EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Tim Maia



Papo Careta

Tim Maia (Brasil, 2014)é um filme careta para uma figura loucaça. Dentro deste contexto, por mais que tente no início misturar presente e passado, o longa-metragem de Mauro Lima logo adere a linearidade e abandona precocemente sua única tentativa de ser ousado, daí o produto final consistir na típica trajetória errante de sexo, drogas e, nesse caso, soul music vista em tantas cinebiografias  de ícones da música.
Em meio a escolhas discutíveis, como a utilização de dois adultos para interpretar o protagonista, bem como a dublagem das cenas musicais – o que, por óbvio, dificulta a total imersão na narrativa ao passo em que o público acaba lembrado de que está vendo um filme – e um elenco irregular que inclui uma interpretação por demais estereotipada de Roberto Carlos, uma agradável aparição surpresa de Mallu Magalhães, participações no piloto automático de Cauã Reymond e Alinne Moraes, além de uma desnecessária ponta do Jacaré (sim, aquele do É o Tchan), o longa-metragem tem como principal mérito a assombrosa atuação de Babu Santana que ilumina a tela em cada cena, carregando nas costas uma produção que por vezes não consegue nem camuflar a limitação de seus recursos financeiros – vide as televisivas sequências em que o músico faz shows para platéias supostamente grandes¹.
Com efeito, não obstante a considerável quantidade de ressalvas relacionadas, é obvio que o filme irá ser um sucesso de público e render o lucro esperado, êxito esse que, vale dizer, se deverá mais ao poder de atração e importância que o nome Tim Maia ainda hoje possui do que por virtudes desse que é um exemplo de cinema conformado, formulaico que não faz jus, portanto, a genialidade e porralouquice do síndico.
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1. Neste sentido, os poucos e mal dirigidos figurantes são filmados em planos fechados numa manjada estratégia adotada para sugerir um acumulo de pessoas maior do que o existente.

FICHA TÉCNICA


Direção: Mauro Lima

Roteiro: Antônia Pellegrino, Mauro Lima

Elenco: Alinne Moraes, Babu Santana, Cauã Reymond, George Sauma, Laila Zaid, Luis Lobianco, Marco Sorriso, Nando Cunha, Robson Nunes, Tito Naville, Valdineia Soriano, Mallu Magalhães

Produção: Rodrigo Teixeira, Rômulo Marinho Jr

Fotografia: Eduardo Miranda, Ulisses Malta Jr.

Trilha Sonora: Berna Ceppas

Figurino: Reka Koves

Direção de Arte: Claudio Amaral Peixoto

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O Grande Hotel Budapeste



Cores de Wes Anderson

   Wes Anderson é um dos raros cineastas em atividade dotado de uma estética própria imediata e facilmente reconhecível. Em O Grande Hotel Budapeste (Espanha, 2012) as características visuais que marcam sua filmografia estão mais presentes que nunca face, por exemplo, o milimétrico cuidado na composição de planos simétricos, a criteriosa seleção de cores numa paleta ora concentrada em tons quentes ora em tons frios, bem como a ampla utilização de maquetes, elementos que reunidos denotam a preocupação do artista quanto a decupagem de cada cena, isto é, quanto a composição fotográfica e cenográfica de cada sequência.

 Além de um deleite para os olhos seja pelos detalhes supracitados, seja pela reunião de um elenco tão majestoso e competente, o longa-metragem, apesar de determinadas ressalvas, se mostra também delicioso quanto a história de amizade contada. Neste sentido, o resultado visto na tela deriva, ao que parece, de um estado de espírito feliz de Wes Anderson, o que, inevitavelmente, afasta o filme da complexidade e excelência de sua grande obra Os Excêntricos Tenenbaums (2001), uma pérola da fusão entre melancolia e humor. Em O Grande Hotel Budapeste o drama até por vezes dá as caras, porém, é sem dúvida a comédia que marca a toada preponderante de uma narrativa cuja leveza e inocência são latentes ao ponto de Anderson se permitir utilizar no ato final o recurso da correria contra o tempo muito comum em títulos infanto-juvenis e já por ele próprio manejado em O Fantástico Sr. Raposo (2009) e Moonrise Kingdom (2012). Eis o tipo de saída que no futuro pode se tornar uma armadilha caso repetida a exaustão, isso porque, conforme lembra William Silveira: “o inimigo do bom é o melhor” daí que “apostar no mesmo [...] prende e limita”¹.
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1.     FONTE: http://www.papodecinema.com.br/filmes/o-grande-hotel-budapeste. Acesso em 06.10.14.

Ficha Técnica

Título Original: The Grand Budapest Hotel
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Hugo Guinness, Wes Anderson
Elenco: Adrien Brody, Bill Murray, Bob Balaban, Carl Sprague, Edward Norton, F. Murray Abrahams, Florian Lukas, Gabriel Rush, Harvey Keitel, Heike Hanold-Lynch, Jason Schwartzman, Jeff Goldblum, Jude Law, Karl Markovics, Léa Seydoux, Mathieu Amalric, Matthias Matschke, Milton Welsh, Owen Wilson, Paul Schlase, Rainer Reiners, Ralph Fiennes, Saoirse Ronan, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Tony Revolori, Willem Dafoe
Produção: Jeremy Dawson, Scott Rudin, Steven M. Rales, Wes Anderson
Direção de Arte: Adam Stockhausen
Fotografia: Robert Yeoman
Estreia no Brasil: 03.07.14                         Estreia Mundial: 06.02.14
Duração: 99 min.