EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 28 de agosto de 2016

Cinco Graças





Libelo Feminista

Cinco Graças (França/Turquia/Alemanha, 2015) apresenta uma espiral de acontecimentos degradantes que, por seu turno, revelam a posição de inferioridade e sujeição das mulheres numa sociedade patriarcal que se vale de dogmas religiosos para mantê-las submissas aos chefes de família. Neste passo, chama a atenção como o filme é iniciado com uma sequência a princípio banal, sem importância, mas que logo se revela como estopim de toda sorte de humilhações e privações experimentadas por cinco irmãs que veem seus sonhos e expectativas ruir em decorrência dos casamentos arranjados que lhes são imediatamente impostos. 

Enquanto umas se resignam, outras se rebelam de diferentes formas o que descortina para elas um mundo de sofrimento capitaneado pela figura do tio que assume o papel ‘moralizador’ do genitor já falecido. Neste diapasão, aqueles que tecem comparações entre a obra e As Virgens Suicidas (EUA, 1999) e/ou Miss Violence (Grécia, 2013)¹ esquecem que, diferentemente dos títulos citados, em 5 Graças a violência contra a mulher não é fruto dos desvios psicológicos de seus respectivos pais e sim de uma chancela concedida pelo Estado turco com esteio em uma cultura religiosa misógina, que, pasmem, recebe apoio do próprio gênero vilipendiado, afinal, conforme explica Isabela Boscov:
“Não faltam filmes poderosos sobre o pavor que é ser mulher em um país regido pela lei religiosa islâmica [...]. Mas Cinco Graças [...] trata de uma faceta diferente desse terror: o de ter nascido em um país moderno que repentinamente dá uma guinada rumo à islamização. [...].
Sentindo o cerco fechar-se em torno de Ece, a irmã do meio, a caçula Lale começa a buscar uma rota de fuga. Mas, ainda que ela encontre uma saída, algo essencial já se perdeu de forma irrecuperável: se as regras da moralidade religiosa começam a ser aceitas no lugar das leis institucionais [...] nenhuma garota turca estará mais a salvo – hoje isso acontece em um vilarejo, amanhã em Istambul, logo mais em qualquer lugar, ou em todo lugar. Já se cruzou, enfim, uma linha, e está aberto o caminho para que as mulheres não mais sejam donas de si mesmas, e passem a ser propriedade masculina. Um dos dados mais sinistros de Cinco Graças, contudo, é a maneira como são as próprias mulheres da família e do vilarejo que se encarregam de censurar, vigiar e cercas as irmãs: o patriarcalismo só pode se sustentar com colaboração feminina ativa”².
É justamente esse contexto da guarida estatal sobre atos de desrespeito a vontade, a liberdade individual e, sobretudo, feminina que torna a trama tão revoltante e a mensagem feminista nela embutida tão impactante, discurso esse, vale dizer, feito de maneira inteligente, na medida em que momentos de descontração são devidamente nele inseridos para que o espectador não se entedie e o abandone. Por isso, parece mais correto comparar 5 Graças com:
- O Julgamento de Viviane Amsalem³: eis que em tal obra sua protagonista é forçada a se manter vinculada a um casamento falido, dada a falta de anuência do marido quanto ao divórcio, manifestação de vontade essa que é corroborada pelos preceitos religiosos de uma sociedade igualmente patriarcal na qual a religião assume o lugar do ordenamento jurídico, ficando a liberdade feminina, desta feita, prejudicada por ditames masculinos de natureza religiosa, tal como ocorre em 5 Graças;
- Que Horas Ela Volta?: pois, ao invés de se contentar em ser apenas um manifesto contra a desigualdade social brasileira, o trabalho de Anna Muylaert também se preocupa em ser cinema e, assim, manter o público próximo de si, daí se valer de inserções cômicas breves, mas suficientes para dissipar qualquer ar sisudo da narrativa, estratégia essa também vista no longa-metragem francês que apresenta momentos cômicos salutares concentrados em torno da ótima atriz mirim Günes Sansoy.
Ao lado de produções como O Julgamento de Viviane Amsalem, Persépolis e O Diário de Wajda, 5 Graças se firma como uma contundente manifestação de apoio a mulheres cujas liberdades sucumbem diante da forma opressora com que patriarcados se comportam. Não fosse o bastante, o filme indica que a propagação de uma mensagem não precisa ser tediosa, podendo ressoar de modo mais eficiente se trabalhada com criatividade e inteligência, no que se inclui o bom humor.
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1.Leia mais sobre Miss Violence e As Virgens Suicidas em http://setimacritica.blogspot.com.br/2014/12/miss-violence-as-virgens-suicidas_23.html.
2.O pavor de ser uma adolescente comum engolida pela islamização. Disponível em: http://isabelaboscov.virgula.uol.com.br/index.php/2016/01/24/cinco-gracas/. Acesso em 20.08.16.
3.Leia mais sobre O Julgamento de Viviane Amsalem em http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/04/o-julgamento-de-viviane-amsalem.html.
4.Leia mais sobre Que Horas Ela Volta? em http://setimacritica.blogspot.com.br/2015/10/que-horas-ela-volta-casa-grande.html.

Ficha Técnica

Título Original: Mustang
Direção: Deniz Gamze Ergüven
Roteiro: Alice Winocour, Deniz Gamze Ergüven
Elenco: Ayberk Pekcan, Aynur Komecoglu, Bahar Kerimoglu, Burak Yigit, Doga Zeynep Doguslu, Elit Iscan, Erol Afsin, Günes Sensoy, Ilayda Akdogan, Kadir Celebi, Müzeyyen Celebi, Nihal G. Koldas, Rukiye Sariahmet, Serife Kara, Serpil Reis, Suzanne Marrot, Tugba Sunguroglu
Produção: Charles Gillibert
Fotografia: David Chizallet, Ersin Gok
Montador: Mathilde Van de Moortel
Trilha Sonora: Warren Ellis
Estreia: 21/01/2016 (Brasil)
Duração: 97 min.

domingo, 21 de agosto de 2016

Os Cowboys



Caldeirão Cultural

Os Cowboys (França 2015) do ora estreante Thomas Bidegain traz à memória a complexidade dos trabalhos de Asghar Farhadi, na medida em que tal como, por exemplo, ocorre em A Separação (Irã, 2011)¹ e O Passado² (França/Itália/Irã, 2013), a trama do longa-metragem francês vai gradativamente se tornando mais e mais intricada dada a apresentação de eventos chocantes que se superam em dramaticidade. Tal como Farhady costuma fazer, Bidegain trata o fato atípico que deflagra a narrativa como mera ponta de um iceberg, haja vista que seu roteiro não se contenta com a superfície e, assim, se esmera em arquitetar novos acontecimentos ainda mais desafiadores e ultrajantes – qualidade essa que não há de ser estranhada tendo em vista que Bidegain fora o responsável pelos scripts dos premiados e saudados O Profeta (França, 2009), Ferrugem e Osso³ (França/Bélgica, 2012) e Dheepan – O Refúgio (França, 2015).

Outra influência perceptível no drama é Alfred Hitchcock, afinal, de forma semelhante a como este procedera em Psicose (EUA, 1960), Bidegain tem também a ousadia de abandonar seu protagonista antes da metade do filme, pondo outra figura em tal lugar de destaque.  Isto posto, há de ser frisado que o roteiro de Os Cowboys é superlativo não apenas em razão das suas referências fílmicas como também e, sobretudo, graças ao seu conteúdo empenhado em abordar a miscigenação cultural de uma França cujos nativos acabam adeptos de hábitos díspares oriundos tanto da América quanto do islamismo radical. E é neste caldeirão étnico-cultural que a tensão é estruturada, daí, não a toa, a história de uma garota desaparecida e da busca efetuada pelo respectivo pai ganhar nuances bastante diferentes das vistas em outros títulos com temática parecida como Sobre Meninos e Lobos (EUA, 2003) e Os Suspeitos (EUA, 2013).
Não fosse o bastante ser um exímio roteirista, Bidegain também demonstra talento na direção de elenco, valendo nesse aspecto salientar a participação especial de John C. Reilly, enigmático e repugnante num papel relevante como há tempos o ator não assumia. Dispondo de um roteiro maduro e de atores irrepreensíveis, Os Cowboys constitui um caso cada vez mais raro de cinema adulto capaz de incomodar, de devastar o espectador perante o que vira. Não é pouco.
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1. Leia mais sobre A Separação em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/separacaocenas-de-um-casamento.html e http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/04/o-julgamento-de-viviane-amsalem.html.
2.     Leia mais sobre O Passado em http://setimacritica.blogspot.com.br/2014/06/o-passado.html.
3.    Leia mais sobre Ferrugem e Osso em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/10/ferrugem-e-osso.html
4.   Leia mais sobre Os Suspeitos e Sobre Meninos e Lobos em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/11/os-suspeitos-sobre-meninos-e-lobos.html.

Ficha Técnica

Título Original: Les Cowboys
Direção: Thomas Bidegain
Roteiro: Thomas Bidegain, Laurent Abtibol e Noé Debré
Elenco: François Damiens, Finnegan Oldfield, Agathe Dronne, John C. Reilly, Ellora Torchia
Fotografia: Arnaud Potier
Trilha Sonora: Moritz Reich
Duração: 104 min.