EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 25 de setembro de 2016

Meu Amigo Hindu



Último Adeus

É curioso como a filmografia de Hector Babenco é marcada por produções ou supervalorizadas – como O Beijo da Mulher Aranha (1985) – ou subestimadas como é o caso de Meu Amigo Hindu (Brasil, 2015). No que tange esse último muito se disse que Babenco não conseguira se manter minimamente distante do envolvimento emocional que possui com a história que narra sua trajetória pessoal de luta contra o câncer. Ocorre que, ao contrário do que defendem tais detratores da obra, Babenco enfrenta o risco de ser autocondescendente e sai dele vitorioso na medida em que seus problemas de saúde e pessoais jamais são manuseados no intuito de deixar o espectador penalizado. Neste sentido, o cineasta faz questão de mostrar o filho e o marido falho que fora o que faz deste um trabalho extremamente corajoso e sincero, qualidade que acaba por suplantar alguns deslizes percebidos - principalmente quanto a condução do elenco que além de apresentar performances deveras inferiores a de Willem Dafoe ainda patina nos diálogos em inglês marcados por pronúncias e sotaques carregados que não raro prejudicam a imersão do público.

A bem da verdade a relação do diretor com a história narrada acarreta um único defeito para o longa-metragem, qual seja a dificuldade do mesmo em aparar pontas que pouco acrescentam ao produto final – tal como visto no breve contato dele com o menino hindu do título. Se de um lado essas gorduras a queimar e as atuações criticáveis de determinados membros do casting incomodam, a honestidade alhures mencionada com que Babenco se expõe é comovente, assim como também é seu amor e respeito incondicional a sétima arte, aspecto esse em que saltam aos olhos as homenagens a O Sétimo Selo (1957) e Cantando na Chuva (1952) além, principalmente, de seu manifesto desejo de continuar filmando. Através de Meu Amigo Hindu Babenco acerta suas contas com a morte, busca exorcizar chagas do passado, agradece aqueles que ao seu lado estiveram e, acima de tudo, se despede da plateia e do cinema. Tocante.

Ficha Técnica

Direção, Roteiro: Hector Babenco
Fotografia: Mauro Pinheiro Jr
Produção: Marcelo Torres
Elenco: Selton Mello, Ary Fontoura, Bárbara Paz, Dalton Vigh, Dan Stulbach, Gilda Nomacce, Guilherme Weber, Maitê Proença, Maria Fernanda Cândido, Reynaldo Gianecchini, Supla, Tania Khalill, Tuna Dwek, Willem Dafoe
Montagem: Gustavo Giani
Trilha Sonora: Zbigniew Preisner
Estreia no Brasil: 03.03.2016
Duração: 124 min.

domingo, 18 de setembro de 2016

Califórnia



Receita Desgastada?

 Califórnia (Brasil, 2015) faz de sua ambientação nos anos 80 uma muleta já que se dependesse do seu pobre roteiro o filme não se sustentaria. Ou será o contrário?  Califórnia tem seus melhores momentos quando para de voltar a atenção apenas para cenários, figurinos e música e, em contrapartida, se dedica a também contar uma história. O roteiro acabou prejudicado pelo excesso de preocupação demonstrado para com a direção de arte e trilha musical ou desde sua essência a trama já apresentava falhas e clichês, daí que a proposta de uma viagem ao passado não passa de uma tentativa de mitigar defeitos embrionários?

Ante tais questionamentos, cabe também indagar: será essa revisitação oitentista uma receita já desgastada? O seriado Stranger Things, por exemplo, prova que o tal desgaste ainda não é uma realidade. Com efeito, grande parte do fator responsável pelo êxito da série consiste em deixar a ambientação de época a serviço da história e não o contrário - não a toa, as referências desfilam de forma mais fluida na tela, desafiando o espectador a buscar na memória qual a origem de determinada composição cênica. Tais méritos faltam a Califórnia, o que é natural tendo em vista a sensação de que Marina Person primeiro decidiu utilizar os anos 80 e somente em seguida, junto com os demais roteiristas, passou a tentar encaixar em tal intervalo histórico um enredo qualquer que, aliás, por vezes parece saído de um episódio das nacionais Confissões de Adolescente e Mallhação. 
Exceto pelo espaço dedicado a banda The Cure, nem mesmo a trilha musical consegue sair do óbvio, na medida em que Person opta por, de maneira, limitada reproduzir hits de grupos como Titãs, Kid Abelha e Blitz, perdendo, assim, a oportunidade de resgatar clássicos do período já esquecidos ou não conhecidos pelas novas gerações¹. Neste passo, a inclusão de ‘De Repente, Califórnia’ (Lulu Santos) prima pela obviedade tanto quanto os caminhos traçados pelos personagens. Desnecessário.
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1.     Eventual não liberação dos direitos de reprodução seria a única justificativa aceitável para tal falha.

Ficha Técnica

Direção: Marina Person
Roteiro: Francisco Guarnieri, Mariana Veríssimo, Marina Person
Elenco: Amanda Chaptiska, Amanda Zamora, Caio Blat, Caio Horowicz, Clara Gallo, Cristiano Damasi, Domingas Person, Eloisa Turini, Francisco Guarnieri, Gilda Nomacce, Giovanni Gallo, Gustavo Rosa de Moura, Isabella Scherer, Ivo Müller, Joelson Oliveira, Letícia Fagnani, Livia Gijon, Nathalia Magalhães Vicentim, Paulo Miklos, Pedro Goifman, Samir Rashid, Virginia Cavendish
Produção: Carmem Maia, Giulia Setembrino, Gustavo Rosa de Moura, Marina Person
Fotografia: Flora Dias
Montador: Bernardo Barcellos
Trilha Sonora: Henrique Chiurciu
Estreia: 03.12.2015
Duração: 85 min.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Aquarius



Memórias Apartidárias

Falar sobre Aquarius (Brasil, 2016) não é tarefa simples tamanho o número de tópicos sobre os quais o filme se debruça. O risco de não alcançar o grau de coesão demonstrado por Kleber Mendonça Filho (KMF) no mosaico por ele engendrado é considerável, daí que ciente do quão enorme é a pretensão, opta-se pela estratégia de analisar a obra em modo episódico - tal qual a narrativa se desenvolve na tela - para que a maior quantidade de temas possa ser abordada sem perda do leme.

Parte I – Em Defesa da Memória:

  Ao escrever sobre Aquarius Suzana Uchôa Itiberê define o título como “um libelo contra a especulação imobiliária”¹. Ocorre que tal descrição padece de reducionismo haja vista que a história da crítica de música acossada por uma grande empresa de engenharia a vender o apartamento onde mora funciona apenas como pontapé inicial para a discussão de temas ainda mais densos e controversos.
Como uma metáfora, o ato de resistência da aposentada Clara – Sônia Braga exalando leveza em um papel que muito exige – ilustra um embate entre o novo e o velho que, por seu turno traz à memória Acima das Nuvens (Alemanha/França/Suíça, 2014)², de Olivier Assayas, com um fator diferencial: enquanto neste o que se vê é o problema do choque geracional experimentado por duas mulheres, em Aquarius o objeto de estudo é a perda da memória individual e coletiva, algo, portanto, maior e mais significativo.  Neste diapasão, a produção lembra a plateia que pessoas, lugares, tradições e costumes vão sendo deixados para trás no passado a fim de que espaço seja aberto para o futuro³. Por isso, Clara resiste para que a história dela e de sua família não seja implodida por interesses alheios e resiste para que sua paixão por viver não seja apagada pelas limitações do corpo e da idade.

Parte II – As Contradições de Clara:

 Em meio ao tour de force vivido por Clara, Kleber Mendonça Filho, enquanto observador aguçadodo comportamento brasileiro, insere entrelinhas que podem até não dialogar diretamente com o assunto principal do roteiro, mas que ajudam a compor um painel sobre a sociedade na qual os personagens vivem e como por ela são influenciados.
No que tange a personagem Clara, cabe dizer que ela se posicionou a frente de seu tempo, resistindo, as imposições sociais ao deixar os filhos pequenos aos cuidados do pai por conta de aspirações profissionais - rebentos esses cujos pensamentos conservadores são por ela hoje enfrentados. Dotada de uma visão humanista Clara paradoxalmente lamenta, por exemplo, pelas joias de família furtadas por uma empregada doméstica, receia que o gigolô que a saciara certa noite invada sua casa para levar seus pertences, amedronta-se com o aspecto marginal de jovens negros que transitam pela orla de Boa Viagem e assusta-se com a descoberta de que um jovem branco de privilegiadas condições financeiras utiliza aquele mesmo local para traficar drogas.
No contexto de suas próprias ambições e contradições Clara resiste contra as práticas opressoras da elite pernambucana no afã de manter sua cobiçada propriedade privada. Tal relutância, a depender de interpretação de cada um, pode tanto simbolizar a insatisfação de uma parte da nação que ainda rejeita seu atual chefe do governo federal por entender que este alcançara o posto de maneira ilegítima quanto, ao contrário, pode caracterizar tão somente os interesses individuais daquela, não havendo nesse caso que se falar que sua postura reproduz os anseios dos desfavorecidos, afinal, na condição de integrante da classe média alta, Clara não é alguém que sente na pele as agruras enfrentadas pelos mais pobres. A conclusão fica, então, a cargo do espectador.

Parte III – A Direção:

 Em entrevista para divulgação do filme a atriz Maeve Jinkings assim declarou: “Kleber [...] apurou uma linguagem audiovisual muito própria, brinca com códigos de cinema de gênero com ainda mais fluidez, além de manter uma identidade forte em termos de visão de mundo.
Uma vez que perfeitas tais colocações resta inevitável concluir que, mesmo ótimo, o arrebatador O Som ao Redor (Brasil, 2012)acabou superado por Aquarius, o que se deve ao exemplar aprofundamento do conteúdo proposto levado para a tela por meio de uma narrativa perfeitamente desenvolvida eis que montada em torno de diálogos primorosos, elipses bem estruturadas e personagens precisamente moldados e interpretados por um elenco impecável. Não fosse o bastante, KMF agrega ao drama momentos ímpares de tensão social e suspense que colaboram para manter o envolvimento do público que, extasiado, não sente passar o tempo de duração da obra e ainda se pega por vezes torcendo para que o término não ocorra tão cedo.
Considerando que todos esses conceitos técnicos são importados e aperfeiçoados de O Som ao Redor, o desenho de som, tão valorizado neste último, recebe semelhante atenção em Aquarius. Neste passo, se no longa de estreia de KMF eram os ruídos e silêncios que se impunham como um personagem extra da trama, no título estrelado por Sônia Braga é a música que assume tal papel embalando o filme e em especial a trajetória de Clara de ponta a ponta, o que faz deste um trabalho incrível de se ver e ouvir ou, em outras palavras, uma experiência sensorial completa.

Parte IV – Ex Positis:

Seja qual for o posicionamento político de quem assiste Aquarius, não é preciso concordar com as ideias e lições propagadas por Kleber Mendonça Filho para reconhecer que, no mínimo, a forma com que seu discurso fora cinematograficamente arquitetado é irretocável. Enquanto a pequena obra-prima que é, Aquarius não merece ser vitimado pelos arroubos emocionais ensejados pelo fla-flu político existente nessa presente época. Ser o espectador partidário de Dilma Rousseff ou de Michel Temer não muda o fato de que a produção é virtuosa em sua técnica, além de densa e incômoda em seu conteúdo. Em se tratando de cinema da melhor espécie há de ser o mesmo, portanto, saudado, reverenciado ao invés de estupidamente boicotado como alguns sugerem.
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1.    Revista Preview. Ano 7. ed. 83. São Paulo: Sampa, Agosto de 2016. p.24.
2.    Leia mais sobre Acima das Nuvens em http://www.setimacritica.blogspot.com.br/2015/09/acima-das-nuvens.html
3.   Assim como ossadas são retiradas das sepulturas para descarte pondo fim em definitivo ao que de concreto um dia existira sobre alguém.
4.    Duas sequências significativas nesse sentido:
a)   Aquela em que o sobrinho menos querido de Clara, ao lado da noiva, busca no apartamento da protagonista fotos antigas para a cerimônia de seu casamento, haja vista que a entrada em cena do sobrinho preferido que junto com a namorada forma um casal não convencional e quadrado desperta todo o desconforto dos noivos demonstrado sem palavras e apenas com gestos e olhares; tratam-se assim de reações captadas pelo senso de observação de KMF inseridas como uma espécie de aba aparentemente destacável mas que, como já dito, colabora para compor o delineamento psicológico dos personagens.
b)   Aquela em que Clara é entrevistada por uma repórter sem talento que mesmo recebendo respostas inspiradas entrega uma matéria fútil, aquém dos assuntos tratados.
5.    Revista Preview. Ano 7. ed. 83. São Paulo: Sampa, Agosto de 2016. p.27.
6.    Leia mais sobre O Som ao Redor em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/02/o-som-ao-redor.html.
7.    Vide, por exemplo, os elegantes movimentos de câmera que permitem a esta passear sem cortes entre locações externas e internas.

FICHA TÉCNICA


Direção e Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd

Elenco: Sônia Braga, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Buda Lira, Carla Ribas, Daniel Porpino, Julia Bernat, Fernando Teixeira, Humberto Carrão, Paula De Renor, Pedro Queiroz, Rubens Santos, Thaia Perez

Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero                         

Estreia: 01.09.16

Duração: 142 min.