EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Permanência



A Introspecção do Conflito

Segundo David Howard e Edward Mabley:
“O conflito é ingrediente essencial de qualquer trabalho dramático, [...] é o próprio motor que impele a história adiante, ele fornece movimento e energia à história. [...] Sem conflito, o filme não deslancha. [...] Existe uma tendência, entre roteiristas iniciantes, de pensar em conflito em termos de berros, armas, punhos e outras formas de comportamento extremo. [...] na verdade, não se cria conflito com histrionices ou comportamentos exagerados e sim com um personagem querendo algo que é difícil de obter ou conseguir”¹.
À primeira vista inexiste conflito em Permanência (Brasil, 2014), drama que narra o reencontro de um casal de ex-namorados anos após o término do relacionamento amoroso. Ela, já casada e residente em São Paulo, hospeda em seu apartamento o antigo namorado, fotógrafo, recém-chegado de Recife para a abertura da primeira exposição de suas imagens na capital paulista. A retomada desse contato entre os dois, ao contrário do que pode aguardar o espectador, não suscita crise visível no matrimônio dela nem embates entre os amantes de anos atrás. Com efeito, uma total ausência de clímax afasta o longa-metragem de qualquer fórmula fílmica e o aproxima da vida real tão repleta de vazios, silêncios e tempos mortos.
Neste diapasão, é nas mentes da dupla de protagonistas que todo o conflito da trama reside; afinal, são seus preceitos e conceitos que logo tratam de afastar seus corpos despertados por uma atração sexual e afetuosa que o tempo tratara de adormecer. Trocando em miúdos, ainda que o reencontro traga a tona um turbilhão de emoções, o respeito pelo casamento dela insiste em falar mais alto provocando uma confusão de sentimentos.
Assim, se por um lado ela foge de uma sala de cinema quando suas mãos começam a acariciar e serem acariciadas pelas mãos dele, por outro lado, ela também se sente a vontade para caminhar nua até ele num momento de despedida, denotando, desta feita, a dubiedade existente entre o formalismo de hoje que os deixa sem saber o que conversar e a sensação de intimidade de outrora que os impele um ao encontro do outro.
Dentro deste contexto, a circunstância do sexo casual praticado entre ele e uma jovem funcionária da galeria onde ocorre sua exposição colabora para indicar o atual abismo de diferença que o distancia de sua velha paixão. Enquanto ela vive em estabilidade financeira e emocional – pelo menos até então – ele, ainda aberto para aventuras, está em processo de iniciação de uma carreira – embora pairem dúvidas nele quanto a transformação do seu carinho pela fotografia em ofício.          
Isto posto, é a partir do desconforto e atual diferenciação existente entre aquele antigo par que o conflito de Permanência se desenvolve de maneira introspectiva, com racionalidade e sem alarde. Tão frustrante quanto verdadeiro.
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1.     Teoria e Prática do Roteiro. São Paulo: Globo, 1996. p. 82-3.

FICHA TÉCNICA


Direção e Roteiro:   Leonardo Lacca

Elenco: Genésio de Barros, Irandhir Santos, Laila Pas, Rita Carelli, Sílvio Restiffe

Produção: Emilie Lesclaux

Fotografia: Pedro Sotero

Montagem: Eduardo Serrano

Trilha Sonora: Jon Wygens

Estreia: 28/05/2015

Duração: 85 min.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Na Próxima, Acerto no Coração



Sem Justificativas

Na Próxima, Acerto no Coração (França, 2014) possui um mote que muito lembra o seriado Dexter, qual seja o acompanhamento da trajetória de um policial que nas horas vagas atua como um serial Killer. Baseada numa história verídica, a produção francesa, diferentemente do programa televisivo americano, não comete o equívoco de tentar justificar a conduta sociopata de seu protagonista; desse modo, enquanto Dexter é mostrado como um assassino – cuja infância fora marcada pela violência – que escolhe por vítimas apenas outros criminosos – numa espécie de milícia de homem só que perigosamente busca a conivência do público – a história do tira francês praticamente não apresenta nenhuma justificativa para as mortes providenciadas por aquele que, por seu turno, tem como alvo apenas jovens mulheres.
Neste sentido, o filme europeu acerta ao mostrar a dificuldade do personagem em estabelecer relação de afeto com uma figura feminina, o que pode até sugerir que sua aversão ao sexo oposto seja fruto de uma homossexualidade reprimida, embora tal raciocínio não passe de especulação, tendo em vista que o diretor Cédric Anger se empenha em deixar em aberto as motivações do matador para que seus atos soem ainda mais caóticos. Com efeito, o comportamento gélido do personagem se coaduna com a elegante estética de tons frios da obra, no que se incluem as ótimas direções de fotografia e de arte, bem como com o desempenho de Guillaume Canet o qual entrega com inegável talento as múltiplas nuances de um homem solitário, vil e implacavelmente cruel.
Na Próxima, Acerto no Coração consegue ser bruto e cru sem estardalhaço, eis que consiste num suspense psicológico pouco interessado em enigmas, falas marcantes e/ou jogos de gato e rato; em contrapartida, o longa-metragem prefere explorar, sem pretensas explicações, a mente de um psicopata e seu modus operandi, tarefa essa desempenhada com eficiência em meio a sua suposta simplicidade.

FICHA TÉCNICA

Título Original: La Prochaine fois je viserai le coeur
Direção e Roteiro: Cédric Anger
Elenco: Alexandre Carrière, Alice de Lencquesaing, Ana Girardot, Arnaud Henriet, Arthur Dujardin, Douglas Attal, Franck Andrieux, François-Dominique Blin, Guillaume Canet, Hélène Vauquois, Jean-Paul Comart, Jean-Yves Berteloot, Michel Cassagne, Patrick Azam, Pierick Tournier
Produção: Alain Attal, Anne Rapczyk
Fotografia: Thomas Hardmeier
Montador: Julien Leloup
Trilha Sonora: Grégoire Hetzel
Estreia Brasil: 13/08/2015
Duração: 111 min. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Terremoto: A Falha de San Andreas



A Reprise da Catástrofe

‘É tão difícil conquistá-la com essa chuva de clichês’
(Ma Cherie – Hidrocor)

Terremoto: A Falha de San Andreas (EUA, 2015) despeja sobre o espectador uma quantidade de clichês semelhante a torrente de escombros oriundos dos prédios e demais edificações quedados a partir dos diversos abalos sísmicos mostrados ao longo de sua duração. Assim, tem-se um filme catástrofe preocupado sobretudo com o impacto visual – embora não raro alguns efeitos visuais pareçam mal-acabados – em detrimento do roteiro. Diferentemente do que fora visto, por exemplo, em O Impossível¹ não há no longa-metragem qualquer aprofundamento do perfil psicológico dos personagens, daí volta e meia os mesmos passarem por situações traumáticas e logo em seguida se comportarem como se nada demais tivesse acontecido. Dentro deste contexto, para fazer de conta que possui um enredo digno de nota, a produção divide sua trama em duas frentes, mostrando de um lado o drama de uma família que busca se reencontrar física e afetivamente em meio ao caos e, de outro lado, a trajetória do cientista que detecta o tamanho do estrago que está por vir e mediante seu conhecimento técnico busca intervir para minimizar os danos causados pelo fenômeno da natureza. Tratam-se, portanto, de motes tão reciclados que se trocados fossem os terremotos por dinossauros o produto final seria mais um capítulo da franquia Jurassic Park – sim, em San Andreas também há menores tentando desesperadamente escapar da morte.

No elenco as figuras masculinas pouco fazem para injetar qualquer elemento diferenciador em papeis tão rasos: Dwayne Johnson se mostra um herói insosso aquém dos brucutus da década de 80 como Stallone e Schwarzenegger, ao passo que Ioan Gruffudd pouco se esmera para driblar a caricatura do padrasto tedioso e Paul Giamatti se resigna com uma interpretação no piloto automático de um personagem pouquíssimo interessante ainda mais se considerado for que o mesmo ator um dia vivificara Harvey Pekar em o Anti-Herói Americano (EUA, 2003). Para a fatia masculina da platéia sobra o consolo de admirar as beldades Carla Gugino – que até poderia ser melhor aproveitada – e Alexandra Daddario a qual, por seu turno, é quem mais brilha numa aparição até certo ponto juvenil deveras diferente daquela que a consagrara na primeira temporada de True Detective. Neste sentido, a atriz agarra com unhas e dentes a oportunidade de coprotagonizar um blockbuster distante da saga Percy Jackson e, com muito charme, consegue tornar palatável, pelo menos para sua personagem, os clichês nos quais a mesma também é mergulhada. Ponto para ela.
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1.     Leia mais sobre O Impossível em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/12/o-impossivel.html.

FICHA TÉCNICA

Título Original: San Andreas
Direção: Brad Peyton
Roteiro: Allan Loeb, Carey Hayes, Carlton Cuse, Chad Hayes
Elenco: Adam Reeser, Afsheen Olyaie, Alan D. Purwin, Alec Utgoff, Alexandra Daddario, Allan Poppleton, Arabella Morton, Archie Panjabi, Ari Atken, Art Parkinson, Brad McMurray, Breanne Hill, Carla Gugino, Christina July Kim, Colton Haynes, Dwayne Johnson, Gabriel Koura, Harris Michaels, Hugo Johnstone-Burt, Ioan Gruffudd, Jackie Dallas, Jaden Alexander, Janell Islas, Jaymes Butler, Kylie Minogue, Leilani Amour Arenzana, Marissa Neitling, Matt Gerald, Morgan Griffin, Paul Giamatti, Phillip E. Walker, Ran Wei, Robin Atkin Downes, Steven Wiig, Teresa Navarro, Tina Gilton, Todd Williams, Tom O'Reilly, Vanessa Ross, Will Yun Lee
Produção: Beau Flynn, Tripp Vinson
Fotografia: Steve Yedlin
Montagem: Bob Ducsay
Trilha Sonora: Andrew Lockington
Estreia: 28/05/2015 (Brasil)
Duração: 114 min.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Sal da Terra / Revelando Sebastião Salgado



Olhares

Revelando Sebastião Salgado (Brasil, 2012) e O Sal da Terra (Brasil/França/Itália, 20014) são obras bastante parecidas e ao mesmo tempo consideravelmente distintas uma da outra. Na verdade, o primeiro título serve de esboço para o documentário de Win Wenders seja por conta das nítidas diferenças orçamentárias entre um filme e outro seja porque o cineasta alemão junto com o codiretor Juliano Ribeiro Salgado evita, na medida do possível, repetir temas já abordados no trabalho de Betse De Paula, aprofundando-se, por conseguinte, em assuntos pouco explorados naquele. Já no que atine aquilo que existe de comum entre os dois, além, é lógico, do biografado, há sobretudo o enorme prazer demonstrado por este ao contar as histórias por trás de suas icônicas fotografias e de suas viagens aos cantos mais remotos do planeta.

Por seu turno, Revelando Sebastião Salgado se passa quase integralmente no interior do apartamento do fotógrafo em Paris – o que, convenhamos, denota os poucos recursos da empreitada – local onde ele tece comentários sobre os livros lançados e acerca da sua trajetória de vida e de carreira – no que se destaca um assunto tabu, qual seja o flagrante do atentado ao então presidente Ronald Reagan. Sabedora de que a simples entrevista resultaria cansativa ao espectador, Betse De Paula, no afã de ilustrar o depoimento, insere ao longo do mesmo registros fotográficos e uma incômoda espécie de sonoplastia que infantiliza o relato. Desse modo, a documentarista faz um apanhado da figura do fotógrafo e do homem Sebastião Salgado de maneira abrangente e até escorreita – apesar das limitações supracitadas, bem como da malfadada edição sonora – que não chega, entretanto, a comover, mérito esse, de outro lado, alcançado por Win Wenders que logra o êxito de deixar a platéia aturdida com as imagens captadas pelo fotógrafo tal como almejado por este.
Tamanho resultado positivo de O Sal da Terra, vale dizer, se deve a ambientação dada ao depoimento – não raro o que se vê é apenas o rosto de Salgado circundado por um fundo negro, daí ser maior a imersão da plateia na sua fala – bem como às filmagens feitas durante algumas de suas viagens, o que possibilita uma melhor compreensão do quão trabalhoso, complexo e solitário é o seu ofício. Como dito, toda a reação pretendida pelo fotógrafo ante seus registros é sentida pelo espectador que, ao término da sessão de O Sal da Terra, resta tão angustiado quanto maravilhado com o que vira, êxito esse deveras facilitado pelo trabalho de Win Wenders que, além da contextualização das fotografias, ainda encontra tempo e espaço no filme para tratar da criação do Instituto Terra por parte de Salgado e sua mulher Lélia – tal abordagem, frise-se, poderia facilmente fazer o longa-metragem perder seu foco, equívoco que felizmente não acontece em razão de Wenders arquitetar o correto e necessário link entre a inauguração do espaço e o Projeto Gênesis¹ preservando, assim, a coesão do documentário.

Muitos afirmaram que O Sal da Terra não explorara a contento a conturbada relação de Salgado com seu filho, o codiretor Juliano Ribeiro. Todavia, ao que parece em momento algum a intenção de Wenders fora se debruçar sobre tal drama familiar, daí optar por apenas mencionar que: sim, a carreira do fotógrafo lhe exigiu sacrifícios consideráveis dentre os quais permanecer temporadas longe da família talvez tenha sido o maior. Dessa maneira, Wenders jamais faz da relação pai e filho o foco primordial da produção, demonstrando, portanto, respeito para com aqueles, além de inteligência quanto a eleição daquilo que de fato importa: a carreira e o talento de Sebastião Salgado, sendo os reflexos positivos e negativos destes mantidos como subtemas, o que dribla, por exemplo, a possibilidade do documentário resvalar num novelão familiar.
Curiosamente, embora Wenders não demonstre acanhamento ao se lançar como um personagem do documentário na medida em que já o inicia explicando o porquê de sua fascinação pelo trabalho de Salgado, o codiretor Juliano Salgado tem uma participação bem mais discreta em O Sal da Terra – o que reforça os argumentos daqueles que pretendiam ver na tela os mencionados problemas familiares. Neste sentido, maiores impressões de Juliano sobre o pai podem ser vistas em Revelando Sebastião Salgado, cujo roteiro é assinado pelo mesmo em conjunto com Betse De Paula. Como dito alhures, aquilo que um filme fez o outro evita repetir, motivo pelo qual se complementam em meio as suas enormes semelhanças e diferenças.
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1.Expedição de Sebastião Salgado que teve como meta registrar regiões e civilizações longínquas ainda inexploradas.

FICHA TÉCNICA – O SAL DA TERRA

Título Original: Le Sel de La Terre, 2014
Direção: Juliano Ribeiro Salgado, Win Wenders
Roteiro: Camille Delafon, David Rosier
Produção: David Rosier
Fotografia: Hugo Barbier, Juliano Ribeiro Salgado
Montagem: Maxine Goedicke, Rob Myers
Trilha Sonora: Laurent Petitgand
Estreia: 26/03/2015 (Brasil)
Duração: 110 min.

FICHA TÉCNICA – Revelando Sebastião Salgado

Direção: Betse De Paula
Roteiro: Betse De Paula, Juliano Salgado
Produção: Patrícia Chamon
Fotografia: ABC, Jacques Cheuiche
Montagem: Dominique Pâris
Trilha Sonora: Naná Vasconcelos
Duração: 75 min.