EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 29 de junho de 2016

Um Belo Verão / Flórida



Dois Atos

Um Belo Verão (Bélgica/França, 2015) possui dois atos. Ambos são lamentavelmente ineficientes. Explique-se: o primeiro ato se passa quase todo em Paris, local para onde Delphine, vinda do interior, se muda¹; nessa etapa chama a atenção como a camponesa é quem demonstra experiência sexual perante Carole, a mulher da cidade grande, até então heterossexual, por quem se apaixona e que logo é seduzida pela primeira. Ocorre que, infelizmente, tal desconstrução de arquétipos se perde em meio a insistência com que paralelamente o feminismo é abordado pela produção em toada panfletária² que esfria o clima da paixão tornando-a desinteressante aos olhos do espectador.
O segundo ato, por seu turno, aborda a estadia das duas mulheres no campo, mudança espacial essa que por si só já permite prever toda sorte de desafios e preconceitos que as duas amantes ali irão enfrentar, daí restar a plateia apenas a opção de ter paciência para aguardar o desenvolvimento da trama e, consequentemente, conferir todas as suas previsões irem uma a uma se confirmando.
Panfletário na primeira metade e previsível na segunda, Um Belo Verão poderia ao menos ficar marcado por sua carga erótica, entretanto, nem esse êxito o título consegue lograr já que as atrizes principais não chegam sequer perto de demonstrar furor parecido ao apresentado, por exemplo, por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux no excepcional Azul é a Cor Mais Quente³ (França, 2013)¹ ou até mesmo por Elena Anaya e Natasha Yarovenko em Um Quarto em Roma (Espanha, 2010), longa-metragem esse tão fraco quanto o ora comentado mas que pelo menos consegue não cair no esquecimento graças ao erotismo encenado – para não soar injusto, há de ser dito que Um Belo Verão pode até ser saudado e, talvez, lembrado, mas assim o será, tal qual Carol(EUA, 2015), tão somente por conta de sua competente reconstituição de época e design de figurinos e jamais por seu enredo ou pelo trabalho de suas atrizes. Uma pena.

Igualmente marcado por uma demarcação em dois atos, Flórida (França, 2015) se vale de tal estrutura narrativa de maneira bem mais interessante e rica. Em sua metade inicial o filme se comporta como uma divertida comédia que faz graça com as limitações físicas e neurológicas experimentadas por uma pessoa na terceira idade. Sem apelar para piadas grosseiras e com inegável bom gosto, a obra faz rir até a chegada do ato seguinte, ocasião em que o humor vai desaparecendo tal qual a sanidade do protagonista.
Num correto desenvolvimento do roteiro, o drama toma conta da história porque clima não há mais para sorrir. Com efeito, de enorme colaboração se mostra o desempenho de Jean Rochefort, incrível enquanto o homem que arranca gargalhadas do público e preciso no momento em que precisa emocionar sem ser piegas. Aliás, tal destaque há de ser enfatizado: embora sua faceta dramática não seja tão atraente quanto sua porção cômica, Flórida encara com destemor e inconteste eficiência as dores do envelhecimento na medida em que não abre brecha para o sentimentalismo barato. Neste passo, interessa ao diretor Philippe Le Guay apenas a verdade das emoções; isto posto, considerando que: “Tristeza não tem fim, felicidade sim⁵, nada mais coerente, portanto, que o sabor amargo experimentado pelo espectador ao término da sessão.
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1.     Neste diapasão, cabe dizer que inexistem explicações concretas obre o que especificamente a garota fora fazer em Paris nem sobre como consegue se sustentar longe de casa.
2.   Vale esclarecer que não há aqui qualquer rejeição ao fato de ideias feministas serem abordadas pelo filme, mas sim ao modo enfadonho com que isso é feito. Isto posto, títulos como O Julgamento de Viviane Amsalem, Persépolis, Cinco Graças e O Diário de Wajda são muito mais relevantes para propagação de tais ideais dada a forma criativa e contundente com que tratam o assunto.
3.     Leia mais sobre Azul é a Cor Mais Quente em http://setimacritica.blogspot.com.br/2014/03/azul-e-cor-mais-quente.html.
4.     Leia mais sobre Carol em http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/02/carol.html.
5.     Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, A Felicidade.

Ficha Técnica Um Belo Verão

Título Original: La Belle Saison
Direção: Catherine Corsini
Roteiro: Catherine Corsini, Laurette Polmanss
Elenco: Alix Bénézech, Antonia Buresi, Benjamin Baroche, Benjamin Bellecour, Bruno Podalydès, Calypso Valois, Cécile De France, Dominique Bernardi, Izïa Higelin, Jean-Henri Compère, Juan Lopez Ballo, Julie Lesgages, Kevin Azaïs, Laetitia Dosch, Loulou Hanssen, Mika Tard, Nathalie Beder, Nathalie Lovigui, Noémie Lvovsky, Sarah Suco
Produção: Elisabeth Perez
Fotografia: Jeanne Lapoirie
Montagem: Frédéric Baillehaiche
Trilha Sonora: Grégoire Hetzel
Estreia: 07/07/2016 (Brasil)
Duração: 105 min.

Ficha Técnica – Flórida

Título Original: Floride
Direção: Philippe Le Guay
Roteiro: Florian Zeller, Jérôme Tonnerre, Philippe Le Guay
Elenco: Anamaria Marinca, Audrey Looten, Carine Piazzi, Charline Bourgeois-Tacquet, Christèle Tual, Clément Métayer, Coline Beal, David Clark, Denis Falgoux, Édith Le Merdy, Guillaume Briat, Jean Rochefort, Kelina Riva, Laurent Lucas, Martine Erhel, Martine Schambacher, Muriel Solvay, Patrick d'Assumçao, Philippe Duclos, Rémy Roubakha, Sandrine Kiberlain, Stéphanie Bataille, Vincent Martin, Xavier De Guillebon
Produção: Jean-Louis Livi, Philippe Carcassonne
Montagem: Monica Coleman
Trilha Sonora: Jorge Arriagada
Estreia: 11/08/2016 (Brasil)
Duração: 110 min.

domingo, 19 de junho de 2016

Meu Rei



Ontem Melhor que Hoje

Não faltam exemplos de radiografias do matrimônio feitas pelo cinema. De Namorados Para Sempre (EUA, 2011) até o principal título desse filão e clássico absoluto Cenas de um Casamento¹ (Suécia, 1973), a sétima arte é povoada por casais e seus altos e baixos. Maïwenn Le Besco, diretora de Meu Rei (França, 2015), sabe disso e, não a toa, arrisca dar passos que diferenciem seu trabalho nesse contexto.
Para tanto, a cineasta se vale de uma narrativa paralela que trata do passado e do presente. Nos dias de hoje Tony busca a recuperação física para sérios danos no joelho oriundos de um acidente sofrido enquanto esquiava. Isolada numa espécie de resort a mulher aproveita para lembrar os traumas e dores de ontem oriundos do relacionamento doentio mantido com o agora ex-marido. Neste particular, uma sequência é bastante representativa, qual seja aquela em que a protagonista é consultada por uma psicóloga e ri da relação que a profissional faz entre o joelho quebrado e o estado de espírito/mental da acidentada. Por mais forçada que a comparação possa soar é exatamente isso que Maïwenn quer apresentar: uma metáfora.
As agruras corporais sofridas hoje nada mais são que efeitos dos anos de abuso psicológico enfrentados pela personagem feminina. Neste diapasão, a estranheza do amor retratado e da atual realidade vivida pela protagonista em meio a outros acidentados traz à lembrança o espetacular Ferrugem e Osso²; lamentavelmente, porém, Meu Rei não alcança notas tão altas como aquele, o que é resultado do grau diverso de eficiência e de interesse despertados por cada uma de suas tramas paralelas.
Explique-se: as dificuldades enfrentadas por Tony para recuperar a plenitude física pouco acrescentam além da metáfora pretendida. Tal considerável fração da narrativa se mostra, portanto, dispensável, o que, há de se convir, é um problemas sério se lembrado for que este deveria ser o fator diferencial da narrativa que, carente de ineditismo, acaba salva da pelo talentoso elenco, no que se destacam Vincent Cassel ora divertido ora sedutor ora assustador e Louis Garrel saindo da zona de conforto num papel coadjuvante que nada possui de galanteador e que funciona como alívio cômico para a trama, por mais estapafúrdio que isso possa parecer.
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1.     Cabe a ressalva de que Cenas de um Casamento foi primeiramente lançado como série de televisão sendo posteriormente editado para o cinema. Leia mais sobre o filme em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/separacaocenas-de-um-casamento.html.
2.     Leia mais sobre Ferrugem e Osso em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/10/ferrugem-e-osso.html.

Ficha Técnica

Título Original: Mon Roi
Direção: Maïwenn
Produção: Alain Attal
Roteiro: Etienne Comar, Maïwenn
Elenco: Vincent Cassel, Camille Cottin, Emmanuelle Bercot, Félix Bossuet, Isild Le Besco, Louis Garrel, Ludovic Berthillot, Romain Sandère, Vincent Nemeth
Fotografia: Claire Mathon
Montagem: Simon Jacquet
Trilha Sonora: Stephen Warbeck
Estreia: 25/08/2016 (Brasil)
Duração: 124 min.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

La Vanité



Longa Diferença


La Vanité (Suíça/França, 2015) representa tudo aquilo que Uma Longa Queda (Alemanha/Reino Unido, 2014) – adaptação do livro homônimo de Nick Hornby – deveria ser. Em ambas as obras o que se vê são as tentativas frustradas de pessoas abrirem mão de suas vidas seja pela eutanásia seja pelo suicídio. O longa-metragem franco-suíço, neste passo, é dotado de uma fina ironia tal qual o texto de Hornby; sarcástico, o filme faz piada com a morte do início ao fim e quando percebe que pode resvalar em moralismo trata de encerrar seus trabalhos, o que agrega força a uma de suas grandes qualidades: a coesão. Focada num trio de personagens, interpretados por atores em perfeita sintonia, a produção não perde tempo com gorduras desnecessárias, como ocorre na adaptação cinematográfica de Uma Longa Queda que acaba cedendo ao sentimentalismo como ferramenta de união entre as histórias de vida de um núcleo maior de personagens.

Embora melancólico, o livro de Hornby é, como dito, irônico, um tanto cínico até, qualidade, infelizmente ausente em sua versão fílmica, mas presente em La Vanité que ainda flerta com Alfred Hitchcock em clara referência a Psicose (EUA, 1960), transitando, desta feita, entre o drama, a comédia e o suspense sem dificuldade. Talvez seu término um tanto ligeiro possa incomodar alguns, sensação que há de ser minimizada se lembrado for que seja qual for o modo, a morte será a conclusão inescapável de todos. Entrar em pormenores desse tipo tornaria o filme menos enxuto, resultado que La Vanité evita a todo custo e que Hornby provavelmente aprovaria.
 
FICHA TÉCNICA
Direção:Lionel Baier
Roteiro: Lionel Baier, Julien Bouissoux
Elenco: Patrick Lapp, Carmen Maura, Ivan Georgiev, Adrien Barrazone
Produção: Estelle Fialon, Frédéric Mermoud, Agnieszka Ramu 
Fotografia: Patrick Lindenmaier
Duração: 75 min.
Estreia: 18/05/2015 
Estreia Brasil: 14/07/2016