EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 28 de julho de 2015

Homem-Formiga



Sinal Amarelo

Homem-Formiga (EUA, 2015) requenta em seu roteiro um punhado de idéias já utilizadas inúmeras outras vezes em produções de diversos gêneros, senão vejamos:
- o herói é um ser de comportamento errático recém saído da prisão, clichê esse visto recentemente em Guardiões da Galáxia (EUA, 2014);
- o casal que inicialmente se rejeita e depois se apaixona é uma ideia deveras utilizada desde os tempos de ... E O Vento Levou (EUA, 1939);

- a figura do mentor/cientista bonzinho determinado a não deixar que sua descoberta/invenção seja utilizada contra a humanidade fora explorada em O Espetacular Homem-Aranha (EUA, 2012), ao passo que o magnata/cientista ensandecido pelo invento/descoberta que decide utilizar como arma de destruição também possui ecos aracnídeos principalmente se levado em conta o primeiro título da franquia dirigido por Sam Raimi.
Desta feita, Homem-Formiga só se torna interessante quando envereda pelo universo dos Vingadores – o que denota a irrelevância do personagem – bem como quando para de se levar a sério e interrompe o chatíssimo drama familiar interpretado por Michael Douglas e Evangeline Lilly para trilhar o caminho da comédia, abrindo espaço para Michael Peña roubar a cena com seu sotaque hilário.
A falta de frescor de Homem-Formiga demonstra o cansaço de um filão super explorado e que periga cair na rejeição do público tal como ocorrera nos anos 90 com os filmes “exército de um homem só” estrelados por nomes como Sylvester Stallone, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger. Neste sentido, o jornalista Alexandre Matias lembra que:
 Isso já aconteceu em outros momentos com outros gêneros dominantes, quando Michael Bay enterrou a boa fase de ficção científica e ação iniciada em Matrix com seus Transformers ou quando Spielberg encerrou a fase Stallone-Schwarzenegger dos filmes de ação ao bater O Último Grande Herói com seu Parque dos Dinossauros, no início dos anos 90”¹.
É chegada a hora de um respiro, mensagem de alerta essa que Homem-Formiga pode servir para pelo menos ajudar a deflagrar.
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1. FONTE: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/07/14/por-que-batman-vs-superman-pode-enterrar-os-filmes-de-super-heroi/. Acesso em 19.07.15.

Ficha Técnica

Título Original: Ant-Man
Direção: Edgar Wright
Roteiro: Adam McKay, Edgar Wright, Joe Cornish, Paul Rudd . Baseado nos quadrinhos de Stan Lee e Larry Lieber
Elenco: Michael Douglas, Bobby Cannavale, Corey Stoll, Evangeline Lilly, Hayley Atwell, John Slattery, Jordi Mollà, Judy Greer, Michael Peña, Paul Rudd, T.I., Wood Harris
Produção: Kevin Feige
Fotografia: Russell Carpenter
Montagem: Colby Parker Jr., Dan Lebental
Trilha Sonora: Christophe Beck
Estreia: 16/07/2015 (Brasil)
Duração: 117 min.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Los Hermanos – Esse É Só o Começo do Fim da Nossa Vida



Pisando em Ovos

Em entrevista para a Rolling Stone,   Maria Ribeiro, diretora e produtora do longa-metragem Los Hermanos – Esse É Só o Começo do Fim da Nossa Vida (Brasil, 2012) confessa que já havia pedido autorização ao grupo para registrar as primeiras apresentações feitas após o anúncio da parada por tempo indeterminado, quais sejam a de abertura do show do Radiohead em 2009, e aquela ocorrida no festival SWU em 2010, o que fora negado pela banda que cedera ao pleito somente em 2012 quando da realização da turnê comemorativa de 15 anos. Neste passo, Ribeiro declara: “Eles realmente me abriram uma guarda que não abrem para ninguém [...] eu não ultrapassei nenhum limite [...] Isso fez com que eles se sentissem a vontade para ter intimidade nos momentos em que era possível”¹.
Tamanho cuidado no trato com os músicos é sentida do lado de cá da tela de forma pouco satisfatória, na medida em que fica nítida a impressão de que durante a captação das imagens a cineasta consistia numa figura que, recém adentrada numa comunidade, pisava em ovos para não desagradar ninguém. O resultado: um filme celebração que pouco revela sobre as figuras retratadas, haja vista o pequeno número de cenas de bastidores, em contrapartida a grande quantidade de sequências musicais que aproximam o documentário de um simples registro de show em DVD – viés esse que, não obstante as belas sequências filmadas nos palcos de diversas cidades, não supera o impacto do show Los Hermanos no Cine Íris lançado no mercado de home video em 2004.

Fã confessa da banda, Maria Ribeiro se contenta em contemplar os artistas enquanto cantam, tocam e conversam; de acordo com ela: A gente vive em uma era em que é tudo muito calculado [...] Então, para mim, você ver uma galera relembrando o passado, tocando Raul Seixas e conversando besteira é ouro puro”. Tal conclusão da diretora preza pelo subjetivismo podendo, desta feita, ser facilmente contestada ao passo em que a ausência de informações relevantes de seu filme não permite que o material captado seja encarado como “ouro puro”. Na verdade tal definição, para ser justo, merece ser dirigida não a Los Hermanos – Esse É Só o Começo do Fim da Nossa Vida e sim a Além do que se Vê, documentário de média duração incluído como material extra no supracitado DVD Los Hermanos no Cine Íris.
Produzido pelos próprios hermanos, Além do que se Vê registra os bastidores da gravação daquele que sem exagero se firmou como o melhor disco de rock/MPB dos anos 2000: Ventura. Recheado de momentos ímpares como o instante em que a canção O Último Romance é batizada, bem como o encontro da banda com os Paralamas do Sucesso, Além do que se Vê possui um valor histórico indiscutível na medida em que atesta o ápice da criatividade de uma banda em seu momento de maior excelência.
Na falta de material novo produzido pela própria banda, Maria Ribeiro poderia ter aproveitado o tempo e o espaço de seu filme para ao menos provocar os músicos e mostrar quem de fato são aqueles homens idolatrados por tantos. Lamentavelmente, porém, a diretora os mantém na zona de conforto e proteção contra a imprensa habilmente construída pela banda ao longo de sua trajetória. Não a toa, vê-se a permanência do protagonismo de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante – o qual, aliás, é quem mais interage com a câmera, mostrando um lado cômico distante da persona normalmente marrenta assumida perante repórteres – e a manutenção da posição coadjuvante de Bruno Medina e Rodrigo Barba, problema esse que é reconhecido pela própria documentarista nos seguintes termos: “Eu queria ter ouvido mais o Bruno e o Barba, porque acho que o filme acaba ficando mais com o Rodrigo e com o Marcelo”. Ao que parece a diretora acabou, portanto, sendo conduzida pelos músicos através do caminho preferido por esses quando o correto seria o contrário - o que não deixa de ser irônico tendo em vista que Ribeiro produziu o filme com verba própria para ter total liberdade artística.
Oportunamente lançado um semestre antes do início de mais uma turnê esporádica do grupo, o documentário - para o desespero dos fãs sedentos por informações e canções novas - não se arrisca, contentando-se, por conseguinte, em ser chapa branca, daí que sua projeção nos cinemas soa um tanto pretensiosa, afinal, considerando a forma como foi estruturado, poderia o filme se limitar a servir de material extra para algum novo registro de show porventura vendido no futuro – plataforma com a qual Além do que Se vê, mesmo tendo muito mais valor e importância, se contentou.
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1.  FONTE: http://rollingstone.uol.com.br/noticia/eles-realmente-me-abriram-uma-guarda-que-nao-abrem-para-ninguem-diz-maria-ribeiro-diretora-de-novo-documentario-sobre-o-/#imagem0. Acesso em 19.07.15.

Ficha Técnica

Direção: Maria Ribeiro
Estreia no Brasil: 14.05.15                        
Duração: 85 min.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Hipócrates



De Médico e Cineasta Thomas Lilti Tem um Bocado

Hipócrates (França, 2014) condensa em menos de duas horas, sem resultar reducionista, muitos dos dramas médicos vistos em seriados como House e ER – Plantão Médico. Dentro deste contexto, o filme não teme as referências – e até as cita – eis que tem a seu favor um elemento diferencial que o coloca em um patamar mais elevado: o conhecimento de causa do diretor e roteirista Thomas Lilti¹ que curiosamente exerce de forma paralela ao trabalho cinematográfico a profissão de médico (clínico-geral), daí seu texto soar tão autêntico e se permitir abordar assuntos diversos sem resvalar na irrelevância ou na predominância de uma pauta sobre a outra.
Assim, Lilti – com a colaboração dos co-roteiristas Baya Kasmi, Pierre Chosson, Julien Liltidiscute a falência do sistema de saúde francês tocando em feridas que muito lembram a realidade brasileira, quais sejam a falta de leitos, o sucateamento de hospitais e a exploração injusta da mão de obra estrangeira. Não fosse o bastante, o cineasta ainda encontra espaço para tratar de temas como o corporativismo médico e o acobertamento dos erros de seus profissionais, a falta de vocação de vários demonstrada ante as dificuldades do ofício e a questão da eutanásia no que tange a necessidade e dificuldade de sua aplicação.
Cada um desse subtemas poderia certamente sustentar episódios completos de séries como as supracitadas ou até mesmo filmes de longa-metragem. Reunidos por Lilti os assuntos são desenvolvidos de forma fluida sem serem estendidos além do necessário e sem carregarem qualquer ranço panfletário; ao contrário, o diretor opta por preencher com bom humor sua obra – através da recriação hilária e um tanto surreal do encontro dos médicos no refeitório do hospital – o que colabora para torná-la ainda mais envolvente e cativante.
Uma grata surpresa, Hipócrates faz pensar o quão bom seria se todo diretor/roteirista tivesse vivido na pele ou estudado anos a fio aquilo que se propõe a tratar em seus respectivos títulos. O saber, empírico ou científico, suplanta o mero instinto ou faro.
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1.Em entrevista, Thomas Lilti assim declarou: “Hipócrates é [...] um filme autobiográfico sem ser uma história verídica. Benjamin sou eu, mas ele permanece como um alter-ego ficcional. Como ele, eu era um interno muito jovem. Como ele, meu pai era médico. Mas além das minhas experiências na medicina, eu queria falar sobre a estrutura e funcionamento do hospital através do meu protagonista” (Versão integral da entrevista em: http://medias.myfrenchfilmfestival.com/medias/132/24/137348/presse/hipocrates-dossie-de-imprensa-ingles.pdf. Acesso em 20.07.2015).

Ficha Técnica

Título Original: Hippocrate

Direção: Thomas Lilti

Fotografia: Nicolas Gaurin

Roteiro: Thomas Litti, Baya Kasmi, Pierre Chosson, Julien Lilti

Elenco: Jacques Gamblin, Reda Kateb, Vincent Lacoste, Marianne Denicourt, Felix Moati, Carole Franck, Julie Brochen, Thierry Levaret, Philippe Rebbot, Jeanne Cellard

Edição: Christel Dewynter

Duração: 102 min.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Club Sandwich



Rito de Passagem

De acordo com a teoria do roteiro, ponto de virada é o momento do script em que a história sofre uma guinada mudando o rumo dos personagens e o ritmo da trama¹. Dentro deste contexto, há produções, como Planeta Solitário² (EUA/Alemanha, 2011), que são total e organicamente estruturadas em torno de seus respectivos pontos de virada, numa relação em que o recurso narrativo possui papel principal na obra, servindo os atores e demais acessórios cênicos e lingüísticos como combustível responsável por fazer o veículo/filme chegar ao seu destino-meio e dele prosseguir viagem. Nesses casos, tudo o que acontece antes da chegada da narrativa até aquele ponto específico é milimetricamente calculado para que o percurso faça sentido e tenha uma razão de ser, tal como tudo o que ocorre após a virada é conseqüência desta. Trocando em miúdos, nalguns títulos o ponto de virada influencia tudo o que acontece antes e depois dele num elo impossível de ser desfeito.
Exemplo bem-sucedido nesse diapasão pode ser visto em Club Sandwich (México, 2013), haja vista que tudo no longa-metragem gira em torno da deflagração de um instante de transição a partir do qual um filho se desprende da relação de exclusividade mantida com a mãe e passa a ter o coração e a mente ocupados pela primeira namorada, num despertar sexual que o aproxima da vida adulta e o afasta em definitivo da infância um dia protegida com controle irrestrito pela genitora.  

Assim, antes de o personagem conhecer seu interesse romântico, o que se vê é o arrastar monótono das horas passadas por mãe e filho num resort. Sem amigos naquele local resta ao rapaz acompanhar sua jovial matriarca em dias de férias que se estendem rotineira e preguiçosamente na medida em que nada de novo acontece em torno daquela convivência. Com acerto, Robledo Milani acrescenta que hospedados naquele hotel as opções dos personagens são limitadas a idas a praia e a piscina:
“afinal, para aproveitar uma promoção, para lá vão em uma época de baixa temporada, e ficam praticamente sozinhos no local. A mãe não se incomoda, e a tranquilidade é para ela uma bênção: estão só os dois, e isso resume seu mundo – nada mais lhe faz falta. O garoto, no auge de sua adolescência dos 15 anos, encara o marasmo com outra disposição”³.
Desse modo, brincadeiras antigas se tornam repetitivas e passeios teoricamente divertidos se revelam enfadonhos sobretudo ao filho que transita por uma fase de curiosidades na qual até o mesmo os primeiros lampejos do desejo são saciados com base na única presença feminina ao seu lado: a mãe. Não, o filme não envereda por trilhas incestuosas, eis que logo demonstra que o afã sexual do garoto é, na verdade, por qualquer figura do sexo feminino, o que pode incluir desde a mãe até uma senhora idosa que se despe para entrar na piscina do hotel. Destarte, ao conhecer aquela que será sua primeira paixão e que lhe introduzirá num estágio da vida a ser vivido sem a presença da genitora, o adolescente e sua mãe já tiveram os perfis devidamente delineados para que o ponto de virada possa surtir os efeitos almejados não apenas sobre os personagens como também sobre o ritmo da narrativa, afinal, a partir de então os dias passarão a ser menos vagarosos eis que permeados por novas atrações, descobertas e compromissos.
Com efeito, chama atenção a sutileza e o pontual bom humor com que tal caos familiar é conduzido pelo diretor Fernando Eimbcke bem como a competência de María Renée Prudencio que economiza em gestos e expõe muito com o olhar a aflição da mãe sobressaltada com a “partida” do filho que, antes sob seu controle, agora escorre pelos dedos preferindo a companhia incessante da namorada - nesta toada, a preocupação da mãe com a ruptura adianta não só a síndrome do ninho vazio como inclui uma série de problemáticas relacionadas ao início da vida sexual dos filhos, numa agonia deveras crível e compreensível.
Isto posto, vale lembrar que essa debandada de sentimentos tanto da mãe quanto do filho é exposta com perfeição graças a base sedimentada na primeira metade do filme que é devidamente implodida a partir do ponto de virada. Em resumo, no caso de Club Sandwich é o meio que justifica o início e o fim.
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1.     Segundo Syd Field, ponto de virada consiste em “algum evento, incidente ou episódio que dê uma guinada na história e, ao mesmo tempo, mude o seu curso” (Roteiro: os fundamentos do roteirismo. Curitiba: Arte & Letra, 2009. p. 94).
2.     Leia mais sobre Planeta Solitário em http://setimacritica.blogspot.com.br/2015/01/planeta-solitario_62.html.
3.     Crítica completa disponível em http://www.papodecinema.com.br/filmes/club-sandwich.

FICHA TÉCNICA


Direção e Roteiro:  Fernando Eimbcke

Elenco: Carolina Politi, Danae Reynaud, Lucio Giménez Cacho, María Renée Prudencio

Produção: Christian Valdelièvre, Jaime Bernardo Ramos

Fotografia: María Secco

Montador: Mariana Rodríguez

Estreia: 09/04/2015 (Brasil)

Duração: 82 min.