EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 30 de agosto de 2014

A Grande Beleza



Ode ao Cinema Italiano

A Grande Beleza (Itália, 2013) é, sobretudo, uma ode ao cinema italiano, uma vez que reverencia duas de suas maiores obras: A Doce Vida (Itália/França, 1960) (Itália, 1971) de Federico Fellini e Morte em Veneza (Itália, 1971) de Luchino Visconti. Neste sentido, Jep Gambardella, o jornalista e autor de sucesso de um único livro, percorre as ruas de Roma em meio a pessoas vazias e/ou desencantadas e seus eventos fúteis, tal qual o personagem de semelhante profissão vivido por Marcello Mastroianni no título dirigido por Fellini. Com efeito, se a crise existencial das figuras retratadas ecoa o clássico A Doce Vida, a busca de Jep pela grande beleza no ser humano em uma cidade já tão linda e rica em fatores históricos e culturais se assemelha a procura do músico interpretado por Dirk Bogarde no longa-metragem de Visconti.

Ressalte-se, porém, que o trabalho de Paolo Sorrentino não se contenta em ser apenas um filme homenagem, haja vista que inconteste é seu valor enquanto obra inédita seja no aspecto da forma quanto no do conteúdo. Dentro deste contexto, Sorrentino abre espaço para reflexão sobre a sociedade italiana atual e a contraditória ausência de refinamento de sua parte num local tão culto e belo. Por meio de sua visão ácida, mordaz o diretor entrega diálogos saborosamente cínicos e sequências não raro hilárias em sua ironia. Quanto a forma, A Grande Beleza se destaca como um dos “filmes de arte” mais arrojados já vistos, isso porque seus complexos movimentos de câmera denotam a utilização inteligente da tecnologia para tornar a direção de fotografia uma perfeita moldura para as telas vivas que são as locações romanas.
O vencedor, em 2014, do Oscar de melhor filme estrangeiro poderia facilmente resultar num trabalho pretensioso e enfadonho se capitaneado pela pessoa errada. Nas mãos de Sorrentino a obra é eficiente enquanto homenagem, além de vitoriosa em todas as camadas temporais exploradas, afinal, o cineasta lança um olhar sobre o ontem, o hoje e o amanhã, na medida em que rememora e aplaude o que antes fora filmado em seu país, demonstra o que no momento pode ser feito a partir da união de tal herança cultural com os avanços tecnológicos que tanto influenciam a produção cinematográfica e, por último, planta a esperança de o cinema italiano vir a no futuro readquirir o status exitoso experimentado até a década de 1970. Não a toa, ao término o espectador, extasiado, fica a imaginar o que Fellini seria capaz de criar tendo a seu dispor os recursos técnicos existentes hoje em dia.

Ficha Técnica

Título Original: La grande bellezza
Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello
Elenco: Anna Della Rosa, Carlo Buccirosso, Carlo Verdone, Franco Graziosi, Galatea Ranzi, Giorgio Pasotti, Iaia Forte, Ivan Franek, Luca Marinelli, Massimo Popolizio, Pamela Villoresi, Sabrina Ferilli, Serena Grandi, Sonia Gessner, Toni Servillo, Vernon Dobtcheff
Produção: Francesca Cima, Nicola Giuliano
Fotografia: Luca Bigazzi
Estreia: 21 de maio de 2013                                                Estreia Brasil: 20 de Dezembro de 2013
Duração: 142 min.

sábado, 2 de agosto de 2014

Celeste e Jesse Para Sempre



O Pra Sempre Sempre Acaba

Celeste e Jesse Para Sempre (EUA, 2012) compõe o filão de filmes emprenhados em fazer radiografia de um relacionamento amoroso. Neste contexto, o longa-metragem consegue fundir de maneira eficiente a comédia e o drama funcionando, desta feita, como a junção de um Separados Pelo Casamento (EUA, 2006) com um Namorados Para Sempre (EUA, 2011). Trocando em miúdos, o humor, quando não convive pacificamente, cede lugar a uma toada tristonha que representa o estado de espírito de personagens arrependidos com as decisões equivocadas tomadas, mas comprometidos o bastante com o presente para, enquanto é tempo, voltar atrás e tentar recuperar o que fora perdido.
Talvez por sua atriz principal Rashida Jones ser também uma das responsáveis pelo roteiro, a obra tende a voltar o olhar mais para a mulher, deixando por vezes num canto esquecido o homem e sua nova realidade de união com uma namorada recente que dele engravidara, sendo esta a seleção de uma ótica predominante que mesmo bastante clara não desequilibra o retrato a ponto de comprometê-lo. Uma vez exemplo de história recorrente no cinema atual, Celeste e Jesse Para Sempre dribla a mesmice ao apresentar desde seu início um casal já separado, ponto de partida que, acima do ineditismo, visa garantir a narrativa o comprometimento com a realidade tanto em suas ocasiões alegres quanto tristes, daí a correta ausência do hoje cada vez menos tradicional happy end, característica essa que tanto agrada o público adulto, por representar a verdade do que se vivencia num relacionamento, quanto educa plateias novas a aceitar aquilo que cinematograficamente foge do padrão firmado pela indústria.

Ficha Técnica

Título Original: Celeste & Jesse Forever
Direção: Lee Toland Krieger
Produção:Jennifer Todd, Suzanne Todd
Roteiro: Rashida Jones e Will McCormack.
Elenco: Rashida Jones, Andy Samberg, Ari Graynor, Eric Christian Olsen, Elijah Wood, Will McCormack, Chris Messina, Rebecca Dayan e Emma Roberts.
Duração: 92 min.