EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 29 de novembro de 2016

Brincando nos Campos do Senhor / O Abraço da Serpente



Formas de Olhar

No campo da antropologia a alteridade implica no estudo das diferenças do outro, o que inclui a análise de culturas e etnias diversas. O documentário moderno brasileiro, por exemplo,  se firmou, principalmente nos anos 1960, em torno dessa relação de alteridade, na medida em que cineastas voltaram seus olhares para outros indivíduos pertencentes a diferentes e, não raro, marginalizadas classes sociais. Neste passo, o documentarista realizava seu diagnóstico e de quebra ainda apresentava as possíveis soluções para os problemas mostrados, sem que o ser analisado  tivesse sua voz posta em primeiro plano. Tal realidade começara a ser amenizada a partir dos anos 1970 graças a “curtas documentais que buscaram promover o sujeito da experiência à posição de sujeito do discurso, tentativas e propostas para que o ‘outro de classe’ se afirmasse sujeito da produção de sentidos sobre sua própria experiência”¹. Isto posto, a relação de alteridade passou a ser implementada de dois possíveis modos, quais sejam um no qual o ser estudado não passa de um personagem sem poder de voz, sendo apresentado e interpretado pela figura extracampo do diretor, e um segundo modo marcado pelo estudo do outro a partir de relatos feitos por ele próprio que, assim, toma as rédeas do discurso, cabendo ao diretor nessa hipótese reger a fala, para que, com o mínimo de intervenção, não deixe ela de fazer sentido.
Por analogia, tal dualidade no direcionamento do olhar, tão cara ao gênero documentário, pode ser percebida no cinema de ficção em Brincando nos Campos do Senhor (EUA/Brasil, 1991) e O Abraço da Serpente (Colômbia, 2015) filmes esses que abordam a causa indígena e as consequências nefastas da colonização sobre uma cultura agredida de forma inescrupulosa por missionários que impunham sobre os índios os ditames do cristianismo/protestantismo.
Dentro deste contexto, Brincando nos Campos do Senhor entrega o olhar de Hector Babenco, um argentino naturalizado brasileiro, sobre a problemática indígena na Amazônia seja quanto a perda de seu próprio território seja quanto a uma segunda etapa do processo de aculturação a eles então imposto por missionários protestantes que ocuparam o espaço e o público deixado pelos católicos, o que resulta num novo exercício de condicionamento dessa vez voltado ao abandono dos costumes cristãos em benefício da educação protestante.
Embora bastante interessante, tal temática esbarra na relação de alteridade adotada por Babenco que, baseado no romance Peter Matthiessen lançado em 1965, assume o papel do intelectual que, com esteio em seu olhar estrangeiro, se considera apto a identificar em pormenores os males enfrentados pela comunidade indígena. Fadado ao insucesso, o pretensioso filme passa a todo instante a sensação de que o olhar de Babenco carece de ‘conhecimento de causa’ sendo,pelo visto, as conclusões tecidas frutos de um saber meramente bibliográfico e, portanto, carente de credibilidade. Não fosse o bastante, o longa-metragem resta vitimado por sua excessiva duração, por sérios problemas estruturais do roteiro, atabalhoado em certas sequências e reducionista em outras², e por um elenco extremamente mal conduzido e prejudicado pela questão da falta de representatividade seja pela escalação do hollywoodiano Tom Berenger para encarnar o protagonista índio, seja pela imposição sobre demais personagens e elenco brasileiro do inglês como idioma.
De maneira inversa, O Abraço da Serpente, dirigido pelo colombiano Ciro Guerra, se aproxima do documentário etnográfico, garantindo aos indígenas, ainda que enquanto personagens de uma obra de ficção, a titularidade do discurso. Nesse caso a nacionalidade de Guerra lhe permite compreender e tratar com maior intensidade e fidelidade o histórico de privações, submissão e extermínio vivido pelo povo indígena de seu país, não pairando no ar aquela incômoda sensação de ser o questionável olhar de um forasteiro o condutor da trama, tal como ocorrido na produção de Babenco.
Valendo-se da trajetória de dois antropólogos que em décadas diversas da primeira metade do século XX percorreram a floresta amazônica, a narrativa se bifurca em dois tempos distintos mas habilmente fundidos pela edição para mostrar o choque civilizatório surgido entre europeus e indígenas a partir do processo de colonização e os resultados desastrosos produzidos por essa relação a longo prazo. Sem jamais deixar de lado o viés antropológico, O Abraço da Serpente vence o risco que enfrentava de se tornar um produto cinematográfico tedioso, e se impõe como uma realização que consegue ao mesmo tempo ser bela, dada a hipnotizante fotografia em preto e branco, e crua, aspecto esse em que ecos de Apocalipse Now (EUA, 1979) são detectados quando mostrado a que ponto a floresta consegue despertar loucura e perversão no homem branco. Tamanha complexidade da proposta é desenvolvida na tela com pleno sucesso, graças a um roteiro não menos que excelente e a uma direção que, sempre inspirada pela toada documental, evita estereótipos, daí, com acerto, Francisco Russo concluir que “o longa-metragem logo se torna um imenso estudo antropológico, como poucas vezes o cinema já produziu”³.
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1. LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 23.
2.  Vide a forma diferente com que são abordadas as figuras do padre e do pastor.
3.  Disponível em http://www.adorocinema.com/filmes/filme-236295/criticas-adorocinema/. Acesso em 27.11.16.

Ficha Técnica - Brincando nos Campos do Senhor

Título Original:At Play in The Fields of The Lord
Direção: Hector Babenco
Roteiro: Hector Babenco, Jean-Claude Carrière, baseado no livro de Peter Matthiessen
Elenco: Kthy Bates, Aidan Quinn, Daryl Hannah, John Lithgow, José Dumont, Nelson Xavier, Stênio Garcia, Tom Berenger, Tom Waits
Produção: Saul Zaentz
Fotografia: Lauro Escorel
Trilha Sonora: Robert Randles, Zbigniew Preisner
Duração: 189 min.

Ficha Técnica - O Abraço da Serpente

Título Original:El Abrazo de la Serpiente
Direção: Ciro Guerra
Roteiro: Ciro Guerra, Jacques Toulemonde Vidal, Richard Evans Schultes, Theodor Koch-Grunberg
Elenco: Antonio Bolivar, Brionne Davis, Jacques Toulemonde Vidal, Jan Bijvoet, Luigi Sciamanna, Nicolás Cancino, Nilbio Torres, Yauenkü Migue
Produção: Cristina Gallego
Fotografia: David Gallego
Montador: Etienne Boussac
Trilha Sonora: Nascuy Linares
Estreia: 18/02/2016 (Brasil)
Duração: 125 min.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Monstro de Mil Cabeças



Mínimo Necessário

Impressiona como o diretor Rodrigo Plá utiliza apenas o mínimo necessário para tornar tão impactante a história de O Monstro de Mil Cabeças (México, 2015). Não que o enredo prime pelo ineditismo já que drama parecido fora mostrado em Um Ato de Coragem (EUA, 2002); destarte, o que torna o longa-metragem mexicano interessante é o método preciso e sucinto com o qual Plá mantém o espectador colado a cadeira enquanto a via-crúcis da protagonista se desenvolve na tela, senão vejamos:
- o cotidiano de dor do marido da personagem principal que preso a uma cama enfrenta uma doença que a passos largos o aproxima da morte é visto em breves segundos sem que seu calvário seja valorizado em demasia; assim, para Rodrigo Plá basta uma rápida menção de que o homem está enfermo para em seguida concentrar o foco no reflexo que tal realidade causa sobre sua família e em especial sobre a esposa que não tolera ficar estática, resignada perante as rejeições do plano de saúde ao pedido de custeio do tratamento necessário ao paciente;
- tal dinâmica é registrada com uso esparso de diálogos, sem narrações em voz over e sem desnecessárias cenas de eventuais atos preparatórios da mulher para concretização do plano por ela arquitetado para ‘convencer’ burocratas a autorizar o tratamento médico de seu consorte;
- trocando em miúdos, o público é arremessado sem muita preparação na trajetória de violência implementada pela protagonista contra aqueles que se recusaram a atender seu marido, daí, soar tão surpreendente e inebriada em raiva e desespero cada ocasião em que a mulher saca sua arma e prova sua disposição de fazer o que for preciso para alcançar seu objetivo;
- nesta toada, um exemplo do econômico modus operandi de Plá é encontrado na sequência em que Sonia Bonet (Jana Raluy)  vai até a casa do primeiro médico por ela abordado: de costas para a tela este avisa que não irá lhe atender por ter um compromisso importante dentro de pouco tempo, porém, não tarda a surgir em um canto do quadro um pequeno pedaço do braço de uma raquete de tênis na bolsa carregada pelo homem; dessa maneira, revelando apenas alguns centímetros de um objeto, Plá entrega o caráter daquele profissional e o quão insignificante para ele é o problema apresentado pela protagonista;
- no que tange as cenas de violência física, pontuais, cabe dizer que as mesmas acontecem na maior parte das vezes no espaço extracampo, sendo os sons, sombras e gestos parcialmente mostrados os responsáveis por agregar a carga de brutalidade exigida em tais momentos;
- por último, em meio a tudo o que fora relatado, permeiam ainda trechos de áudios captados durante o julgamento da personagem, evento que, em contrapartida, é mostrado somente durante os créditos finais mediante a utilização de imagens de circuito interno de câmeras de segurança; desse modo genial Rodrigo Plá faz de O Monstro de Mil Cabeças também um filme de tribunal muito sugerindo e quase nada mostrando, o que torna justificável e deveras acertada a opção pelo final semiaberto.
Vale acrescentar que o curioso design de produção a todo instante insere móveis e objetos frente aos personagens, o que somado a uma fotografia de tomadas não raro feitas entre vidraças e brechas traz a tona o signo das barreiras e obstáculos que separam os personagens, tal como visto, por exemplo, em Carol¹ e Santiago² (Brasil, 2007). Graças a tais metáforas, a um elenco impecável e a eleição de imagens e sons, como já dito, minimamente necessários à sustentação do suspense e dos sentimentos abordados é que O Monstro de Mil Cabeças se faz tão eficiente e, portanto, digno de toda atenção a ele conferida.
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1.     Leia mais sobre Carol em http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/02/carol.html.
2.   Leia mais sobre Santiago em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/cabra-marcado-para-morrersantiago.html.

Ficha Técnica


Título Original: Un monstruo de mil cabezas

Direção: Rodrigo Plá

Roteiro: Laura Santullo

Elenco: Alejandra Cárdenas, Daniel Giménez Cacho, Emilio Echevarría, Francisco Barreiro, Harold Torres, Hugo Albores, Ivan Cortes, Jana Raluy, Marco Antonio Aguirre, Marisol Centeno, Noé Hernández, Sebastián Aguirre, Úrsula Pruneda, Veronica Falcón

Produção: Rodrigo Plá, Sandino Saravia Vinay

Fotografia: Odei Zabaleta

Montagem: Miguel Schverdfinger

Trilha Sonora: Jacobo Lieberman, Leonardo Heiblum

Estreia no Brasil: 04/08/2016

Duração: 74 min.