EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 30 de junho de 2015

Papa ou Maman / Beijei uma Garota



Motes Invertidos

Há tempos a comédia francesa, romântica ou não, tem se espelhado em exemplos vindos da indústria hollywoodiana, cunhando, assim, obras que, exceto pelo idioma e locações, pouco se distinguem daquilo que é produzido dentro do gênero nos Estados Unidos.
Neste diapasão, Papa ou Maman (França, 2015) e Beijei uma Garota (França, 2015) se mostram como inegáveis adaptações de duas consagradas comédias americanas, quais sejam, respectivamente, A Guerra dos Roses (EUA, 1989) e Será que Ele É? (EUA, 1997). Com efeito, as duas produções francesas invertem os pontos principais das narrativas de suas obras inspiradoras, garantindo para si o quê de frescor, charme e humor compensadores da falta de ineditismo dos roteiros, senão vejamos:

- Assim como em A Guerra dos Roses o casal de protagonistas pratica atos ensandecidos entre si face a um conturbado processo de separação de corpos e de bens, em Papa ou Maman tem-se também um casal novamente em separação e visando atingir um ao outro; a diferença, nesse último caso, reside no alvo das sabotagens e armadilhas armadas pelos personagens: os próprios filhos. Conscientes de que aquele com quem os filhos resolverem morar terá sua liberdade consideravelmente comprometida, os pais resolvem atacar os rebentos para, desse modo, não serem seus eleitos, numa fuga da guarda cujo êxito pode resultar no maior de todos os boicotes contra o ex-cônjuge. A premissa um tanto absurda rende infindáveis gargalhadas na medida em que os constrangimentos provocados pelos pais nos filhos vão se tornando mais e mais absurdos, no que se inclui o passeio do pai com a filha por um bar de striptease entre outras sacadas deliciosas porque politicamente incorretas – algo raro atualmente, principalmente no  que se refere ao cinemão norte-americano.
- Numa estratégia parecida a supracitada, Beijei uma Garota inverte o mote de Será que Ele É? uma vez que ao invés de abordar a “transformação” de um heterossexual em homossexual o filme francês trilha o caminho inverso ao narrar a saga de um homem que, prestes a casar com seu namorado de uma década, vê todas suas certezas ruírem após ficar com uma mulher pela primeira vez. Exceto por algumas piadas um tanto grosseiras assumidas pela figura do melhor amigo garanhão, o longa-metragem entrega uma boa, curiosa e até ousada variação da temática, ao passo em que assume o risco de ser taxado como preconceituoso por nadar contra a maré da aceitação e respeito ao homossexualismo. Seja como for, para que não paire dúvidas, nenhuma discriminação há contra qualquer opção sexual no trabalho de Maxime Govare e Noémie Saglio que, por seu turno, apenas se aproveitam de uma inversão de valores e de ideias para criar situações embaraçosas e não menos que cômicas para seu personagem principal.
Como é possível perceber, as obras em comento não se contentam com as influências, nítidas, nas quais se fundam, buscando pelas vias da exceção e da inversão o rejuvenescimento e o sucesso da piada, metas essas feliz e devidamente alcançadas.

Ficha Técnica Papa ou Maman

Direção: Martin Bourboulon
Roteiro: Alexandre de la Patellière, Matthieu Delaporte
Elenco: Achille Potier, Alexandre Desrousseaux, Anna Lemarchand, Anne Le Ny, Eric Naggar, Jean-Baptiste Fonck, Judith El Zein, Laurent Lafitte, Marina Foïs, Michaël Abiteboul, Michel Vuillermoz, Mireille Franchino, Pierre Samuel, Théoline Lanckriet, Vanessa Guide, Yannick Choirat, Yves Verhoeven
Produção: Dimitri Rassam
Fotografia: Laurent Dailland
Montador: Virginie Bruant
Trilha Sonora: Jérôme Rebotier
Duração: 85 min.

Ficha Técnica – Beijei uma Garota

Título Original: Toute Première Fois
Direção e Roteiro: Maxime Govare, Noémie Saglio
Elenco: Adrianna Gradziel, Camille Cottin, Diane Tell, Emilie Arthapignet, Etienne Guiraud, Franck Gastambide, Frédéric Pierrot, Hubert Saint-Macary, Isabelle Candelier, Julien Cazarre, Lannick Gautry, Léonard Prain, Nicole Ferroni, Pio Marmaï, Sébastien Castro
Produção: Edouard Duprey, Renaud Chélélékian, Sidonie Dumas
Fotografia: Jérôme Alméras
Montador: Beatrice Herminie
Trilha Sonora: Mathieu Lamboley
Duração: 98 min.
Estreia: 30/07/2015 (Brasil)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Samba



Globalização e Miscigenação

Aviso aos navegantes: o texto a seguir, de maneira incomum ao que é rotineiramente publicado nesse espaço, terá consideráveis frações escritas em primeira pessoa. A opção por tal estilo redacional haverá de se justificar ao longo da análise, senão vejamos...
Após assistir Samba (França, 2014) uma amiga enviou para mim o seguinte julgamento: trata-se de um “filme americano, falado em francês com música brasileira”. Ciente de que a trilha musical integrada, dentre outras, por canções de Gilberto Gil e Jorge Ben Jor possui a devida explicação dentro da narrativa, passei a refletir sobre a primeira parte do comentário e a indagar até onde vai sua procedência e quais os efeitos, se positivos ou negativos, da suposta miscigenação fílmica detectada. Dito isso, eis o fundamental questionamento em torno do assunto: o fato de um filme europeu apresentar nítidas influências hollywoodianas depõe contra sua essência?
Inicialmente cabe lembrar que a linguagem arquitetada pelo cinema de Hollywood fora forjada ao longo de décadas num processo que recebeu a colaboração de muitos cineastas europeus que para lá migraram principalmente as vésperas da II Guerra Mundial. A partir desse emaranhado de influências, fórmulas foram sendo engendradas e utilizadas de maneira exaustiva a ponto de agregar um tom jocoso a expressão “filme americano”.
Seja como for, graças ao poder de abrangência com que atinge quase todos os cantos do planeta, o cinema norte-americano, para o bem ou para o mal, acaba influenciando o cinema de outros países, o que não necessariamente há de ser visto com olhos ressabiados contanto que as referências sejam bem trabalhadas e adaptadas, na medida do possível, a realidade local. Mostras como o Festival Varilux de Cinema Francês, dentro deste contexto, servem para exemplificar como o cinema francês se afastou do tom rebuscado da época da Nouvelle Vague para, em contrapartida, adotar uma toada mais universal – principalmente no que tange o campo da comédia romântica – face a utilização duma linguagem em muito semelhante a da indústria americana, sem deixar, em grande parte dos casos, de garantir a devida pitada de nacionalidade ao produto, seja, por exemplo, mediante um refinamento maior do humor seja através da parcimônia com que busca conquistar o público.
Com efeito, Eric Toledano e Olivier Nakache já haviam mostrado no estrondoso sucesso Intocáveis¹ (França, 2011) a capacidade de enquadrar num estilo particular um jeito americano de contar uma história. Ao modo Rain Man (EUA, 1988) os cineastas investigaram meandros da amizade masculina e das dificuldades enfrentadas por deficientes físicos sem deixar que seu trabalho soasse como mais do mesmo. A influência, neste passo, fora facilmente identificada sem, entretanto, tornar invisível a personalidade própria do trabalho graças, em grande parte, ao talento da dupla para fazer humor com assuntos sisudos sem incorrer na banalização – algo que Roberto Benigni não conseguira fazer no superestimado A Vida é Bela (Itália, 1997).
Em Samba, os diretores novamente se valem de uma estrutura fílmica hollywoodiana para brincar, no bom sentido, com tema ainda mais delicado e amplo quanto ao raio de envolvidos, qual seja a questão da imigração ilegal que tanto incomoda os países desenvolvidos – problema que os Estados Unidos, aliás, pouco tratam cinematograficamente².
Em se tratando da adaptação de uma obra literária, Toledano e Nakache realizam as alterações que entendem necessárias sobre o texto de origem e se esmeram em garantir uma levada bem humorada ao assunto, espinhoso por natureza, tratado. Porém, de forma inversa a praticada em Intocáveis, o humor dessa vez não dá as caras de imediato, sendo construído paulatinamente ao ponto de ensejar a dúvida: seria o longa-metragem um drama com leves tons de comédia ou seria, ao contrário, uma comédia preponderante – ainda que mais compassada que o habitual no gênero – que por vezes revela alguns tons dramáticos?
Seja qual for a resposta, o questionamento, em seu bojo, exacerba aquilo que faz o “filme americano falado em francês” se mostrar realmente europeu: não há pressa em envolver o espectador, sendo isso uma conseqüência do correto desenvolvimento da trama e do apropriado cuidado dispensado aos personagens – muito bem interpretados, ressalte-se, por um elenco não menos que impecável, no que se destaca Tahar Rahim revelando um inesperado talento para a comédia.
Em um tempo tão globalizado como o atual, Samba incorpora as várias nacionalidades de seus personagens e se comporta como um produto multinacional, para a aflição de quem ainda vê o cinema francês como a arte de estética intimista, minimalista e por vezes meândrica dos anos 1950 e 1960. O passado não volta e o presente há de ser encarado seja isso bom ou não. E Samba é ótimo.
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1. Leia mais sobre Intocáveis em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/cabra-marcado-para-morrersantiago.html.
2. Neste sentido, seguem links com exemplos de alguns dos poucos  títulos norte-americanos que abordam o tema da imigração ilegal: http://50anosdefilmes.com.br/2009/o-cinema-e-uma-arma-quente-contra-o-racismo-e-a-xenofobia/  http://listasde10.blogspot.com.br/2010/11/10-filmes-sobre-imigracao.html.

FICHA TÉCNICA 

Direção: Eric Toledano, Olivier Nakache
Roteiro: Eric Toledano, Olivier Nakache
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Christiane Millet, Clotilde Mollet, Hélène Vincent, Isaka Sawadogo, Izïa Higelin, Jacqueline Jehanneuf, Liya Kebede, Omar Sy, Sabine Pakora, Tahar Rahim, Youngar Fall
Produção: Laurent Zeitoun, Nicolas Duval-Adassovsky, Yann Zenou
Fotografia: Stéphane Fontaine
Montador: Dorian Rigal-Ansous
Trilha Sonora: Ludovico Einaudi
Duração: 120 min.
Estreia: 09/07/2015 (Brasil)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sexo, Amor e Terapia / O que as Mulheres Querem



Autossabotagem

Num tempo em que a bandeira contra a misoginia e, felizmente, tremulada com vigor, resta até arriscado criticar títulos como Sexo, Amor e Terapia (França/Bélgica, 2014) e O que as Mulheres Querem (França, 2014) sob pena de ser taxado como preconceituoso e machista. Isto posto, encaremos o perigo.

Surpreendentemente, no sentido negativo, dirigido por mulheres, as obras em comento possuem o nítido afã de igualar mulheres com homens seja no comportamento, nos anseios e receios. Lamentavelmente, porém, o caminho tomado para tanto é o da vulgaridade e da futilidade, senão vejamos:
- Em Sexo, Amor e Terapia tem-se o clássico formato da comédia romântica hollywoodiana com destaque para um casal antagônico que natural e previsivelmente acaba se apaixonando; no caso em tela trata-se da junção de uma espécie de ninfomaníaca com um abstêmio sexual, o que abre as portas para um show de vulgaridades proporcionado por Sophie Marceau e sua Judith que, por seu turno, não recebem qualquer cuidado por parte da direção e do roteiro no que se refere a um tratamento minimamente respeitoso quanto a seu vício – algo que, por exemplo, fora providenciado em produções como Céu Azul (EUA, 1994) e Ninfomaníaca (Dinamarca, 2013) e que impediu que as respectivas atuações de Jessica Lange e Charlotte Gainsbourg tornassem vulgares os seres por elas interpretados. No longa-metragem francês dirigido por Tonie Marshall o homem é na medida do possível o ser controlado, racional vitimado por uma viciada em sexo que põe a perder todo o seu tratamento de abstinência. Não bastasse essa constrangedora definição de perfis, o filme ainda deixa no ar a impressão de que a mulher consegue sucesso em suas metas graças não a sua competência e sim aos favores sexuais prestados, o que afunda ainda mais as pretensões feministas de uma comédia cujo pouco riso provocado advém de uma sensação de vergonha alheia.

-Já em O que as Mulheres Querem o que se vê é a banalização dos anseios femininos. As mulheres jamais se bastam, sendo, sem exceção, influenciadas quase sempre negativamente pela ausência ou presença masculina. Sem um macho alfa ao seu lado – que pode ser personificado até por uma lésbica – as figuras femininas restam perdidas a procura de um elemento que as domine, sobretudo, pelo sexo, daí não raro serem caracterizadas como umas tresloucadas descontroladas. Neste passo, o talento individual é relegado a um plano subalterno pois o que realmente importa para aquelas é a companhia garantidora da felicidade e da satisfação sexual. Desta feita, o desastre é ainda maior do que o visto em Sexo, amor e Terapia afinal a diretora e atriz Audrey Dana não limita seu enredo a um número reduzido de personagens, criando, em contrapartida, um filme coral composto pelas histórias de onze mulheres grosseiramente relacionadas. Assim, sobram pontas soltas, arcos dramáticos mal definidos e personagens insuficientemente exploradas. Some-se a isso um roteiro incapaz de apresentar uma piada digna de gargalhada e que não raro apela para a escatologia e o resultado é um dos filmes mais pavorosos da recente produção cinematográfica francesa.
Fossem homens os diretores...

FICHA TÉCNICA - Sexo, Amor e Terapia


Título Original: Tu veux... ou tu veux pas?


Direção e Roteiro: Tonie Marshall                                                

Elenco: André Wilms, Camille Panonacle, Claude Perron, Fanny Sidney, François Morel, Jean-Pierre Marielle, Marie Rivière, Pascal Demolon, Patrick Braoudé, Patrick Bruel, Philippe Harel, Philippe Lellouche, Scali Delpeyrat, Sophie Marceau, Sylvie Vartan

Produção: Bruno Pésery, Diana Elbaum, Tonie Marshall

Estreia: 16/07/2015 (Brasil)

Duração: 88 min.



FICHA TÉCNICA - O que as Mulheres Querem 


Título Original: Sous les Jupes des Filles

Direção: Audrey Dana

Roteiro: Audrey Dana, Murielle Magellan, Raphaëlle Desplechin

Elenco: Alex Lutz, Alice Belaïdi, Alice Taglioni, Audrey Dana, Audrey Fleurot, Géraldine Nakache, Guillaume Gouix, Isabelle Adjani, Julie Ferrier, Laetitia Casta, Marc Lavoine, Marina Hands, Pascal Elbé, Sylvie Testud, Vanessa Paradis

Produção: Marc Missonnier, Olivier Delbosc

Fotografia: Giovanni Fiore Coltellacci

Montagem: Ismael Gomez III, Julien Leloup

Estreia: 18/06/2015 (Brasil)

Duração: 116 min.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo com a Minha Vida



Um Trabalho Injustiçado

Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo com a Minha Vida (Brasil, 2011) é um trabalho deveras injustiçado, tendo em vista que a abundância de elogios a obra anterior do diretor Matheus Souza, Apenas o Fim¹ (Brasil, 2008), dessa vez se transformou numa avalanche de críticas impiedosas sobre o roteiro e contra a atuação de sua atriz principal Clarice Falcão.
Dito isso, explique-se o porquê da injustiça:
Em Eu Não Faço... o cineasta se vale novamente de uma toada verborrágica que, sem soar repetitiva,  o aproxima de modo cada vez mais saudável do estilo fílmico de Woody Allen²; neste passo, Souza retoma temas como o fracasso do amor e as dúvidas e questionamentos enfrentados por quem recém ingressara na fase adulta da vida. As dificuldades de entender os mais velhos quando já se é também um adulto, as incertezas quanto as escolhas profissionais e a vontade de voltar no tempo para uma época mais segura e confortável são assuntos já vistos em Apenas o Fim e agora revisados sob novo prisma. Destarte, se em seu primeiro longa-metragem predominava a ótica masculina no que tange os anseios e medos discutidos, em seu segundo título é uma mulher quem tem tais sensações estudadas, ademais, enquanto o filme de 2008 limitava o raio emocional ao jovem casal protagonista, o longa-metragem lançado em 2013 expande tal abrangência ao demonstrar que aqueles mais velhos possuem frustrações e pavores semelhantes em intensidade aos dos jovens e diferentes apenas quanto aos motivos.
Para uma melhor compreensão do que fora afirmado, cabe escrutinar a narrativa: sob o auxílio de Guilherme (Rodrigo Pandolfo) um novo parceiro amoroso, Clara, antes uma pessoa que vagava pelas manhãs fugindo dos compromissos acadêmicos e de vida, passa a ocupar seu tempo ‘livre’ atuando em várias missões de ajuda ao próximo e, por conseguinte, de autodescobrimento. Consequentemente, a garota recupera o diálogo com parentes distantes³ e principalmente com os pais, o que a permite não só investigar sua vocação como também estreitar a relação com seu colaborador e conselheiro Guilherme.
Neste contexto, cada uma das frentes de atuação da universitária é explorada a contento, mesclando-se uma a outra de modo fluido, dinâmico graças a uma ótima trilha musical que inclui nomes como Tiê, Mallu Magalhães, Silva e Marcelo Camelo, a um correto trabalho de montagem que não permite ao espectador esquecer as tarefas assumidas pela personagem, bem como a um roteiro enxuto que ainda encontra espaço para criar sequências curiosas quanto a criação de falsas expectativas⁴ e impecáveis quanto a incerteza dos sentimentos envolvidos⁵.
Desse modo, o passo a passo de Clara ao encontro das respostas almejadas pode até não se mostrar tão inédito quanto o anterior Apenas o Fim, porém, ainda assim é tão saboroso de acompanhar quanto. E, nesse aspecto, de grande importância se torna a presença de Clarice Falcão num desempenho incompreendido por muitos, mas que se adequa com exatidão ao que exigia a personagem: um perfil ainda com um pé na adolescência, deslocado no espaço e no tempo, inseguro e por vezes cínico. Com um comportamento aéreo, como quem flutua e pouco põe os pés no chão, Falcão personifica acertadamente a figura da jovem universitária ansiosa por estar em qualquer lugar menos em sua casa e faculdade, angustiada por querer viver qualquer vida menos a sua atual.
Eis um conjunto que merece o devido reconhecimento de suas qualidades.  
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1.    Leia mais sobre Apenas o Fim em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/11/apenas-o-fim.html.
2.    O próprio artista confessa sua influência de Woody Allen, senão vejamos:  "o jovem diretor Matheus Souza, de 24 anos, decidiu fazer cinema graças a Woody Allen. A inspiração no famoso diretor nova-iorquino, no entanto, teve razões bem mais mundanas do que artísticas. 'Woody Allen é um cara que mudou minha vida e é minha maior inspiração. Eu tinha 12 anos e era todo bizarro: gordinho, usava óculos, tinha espinhas e sofria bullying no colégio. Aí, vi um filme de um cara que era pior do que eu, mas pegava a Julia Roberts. Falei: ‘É isso que eu quero fazer da minha vida'”.(FONTE:http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/08/diretor-matheus-souza-custeou-novo-filme-com-dinheiro-do-proprio-bolso.html. Acesso em 05.06.2015).
3.    O que permite um interessante desfile, não remunerado, de estrelas na tela, exceto no que tange a escalação de Gregório Duvivier para um papel não condizente com a sua idade.
4.    A cena em que os pais da protagonista se reúnem durante o jantar para contar que reataram é um exemplo disso, na medida em que tudo levava a crer que seria uma separação dos dois o assunto a ser tratado.
5.  Destaque-se neste diapasão a bela finalização da sequência passada no Cristo Redentor quando uma declaração de amor é interrompida por uma triste mas sincera falta de reciprocidade.

FICHA TÉCNICA

Direção, Roteiro e Produção: Matheus Souza
Elenco: Alexandre Nero, Augusto Madeira, Bel Garcia, Bianca Byington, Camila Amado, Clarice Falcão, Cristiana Peres, Daniel Filho, Gregório Duvivier, Kiko Mascarenhas, Leandro Hassum, Nelson Freitas, Rodrigo Pandolfo, Wagner Santisteban
Fotografia: Luísa Mello
Estreia: 20/12/2013
Duração: 90 min.
Curiosidade:  Segundo Márcio Luiz: "Com orçamento de aproximadamente R$ 20 mil, baixíssimo até para os padrões brasileiros, a produção foi custeada com recursos do próprio diretor. 'Desde meu primeiro filme, eu estava tentando fazer cinema do jeito convencional, captando dinheiro, mas não estava rolando. Aí, fui contratado para fazer um roteiro e, com o dinheiro que ganhei, fiz esse filme. Parei de pagar todas as minhas contas durante dois ou três meses. Foram cortando tudo lá em casa: luz, gás, internet”, relembra o diretor'" (FONTE:http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/08/diretor-matheus-souza-custeou-novo-filme-com-dinheiro-do-proprio-bolso.html. Acesso em 05.06.2015).