EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Acima das Nuvens



Dicotomias em Voga

Acima das Nuvens (Alemanha/França/Suíça, 2014) em muitos aspectos dialoga com Birdman Ou (A Inesperada Virtude Da Ignorância) (EUA, 2014), afinal, tal como na produção oscarizada, o roteiro de Olivier Assayas discorre sobre os meandros da produção artística, sobretudo teatral, sem deixar de lançar um olhar irônico em direção ao cinema de entretenimento e sua rasa profundidade. Não fosse o bastante, ambos os filmes ainda se esmeram em estreitar os laços entre a ficção dos personagens a serem interpretados no palco e a realidade de seus respectivos intérpretes; contudo, diferentemente do trabalho de Alejandro González Iñárritu, Assayas não se debruça sobre os bastidores da pré-produção executiva do espetáculo teatral, optando, em contrapartida, por concentrar suas forças no processo de preparação das atrizes para com os papeis que irão vivificar, aspecto esse no qual a fusão entre personagem e “pessoa real” vai pouco a pouco ocorrendo de maneira não saliente e explícita como em Birdman¹ mas sim de modo gradual e fluído, sendo o espectador pego meio que de surpresa nesse sentido – o que muito lembra aquilo que o brasileiro Eduardo Coutinho fizera em Jogo de Cena² (Brasil, 2007).
Dentro deste contexto, Assayas aproveita para fundir o jogo de espelhos entre ator e personagem com a discussão sobre a qualidade do cinema popular e o valor daqueles que nele atuam ao dar para Kristen Stewart falas que mais parecem uma defesa de si própria – Valentine, a assistente por ela vivida, discursa a favor da starlet Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz), figura conhecida mais pelos filmes juvenis dos quais fizera parte do que pelo seu talento e amada por paparazzis dada a vida pessoal conturbada.  Desta feita, ao fundir tais motes do roteiro, Acima da Nuvens denota outra semelhança para com Birdman qual seja a inteligente escalação de um elenco pessoalmente envolvido no passado com fatos parecidos aos ora encenados.

A elegância e complexidade do trabalho de Assayas ainda vai além ao estudar o conflito entre novo e velho, contemporâneo e passado. Nesta toada, chama a atenção o modo como Maria Enders (Juliette Binoche) vai lentamente se transformando seja por causa de sua imersão no papel que a faz passar a ser e viver tal qual a mulher lésbica que interpretará nos palcos, seja por conta do incômodo que sente perante a idade que avança restando aí incluída a atração nutrida pela juventude alheia em especial de sua assistente - o que pode até caracterizar uma eventual preferência sexual sua. Neste ponto da narrativa, aliás, Acima das Nuvens ameaça enveredar por uma trama de paixão homossexual, porém, Assayas evita o caminho da obviedade e simplicidade preferindo deixar sugestões no ar com imagens que bastante dizem mesmo quando despidas de diálogos – exemplo disso pode ser visto na cena em que Maria observa um tanto encantada  Valentine dormir seminua, imagem que pode soar para alguns como um jeito sensacionalista de explorar o corpo de Kristen Stewart mas que no fundo expõe todo um choque entre passado e presente envolto em admiração e talvez até inveja.
 Acima das Nuvens pode vir a ser taxado como verborrágico por espectadores impacientes, entretanto, nada nele do que é dito (e mostrado) possui traço de irrelevância, o que em muito se deve a falta de pedantismo de um cineasta que discute seu próprio ofício sem se colocar acima do bem ou do mal, compondo um roteiro que mesmo cheio de bifurcações é desenvolvido de maneira coesa e acessível a quem assim se dispuser. E tudo isso sem as acrobacias técnicas realizadas pela câmera em Birdman.
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1.  Leia mais sobre Birdman Ou (A Inesperada Virtude Da Ignorância) em http://setimacritica.blogspot.com.br/2015/05/birdman-ou-inesperada-virtude-da.html
2.    Leia mais sobre Jogo de Cena em http://setimacritica.blogspot.com.br/2014/04/jogo-de-cena.html

FICHA TÉCNICA


Título Original: Clouds of Sils Maria

Direção e Roteiro: Olivier Assayas                                                

Elenco: Juliette Binoche, Kristen Stewart, Aljoscha Stadelmann, Angela Winkler, Arnold Gramara, Ben Posener, Benoit Peverelli, Brady Corbet, Caroline De Maigret, Chloë Grace Moretz, Claire Tran, Gilles Tschudi, Hanns Zischler, Johnny Flynn, Lars Eidinger, Luise Berndt, Nora von Waldstätten, Peter Farkas, Ricardia Bramley, Sean McDonagh, Stuart Manashil

Produção: Charles Gillibert

Fotografia: Yorick Le Saux

Montagem: Marion Monnier

Estreia: 08/01/2015 (Brasil)

Duração: 124 min.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Love



Amor Dividido

Embora sua campanha de marketing, no que se incluem as entrevistas de seu diretor, assim sugerissem, Love (França/Bélgica, 2015) não é um filme agressivo, afinal, o sexo nele mostrado, mesmo explícito, não possui a crueza, por exemplo, de Ninfomaníaca (Dinamarca, 2013), longa-metragem de Lars Von Trier no qual o sexo ilustra drama, desespero e solidão não sendo, por conseguinte, excitante em momento algum. No caso de Love, mesmo quando envolto em melancolia, o sexo não deixa de ser urgente, intenso e banhado de tesão. Neste sentido, as inúmeras sequências explícitas não banalizam a cópula nem se revelam repetitivas dada a importância da atividade sexual no relacionamento do casal de protagonistas.
Assíduo e curioso, o sexo praticado por Murphy e Electra é tão necessário no que tange a sua exposição quanto aquele feito por Emma e Adèle em Azul É a cor Mais Quente (França, 2013). Ambos os filmes, vale dizer, se dedicam a realizar radiografias dos estágios pelos quais uma relação amorosa passa, o que compreende desde a descoberta da paixão até o cometimento de atos inconseqüentes que redundam na separação e no arrependimento de alguma das partes, histórico esse em que o sexo impõe sua presença com vital importância como em qualquer relação íntima. Por óbvio, diferenças também existem entre as duas obras, destacando-se neste diapasão o fato de no título dirigido por Abdellatif Kechiche o sexo ser pontual surgindo de maneira avassaladora em três ou quatro sequências, ao passo que o trabalho de Gaspar Noé, como outrora dito, é permeado do início ao fim de corpos nus transando, o que resulta naquele que é um dos problemas do filme: não sobra espaço para um aprofundamento maior dos personagens.
Se por um lado, as três horas de duração de Azul É a Cor Mais Quente servem tanto para explorar o início e o fim de um arrebatador amor lésbico quanto para analisar a dificuldade com que Adèle encara a descoberta de sua bissexualidade, bem como o modo ora dominador ora professoral com que Emma vai ditando o ritmo da relação, em Love o personagem masculino tem uma abordagem unidimensional, machista em sua essência – o que tem, compreensivamente, desagradado o público feminino – que pouco convence quanto a suposta existência em seu íntimo de uma sensibilidade voltada para as artes e, em específico, para o cinema, ao passo que as mulheres do triângulo amoroso são pouco estudadas quanto aos seus passados, anseios e angústias.
A rasa abordagem de Gaspar Noé sobre as criaturas por ele imaginadas, faz com que a platéia não se sinta cativada por elas, embora indiscutível seja o interesse pela jornada sexual das mesmas. Em outras palavras, apesar de a honestidade do sexo praticado pelos atores/personagens ser deveras envolvente, aquilo que eles fazem quando não estão copulando ou à procura de sexo pouco interessante é, o que indica que o trabalho de Noé enquanto diretor fora, conforme adiante explicado, superior aquilo que fez enquanto roteirista. Tal problemática, vale o palpite, poderia ser sanada com medidas como o alargamento da metragem do filme ou a redução do protagonismo masculino, senão vejamos:
- alargamento: ao contrário do que muitos afirmam, Love não parece tão longo nem se comporta de maneira torturante ou tediosa, daí que outros 30 ou 40 minutos, desde que dedicados aos personagens e não ao sexo, enriqueceriam sobremaneira o produto final;
- redução: a diminuição do protagonismo de Murphy em prol de uma divisão mais igualitária de atenção para com as mulheres que o ladeiam no passado e no presente abrandaria o teor machista da obra, podendo, ainda, tornar o enredo mais complexo, possibilidade essa que, convenhamos, é a mais utópica de todas, haja vista que o aspirante a cineasta interpretado por Karl Glusman se revela como uma espécie de alter ego de Gaspar Noé, discursando por vezes tal qual esse último em defesa de materiais cinematográficos movidos a “sangue, esperma e lágrimas” – além de justificar através da fala de Murphy o porquê de ter filmado Love, Noé aproveita para estender o diálogo com o espectador fazendo pretensas brincadeiras com o próprio nome que incomodam por denotarem um ego inflado que a todo instante insiste desnecessariamente em se incluir na trama.
Apesar dos excessos citados, Love não causa o incômodo nem a repulsa proporcionados por Irreversível (França, 2002), trabalho anterior de Noé, afinal o interesse daquele paira não sobre a natureza violenta do homem e sim sobre a dificuldade de administração de sentimentos de pessoas diferentes, razão pela qual, embora não raro utilize a mesma paleta de tons quentes da obra estrelada por Monica Bellucci, os recorrentes tons em vermelho aludem agora ao calor do amor e da confusão de emoções por ele despertada e não ao sangue e a violência de outrora.
Nesta toada, merecem ainda ser positivamente lembradas a excepcional montagem realizada pelo próprio Noé que retira a obra da linearidade aumentando assim o contraponto entre os altos e baixos experimentados pelos personagens, bem como elegância da fotografia seja pela iluminação já comentada como também pelos elegantes posicionamentos de câmera que quase sempre de modo estático deixam toda e qualquer movimentação para os corpos dos atores que se entregam sem amarras em cenas de sexo rotineiramente acompanhadas de uma ótima trilha musical, compondo assim uma embalagem esteticamente atraente que atesta a antes mencionada capacidade de Love atrair menos pelo conteúdo e mais pela forma – apesar do embusteiro formato em 3d que nada acrescenta ao trabalho.
Por fim, em meio a seus pontos positivos e negativos Love traz novamente a tona a discussão sobre o rompimento da fronteira entre o cinema pornográfico e aquele tido como tradicional, algo que não era visto na tela com tanta veemência desde O Império dos Sentidos (Japão/ Franca, 1976), daí que inegável sua relevância enquanto exemplar de um cinema não conformista que abraça a polêmica com destemor no intuito de fazer com que a atividade cinematográfica permaneça funcionando como instrumento de provocação e não apenas de entretenimento.
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1.    Leia mais sobre Azul é a Cor Mais Quente em http://setimacritica.blogspot.com.br/2014/03/azul-e-cor-mais-quente.html.

FICHA TÉCNICA

Direção, Roteiro e Edição: Gaspar Noé
Produção: Brahim Chioua, Edouard Weil, Gaspar Noé, Rodrigo Teixeira, Vincent Maraval
Elenco: Aomi Muyock, Benoît Debie, Deborah Revy, Gaspar Noé, Isabelle Nicou, Juan Saavedra, Karl Glusman, Klara Kristin, Stella Rocha, Vincent Maraval, Xamira Zuloaga
Fotografia: Benoît Debie
Trilha Sonora: Virginie Verdeaux
Estreia: 10/09/2015 (Brasil)
Duração: 134 min.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Jersey Boys - Em Busca da Música



Momento Derrapada

Clint Eastwood vinha há anos dirigindo filmes ótimos ou ao menos acima da média. Tal sequência positiva foi, entretanto, interrompida por Jersey Boys - Em Busca da Música (EUA, 2014), adaptação de um musical da Broadway que narra a trajetória turbulenta da banda Frankie Valli & The Four Seasons seja quanto a carreira seja quanto a vida pessoal de seu cantor, sobretudo, e demais membros.
Neste passo, o diretor tenta a todo custo diferenciar seu filme de outras tantas cinebiografias sobre ícones da música, contudo, a tentativa soa pífia na medida em que os instrumentos utilizados para tanto não convencem em momento algum, isso porque o humor resulta tolo e a quebra da quarta parede realizada por alguns personagens se mostra deslocada, sem propósito perante a trama.

Ademais, mesmo sendo excessivamente longo, o filme perde a oportunidade de explorar a contento algumas interessantes e importantes figuras, senão vejamos:
- na pele de um mafioso que pouco temor desperta, Christopher Walken não tem seu talento corretamente aproveitado pela produção, o que consequentemente faz com que deixe de ser devidamente examinada a interferência da máfia sobre moradores de Nova Jersey nos idos de 1950 bem como sua influência na consolidação de carreiras artísticas;
- destarte, Eastwood opta por dar prevalência aos dramas familiares de Frankie Valli, mas, tal como feito com o personagem de Walken, deixa de expor de maneira adequada a participação da filha do músico nesse sentido, já que a mesma entra e sai de cena de forma abrupta, daí sua relação com o pai parecer tão desinteressante na tela.
Sem graça nuns instantes, novelesco em outros e constrangedor já próximo ao término - graças a um precário trabalho de envelhecimento/maquiagem dos atores - Jersey Boys se aproxima nos erros de My Way – O Mito Além da Música (França, 2012), longa-metragem também deveras enfadonho que discorre sobre o cantor e compositor francês Claude François¹. Considerando o viés cômico do título em comento, mais interessante seria se Eastwood seguisse o exemplo de Tom Hanks e fizesse um trabalho simples, conciso e alto-astral como The Wonders – O Sonho Não Acabou (EUA, 1997)², afinal seus enredos em muito se assemelham.
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1. Leia mais sobre My Way em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/08/my-way-o-mito-alem-da-musica.html
2. Leia mais sobre The Wonders em http://50anosdefilmes.com.br/1997/the-wonders-o-sonho-nao-acabou-that-thing-you-do/

FICHA TÉCNICA 

Título Original: Jersey Boys
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: John Logan, Rick Elice
Elenco: Alexis Krause, Aria Pullman, Ashley Leilani, Barry Livingston, Christopher Walken, Erica Piccininni, Erich Bergen, Francesca Eastwood, Freya Tingley, Ian Scott Rudolph, Jackie Seiden, Jacqueline Mazarella, James Madio, Jeremy Luke, John Lloyd Young, Joseph Russo, Kara Pacitto, Kathrine Narducci, Meagan Holder, Michael Patrick McGill, Mike Doyle, Nancy La Scala, Phil Abrams, Sean Whalen, Silvia Kal, Steve Monroe, Steve Schirripa, Vincent Piazza
Produção: Graham King, Tim Headington
Fotografia: Tom Stern
Montagem: Gary Roach, Joel Cox
Estreia: 26/06/2014 (Brasil)
Duração: 135 min.