EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Melhores de 2015



2015 não foi fácil. Tal como no ano anterior, muitos foram os títulos que frustraram as  expectativas neles depositadas, daí ter sido necessário extrair leite de pedra para cumprir a tarefa de eleger o que de melhor fora exibido nas telas de Belém ao longo desses meses. Roguemos por melhores ventos em 2016!
1.   Relatos Selvagens
 
Insano é um adjetivo que bem se adequa a Relatos Selvagens, afinal, numa espiral de situações realisticamente absurdas o filme vai a cada conto surpreendendo o espectador ao expor, em meio a doses cavalares de humor negro, o lado animalesco que cada um esconde e que não raro se vê tentado a deixar aflorar por meio da vingança e da violência.

2.   Birdman Ou (A Inesperada Virtude Da Ignorância)
Birdman é, sem dúvida, um assombroso caso de eficiência cinematográfica quanto a forma e ao conteúdo. Num texto exemplar emoldurado por uma linguagem audiovisual digna de aplausos, o filme discute meandros da produção artística como a banalidade e a frivolidade na qual ela com o passar do tempo insiste em resvalar. Leia a crítica em:

3.   Acima das Nuvens
Acima das Nuvens, assim como Birdman,  também discorre sobre os meandros da produção artística, concentrando suas forças, ao contrário desse, no processo de preparação de atrizes perante os papeis que irão vivificar, contexto esse que ainda permite espaço para o estudo do conflito entre novo e velho, contemporâneo e passado.

4.   O Sal da Terra
Win Wenders entrega um documentário que se afasta da frieza característica do gênero, logrando um êxito indiscutível: deixar a plateia aturdida com as imagens captadas pelo fotógrafo Sebastião Salgado tal como por ele almejado. Leia a crítica em:

5.   Que Horas Ela Volta?
Anna Muylaert desenvolve com leveza um enredo aparentemente simples, mas que na verdade detém inconteste complexidade dos arcos dramáticos seja em razão da concepção psicológica de seus personagens seja em decorrência das discussões sociais levantadas. 

6.   Samba
Eric Toledano e Olivier Nakache, tal como visto em Intocáveis, novamente se valem de uma estrutura fílmica hollywoodiana para tratar, com bom humor, o espinhoso assunto da imigração ilegal que tanto incomoda os países desenvolvidos.

7.   Mad Max: Estrada da Fúria
Estrada da Fúria aglutina o que de melhor seus antecessores mostraram, numa trama que não almeja ser mirabolante. Mirabolante, na verdade, é a forma como a história é contada. 

8.   Sicario – Terra de Ninguém
Em Sicario a construção imagética é dotada de tamanho realismo que difícil é não relevar os poucos deslizes do filme e usufruir do impressionante trabalho de Denis Villeneuve que, além de verdadeiro arquiteto da linguagem audiovisual, também é um exímio diretor de elenco, arrancando de seus atores interpretações não menos que ótimas. Leia a crítica em:  

9.   Club Sandwich
Club Sandwich é um exemplo vitorioso de obra que gira exclusivamente ao redor do ponto de virada de seu roteiro, qual seja o instante no qual um filho se desprende da relação de exclusividade mantida com a mãe em prol do convívio com a primeira namorada, num despertar sexual que o aproxima da vida adulta e o afasta em definitivo da infância.

10.  Love
Em meio a seus pontos positivos e negativos, Love reacende a discussão sobre o rompimento da fronteira entre o cinema pornográfico e aquele tido como tradicional, daí que inegável sua relevância enquanto exemplar de um cinema não conformista que abraça a polêmica com destemor no intuito de fazer com que a atividade cinematográfica permaneça funcionando como instrumento de provocação e não apenas de entretenimento.

11. Star Wars – O Despertar da Força
13.  Divertida Mente / O Pequeno Príncipe
14. Uma Nova Amiga
15. Homem Irracional

Melhor Direção: Alejandro González Iñárritu (Birdman)

Melhor Ator: Michael Keaton (Birdman)


Melhor Ator Coadjuvante: Tahar Rahim (Samba)


Melhor Atriz: Regina Casé e Camila Márdila (Que Horas Ela Volta?)

Melhor Atriz Coadjuvante: Erica Rivas (Relatos Selvagens)
Melhores Efeitos Especiais: Mad Max: Estrada da Fúria

Melhor Fotografia: Birdman

Melhor Roteiro Adaptado: Samba

Melhor Roteiro Original: Birdman

Melhor Montagem: Love

Melhor Direção de Arte: Mad Max: Estrada da Fúria

Melhor Figurino: A Colina Escarlate

Melhor Trilha Sonora: Birdman

domingo, 27 de dezembro de 2015

A Colina Escarlate



Tão Bonito Quanto Previsível

Ao discorrer sobre os três filmes da franquia Star Wars lançados entre 1999 e 2005, Isabela Boscov ressalta que George Lucas se esmerou na criação de mais “efeitos digitais, mais criaturas estranhas, mais personagens [...] sem ver que estava subtraindo da saga seu corpo, e deixando nela só o figurino”¹. Tal conclusão, por certo, se adequa a outro sem número de títulos dentre os quais cabe salientar A Colina Escarlate (EUA, 2015) tamanha a beleza plástica que Guillermo Del Toro apresenta desacompanhada, contudo, de um roteiro a altura.

Embora o diretor mexicano, junto com suas obras, seja constantemente supervalorizado, através da produção em comento o mesmo retira qualquer dúvida que pudesse pairar sobre seu apuro estético que nesse caso ganha as telas com a ajuda de belíssimas direções de fotografia, arte e figurino, frentes de batalha essas responsáveis por tornar real aquilo que o cineasta concebera em sua imaginação principalmente no que tange a paleta de cores.
Destarte, o vermelho se alia ao verde, ao preto, ao branco e ao sépia numa profusão de tons cromáticos que magistralmente combinados mantém qualquer um encantado com o caleidoscópio formado até o instante em que o enredo começa a desapontar em razão do seu grau de previsibilidade. Também não ajuda, dentro deste contexto, a toada fantasmagórica dispensável porque nada de interessante acrescenta a trama, sendo a mesma na verdade utilizada tão somente para disfarçar o fato de o filme ser apenas mais um exemplo de relato de golpe do baú com contornos macabros. Nada de inovador, portanto, quanto ao conteúdo há. Exceto pelo belo desempenho de Jessica Chastain que brilha como nunca antes visto, A Colina Escarlate nada mais é do que um espetáculo para os olhos no qual a mente segue frustrada por não desfrutar de semelhante impacto.
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1.     Revista Veja. Ed. 2457. São Paulo: Abril, 23.12. 2015. p.112-3.

Ficha Técnica

Título Original: Crimson Peak
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Alec Stockwell, Bill Lake, Brigitte Robinson, Bruce Gray, Burn Gorman, Charlie Hunnam, Danny Waugh, Doug Jones, Emily Coutts, Gillian Ferrier, Javier Botet, Jim Beaver, Jim Watson, Joanna Douglas, Jonathan Hyde, Kimberly-Sue Murray, Leslie Hope, Matia Jackett, Peter Spence, Sofia Wells, Tamara Hope, Tom Hiddleston
Roteiro: Matthew Robbins, Guillermo Del Toro
Produção: Callum Greene, Guillermo del Toro, Jon Jashni, Thomas Tull
Fotografia: Dan Laustsen
Montagem: Bernat Vilaplana
Trilha Sonora: Fernando Velázquez
Estreia no Brasil: 15 de Outubro de 2015
Duração: 119 min.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Último Concerto



O Despertar do que Inexistia ou Adormecia

Quarteto de cordas vê sua continuidade de vinte e cinco anos ameaçada após o líder do grupo ser diagnosticado com Mal de Parkinson. Dito isso, O Último Concerto (EUA, 2012) poderia facilmente se valer de tal enfermidade como tema direcionador de toda a narrativa, porém, o foco sobre a mesma é, felizmente, desviado na medida em que o assunto se revela de uma importância menor cuja real função é servir de estopim para uma sequência de crises internas desencadeadas entre os demais músicos um tanto fatigados pela convivência de mais de duas décadas.

Assim, enquanto um trata a doença degenerativa do amigo com frieza ímpar e parte imediatamente em busca de um substituto, outra prefere respeitar o momento de fragilidade e aguardar por uma improvável estabilidade do homem que em breve não mais conseguirá tocar uma única nota, ao passo que o terceiro aproveita para propor mudanças na organização hierárquica do quarteto como forma de se sentir mais valorizado. Some-se um romance proibido a esse emaranhado de problemas antes inexistentes ou adormecidos e o que se constata é um exemplo de como adultos podem se comportar de modo infantil e mesquinho perante situações de crise que podem vir ou não a lhes favorecer.
Dentro deste contexto, um elenco deveras competente vivifica os diversos dramas citados sem permitir que qualquer toada novelesca se instaure, o que, por óbvio, também é fruto da correta direção de Yaron Zilberman que estreia na direção de ficção entregando um interessantíssimo trabalho que vai além do mero entretenimento. Por certo, O Último Concerto seria mais valorizado caso pertencesse a grife europeia de cinema.

Ficha Técnica

Título Original: A Late Quartet
Direção: Yaron Zilberman
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Christopher Walken, Catherine Keener, Mark Ivanir, Imogen Poots, Liraz Charhi, Wallace Shawn
Roteiro: Seth Grossman, Yaron Zilberman
Produção: David Faigenblum, Emanuel Michael, Mandy Tagger, Tamar Sela, Vanessa Coifman, Yaron Zilberman
Fotografia: Frederick Elmes
Trilha Sonora: Angelo Badalamenti
Estreia no Brasil: 02 de Outubro de 2014
Duração: 105 min.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Mistress America



À Sombra de Frances

Mistress America (EUA, 2015) em diversos momentos faz o espectador lembrar de Frances Ha (EUA, 2012). Isso ocorre não só por se tratar de novo projeto da dupla Noah Baumbach e Greta Gerwig, mas, principalmente, porque mais uma vez os conflitos da narrativa giram em torno da dificuldade que os adultos entre 30 e 40 anos enfrentam para se estabelecer profissional, emocional e economicamente. Entrementes, para estabelecer um mínimo possível de distanciamento entre as obras, Gerwig e Bawmbach adotam as seguintes medidas:
a) Divisão do protagonismo: Mistress America divide o protagonismo da personagem trintona interpretada por Gerwig com uma garota de 18 anos (a ótima Lola Kirke) recém-ingressada numa faculdade em Nova Iorque; neste sentido, embora a esta última seja dado considerável destaque, seus dramas soam prosaicos perante os da quase irmã mais velha, afinal, enquanto a primeira lida com dificuldades menores como uma ligeira decepção amorosa e a árdua tarefa de fazer novos amigos em um ambiente estranho, a segunda vê seu castelo de aparências ruir ante a falta de dinheiro e a desesperadora vontade de ter e de fazer algo significativo em meio a decepção advinda da constatação de que quanto mais rápido o tempo e a idade avançam, menores vão se tornando as chances de conseguir.Logo, por mais que os roteiristas tentem não há como ignorar: Mistress America tem como personagem principal uma mulher que já passara dos 30 anos em crise financeira tentando sem sucesso se firmar enquanto adulta independente e, supostamente, autossuficiente (Frances Ha?).
b) Mescla de estilos: em Frances Ha muitos viram forte influência de Woody Allen graças a toada verborrágica utilizada, opção essa mantida em Mistress America sem o mesmo êxito de antes porque pelo menos durante o primeiro terço de duração do filme considerável parte do falatório soa desinteressante, aparentando ser uma tentativa forçada e malsucedida de soar cool e cínico. Tal cenário recebe uma melhora substancial quando entra em cena um humor caótico que em muito bebe da fonte de Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos (Espanha, 1988) dado o acúmulo de personagens num mesmo recinto em circunstâncias constrangedoras, simultâneas e por vezes surreais de tão debochadas que são. Já próximo ao término, contudo, a comédia rasgada cede espaço a um ritmo menos frenético, mais dramático e denso que rememoram os momentos de maior brilho do estilo sóbrio e melancólico de Baumbach visto em A Lula e a Baleia (EUA, 2005) e, como não poderia deixar de ser, Frances Ha.
Desta feita, Mistress America reúne assuntos usualmente explorados por seu diretor numa embalagem que também emula Woody Allen e Pedro Almodóvar. Da junção desses três estilos surge uma obra com dificuldade de impor uma identidade própria, o que é conseqüência em parte de um roteiro que, apesar de alguns bons instantes, entrega uma história carente de ineditismo, daí a previsibilidade vez por outra dar as caras de maneira incômoda.
Ao que parece Gerwig e Bawmbach criaram para si um monstro chamado Frances Ha, cuja sombra está sempre à espreita sussurrando que sua qualidade é difícil de ser alcançada. Será?
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1.Leia mais sobre Frances Ha em http://www.setimacritica.blogspot.com.br/2013/11/frances-ha.html.

FICHA TÉCNICA

Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Greta Gerwig, Noah Baumbach
Elenco: Andrea Chen, Charlie Gillette, Cindy Cheung, Greta Gerwig, Heather Lind, Jasmine Cephas Jones, Joel Marsh Garland, Juliet Brett, Kathryn Erbe, Lola Kirke, Michael Chernus, Rebecca Henderson, Rebecca Naomi Jones, Seth Barrish, Shana Dowdeswell
Produção: Lila Yacoub, Noah Baumbach, Rodrigo Teixeira
Fotografia: Sam Levy
Montagem: Jennifer Lame
Trilha Sonora: Britta Phillips, Dean Wareham
Estreia: 14.08.15                 Estreia Brasil: 19/11/2015
Duração: 84 min.