EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 14 de fevereiro de 2015

O Mercado de Notícias



Telecurso Panfletário

Logo no início de O Mercado de Notícias (Brasil, 2014) o diretor Jorge Furtado declara que sua intenção é fazer deste um trabalho que enalteça o jornalismo e não o que o deprecie. Tal premissa é felizmente descumprida na medida em que o cineasta opta, por exemplo, por ilustrar o documentário com a encenação de trechos da peça teatral homônima escrita pelo inglês Ben Jonson em 1625, texto esse particularmente ácido quanto a figura do jornalista e seu posicionamento ao sabor das circunstâncias e da pecúnia.
Tal recurso, vale esclarecer, pouco acrescenta da opinião de Furtado sobre o tema, servindo na verdade apenas de respiro ao espectador que entre tantos depoimentos de jornalistas brasileiros contemporâneos pode assim descansar apreciando uma linguagem audiovisual emprestada diretamente do extinto Telecurso 2000 – sim, o programa educacional matutino da Rede Globo.
Quando resolve falar sobre os erros que a imprensa comete Furtado enfim revela o que pensa, porém o faz dirigida e equivocadamente contra os meios de comunicação opositores ao governo petista. Desta feita, o documentarista embarca num discurso panfletário que reproduz a dicotomia vigente, ainda que ultrapassada, do “nós contra eles”, do poder do proletariado contra a burguesia. Em outras palavras, Furtado não consegue tratar da problemática sem ser literal e escancaradamente partidário¹, senão vejamos dois exemplos:
- numa determinada sequência o cineasta aborda a história, divulgada pela Folha de São Paulo, de uma provável tela pintada por Pablo Picasso que havia sido por acaso encontrada num prédio do INSS; neste diapasão, o cineasta desconstrói com afinco detalhe por detalhe da conversa fiada publicada pelo jornal de grande circulação e, não satisfeito com tal resultado, conclui triunfante ao término de sua explanação, com exagerado esteio na semiótica, que aquela matéria absurda possuía um objetivo intrínseco preconceituoso, qual seja demonstrar que um governo do povo não detém conhecimento intelectual necessário para a missão de liderar um país, daí que a fotografia da suposta obra de arte pendurada numa parede ao lado de um retrato do então presidente Lula servia de metáfora para o abismo cultural no qual o Brasil caíra²;
- em seguida, Furtado repete a manjada ladainha lulo-petista contra a Revista Veja ao destacar como errônea uma das manchetes do periódico sobre o ex-ministro dos esportes Orlando Silva acusado em 2011 por um militante do PCdoB de haver recebido propinas na garagem do Ministério dos Esportes; no afã de convencer o espectador de sua tese sobre a ocorrência de crime contra a reputação do político, Furtado insinua o descrédito da revista mediante a apresentação de uma manchete veiculada num site informando que o autor das acusações havia voltado atrás e retirado o que tinha dito. Assim, Furtado julga o meio de comunicação sem dar a ele a oportunidade de se manifestar sobre o desenrolar do caso e, o que é pior, ignora que a publicação teve por base a declaração de uma fonte não secreta, daí que qualquer deturpação dos fatos porventura relatada na ocasião não partira da revista e sim do acusador, tendo aquela apenas cumprido seu dever de informar aquilo que lhe fora repassado.
Isto posto, O Mercado de Notícias é em seu âmago o retrato de um nicho e de um tempo. Em suma, o que o filme trata é da relação entre a imprensa e o governo federal petista. Lamentavelmente, o que se mostra é um olhar isento de preferências, uma manobra maniqueísta para ludibriar o espectador com lamúrias e pregações partidárias. Talvez por isso o filme que tanto se dedica a discorrer sobre a ética e eficiência do jornalismo evite, em contrapartida, adentrar no mérito da possível inviabilidade de atuação de seus profissionais caso um dia levada a cabo o velho sonho de Lula, Franklin Martins e demais companheiros de regular a mídia³.
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1.Dentro deste contexto, Marcelo Coelho assim discorre sobre o filme: “Metade dos entrevistados, mais ou menos, considera que os jornais perseguem o governo do PT, e teria longas considerações a fazer sobre o caso do mensalão. [...] A vontade implícita deste documentário é colocar em questão uma imprensa que foi duríssima contra Lula. Por que não falar disso de uma vez? Curiosamente, o tema do mensalão foi recalcado, abafado, suprimido (auto-censurado?) em ‘O Mercado de Notícias’. Por esse cuidado do diretor, que talvez tenha querido parecer ‘apartidário e independente’, o filme me pareceu ficar girando na periferia de seu assunto real” (FONTE: http://marcelocoelho.blogfolha.uol.com.br/2014/08/21/o-mercado-de-noticias/ Acesso em 14.02.14).
2. O documentário possui uma página própria na Internet espaço no qual a conclusão sobre o caráter preconceituoso da matéria fora repetido nos seguintes termos: “O sentido da matéria é claro: os novos ocupantes do governo federal não reconhecem e não sabem lidar com o valor da arte” (FONTE: http://www.omercadodenoticias.com.br/casos-jornalisticos/#picasso-do-inss/ Acesso em 14.02.14).
3. Para não soar injusto, cabe ressaltar que uma declaração acerca da tentativa de regulação da imprensa é destacada por Jorge Furtado sobretudo no site de O Mercado de Notícias, qual seja a seguinte fala de Bob Fernandes: “Não conheço nenhum caso recente de censura do Estado, que tanto temem. E eu conheço, e qualquer jornalista conhece, centenas de casos de censura feita pelos dono do meio de comunicação”. Infelizmente, contudo, a frase se perde em meio a tantas outras não sendo devidamente escrutinada.

FICHA TÉCNICA

DIREÇÃO E ROTEIRO: Jorge Furtado
PRODUÇÃO: Nora Goulart
ELENCO: Antônio Carlos Falcão, Eduardo Cardoso, Elisa Volpatto, Evandro Soldatelli, Irene Brietzke, Ismael Caneppele, Janaina Kremer, Marcos Contreras, Mirna Spritzer, Nelson Diniz, Sérgio Lulkin, Thiago Prade, Ursula Collischonn, Zé Adão Barbosa
EDIÇÃO: Giba Assis Brasil
FOTOGRAFIA: Alex Sernambi, Jacob Sarmento Solitrenick
MÚSICA: Leo Henkin
DIREÇÃO DE ARTE: Fiapo Barth
FIGURINO: Rosangela Cortinhas
ESTÚDIO: Casa de Cinema de Porto Alegre
ESTREIA: 07/08/14
DURAÇÃO: 94 min.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Homens, Mulheres e Filhos



A Família Como Vai?

Homens, Mulheres e Filhos (EUA, 2014) tem muito a dizer. Ambicioso, o filme se dedica a analisar temas como a idiotização dos jovens em tempos de Internet e o detrimento das relações, sobretudo, familiares numa época cuja virtualidade faz os genitores parecerem cada vez mais ultrapassados perante a prole, restando, assim despidos de qualquer meio de controle sobre o que os filhos veem, fazem e com quem interagem.
Numa realidade cujo perigo não está somente nas ruas, mas principalmente dentro de casa graças ao acesso a web, o roteiro, baseado no livro de Chadk Kultgen, analisa os efeitos exercidos pelos novos meios de comunicação tanto sobre os filhos – e sua cultura da futilidade, do egoísmo e da falta de sentido nas coisas – quanto sobre os pais e a total escuridão na qual transitam ante a complexa e difícil tarefa que é criar um ser humano, principalmente adolescente, nos dias de hoje.
Para tanto, Jason Reitman se vale de um grande número de personagens e dramas paralelos, o que acaba, infelizmente, funcionando como calcanhar de Aquiles da obra na medida em que sua estrutura fílmica se revela insuficiente para tratar satisfatoriamente todas as situações encenadas. Não se trata aqui de desmerecer por completo o trabalho do diretor já que é nítido seu zelo pelos personagens e o cuidado tomado para conectar as subtramas; o problema, neste diapasão, reside apenas no pouco tempo de duração dispensado ao título para tratar de tantos assuntos e pessoas, daí, não a toa, determinados personagens acabarem por vezes esquecidos pelo espectador, assim como atores restarem subaproveitados - vide a minúscula participação de J. K. Simmons.
Homens, Mulheres e Filhos clamava por ter um tratamento extenso como o de um Short Cuts – Cenas da Vida (EUA, 1993) ou até por ser filmado na condição de série televisiva (Angels in America assim o fez). Seja como for, uma conclusão é inegável: muito melhor um trabalho que deixa a sensação de “quero mais” do que uma produção que deixa fatigado e ansioso por seu término quem a assiste.

FICHA TÉCNICA


Título Original: Men, Women and Children

Direção: Jason Reitman

Produção: Jason Reitman, Helen Estabrook

Roteiro: Chad Kultgen, Erin Cressida Wilson, Jason Reitman

Elenco: Jennifer Garner, Adam Sandler, Ansel Elgort, Candace Lantz, Christina Burdette, Cody Boling, Colby Arps, Craig Nigh, Dan Gozhansky, David Denman, David Jahn, Dean Norris, Dennis Haysbert, Elena Kampouris, Emma Thompson, Helen Estabrook, Irene White, J. K. Simmons, Jake McDermott, Jaren Lewison, Jason Douglas, Jeff Witzke, Jillian Nicole Jackson, Jon Michael Davis, Judy Greer, Kaitlyn Dever, Kaleb King, Karen Smith, Katherine C. Hughes, Kathrine Herzer, Kelly O'Malley, Luci Christian, Olivia Crocicchia, Phil LaMarr, Richard Dillard

Estreia no Brasil: 04/12/14                                                      Duração: 119 min.