem presenteado a todos com obras provocativas, destemidas e de notáveis qualidades artísticas que denotam que, pretensioso ou não, o cineasta não deita na cama de seu próprio talento, o que deixa a ótima perspectiva de que outras coisas muito boas ainda serão por ele entregues. Aguardemos.
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1.     Um exemplo, nessa toada, pode ser visto em Intolerância de D. W. Griffith (EUA, 1916).
2.     Leia mais sobre Viridiana em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/10/viridiana-religiosa.html.
3.     Revista Preview. Ano 8. ed. 84. São Paulo: Sampa, Setembro de 2016. p.51.
4.     Leia mais sobre Drive e Taxi Driver em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/drivetaxi-driver.html

Ficha Técnica

Título Original: The Neon Demon
Direção: Nicolas Winding Refn    
Roteiro: Mary Laws , Nicolas Winding Refn    
Produção: Lene Børglum, Nicolas Winding Refn, Sidonie Dumas, Vincent Maraval
Elenco: Jena Malone, Keanu Reeves, Abbey Lee, Alessandro Nivola, Bella Heathcote, Cameron Brinkman, Charles Baker, Christina Hendricks, Desmond Harrington, Elle Fanning, Helen Wilson, Houda Shretah, Jamie Clayton, Jason Schneidman, Karl Glusman, Rachel Dik, Rebecca Dayan, Stacey Danger, Taylor Marie Hill, Vanessa Martinez
Fotografia: Natasha Braier
Montagem: Matthew Newman
Trilha Sonora: Cliff Martinez
Estreia: 29/09/2016 (Brasil)
Duração: 118 min.