EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Boyhood: Da Infância À Juventude



A Banalidade do Tempo

Boyhood: Da Infância À Juventude (EUA, 2014) é uma obra sobre o caráter prosaico do cotidiano. Neste sentido, em razão de sua narrativa se estender ao longo de mais de uma década o filme acaba também sendo o retrato de um povo no que tange seus costumes e o contexto histórico-político então vivido. Esse mote não necessariamente deve ser considerado inédito – a serie Mad Men, por exemplo, exercitou ao longo dos últimos na TV tal linguagem – logo, o que torna o longa-metragem realmente inovador é a fidelidade com que registra o passar do tempo na vida das pessoas. Para tanto, Richard Linklater não utiliza truques de maquiagem nem troca de atores para envelhecer os personagens preferindo, como sabido, o caminho mais arriscado e difícil: filmar ao longo de doze anos¹.
Dentro deste contexto, a presença do cineasta é decisiva seja para garantir a coesão das interpretações no decorrer do tempo seja para pinçar situações do seu e do nosso dia-a-dia que se encaixam com precisão em cada fase da trajetória do protagonista e demais figuras que o cercam. E é assim que Linklater faz o espectador se identificar com o que vê na tela, tornando-o consequentemente um cúmplice da história e não mais um mero assistente. Em outras palavras, a partir da simplicidade do roteiro advém a facilidade com que o filme encanta multidões.
Boyhood é ficção feita de maneira quase documental, é o cinema que não tem pressa de ser finalizado nem comercializado em benefício da trama, é, portanto, o comprometimento com a arte e a verdade que dela se objetiva extrair. E que venha a sequência²...
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1.  Richard Linklater já havia se valido antes do registro do tempo para fins de adequação a uma narrativa. Filmada de forma não intermitente a trilogia iniciada por Antes do Amanhecer possui como característica o intervalo de nove anos entre cada capítulo, espaços de tempo esses devidamente absorvidos pelos respectivos roteiros.
2.  Durante uma entrevista à Empire Online, Linklater diz que acredita que uma continuação pode ser uma oportunidade para retratar áreas não representadas durante os 12 anos de gravação do longa” (FONTE: http://www.cineclick.com.br/noticias/boyhood-richard-linklater-da-pistas-de-uma-possivel-sequencia. Acesso em 26.01.15).

FICHA TÉCNICA

Título Original: Boyhood
Direção e Roteiro: Richard Linklater
Elenco: Ethan Hawke, Patricia Arquette, Andrew Villarreal, Bonnie Cross, Charlie Sexton, Elijah Smith, Ellar Coltrane, Jamie Howard, Libby Villari, Lorelei Linklater, Marco Perella, Mark Finn, Ryan Power, Shane Graham, Sharee Fowler, Steven Chester Prince, Tess Allen
Produção: Cathleen Sutherland, John Sloss, Jonathan Sehring, Richard Linklater
Fotografia: Lee Daniel, Shane F. Kelly
Estreia no Brasil: 30.10.14
Duração: 165 min.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Planeta Solitário



Dois Segundos

Num ato instintivo de autoproteção, Alex prioriza em certo momento sua sobrevivência em detrimento da vida de sua companheira Nica. Ainda que a reação do homem não tarde e ele logo busque remediar o primeiro gesto de defesa praticado, a pecha do egoísmo e da covardia deixa sua sombra entre o casal, alterando sobremaneira a conduta da mulher que vê suas certezas caírem por terra.


Impressiona como Planeta Solitário (EUA/Alemanha, 2011), na condição de longa-metragem, se justifica e se sustenta em torno dos dois meros segundos tomados por aquele primeiro ato do personagem de Gael García Bernal. A partir de tão surpreendente cena ocorre a transição do primeiro para o segundo ato da trama, restando então alterada toda a concepção do espaço percorrido e dos sentimentos envolvidos. Desta feita, a paixão de outrora e a beleza das paisagens visitadas pelos dois são substituídas pelo distanciamento, pela falta de graça e, sobretudo, pelo silêncio decorrente da dificuldade que ambos tem para tratar o que lhes aflige. Porém, como os sentimentos e a própria vida são ambíguos, um confuso resquício de carinho e preocupação da garota (Hani Furstenberg) perante seu par por vezes dá as caras, o que, vale dizer, não é suficiente para pensar que tudo voltará a ser com antes – incerteza essa, aliás, bem retratada pelo final em aberto da obra.
No afã de ser fiel ao ritmo das fases do relacionamento, a diretora Julia Loktev peca apenas por exagerar na lentidão dos tempos mortos manejados para fins de conclusão da segunda metade da obra. Felizmente, até tal monotonia começar a incomodar, todas as intenções presentes no roteiro¹ já foram transmitidas e assimiladas pelo espectador, o que, frise-se, resulta daqueles impactantes dois segundos.
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1. Segundo Rubens Ewald Filho, o filme é “vagamente inspirado num conto de Hemingway, alias famoso, A Curta e feliz vida de Francis Macomber, que por sua vez é baseado num incidente real que sucedeu antes da Segunda Guerra e que ate virou filme com Gregory Peck em 1947 (Covardia, com Joan Bennett). E também noutra historia, Exprensive Trips Nowhere, de Tim Bissell. Ambos são sobre casais de americanos que se aventuram numa excursão por um lugar de difícil acesso” (FONTE: http://rubensewaldfilho.blogspot.com.br/2013/06/planeta-solitario.html. Acesso em 22.01.15) .

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Loneliest Planet
Direção e Roteiro: Julia Loktev
Elenco: Hani Furstenberg, Gael García Bernal, Bidzina Gujabidze
Produção: Helge Albers, Jay Van Hoy, Lars Knudsen, Marie Therese Guirgis
Fotografia: Inti Briones
Montagem: Michael Taylor
Estreia no Brasil: 03.04.14
Duração: 113 min.