EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 27 de julho de 2016

Mais Forte que o Mundo - A História de José Aldo



Coadjuvantes Esquecidos

É fato que todos os bons filmes sobre trajetórias de profissionais da luta, seja box ou MMA, mostram narrativas focadas nos dramas familiares dos atletas, sendo as lutas um acessório natural e decorrente da sucessão de obstáculos experimentados pelos protagonistas em busca da conquista profissional e pessoal que há de colocar nos eixos não só suas vidas como também a daqueles que lhes são próximos. Foi assim em Rocky, Touro Indomável, Guerreiro, Menina de Ouro entre outros. Já no caso de Creed – Nascido Para Lutar¹ a receita de sucesso foi relativizada sem eficiência gerando, assim, um produto mais preocupado com a nostalgia do que com a apresentação de um personagem dotado de dramas relevantes o bastante para tornar a obra cativante. Neste diapasão, Mais Forte que o Mundo - A História de José Aldo (Brasil, 2015) repete o erro na medida em que se preocupa demais com o visual, deixando de lado seus personagens e, consequentemente, a possibilidade de ir fundo nos conflitos do ser biografado.
  Na tela os percalços iniciais enfrentados pelo brasileiro José Aldo soam como clichês, problema esse que poderia ser evitado caso o cineasta Afonso Poyart investisse mais no aprofundamento psicológico dos subaproveitados personagens coadjuvantes que tanto influenciam o comportamento do protagonista, circunstância essa na qual se incluem, por exemplo, as figuras da mãe do lutador, bem como de seu algoz que, criado especialmente para o longa-metragem, representa os demônios internos de J. Aldo.
Destarte, ao invés de explorar as ricas nuances dos personagens secundários que dispunha, Poyart prefere investir no estilo, na assinatura visual que tanto lhe rendera elogios em 2 Coelhos². Ocorre que se em seu primeiro longa-metragem Poyart fora ousado e eficiente ao conciliar ideias próprias com referências estilísticas à la Guy Ritchie e Zack Snyder, em Mais Forte que o Mundo as insistentes cenas em slow motion, os cortes rápidos executados de maneira recorrente e a constante inserção de trilha musical produzem uma incômoda linguagem publicitária que até o exagerado Snyder se esforça para driblar.
Quanto ao elenco, José Loreto é pura dedicação corpórea ao papel - lamentavelmente, porém, sua falta de semelhança física para com José Aldo acaba por atrapalhar o resultado da performance haja vista que a total imersão do espectador resta prejudicada - enquanto ao seu lado Cléo Pires fracassa ao tentar demonstrar paixão pelo lutador, daí a química entre o casal ser praticamente inexistente - pior do que a participação da atriz só mesmo a de Rafinha Bastos que serve à, dispensável, função de respiro cômico da trama. Já Cláudia Ohana, em breve participação, e Rômulo Neto se revelam ótimos em cena, o que reforça a tese de que uma maior utilização de seus respectivos personagens daria ao filme elementos e tons extras.   
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1.Leia mais sobre Creed – Nascido Para Lutar em http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/02/creed-nascido-para-lutar.html.
2. Leia mais sobre 2 Coelhos em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/02/2-coelhos.html

FICHA TÉCNICA

Direção, Roteiro e Produção: Afonso Poyart
Elenco: Claudia Ohana, Cléo Pires, Felipe Titto, Jackson Antunes, José Loreto, Malvino Salvador, Milhem Cortaz, Paloma Bernardi, Robson Nunes, Romulo Neto, Thaila Ayala, Rafinha Bastos
Fotografia: Carlos André Zalasik
Montagem: Lucas Gonzaga
Trilha Sonora: Samuel Ferrari
Estreia: 16/06/2016 (Brasil)
Duração: 104 min.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Florence: Quem É Essa Mulher? / Marguerite



Os Desafinados Também Têm um Coração



“A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta” (Tristan Tzara)


Marguerite (Bélgica/França/República Checa, 2015) e Florence: Quem É Essa Mulher? (EUA, 2016) discorrem sobre a história de uma mesma protagonista. Felizmente, contudo, as obras diferem extremamente entre si, a começar pelo gênero.
Se de um lado a produção francesa é um drama de época apenas inspirado na personagem real - daí seu interesse não residir no relato fiel dos fatos, mas sim na compreensão dos desvios psicológicos de uma mulher incapaz de reconhecer suas deficiências, bem como na conduta oportunista dos que a rodeiam - na outra ponta o longa-metragem norte-americano opta pelo caminho da comédia e o faz de maneira simpaticíssima sem, entretanto, se furtar de também apresentar os toques dramáticos exigidos pela narrativa.
E é nessa toada que Florence supera qualquer baixa expectativa daqueles que ainda veem a comédia como um gênero limitado e por isso menor, afinal, em meio a sua leveza o trabalho de Stephen Frears dá aos personagens uma dubiedade ausente no título europeu, isso porque enquanto em Marguerite as figuras retratadas possuem personalidades na maior parte do tempo estáticas sendo simplesmente boas ou más, no filme estrelado por Meryl Streep há um profundo exercício de relativização de arquétipos, o que resulta na construção de figuras tão éticas quanto traidoras.
Favorece tal resultado a opção do roteirista Nicholas Martin por trabalhar com um número reduzido de personagens, ao contrário de Marguerite que acaba perdendo tempo com pessoas e subtramas que nada acrescentam. Nesse sentido, a comparação entre os roteiros gera a impressão de que Florence lima personagens, mas não suas características que acabam incorporadas pelo escasso núcleo visto na tela.
Neste passo, o principal exemplo de acúmulo de qualidades e defeitos é encontrado na figura do companheiro da protagonista, eis que se em Marguerite ele é um ser ranzinza que ao invés de amor sente pela parceira apenas dó e culpa, em Florence o mesmo é mostrado como alguém de uma devoção religiosa a amada que paralelamente não se esquiva de manter relacionamento íntimo com outra mulher, décadas mais jovem, com quem satisfaz os desejos da carne e demais prazeres mundanos. Tal infidelidade, cabe frisar, em momento algum significa para o personagem que seu amor por Florence seja uma farsa, afinal, tudo o que lhe interessa é ver a idolatrada parceira feliz, o que inclui satisfazer as ambições artísticas dela e suas¹, além de lutar para manter ao redor da aspirante a cantora uma redoma protetora contra troças e chacotas.
O êxito do roteiro de Florence em criar personagens multifacetados é tão grande que até o comportamento da protagonista resulta diferenciado da sua versão francesa na medida em que Marguerite, interpretada por Catherine Frot, parece apenas uma socialite alienada à verdade - o que pode ser compreendido como um prenúncio de esquizofrenia - enquanto a Florence de M. Streep deixa sempre no ar uma dúvida: será que ela não consegue constatar o quão péssima é cantando em razão de eventual confusão mental causada pela sífilis ou será que, ao contrário, ela apenas finge não perceber?
Graças a riqueza do roteiro e a competente direção de Frears, Florence: Quem É Essa Mulher? entrega performances incríveis do elenco, aspecto esse em que é impossível não enaltecer os desempenhos de Streep, perfeita como de costume, Simon Helberg - à vontade encarnando um tipo abobalhado em meio a consideráveis descobertas profissionais e sexuais - e, sobretudo, Hugh Grant que consegue congrega todas as nuances de seu personagem com o charme que lhe é peculiar, banhando-o, assim, da humanidade necessária para manter o papel imune a julgamentos simplórios.
Não obstante suas diferenças, Marguerite e Florence igualam seus discursos já próximo de seus respectivos términos quando questionam se a mera distinção entre belo e feio é suficiente para valorar uma manifestação artística sincera, intensa e repleta de paixão. A provocação é interessante e até poderia ser mais estimulada pelas produções que, em contrapartida, preferem não se aprofundar nessa polêmica. Seja como for, independentemente do posicionamento de cada espectador a esse respeito, uma conclusão é possível tecer sem exagero: Florence Foster Jenkins, para o bem ou para o mal, mesmo sem saber, prestara fervorosa defesa aos ideais do movimento dadaísta que, iniciado em 1916, defendia uma arte plenamente espontânea e avessa à lógica e a postura racional.
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1.     Na condição de ator fracassado, aquele homem tenta dar vazão a sua veia cênica abrindo as apresentações da mulher, quando por ela autorizado, com monólogos que interpreta sob o ar incomodado de Florence que, a despeito da carência de talento de ambos, pelo visto prefere não ter a sombra do companheiro ofuscando seu brilho.

Ficha Técnica Florence: Quem É Essa Mulher?

Título Original: Florence Foster Jenkins
Direção: Stephen Frears
Roteiro: Nicholas Martin
Elenco: Meryl Streep,  Hugh Grant, Christian McKay, Danny Mahoney, Dar Dash, David Haig, David Menkin, Dilyana Bouklieva, Elliot Levey, Greg Lockett, James Sobol Kelly, John Kavanagh, Jorge Leon Martinez, Josh O'Connor, Liza Ross, Marie Borg, Mark Arnold, Martin Bratanov, Martyn Mayger, Neve Gachev, Nina Arianda, Paola Dionisotti, Phelim Kelly, Philip Gascoyne, Philip Rosch, Rebecca Ferguson, Rosy Benjamin, Sid Phoenix, Simon Helberg, Solomon Taiwo Justified, Stephanie Lane, Tony Paul West
Produção: Michael Kuhn, Tracey Seaward
Fotografia: Danny Cohen
Montagem: Valerio Bonelli
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Estreia: 07/07/2016 (Brasil)
Duração: 110 min.

Ficha Técnica – Marguerite

Direção: Xavier Giannoli
Roteiro: Marcia Romano, Xavier Giannoli
Elenco: André Marcon, Astrid Whettnall, Aubert Fenoy, Boris Hybner, Catherine Frot, Christa Theret, Christian Pereira, Denis Mpunga, Grégoire Strecker, Jean-Yves Tual, Joël Bros, Lubos Veselý, Lucie Strourackova, Martine Pascal, Michel Fau, Petra Nesvacilová, Pierre Peyrichout, Sophia Leboutte, Sylvain Dieuaide, Théo Cholbi, Vincent Schmitt
Produção: Marc Missonnier, Olivier Delbosc
Fotografia: Glynn Speeckaert
Montador: Cyril Nakache
Trilha Sonora: Ronan Maillard
Estreia: 23/06/2016 (Brasil)
Duração: 127 min.

domingo, 10 de julho de 2016

A Corte



O Corte


A Corte (França, 2015) começa como uma sutil comédia até que logo adiante apresenta a estrutura de um filme de tribunal e já próximo de sua segunda metade se transforma numa história de amor não correspondido. Dentro deste contexto, a produção escapa de se tornar uma salada indigesta porque os efeitos da fusão de gêneros são evitados a todo custo na medida em que cada nova toada iniciada traz como conseqüência o abandono quase que completo da anterior, o que, consequentemente, faz com que o longa-metragem se veja diante de uma faca de dois gumes, haja vista que se de um lado consegue manter organizada sua estrutura narrativa, de outro lado paga por isso um preço alto decorrente do estranhamento que o abandono de partes aparentemente relevantes da história causa ao espectador.
Neste passo, de repente a repulsa que a figura do personagem principal desperta em seus pares deixa de ser importante, assim como adiante também ocorre com o próprio julgamento por aquele conduzido. Mesmo soando esquisito nesse aspecto, A Corte ainda assim consegue um resultado final minimamente satisfatório graças, como já dito, a forma rigorosa – porém discutível – com que a mistura desenfreada de gêneros é impedida, bem como em razão da presença de Fabrice Luchini, convincente em todas as vertentes da trama sem para tanto precisar de muito esforço – dentro deste contexto, a escalação do ator para o papel principal do filme se mostra inteligente e providencial, afinal, qualquer filme que conte com ele no elenco já começa a partida com alguns pontos a seu favor.

FICHA TÉCNICA

Título Original: L'hermine
Direção e Roteiro: Christian Vincent
Elenco: Berenice Sand, Claire Assali, Fabrice Luchini, Floriane Potiez, Marie Rivière, Michaël Abiteboul, Miss Ming, Sidse Babett Knudsen
Produção: David Gauquié, Etienne Mallet, Franck Elbase, Julien Deris
Fotografia: Laurent Dailland
Montagem: Yves Deschamps
Estreia: 11/08/2016 (Brasil)
Duração: 120 min.