EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Grace de Mônaco



Conto de Fadas Duvidoso

Assim como ocorrido em Diana¹ (Reino Unido, 2013), Grace de Mônaco (França/EUA/Bélgica/Itália, 2015) comete o equívoco de escolher uma atriz inadequada para o papel título. Se no primeiro caso Naomi Watts parecia um tanto franzina ante a exuberância de Lady Di, no segundo caso Nicole Kidman apresenta sinais de envelhecimento incompatíveis com o específico momento vivido entre os anos de 1961 e 1962 pela figura retratada². Dada a necessidade de ter um nome de peso no elenco capaz de garantir o retorno financeiro, a produção dirigida por Olivier Dahan desperdiça a oportunidade de escalar uma atriz nascida para interpretar Grace Kelly, qual seja January Jones que na série Mad Men brilhou ao incorporar Betty Draper, uma dona de casa em muito inspirada pela princesa de Mônaco – além de parecer fisicamente com Kelly, Jones ainda possui a facilidade, tal como visto no seriado, de apresentar a infelicidade da mulher que, apesar das ideais condições materiais de vida, sofre com a solidão decorrente da ausência do marido bem-sucedido, bem como com a impossibilidade de voltar a trabalhar e assim se sentir novamente útil.

Neste sentido, a insatisfação profissional sentida por Grace Kelly a partir do momento em que instada fora a servir como bibelô de seu marido perpassa por um caminho metalinguístico da narrativa que envolve a pré-produção do clássico Marnie – Confissões de uma Ladra (EUA, 1964), na medida em que o convite feito por Alfred Hitchcock para Kelly protagonizar a obra desperta nela o dilema de voltar a ser a estrela de Hollywood de outrora ou permanecer subserviente ao seu amado e as convenções sociais do principado regido por aquele. Embora interessantíssimo, lamentavelmente esse plot não é explorado a contento, sendo deixado de lado na trama por um viés político que defende uma influência um tanto inverossímil³ da princesa sobre a resolução da crise a época existente entre Mônaco e a França então governada pelo Gel. Charles de Gaulle - cuja participação no filme se resume a algumas caras e bocas. Desta feita, Grace de Mônaco abre duas frentes de abordagem sem resultar satisfatório em nenhuma, isso porque se contenta com um simples relato romantizado e novelesco que, ao contrário, tinha plenas condições de soar mais denso e marcante.
Incoerentemente o cinema não tem sabido lidar com as cinematográficas histórias das princesas mais recentes da história contemporânea...
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1.     Leia mais sobre Diana em http://setimacritica.blogspot.com.br/2015/03/diana.html.
2.    Em sentido semelhante Mariane Morisawa pondera: “Dá para entender que Nicole Kidman, a loira gelada dos tempos de hoje, interprete a loira gelada dos anos 1950. Mas, sem querer cair em preconceitos, é exigir demais do público que acredite nos dilemas da protagonista, que originalmente tinha 32 anos na época dos eventos do filme (26 ao largar a carreira para virar realeza), quando ela é interpretada por uma mulher de 46” (FONTE: http://veja.abril.com.br/noticia/entretenimento/grace-de-monaco-e-um-desastre-quase-completo/. Acesso em 26.11.15).
3.   Dentro deste contexto, Cássio Sterling Carlos alerta: “O aviso, nos créditos, de que ‘se trata de uma obra ficional, baseada em fatos reais’deve ser levado em consideração. Em vez de adotar o modo da cinebiografia tradicional, ‘Grace de Mônaco’ prefere delirar sobre a história real” (FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/10/1700134-apedrejado-em-cannes-grace-de-monaco-nao-e-ruim-como-dizem.shtml. Acesso em 26.11.15).

FICHA TÉCNICA

Título Original: Grace of Monaco

Direção: Oliver Hirschbiegel

Roteiro: Asash Amel

Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Roger Ashton-Griffiths, André Penvern, Paz Veja, Parker Posey, Geraldine Somerville, Jean Dell, Jeanne Balibar, Milo Ventimiglia, Nicholas Farrell, Philip Delancy, Robert Lindsay, Derek Jacobi

Produção: Arash Amel, Pierre-Ange Le Pogam

Fotografia: Éric Gautier

Montagem: Olivier Gajan

Estreia: 29/10/2015

Duração: 103 min.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Sicario – Terra de Ninguém



A Derrota das Ressalvas

Sicario – Terra de Ninguém (EUA, 2015) é uma obra forte, contundente e de sequências arrasadoras dado o grau de tensão com que retratadas. Todo esse êxito corrobora em última instância o talento de Denis Villeneuve e prova para quem ainda pudesse duvidar – mesmo depois de O Homem Duplicado (Canadá/Espanha, 2013)¹ – que o canadense é um expert da narrativa cinematográfica em fase impecável da carreira tal como um dia ocorrera com nomes como Brian de Palma e David Fincher, por exemplo.
Como de costume, há quem prefira ressaltar as falhas e frisar que o roteiro do longa-metragem por vezes peca ao inserir uma subtrama desnecessária sobre a história familiar de um policial corrupto, bem como ao manipular sobremaneira as emoções e a trama mediante a apresentação de algumas soluções fáceis e pouco verossímeis². É claro que tais ressalvas não conseguem nem podem ser ignoradas, porém, a construção imagética é em outros vários instantes dotada de tamanho realismo que difícil é não relevar os poucos deslizes do filme e usufruir do impressionante trabalho de Villeneuve que, além de verdadeiro arquiteto da linguagem audiovisual, também é um exímio diretor de elenco, arrancando de seus atores interpretações não menos que ótimas.
Dentro deste contexto, a performance de Emily Blunt há de ser destacada enquanto a figura feminina que tenta se firmar e impor num meio misógino, tarefa essa cumprida sem o equívoco de masculinizar a personagem nem compô-la frágil ao extremo, atingindo-se, assim, um meio termo que torna a protagonista bastante interessante ainda que sua inocente busca pela verdade e a decepcionante constatação de que certo e errado se confundem numa realidade de valores totalmente invertidos não seja algo completamente novo.
Neste sentido, sem nenhum demérito, o ineditismo não é a meta principal de Sicario cujo real objetivo é retratar um pouco da guerra contra o tráfico de drogas da forma mais realista e intensa possível - o que, vale dizer, o diferencia, por exemplo, da superestimada série Narcos que pouco acrescenta a um assunto já tão abordado.  Graças ao modo como foram filmados e interpretados, até mesmo os momentos e pontos de virada carentes de ineditismo resultam impactantes e memoráveis, o que faz da produção responsável por dar novo fôlego ao gênero policial tão explorado nos últimos anos pelos seriados televisivos, mas deixado um tanto de lado pelo cinema.
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1.Leia mais sobre O Homem Duplicado em http://setimacritica.blogspot.com.br/2015/05/o-homem-duplicadoo-duploo-menino-no.html.
2. Nesta toada sugere-se a leitura da crítica disponível em http://www.planocritico.com/critica-sicario-terra-de-ninguem/.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Sicario
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Emily Blunt, Josh Brolin, Benicio Del Toro, Alan D. Purwin, Daniel Kaluuya, Dylan Kenin, Jeffrey Donovan, Jon Bernthal, Julio Cedillo, Kaelee Vigil, Lora Martinez-Cunningham, Maximiliano Hernández, Raoul Trujillo, Sarah Minnich, Victor Garber
Produção: Basil Iwanyk, Edward McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill
Fotografia: Roger Deakins
Montagem: Joe Walker
Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson
Estreia: 22/10/2015 (Brasil)
Duração: 121 min.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Perdido em Marte



Otimismo Inverossímil

Considerando que Perdido em Marte (EUA, 2015) narra a saga do astronauta deixado para trás sozinho no planeta vermelho, faz sentido Ridley Scott dizer que seu filme consiste na “versão em ficção científica de Robinson Crusoé”. Tal analogia, inevitavelmente, traz em seu bojo toda uma idéia de solitude decorrente da falta de companhia do homem abandonado em um ambiente inóspito, daí ser tão frustrante a constatação de que o longa-metragem preferira deixar de lado qualquer abordagem psicológica ou metafísica para se concentrar na mera toada do entretenimento. É claro que tal opção é válida – até porque como bom contador de histórias que é Scott apresenta uma narrativa bem amarrada que não cansa e diverte – porém, de forma inconteste, surpreende qualquer espectador mais experiente e/ou exigente a falta de ambição artística daquele que um dia levara para as telas de maneira tão enigmática e cool o conto Blade Runner de Philip K. Dick.
Neste passo, a produção perde a oportunidade de explorar a contento seus personagens coadjuvantes, aproveitando, portanto, de modo parco o elenco de peso que possui. Assim, a narrativa segue focada nas costas de Matt Damon que acaba enclausurado por um roteiro inverossímil que não hesita em tornar descontraído e esperançoso o comportamento do protagonista. Some-se a isso o fato de que a direção de Scott não demonstra qualquer intenção de deixar menos engraçadinha a jornada intimista e dramática do astronauta, daí que a Damon resta apenas se adaptar com o mínimo de dignidade a tal levada - aliás, o intuito de fazer um produto voltado precipuamente para a diversão é tão notório que a produção comete o exagero de fazer da trilha musical um respiro cômico, fazendo, desta feita, que as canções disco reproduzidas soem um tanto insuportáveis.
Levando em conta o rasteiro aproveitamento do potencial dramático da história, resulta mais interessante ver ou rever a trajetória da incansável e não menos desesperada perdida no espaço interpretada por Sandra Bullock em Gravidade¹ (EUA, 2013) ou até mesmo optar pela mais emocionante versão não oficial de Robinson Crusoé já filmada, qual seja Náufrago (EUA, 2000) e a arrepiante atuação de Tom Hanks, solitário praticamente do início ao fim do filme exceto pela companhia de seu Sexta-feira materializado no icônico Wilson. Eis um caso em que apenas um homem e uma bola são muito mais significativos do que toda a parafernália tecnológica e grande elenco de Perdido em Marte. O menos é mais.

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1.     Leia mais sobre Gravidade em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/10/gravidade.html.


FICHA TÉCNICA

Título Original: The Martian
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Drew Goddard
Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Aksel Hennie, Brian Caspe, Chen Shu, Chiwetel Ejiofor, Donald Glover, Eddy Ko, Enzo Cilenti, Geoffrey Thomas, Greg De Cuir, Gruffudd Glyn, Jeff Daniels, Jonathan Aris, Kate Mara, Kristen Wiig, Lili Bordán, Mackenzie Davis, Mark O'Neal, Matt Devere, Michael Peña, Mike Kelly, Naomi Scott, Narantsogt Tsogtsaikhan, Nick Mohammed, Peter Linka, Sean Bean, Sebastian Stan, Szonja Oroszlán, Yang Haiwen
Produção: Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Simon Kinberg
Fotografia: Dariusz Wolski
Montagem: Pietro Scalia
Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams
Estreia: 01/10/2015 (Brasil)
Duração: 141 min.