EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 30 de abril de 2016

A Bruta Flor do Querer



Sinceras Contradições


Os créditos finais de A Bruta Flor do Querer (Brasil, 2013¹) bem como o monólogo que os antecede são instantes deveras reveladores que em muito colaboram para com o processo de interpretação da obra. Neste sentido, Andradina Azevedo e Dida Andrade, diretores, roteiristas e atores do longa-metragem, reconhecem em tais momentos que a produção, realizada sem nenhum patrocínio nem apoio de qualquer edital ou lei de incentivo, possui considerável teor confessional, daí poder-se deduzir que a mesma não poderia soar mais sincera ainda que em meio a falhas incontestes.


Dentro deste contexto, a realização não almeja inventar a roda, afinal a ideia central de seu enredo, qual seja  a incerteza de jovens adultos perante os caminhos profissionais e amorosos a trilhar, já é cinematograficamente manipulada desde, por exemplo, A Primeira Noite de um Homem (EUA, 1960). Destarte, o que diferencia A Bruta Flor do Querer e lhe concede especial valor é:
- o viés metalinguístico, responsável por deixar o filme  dialogar consigo mesmo em falas ora pretensiosas ora autocríticas;
- a implementação de um cinema de guerrilha, marginal que há tempos não se via.
Sim, o longa apresenta problemas técnicos consideráveis - principalmente no que atine a captação de som direto - contudo, a honestidade e crueza da narrativa e das atuações tornam a experiência envolvente a ponto da técnica rudimentar acabar tendo a ela agregado um status cool decorrente da salutar distância formal para com títulos tão pasteurizados e corretos da cinematografia brasileira como são os atuais sucessos nacionais de bilheteria.

A Bruta Flor do Querer poderia ser ainda mais relevante caso sua conclusão final não se rendesse a manjada tese de que o amor atua como tábua de salvação para todos os problemas. Considerando o tom pessimista que permeia o filme ao longo de seu desenvolvimento, seria mais correto e interessante se entregar por completo a questão da falta de perspectiva profissional que assola os recém-ingressados na idade adulta – em especial aqueles que optam por profissões não tradicionais e/ou artísticas. A guinada esperançosa com que ao término os personagens/realizadores passam a encarar o futuro resulta, desta feita, contraditória, porém, inegavelmente sincera, tendo em vista que a contradição é característica natural de uma fase da vida tão permeada pela falta de certezas.
E é assim, entre erros e acertos, entre ficção e verdade que A Bruta Flor do Querer retrata com fidelidade ímpar a carência afetiva e a falta de horizonte profissional de uma faixa etária para a qual o tempo insiste em andar depressa afastando-a sem piedade da época desprovida de preocupações e fracassos de outrora.  Dito isso, vale ficar atento para os próximos trabalhos da dupla de diretores/roteiristas cujo potencial só tende a ser aprimorado com o passar da idade e com o acesso a melhores condições de produção.
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1.     O longa-metragem foi primieramente lançado em 2013 no Festival de Gramado quando venceu os Kikitos de direção e fotografia. Segundo Luiz Carlos Merten: “Os dois anos decorridos desde a premiação em Gramado foram consumidos – mais de um, com certeza – na liberação das músicas que compõem a trilha. Em Gramado, o filme foi exibido na raça, sem liberação. Quando o filme armou um bochincho, outros diretores e produtores concorrentes tentaram desautorizar A Bruta Flor, dizendo que jamais chegaria ao circuito. ‘Foi duro, mas chegamos’ comemora Andradina [...]. ‘Pagamos bem menos que os caras costumam cobrar, e já foi uma vitória’. [...] Dos R$ 100 mil investidos – a duras penas – na produção, R$ 50 mil foram para a trilha” (Premiado em Gramado, ‘A Bruta Flor do Querer’ é obra de uma dupla talentosaia in http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,premiado-em-gramado--a-bruta-flor-do-querer-e-obra-de-uma-dupla-talentosa,10000025443 Acesso em 30.04.16.

Ficha Técnica


Direção, Roteiro e Fotografia: Andradina Azevedo e Dida Andrade

Produção: Andradina Azevedo, Bia Vilela, Dida Andrade

Elenco: Andradina Azevedo, Arua Maroni, Clara Andrezzo, Daniele Rosa, Danilo Grangheia, Diana Mota, Dida Andrade, Fernanda Galvão, João Federici, Nara Lobo, Sue Nhamandu

Montagem: Pedro Silva

Trilha Sonora: Arthur Decloedt

Estreia no Brasil: 07.04.2016

Duração: 76 min.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Julgamento de Viviane Amsalem / A Separação



Bom Para Todos

Há quem aponte O Julgamento de Viviane Amsalem (Israel/Alemanha/ França, 2014) como um novo A Separação (Irã, 2011), oscarizado trabalho de Asghar Farhadi. Contudo, ainda que ambos os filmes discorram sobre términos de matrimônio, a comparação é reducionista uma vez que as diferenças entre os dois são deveras salientes. Assim, se no caso do primeiro título a protagonista Viviane esbarra na objeção de seu marido quanto ao divórcio, na produção iraniana a mulher recebe de imediato a anuência do consorte perante sua intenção de pôr fim à relação - ficando pendente nesse contexto apenas a questão da guarda da filha.  

Desta feita, A Separação aborda não o rompimento em si, já que este se mostra incontroverso, mas sim as consequências catastróficas advindas a partir dele para os envolvidos, viés esse que serve para levantar uma interessante reflexão: a decisão de largar tudo em prol de uma melhor qualidade de vida, como feito pela esposa, configura um ato de liberdade ou de egoísmo?
Por seu turno, O Julgamento de Viviane Amsalem tem por foco preponderante a própria separação na medida em que a personagem principal tem a vida estancada por anos graças a recusa do marido em deixá-la seguir longe dele. Para Viviane não há dia seguinte nem eventos trágicos posteriores, mas sim a clausura de viver submetida a uma relação falida e não poder experimentar a liberdade almejada em decorrência dos preceitos religiosos de uma sociedade patriarcal na qual o laicismo é uma utopia, daí sua ação de divórcio ser julgada em um tribunal rabínico que macula o ordenamento jurídico através de procedimentos nos quais a ciência do Direito cede espaço a religião.
Indo além nas particularidades que diferenciam as obras, A Separação possui um roteiro muitíssimo bem amarrado no qual, como outrora mencionado, uma sucessão de ocorrências graves, não raro influenciados pelos ditames do Alcorão, forçam o encontro dos personagens em locais diversos - no que se incluem suas residências, uma delegacia, um hospital, um colégio e a sede local do Poder Judiciário - numa espiral dramática em que os seres que dela fazem parte ultrapassam a fronteira da racionalidade e até da honestidade manipulando a verdade em atenção ao seu instinto de preservação e em decorrência de sua natureza humana e, por conseguinte, falha. Já em Viviane Amsalem impressiona a forma veemente com que um argumento curto sustenta o filme ao longo de duas horas; os personagens, nesse sentido, são vistos praticamente em tempo integral entre as quatro paredes de uma sala de audiência numa eficiente alusão a prisão que se tornara a vida da mulher que ousara romper o sacramento do casamento “apenas” por não mais sentir afeto pelo companheiro, estratégia narrativa essa que poderia soar tediosa e que assim não se comporta em razão do ótimo desenvolvimento das problemáticas inerentes e impeditivas da homologação do divórcio, bem como a forma com que sem artificialismos são delineados os comportamentos das figuras retratadas: os homens são em grande parte frios e indiferentes a demanda feminina enquanto as mulheres, sejam elas condicionadas ou não a humilhação de permanecer subservientes a vontade de seus senhores e do Estado que assim as manipula, são retratadas sem vitimismo, ainda que com maior dose de emoção. A partir de recursos mínimos O Julgamento de Viviane Amsalem se impõe como um poderoso libelo feminista em defesa de mulheres vilipendiadas em suas vontades, sendo assim um colosso na luta contra a misoginia e a opressão masculina silenciosa ou estridente.
Destarte, tais produções entregam variações de um tema em comum, podendo servirem de complemento uma para a outra conforme a interpretação e o desejo do espectador. Seja como for, o que não é correto, porém, é a comparação barata das obras como se pudessem ser confundidas, afinal, cada uma possui objetivos particulares e raios de ação próprios, o que, por óbvio, é bom para todos e, principalmente, para o cinema.
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1.Leia mais sobre A Separação em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/separacaocenas-de-um-casamento.html.

FICHA TÉCNICA - O Julgamento de Viviane Amsalem

Direção e Roteiro: Ronit Elkabetz, Shlomi Elkabetz
Elenco: Abraham Celektar, Albert Iluz, Dalia Beger, David Ohayon, Eli Gornstein, Evelin Hagoel, Gabi Amrani, Keren Mor, Menashe Noy, Rami Danon, Roberto Pollack, Ronit Elkabetz, Sasson Gabai, Shmil Ben Ari, Simon Abkarian
Produção: Denis Carot, Marie Masmonteil, Sandrine Brauer, Shlomi Elkabetz
Fotografia: Jeanne Lapoirie
Montador: Joel Alexis
Trilha Sonora: Bassel Hallak
Estreia: 20/08/2015 (Brasil)
Duração: 115 min.

FICHA TÉCNICA – A SEPARAÇÃO

Direção, Roteiro e Produção: Asghar Farhadi
Elenco: Ali-Asghar Shahbazi, Babak Karimi, Kimia Hosseini, Leila Hatami, Merila Zarei ED Hayedeh Safiyari, Peyman Moadi, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Shahab Hosseini, Shirin Yazdanbakhsh
Fotografia: Mahmoud Kalari
Estreia: 20/01/2012 (Brasil)
Duração: 123 min.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Regresso



Reunião Exitosa

O Regresso (EUA, 2015) reúne o melhor de dois mundos presentes na filmografia de Alejandro González Iñárritu, uma vez que alia com perfeição o seu fascínio pela desgraça – vista de forma recorrente em obras como Biutiful (Espanha, 2010), 21 Gramas (EUA, 2003) e Amores Brutos (México, 2000) – ao dinamismo da linguagem clássica do cinema norte-americano, aspecto último esse que ganha contornos ainda mais nítidos por tratar o filme em seu enredo de Hugh Glass, um caçador de peles cuja vida marcara por agruras o habilitou a se tornar uma lenda do folclore estadunidense.

Com efeito, para narrar a impressionante história de Glass que, em 1823, mesmo abandonado na natureza selvagem com parcas condições de saúde, enfrentou toda sorte de desafios em busca de vingança contra o algoz que ceifou a vida de seu filho e tramou contra a sua, Iñárritu se vale de uma narrativa vertiginosa que intercala momentos de arrebatadora tensão com sequencias de notável beleza e candura – nitidamente inspiradas em A Árvore da Vida (EUA, 2011) e Amor Pleno (EUA, 2012), de Terrence Mallick, no que tange a forma como a câmera percorre paisagens e locações. 
Neste sentido, de grande importância se revela o oscarizado trabalho de fotografia de Emmanuel Lubezki na medida em que torna cada plano uma pintura viva capaz de realçar a crueza de uma região ainda tão inóspita e de um modo de vida tão truculento. Não a toa todo o perigo e toda violência resultam deveras palpáveis, o que também é fruto, vale lembrar, da excelente edição sonora que permite ao espectador a sensação de pertencer ao universo fílmico – sem apelar para o famigerado recurso da terceira dimensão – além, é claro, das impecáveis interpretações de Tom Hardy e, principalmente, Leonardo DiCaprio que se mostra o ator perfeito para encarnar toda diversidade de sofrimentos desenhada por Iñárritu a partir do romance de Michael Punke.
É bem verdade que O Regresso não goza de ineditismo, sendo até um tanto previsível no decorrer de sua narrativa, porém, há de ser considerado que esse é o tipo de obra em que mais vale compreender e se deliciar com a forma feroz com que o conteúdo é levado para as telas e com as reflexões que este, a despeito de sua certa previsibilidade, consegue fomentar, o que nesse caso abrange o viés virulento com que o homem se relaciona entre si e com o meio ambiente que o abriga.
E é assim, com arrimo nos tradicionais enredos hollywoodianos de luta por sobrevivência em meio a uma natureza primitiva e de busca incessante por vingança, que Iñárritu tem a seu dispor um prato cheio para explorar e congregar aquilo que de melhor e mais marcante há em seus filmes, tarefa essa cumprida sem qualquer desperdício.

Ficha Técnica

Título Original: The Revenant
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Mark L. Smith
Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, David Kanter, James W. Skotchdopole, Keith Redmon, Mary Parent, Steve Golin
Elenco: Tom Hardy, Leonardo DiCaprio, Brad Carter, Brendan Fletcher, Dave Burchill, Domhnall Gleeson, Javier Botet, Joshua Burge, Kory Grim, Kristoffer Joner,  Lukas Haas, Paul Anderson, Robert Moloney, Will Poulter
Trilha Sonora: Bryce Dessner, Carsten Nicolai, Ryûichi Sakamoto
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Montagem: Stephen Mirrione
Estreia no Brasil: 04.02.2016
Duração: 151 min.