EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Amor Bandido



Misoginia em 24 Quadros por Segundo

Misoginia é a palavra que caracteriza de forma exata o drama Amor Bandido (EUA, 2012). Dito isso, eis um breve apanhado das personagens femininas que de modo coadjuvante participam da trama:
a) Juniper (Reese Witherspoon): mulher de postura relativamente promíscua, ludibria o amor de um homem por ela, levando este a arruinar a própria vida em virtude dos atos de violência por ele cometidos contra os demais affairs da amada;
b) Mary Lee (Sarah Paulson): mãe de família responsável pelo desfazimento do próprio lar e por afastar o filho do pai;
c) May Pearl (Bonnie Sturdivant): adolescente cobiçada, arruína o sonho romântico de um garoto de 14 anos ao desprezá-lo sem qualquer cuidado ou consideração.
Exceção a regra, uma única mulher, sem nome, não é completamente vilanizada, sendo, ao contrário, até santificada em razão de ter morrido durante o trabalho de parto – não sem antes levar consigo a criança que carregava no ventre, afinal, como boa mulher que era não poderia deixar de causar um grande estrago na vida de Tom Blankenship (Sam Shepard), viúvo que em razão da tragédia passa a viver sozinho e taciturno.
Desse modo, as mulheres em Amor Bandido são responsáveis pelos males do mundo, daí os homens restarem isentos de qualquer contribuição perante os problemas e dores por eles enfrentados. Tal maneira sexista e arcaica de se referir ao sexo feminino prejudica a narrativa na medida em que ao invés de dar atenção ao desenvolvimento de uma trama tão desprovida de parcialidade, ao público se torna mais interessante acompanhar o trabalho do elenco – o que inclui o subaproveitamento de estrelas como Michael Shannon e Reese Whiterspoon.
Dentro deste contexto, salta aos olhos mais uma vez o ótimo desempenho de Matthew McConaughey que não desperdiça a chance de dar continuidade a sua sucessão de interpretações marcantes e responsáveis por salvar e agregar valor a filmes na maioria medianos, vide os casos de Magic Mike, Obsessão e Clube de Compras Dallas. Resta ao ator talvez um pouco mais de sorte ou cautela quanto a escolha dos projetos que lhe são apresentados para que, ato contínuo, possa com maior frequência aliar o reconhecido talento a obras relevantes¹, que, sobretudo, não se mostrem contaminadas por pensamentos preconceituosos que a sociedade moderna tanto busca combater.
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1. Tal como ocorrera em O Lobo de Wall Street e Interestelar.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Mud
Direção e Roteiro: Jeff Nichols
Produção: Aaron Ryder, Lisa Maria Falcone, Sarah Green
Elenco: Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Allie Wade, Bonnie Sturdivant, Douglas Ligon, Earnest McCoy, Jabob Lofland, Jimmy Dinwiddie, Joe Don Baker, John Ward Jr., Johnny Cheek, Kenneth Hill, Kristy Barrington, Mary Alice Jones, Matt Newcomb, Michael Abbott Jr., Michael Shannon, Paul Sparks, Ray McKinnon, Reese Whiterspoon, Ryan Jacks, Sam Shepard, Sarah Paulson, Stuart Greer, Tate Smalley
Estreia no Brasil: 01.11.2013
Duração: 130 min.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Leonera



A Maternidade e o Cárcere

Leonera (Argentina/Brasil/Coréia do Sul, 2008) se insere no filão dos filmes de prisão, porém, em sendo um exemplar do cinema argentino e seu brilhantismo, o título foge ao óbvio e ao já visto em tantas outras produções do gênero, garantindo para si o selo de qualidade típico das criações fílmicas dos hermanos.
Neste sentido, o trabalho de Pablo Trapero agrega frescor a uma fórmula já muito utilizada na medida em que redireciona quesitos vitais das narrativas ambientadas em presídios. Assim, tem-se de tradicional a trajetória que se inicia com o encarceramento, passa pelo processo de embrutecimento acarretado pela clausura e culmina na execução do plano de fuga. Todavia, sai de cena o presidiário enquanto figura masculina trancafiado numa cela junto a colegas de igual ou superior periculosidade para dar lugar a uma protagonista grávida mantida num pavilhão onde as presas são mães que cumprem pena junto a seus filhos menores de quatro anos. Tal cenário por si só chama a atenção ao passo em que se trata de uma realidade distante e não imaginada pelo grande público, eis que pouco ou quase nunca até então retratada num filme de ficção.
À curiosidade despertada por tal ambiência e por tais pessoas se soma a habilidade de Trapero para contar a história com objetividade sem resvalar no sentimentalismo nem soar piegas ou partidário, mérito obtido em razão de não interessar para o cineasta discutir, além do estritamente necessário, o que levou a personagem principal ao cárcere nem investigar se ela possui ou não culpa para tanto. Dentro deste contexto, o que importa para Trapero é explorar as relações interpessoais estabelecidas entre as presidiárias, a mudança de comportamento que experimentam a partir da reclusão e a devastadora separação de seus filhos sofrida quando estes completam a idade máxima para com elas permanecerem no pavilhão carcerário.
Alia-se ainda a exitosa forma com que Trapero conduz a narrativa o talento de Martina Gusman que numa irretocável atuação encara um papel dificílimo sem jamais cometer qualquer deslize. A junção de Trapero e Gusman representa para o atual cinema argentino uma parceria de importância tão grande quanto as dobradinhas de Juan José Campanella e Ricardo Darín – vide, por exemplo, o ótimo Abutres (Argentina, 2010) no qual este último também atua.

FICHA TÉCNICA


Direção: Pablo Trapero

Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero

Produção: Pablo Trapero, Youngjoo Suh

Elenco: Elli Medeiros, Laura Garcia, Leonardo Sauma, Martina Gusman, Rodrigo Santoro, Tomás Plotinsky

Direção de fotografia e Câmera: Guillermo Nieto

Direção de som: Frederico Esquerro

Direção de Arte: Coca Oderigo

Figurino: Marisa Urruti

Montagem: Ezequiel Borovinsky e Pablo Trapero

Estreia: 29.05.2008              Estreia no Brasil: 07.11.2008

Duração: 113 min.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

The Lunchbox



As Aparências Enganam

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto
desencontro pela vida” (Vinicius de Moraes)


Ao contrário do que aparenta ser, The Lunchbox (Alemanha / França / Índia / EUA, 2013) é um filme de desencontros, de romances perdidos pelo caminho¹. Por mais que na superfície trate da redescoberta do amor, o que o longa-metragem se esmera em paulatinamente fazer é um retrato da solidão somada ao medo acarretado pela chegada da velhice – aspecto último esse que, frise-se, representa o principal achado do roteiro.
Com efeito, saltam aos olhos os contrastes utilizados pela obra para alcançar seus objetivos, por exemplo:
- os personagens são solitários em meio a uma cidade que há tempos eclodiu demograficamente,
- Irrfan Khan, em momento algum aparenta ter a idade avançada do ser que interpreta.
Eis detalhes que numa análise precipitada podem ser mal compreendidos, mas que na verdade se alinham a intenção mater da produção, qual seja revelar uma essência diversa das aparências, driblando assim expectativas e escapando da previsibilidade – ainda que por vezes a narrativa ameace se tornar repetitiva.
Talvez o título peque por não conseguir garantir a personagem feminina semelhante carga de relevância existente em torno do protagonista masculino, daí aquela acabar servido de escada para este; contudo, esse é o tipo de problema que não detém o poder de desmerecer o conjunto de uma obra cujas virtudes são muito maiores na medida em que não se contenta com a mesmice optando por explorar assuntos estranhos ao romance enquanto gênero cinematográfico.
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1. Daí sua conclusão em aberto.

FICHA TÉCNICA

Título original: Dabba
Direção: Ritesh Batra
Roteiro: Ritesh Batra, Rutvik Oza
Elenco: Irrfan Khan, Nawazuddin Siddiqui, Nimrat Kaur, Denzil Smith, Bharati Achrekar
Produção: Anurag Kashyap, Guneet Monga, Arun Rangachari
Fotografia: Michael Simmonds
Edição: John F. Lyons
Estreia no Brasil: 28.02.14
Duração: 104 min.