EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 27 de março de 2016

Anomalisa



Livre Acesso

Michael Stone, um bem sucedido escritor de manuais de atendimento do consumidor, não consegue ver graça no mundo e nas pessoas. Solitário, tudo lhe soa tedioso e repetitivo causando profundo desconforto. Em meio a uma crise de ansiedade, Stone conhece a carente Lisa por quem se interessa até o ponto em que seu egocentrismo e egoísmo voltam a ditar as regras, passando o personagem a novamente ver e, sobretudo, ouvir a todos de forma igual.

Não obstante a profusão de sentimentos que a sinopse acima sugere, Anomalisa (EUA, 2015) é sem dúvida o filme mais acessível e simples de Charlie Kaufman. Sua narrativa linear e tradicional pouco se aproxima, por exemplo, dos mirabolantes enredos de Sinédoque Nova York (EUA, 2008)¹, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (EUA, 2004) e Adaptação (EUA, 2002); contudo, ainda que tal conclusão possa resultar decepcionante para alguns, a apontada simplicidade da obra não custa a se revelar como uma mera aparência dada a presença de um elemento que a torna tão estranha e especial quanto os títulos outrora citados: a técnica stop motion.
 Seja por meio da paleta de tons sépia, seja através da decisão de não esconder as imperfeições do design de seus bonecos, o formato da animação colabora em muito para a construção do tom melancólico exigido pela história e tão caros aos textos de Charlie Kaufman. Não a toa, mostra-se essencial a presença de Duke Johnson na co-direção, pois é ele, enquanto veterano na condução de trabalhos que não seguem o modelo live action, o responsável pela perfeita transposição do roteiro de Kaufman para uma linguagem tão diversa - parceria essa que, vale lembrar, atinge seu ápice na já antológica, triste e um tanto surreal sequência de sexo ‘interpretada’ pelo casal de personagens principais.
Uma vez que a falsa impressão de simplicidade fora devidamente afastada, outra conclusão equivocada deve também ser driblada, qual seja o suposto triunfo da forma sobre o conteúdo. Na verdade o fiel da balança em Anomalisa resta bastante equilibrado quanto a referida dicotomia, motivo pelo qual – considerando que as qualidades da forma já foram salientadas alhures – merecem os méritos do conteúdo o seu justo espaço, daí ser inevitável aproveitar a ocasião para ressaltar o modo precisamente humano e crível com que seres e ambientes são delineados em riqueza de detalhes - com efeito, é genial a ideia de dar aos personagens, no que se excepciona Michael Stone, uma voz masculina idêntica, pois ao mesmo tempo que denota o quão pretensioso o protagonista é por se considerar exclusivo em meio aos demais, demonstra também o quão  depressivo esse enfado é. Assim, o errante Stone é moldado como uma figura por vezes cruel, mas também digna de pena, o que o torna um poço de contradições e, portanto, de humanidade.  
Como antes dito, Anomalisa pode resultar simples na forma direta com que se comunica, mas isso em nada diminui sua beleza e inteligência.
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1.Leia mais sobre Sinédoque Nova York em http://www.setimacritica.blogspot.com.br/2010/04/sinedoque-nova-york_26.html.

Ficha Técnica

Direção: Charlie Kaufman, Duke Johnson
Roteiro: Charlie Kaufman
Elenco: Jennifer Jason Leigh (Lisa), David Thewis (Michael Stone), Tom Noonan
Produção: Charlie Kaufman, Duke Johnson, Rosa Tran
Fotografia: Joe Passarelli
Montagem: Garret Elkins
Trilha Sonora: Carter Burwell
Estreia: 28.01.2016 (Brasil)
Duração: 90 min.

domingo, 20 de março de 2016

O Quarto de Jack



Nó na Garganta

É difícil ser objetivo diante de uma obra tão tocante quanto O Quarto de Jack (Canadá/Irlanda, 2015). O drama emociona, provoca nó na garganta e, o que é melhor, sem jamais soar como um dramalhão ainda que grandes os riscos de assim se comportar.

De considerável importância para o êxito do resultado final, o meticuloso roteiro – adaptado pela própria autora da obra original – cinde a narrativa em dois atos respectivamente marcados pela clausura e liberdade. Nesta toada, durante a prisão salta aos olhos a forma lúdica com que a personagem feminina tenta driblar a crueza da realidade para garantir o mínimo de inocência a infância de seu filho e adiante o incisivo rompimento dessa tática quando expõe a verdade àquele, revelando a existência de um mundo além das quatro paredes do quarto onde vivem, o que, por óbvio, provoca a negação e o desespero de uma criança que vê todas suas certezas ruírem. Carregados das emoções a eles inerentes tais momentos por si só já renderiam um ótimo filme, mas eis que O Quarto de Jack leva além a abordagem e o êxito de sua narrativa ao se debruçar sobre os acontecimentos posteriores ao retorno/chegada ao mundo exterior; nessa etapa o filme cresce vertiginosamente ao mostrar com delicadeza ímpar o estranhamento de Jack perante uma realidade que imaginava existir apenas na televisão, bem como a depressão de sua mãe frente os traumas experimentados nos anos de prisão e o questionamento a ela dirigido quanto até que ponto agira de modo correto ao manter a criança consigo ao invés de tê-la mandado embora através de seu carcereiro logo nos primeiros meses de vida daquela.
E não para por aí: o longa-metragem também dedica precioso espaço a dificuldade experimentada por aqueles que desse lado ficaram ao tentar reencaixar em suas vidas quem há muito se fora e que a princípio sequer retornaria. Some-se a isso o preconceito do qual Jack é vítima por parte do avô - haja vista ser o menino fruto dos reiterados abusos sexuais sofridos pela mãe durante o cárcere - e o que se tem é um exemplo raro de completude narrativa em que aspectos diversos e, sem exceção, importantes da história são abordados a contento ao mesmo tempo em que ramificações são sumariamente descartadas porque não interessam aos protagonistas. Para Jack e sua genitora pouco importa ter notícias do avô preconceituoso ou até mesmo do homem que lhes aprisionara; com efeito, a forma ríspida com que tais figuras são limadas da trama se coaduna com o desejo daqueles primeiros de aproveitar aquilo que de bom o mundo e as demais pessoas têm a oferecer, possibilidade essa resumida em duas lindas sequências, quais sejam a da fuga de Jack quando este se depara com uma inédita natureza, bem como quando, sob o olhar de felicidade da mãe, consegue pela primeira vez brincar com outra criança. Tais cenas reluzem o cuidado e sensibilidade do cineasta Lenny Abrahamson que agrega suavidade a uma história tão dura, além, é claro, do talento de Jacob Tremblay que parece nascido, talhado para o papel que interpreta – é comum atores prodígios não conseguirem repetir na adolescência ou fase adulta as brilhantes performances apresentadas na infância, vide os casos de Anna Paquin, Haley Joel Osment, Abigail Breslin e Chloë Grace Moretz, porém, qualquer que seja o futuro, é certo que será eterno o deleite de vê-lo ao lado da também ótima Brie Larson numa interpretação que atende a todos os anseios da trama e de seu diretor no que significa emocionar sem ser apelativo.
Graças a conjunção de suas qualidades, o impacto causado por O Quarto de Jack é o mesmo quer o espectador saiba ou não como se desenvolverá o enredo. Um triunfo, portanto.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Room
Direção: Lenny Abrahamson
Roteiro: Emma Donoghue
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Cas Anvar, Jack Fulton, Jacob Tremblay, Jee-Yun Lee, Joan Allen, Joe Pingue, Justin Mader, Kate Drummond, Matt Gordon, Ola Sturik, Randal Edwards, Rodrigo Fernandez-Stoll, Rory O'Shea, Sandy McMaster, Sean Bridgers, Tom McCamus, Wendy Crewson, William H. Macy, Amanda Brugel, Zarrin Darnell-Martin
Produção: David Gross, Ed Guiney
Fotografia: Danny Cohen
Montagem: Nathan Nugent
Trilha Sonora: Stephen Rennicks
Estreia: 18/02/2016 (Brasil)
Duração: 118 min.

sábado, 5 de março de 2016

O Clube



Sem Ressalvas Nem Concessões

No ano em que Spotlight – Segredos Revelados (EUA, 2015) saíra vitorioso da festa do Oscar com as estatuetas de melhor filme e roteiro original, O Clube (Chile, 2015) não conseguira sequer ser indicado na categoria melhor filme estrangeiro. Sandices desse naipe reforçam a cada edição o discurso daqueles que apontam a falta de credibilidade artística da premiação; neste passo, apesar de seu posicionamento tímido, para não dizer covarde, perante o assunto da pedofilia clerical, Spotlight já demonstrava desde muito antes da referida cerimônia o quão superestimado vinha sendo. Tal constatação negativa cresce ainda mais se além da análise isolada do produto for ele escrutinado sob o prisma da comparação com O Clube. Dentro deste contexto, a similitude temática das produções contrasta com as diferentes formas por elas utilizadas para denunciar e discorrer sobre os desvios de conduta de membros da Igreja católica, ensejando, assim, a inevitável conclusão de que Spotlight não faz sequer cócegas no espinhoso tema¹. Dito isso, cabe analisar o que torna, por seu turno, o trabalho de Pablo Larraín tão relevante e superlativo.

Voltando o olhar para o cotidiano de padres afastados da batina vivendo em isolamento numa casa de penitência, o diretor chileno repete uma façanha já antes demonstrada em No (Chile/França/EUA, 2012), qual seja a notável capacidade de tornar envolvente assuntos a princípio áridos para o âmbito do cinema de ficção². Valendo-se de uma toada dessa vez mais sombria e perturbadora, Larraín não faz em O Clube qualquer tipo de concessão, o que lhe permite criar imagens chocantes além de diálogos estarrecedores que, ao contrário de Spotlight, jamais são interrompidos em nome do bem-estar do público. Neste sentido, os atos vis e escabrosos outrora cometidos pelos padres são relatados com riqueza de detalhes numa abordagem dura, honesta e, portanto, realista dos fatos. A baixeza moral de tais homens não é aqui camuflada, sendo escancarada sem que reste violado o devido direito de apresentação de defesa por parte dos respectivos personagens.
Frise-se que Larraín constrói sua obra a partir de uma opção narrativa arriscada porque repleta de armadilhas: no enredo os perseguidos são os indignos que, nessa posição, tem por algozes uma vítima do passado, além da própria Igreja. Tal condução da história, vale dizer, poderia facilmente provocar uma errônea inversão de valores, risco esse driblado através de um processo de humanização dos personagens cujo objetivo não é torná-los agradáveis e queridos aos olhos do espectador, mas sim fieis a suas personalidades e pecados.
Desta feita, revela-se um deleite testemunhar o domínio de Larraín sobre a linguagem audiovisual, isso porque o mesmo não demonstra qualquer dúvida sobre qual a porção exata de incômodo a causar, daí não extravasar a fronteira do que é estritamente necessário para tanto³. Com efeito, o drama retratado é habilmente dirigido sem que excessos sejam cometidos em prol de um estilo ou de um ego. Para Larraín o que importa é ser coerente com as emoções envolvidas, aspecto esse em que conta com a valorosa colaboração de um elenco impecável no qual difícil é apontar quem expõe o rosto mais sofrido e marcado pela culpa.
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1.     Leia mais sobre Spotlight em http://setimacritica.blogspot.com.br/2016/01/spotlight-segredos-revelados.html.
2.     No tratara do plebiscito chileno que, na década de 1980, acarretou a saída de Augusto Pinochet do poder. Leia mais sobre o filme em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/04/no.html.
3.     Qualidade essa não raro ausente, por exemplo, em Gaspar Noé.

FICHA TÉCNICA

Título Original: El Club
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Daniel Villalobos, Guillermo Calderón, Pablo Larraín
Elenco: Alejandro Goic, Alejandro Sieveking, Alfredo Castro, Antonia Zegers, Catalina Pulido, Diego Muñoz, Erto Pantoja, Francisco Reyes, Gonzalo Valenzuela, Jaime Vadell, José Soza, Marcelo Alonso, Paola Lattus, Roberto Farías
Produção: Juan de Dios Larraín, Pablo Larraín
Fotografia: Carlos Cabezas
Montador: Sebastián Sepúlveda
Trilha Sonora: Carlos Cabezas
Estreia: 01/10/2015 (Brasil)
Duração: 98 min.