EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 31 de março de 2015

Cinderela



Caça Níquel Covarde

Outrora um cineasta aclamado e conhecido por suas adaptações para obras de Shakespeare, Kenneth Branagh viu o prestígio dos anos 90 ficar para trás, o que o obrigou a se reinventar e assumir o papel de diretor de blockbusters. Thor (EUA, 2011) já dava a pista de que o inglês se tornara um peão de estúdio, impressão que se confirma em definitivo com o desnecessário Cinderela (EUA, 2015), longa-metragem que, aliás, atesta não só a falta de autonomia de Branagh enquanto artista como também a carência de originalidade da indústria hollywoodiana.  
Neste sentido, ao contrário do que fizera o bom Branca de Neve e o Caçador¹ (EUA, 2012), a mais nova versão da saga de Cinderela não arrisca mudar nada do que fora contado na animação de 1950, daí não passar de um mero caça níquel covarde.  Com efeito, a escalação de Branagh, Cate Blanchet Helena Bonham Carter e Stellan Skarsgard se mostra como típica estratégia para agregar valor a um título fraco em sua essência e despertar o interesse não só do público infantil como também adulto.
Lamentavelmente, porém, a Disney - que poderia ter se inspirado nas realizações da Pixar - pouco faz para que o conteúdo de Cinderela agrade a pais e demais adultos, entregando, assim uma abordagem que de tão ingênua comete o erro teratológico de tornar a protagonista irritante tamanha a forma sorridente com que encara toda sorte de humilhações.
Cinderela chove no molhado revelando-se, desta feita, tão descartável quanto A Garota da Capa Vermelha (EUA, 2011), produções essas que, exceto por seus respectivos figurinos, em nada chamam a atenção de modo positivo. Resta saber se Mulan, A Bela e a Fera, Mogli e Dumbo, próximas animações da Disney a migrar para o formato live action², serão apenas novos exemplos da ausência de criatividade dos roteiristas de Hollywood ou se buscarão modernizar o texto de origem tal como tentaram Alice no País das Maravilhas³ (EUA, 2010) e Malévola (EUA, 2014). Aguardemos.
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1.Leia mais sobre Branca de Neve e o Caçador em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/06/branca-de-neve-e-o-cacador.html.
2.FONTE: http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-112458/. Acesso em 31/03/15.
3.Leia mais sobre Alice no País das Maravilhas em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/05/alice-no-pais-das-maravilhas.html

FICHA TÉCNICA

Título Original: Cinderella
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Aline Brosh McKenna, Chris Weitz
Elenco: Lily James, Cate Blanchett, Helena Bonham Carter, Stellan Skarsgard, Richard Madden, Alex Marek, Alexander Gillison, Andrew Fitch, Ann Hoang, Ant Henson, Arielle Campbell, Barrie Martin, Ben Chaplin, Bhanu Alley, Bronwyn Pearson, Charlotte Worwood, Craig Mather, Derek Jacobi, Dolapo Umar, Drew Sheridan-Wheeler, Edward Lewis French, Elina Alminas, Elliott Wright, Eloise Webb, Finesse Fonseka, Francesca Bennett, Gareth Mason, Georgie-May Tearle, Gino Picciano, Hayley Atwell, Henry McCook, Holliday Grainger, James Butcher, Janet Dawe, Jd Roth-round, João Costa Menezes
Fotografia: Harris Zambarloukos 
Estreia: 13/03/15                     Estreia no Brasil: 26/03/15
Duração: 113 min.


domingo, 22 de março de 2015

Um Santo Vizinho



Cine Reprise


Para melhor apreciar e se deixar envolver por Um Santo Vizinho (EUA, 2014) uma medida se faz necessária: esquecer que esse filme já foi feito e visto pelo menos uma dezena de outras vezes, afinal, seu roteiro apresenta a clássica história da amizade masculina improvável porque protagonizada por figuras muito díspares. Neste diapasão, pode-se de imediato elencar dentre as obras com narrativas parecidas Rain Man (EUA, 1988), Intocáveis¹ (França, 2011) e Perfume de Mulher (EUA, 1992) – valendo destacar no que tange este último a sequência do discurso final edificante repetida no título ora analisado. Já a presença infantil na trama faz lembrar a amizade entre um adulto cínico e menino deslocado representada em Um Grande Garoto (EUA/Reino Unido/França, 2002). Por seu turno, os demais personagens que compõem o enredo de Um Santo Vizinho se agrupam em torno dos dois personagens principais para pouco a pouco formar uma família tão disfuncional quanto aquela mostrada em Pequena Miss Sunshine² (EUA, 2006) – aliás, qualquer semelhança entre os pôsters das produções não é mera coincidência.
Com efeito, apesar da falta de ineditismo da obra, é inegável que um certo charme a permeia, o que é fruto de uma trilha musical envolvente e, sobretudo, de um exitoso trabalho de elenco que inclui Melissa McCarthy provando ser ótima atriz dramática, Naomi Watts chamando a atenção com um sotaque estranhíssimo, Terrence Howard discreto e eficiente, Bill Murray a vontade como de costume e o novato Jaeden Lieberher revelando extrema maturidade e naturalidade num papel que se desempenhado de forma equivocada poria a perder todo o filme.
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1. Leia mais sobre Intocáveis em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/08/intocaveis.html.
2. Leia mais sobre Pequena Miss Sunshine em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/02/os-descendentespequena-miss-sunshine.html.

FICHA TÉCNICA


Título Original: St. Vincent

Direção e Roteiro: Theodore Melfi

Elenco: Naomi Watts, Bill Murray, Melissa McCarthy, Terrence Howard Addison Rose Melfi, Alexandra Fong, Amber Clayton, Ann Dowd, Brenda Wehle, Brian Berrebbi, Chris O'Dowd, Dario Barosso, David Filippi, David Iacono, Deirdre O'Connell, Donna Mitchell, Elliot Santiago, Emma Fisher, Frank Wood, Fred Evanko, Gabe Hernandez, Greta Lee, J. Elaine Marcos, Jaeden Lieberher, Jagger, James Andrew O'Connor, Jeff Bowser, Joann Lamneck, Katharina Damm, Kerry Flanagan, Kimberly Quinn, Larry Gray, Lenny Venito, Maria Elena Ramirez, Maria-Christina Oliveras, Melanie Nicholls-King

Estreia Brasil: 19.02.15                                Duração: 103 min.

domingo, 15 de março de 2015

Para Sempre Alice


Sucinto e Sutil

Sem apelar nem ser piegas Para Sempre Alice (EUA, 2014) dói na alma do espectador seja pelo desespero que a doença de Alzheimer precocemente detectada acarreta na protagonista seja pelo martírio enfrentado por sua família cujos membros acabam por vezes agindo naturalmente com egoísmo ante a alteração de cotidiano proporcionada pela enfermidade daquela.
Neste sentido, Gustavo Assumpção salienta:

“o filme consegue estabelecer uma relação direta com o espectador, sempre alfinetado pelo comportamento dos personagens coadjuvantes. Alice possui filhos, marido, uma família. Mas, tão complexos e presos em suas individualidades, eles lidam de maneiras diferentes com a doença da personagem. O comportamento oposto entre Anna (Kate Bosworth) e Lydia (Kristen Stewart) humaniza esta trajetória, assim como a possível insesibilidade de seu companheiro, vivido pelo veterano Alec Baldwin”¹.
Em meio a esse cenário, o longa-metragem chama a atenção pela sutileza com que aborda a questão da doença degenerativa que é o mal de Alzheimer. Sintéticos, os diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland promovem o corte das cenas mais melancólicas sempre a tempo de evitar que resvalem no melodrama. Com efeito, a forma exitosa com que tratam de sentimentos a flor da pele se deve em muito ao método adotado por Julianne Moore para a condução de sua Alice. Sem esforço, a atriz não exagera em cena alguma e constrói uma personagem marcante na medida em que jamais clama por dó.
Vencedora do Oscar por tal papel, Moore assume com tranquilidade as diversas mudanças de comportamento experimentadas por Alice no decorrer de sua doença e o faz sempre com veracidade sem recorrer a truques performáticos nem contorcionismos, eis que interessa a ela e a produção explorar, sobretudo, o processo de degeneração da mente e não tanto do corpo, afinal para esse último viés já existe uma obra imbatível: Amor² (França, Alemanha, Áustria/2012), de Michael Haneké.
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1.     FONTE: http://www.cineclick.com.br/criticas/para-sempre-alice. Acesso em 12.03.15.
2.     Leia mais sobre Amor em http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/02/amor.html.

FICHA TÉCNICA


Título Original: Still Alice

Direção e Roteiro: Richard Glatzer, Wash Westmoreland

Elenco: Julianne Moore, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Alec Baldwin, Cali T. Rossen, Cat Lynch, Daniel Gerroll, Eha Urbsalu, Erin Darke, Hunter Parrish, Orlagh Cassidy, Rosa Arredondo, Seth Gilliam, Shane McRae, Stephen Kunken, Victoria Cartagena

Produção: James Brown, Lex Lutzus, Pamela Koffler

Fotografia: Denis Lenoir

Montagem: Nicolas Chaudeurge

Estreia Brasil: 12.03.2015

Duração: 101 min.

domingo, 8 de março de 2015

Diana



Falha Imperdoável

Diana (Reino Unido, 2013) aposta num específico lado ou teoria em torno da vida e morte da princesa de Gales, qual seja o relacionamento secreto rompido pouco antes do acidente automobilístico que a vitimara. Diana, como sabido morrera ao lado de Dodi Al-Fayed, milionário egípcio rapidamente alçado por tabloides ao título de amante daquela, porém, de acordo com o longa-metragem de Oliver Hirschbiegel - baseado no livro de Kate Snell, Diana: Her Last Love - o coração de Lady Di pertencia na verdade ao cirurgião paquistanês Hasnat Khans, figura que a produção demonstra inconteste vigor em apresentar para o público.

Além de se esforçar para compor um retrato do médico plebeu que tanta importância e influência detinha perante a princesa do povo, o filme também se esmera em não tecer um relato idealizado desta última. Com efeito, a obra não cai na armadilha de elencar vítimas e vilões, ou seja, Diana é mostrada como uma mulher que sofre com o fim do matrimônio sem, entretanto, deixar buscar a felicidade amorosa, além de ser exibida como uma celebridade que se incomoda com a falta de privacidade proporcionada pela imprensa mas que também sabe se valer desta em prol de interesses seja humanitários, seja pessoais. Desse modo, Hirschbiegel não hesita em afirmar que Diana treinava previamente suas performances para as câmeras e deixava vazar informações particulares a paparazzis quando assim lhe convinha.
Dito isso, o título se desincumbe das tarefas de apresentar dignamente Hasnat Khans e de retratar a princesa Diana sem ser chapa branca, porém, vacila de maneira colossal ao esquecer de tratar Dodi Al-Fayed com o mínimo de zelo ante a narrativa. Neste sentido, a figura do egípcio, supostamente usado por Diana para despertar ciúme no paquistanês, cai de paraquedas na trama não tendo adiante qualquer desenvolvimento de sua personalidade realizado, erro inconcebível e um tanto inacreditável tendo em vista ser este um personagem deveras importante em meio ao trágico fim da ex-mulher do herdeiro do trono britânico.

FICHA TÉCNICA

Direção: Oliver Hirschbiegel
Roteiro: Stephen Jeffreys
Elenco: Naomi Watts, Art Malik, Cas Anvar, Charles Edwards, Daniel Pirrie, Douglas Hodge, Geraldine James, Harry Holland, Jonathan Kerrigan, Juliet Stevenson, Laurence Belcher, Michael Byrne, Michael Hadley, Naveen Andrews, Raffaello Degruttola, Thusitha Jayasundera
Produção: Douglas Rae, Robert Bernstein
Fotografia: Rainer Klausmann
Estreia: 18.10.13                                Duração: 111 min.