EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 25 de junho de 2014

Bling Ring – A Gangue de Hollywood



Retrato Geracional

Poder e fama carregam em seu bojo consideráveis doses de deslumbramento e solidão. Recorrente na filmografia de Sofia Coppola o tema fora analisado através de solitárias celebridades em Encontros e Desencontros (EUA/Japão, 2003) e Um Lugar
Qualquer
(EUA, 2010) e adolescentes fúteis e alienados em Maria Antonieta (França/EUA/Japão, 2007) e Bling Ring – A Gangue de Hollywood (EUA / Reino Unido / França / Alemanha / Japão, 2013). Este último título, frise-se, é o único dentre os citados no qual a cineasta demonstra certa frieza perante os personagens e o faz não por equívoco, mas sim para se adequar a forma gélida com que aqueles se relacionam com quem os rodeia. Se nas demais obras da diretora havia sempre um ou outro personagem atrás de redenção, em Bling Ring não há essa busca por parte de ninguém, afinal, tratam-se de pessoas cínicas e egoístas demais para se preocupar com isso, o que ilustra a mudança de comportamento de uma sociedade cada vez mais egocêntrica e interessada, no que tange os jovens, em imitar seus falsos e momentâneos ídolos.
Desta feita, Coppola, realiza uma espécie de retrato geracional no qual aponta a forma irresponsável como vive parcela da juventude norte-americana dedicada ao consumismo e a padrões culturais deveras duvidosos. Portanto, o modo pouco simpático com que o longa-metragem se comunica é correto na medida em que conectado a personalidade dos personagens, revelando em última instância a maturidade de uma cineasta que não se encanta com a faceta fora-da-lei dos seres por ela retratados, não procurando, assim, amenizar a história com firulas narrativas. Aliás, tamanho é o interesse de Coppola em se debruçar sem disfarces sobre os desvios de conduta dos integrantes da gangue de Hollywood que um elemento resta ausente em seu filme, qual seja a abordagem da absurda facilidade com que os ladrões invadiam as mansões das milionárias figuras do show-business americano.
Essa questão da (in)segurança domiciliar seria fruto de exibicionismo ou mero desleixo daqueles que de tão ricos se permitem não se preocupar com a porta da casa aberta? Seja qual for a resposta, a mesma acaba agravada pela facilidade com que a privacidade das pessoas é invadida pela Internet, como denota o modus operandi dos gatunos adolescentes. É uma pena, entretanto, que a produção não se dedique também a esse viés da história, concentrando seus esforços tão somente, como já dito, na compreensão do que leva aqueles jovens, sem qualquer necessidade financeira, a se tornarem arrombadores e ladrões. E que se dane os famosos que em nada zelam pela segurança de seu patrimônio.

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Bling Ring
Direção e Roteiro Adaptado: Sofia Coppola
Elenco: Katie Chang, Israel Broussard, Claire Julien, Emma Watson, Annie Fitzgerald, Carlos Miranda, G. Mac Brown, Gavin Rossdale, Georgia Rock, Israel Broussard, Janet Song, Leslie Mann, Lorenzo Hunt, Marc Coppola, Stacy Edwards, Taissa Farmiga
Produção: Roman Coppola, Sofia Coppola, Youree Henley
Fotografia: Harris Savides
Estreia no Brasil: 16.08.13 
Duração: 90 min.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Passado



Discípulo de Ozu

Não é exagero ver Asghar Farhadi como o Yasujiro Ozu deste novo século de cinema, afinal, tal como o mestre japonês, o cineasta iraniano privilegia em seus enredos as complexidades das relações, sobretudo, familiares a partir de pontos de partida que de imediato podem parecer simples, mas que na verdade proporcionam verdadeiros mergulhos em emaranhados de conflitos e dilemas. Dentro deste contexto, O Passado (França/Itália/Irã, 2013), trabalho mais recente de Farhadi, denota outra semelhança deste para com Ozu, qual seja naturalidade com que revisita temas já tratados – neste caso a separação de um casal – de maneira, porém, inovadora, explorando, assim, novas perspectivas de um mesmo assunto.
No que tange o artista iraniano um elemento extra se destaca em meio aos seus textos: a eficiência com que elenca, sem tecer julgamentos, uma sucessão de revelações comprometedoras acerca dos personagens por ele criados, aspecto esse que faz de O Passado uma experiência tão envolvente ainda que não tão impactante quanto o anterior A Separação¹ (Irã, 2011). Aliás, de acordo com Pierre Murat: “Desde ‘A Separação’, Asghar Farhadi consegue uma osmose rara: estar constantemente na crista dos sentimentos, sem nunca cair na insipidez nem ficar pesado”², tal êxito – que também funciona como marca registrada dos títulos de Ozu³ – é produto da escrita apurada de um diretor, cujas obras desprezam o virtuosismo em benefício de uma ampla comunicação com o público fruto da narrativa honesta e com afinco de dramas do cotidiano de todos nós, método que desemboca numa aparente facilidade com que o cineasta transforma palavras, emoções e sentimentos em imagens – no que se inclui uma inconteste desenvoltura no trato com atores que nunca são menos que ótimos em cada cena destacando-se, ressalte-se, Ali Mosaffa em especial, dado todo o abatimento que em seu semblante vai sendo percebido conforme a história se desenvolve.
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1.Leia mais sobre A Separação em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/separacaocenas-de-um-casamento.html.
2.FONTE: http://television.telerama.fr/tele/films/le-passe,50192584,critique.php. Acesso em 18.06.14.
3.Leia mais sobre Yasujiro Ozu em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/07/bom-dia.html, setimacritica.blogspot.com.br/2010/06/pai-e-filha.html, e http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/06/era-uma-vez-em-toquio.html

FICHA TÉCNICA
Título Original: Le Passé
Direção e Roteiro: Asghar Farhadi
Produção: Alexandre Mallet-Guy
Elenco: Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa, Pauline Burlet, Elyes Aguis, Babak Karimi, Sabrina Ouazani, Valeria Cavalli, Jeanne Jestin, Eleonora Marino, Aleksandra Klebanska
Estreia no Brasil: 08.05.14
Duração: 131 min.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Em Busca de Iara



Em Busca de Quem?

São cada vez mais numerosos os realizadores que se valem do documentário subjetivo para exorcizar dores do passado que lhes afligem diretamente ou indiretamente. Até aí nenhum problema há, desde que, por óbvio, o ego de quem está por trás do processo não interfira em demasia na análise que se pretende produzir.
No caso de Em Busca de Iara (Brasil, 2013) o diretor assim creditado é Flávio Frederico, entretanto é Mariana Pamplona – sobrinha de Iara Iavelberg, guerrilheira que nos anos de chumbo ficara conhecida pela parceria com Carlos Lamarca – que, além de assinar o ‘roteiro’, parece assumir a função de diretora e produtora frente as câmeras seja comandando entrevistas, seja realizando contatos e pesquisas. Neste passo, chega a ser curioso como Pamplona e os técnicos de som e de iluminação são frequentemente mostrados nos planos da filmados – numa apropriação um tanto vazia do método de Eduardo Coutinho –, porém o diretor Frederico, exceto por uma breve cena na qual seu reflexo é visto num pequeno espelho, jamais aparece na tela, o que, por certo, deve ter como explicação a tentativa de agregar a obra outro personagem real, qual seja a própria Mariana, enquanto artista empenhada em levar para os cinemas a história de sua tia, daí talvez Frederico não aparecer no comando do set para, assim, não confundir o espectador no que tange os papeis por cada um defendidos.

Destarte, o que se vê é a jornada de Iara em paralelo a caminhada de sua sobrinha seja para realizar um documentário, seja para encontrar respostas que por vezes parecem já tecidas por ela antes mesmo do término da apuração dos fatos. Explique-se: é claro que a versão oficial dada para a morte de Iara soa falsa por um sem número de motivos elencados pelo longa-metragem, contudo, Mariana Pamplona tropeça em sua própria falta de isenção de ânimo e, no momento mais crucial do filme e de sua investigação, comete o grave equívoco de durante a entrevista realizada com o médico responsável pela autópsia de sua tia adiantar seu julgamento particular e afirmar não restar dúvida de que ao invés de suicídio o que ocorrera fora um assassinato, caracterizando, desta feita, o trabalho de pesquisa com uma pecha de amadorismo¹.
Não fosse o bastante, uma sequência posterior seria tocante em virtude do choro angustiado de uma das pessoas que testemunharam a repressão do governo militar, mas termina ridícula ao mostrar Mariana enxugando algumas poucas lágrimas do rosto. Eis o tipo de apelo que soa, no mínimo, desnecessário, visto que nenhum espectador precisa ser convidado a conhecer o que é a dor da perda de um quente querido por ser esta uma experiência comum na vida de todos. Dentro deste contexto, é o estado d’alma de cada um e a forma como o mesmo é transposto em imagens que revela o talento de um cineasta, coisa que, convenhamos, não se atesta num take de alguém se limitando a limpar o rosto.
Na verdade, Em Busca de Iara nem mesmo deveria se debruçar sobre a figura da sobrinha roteirista, afinal a figura de Iara já é rica o bastante em termos narrativos, daí que em muito a produção ganharia caso se limitasse a procurar compreender melhor quem fora Iara bem como a estudar mais a fundo seu relacionamento com Lamarca. Como tal exclusividade não fora garantida optando-se também por tratar os efeitos da morte de Iara na vida de Mariana, correto seria que Elena (Brasil, 2012) de Petra Costa fosse lembrado como inspiração, já que a cineasta utilizara um caminho inverso no qual buscara, sobretudo, conhecer mais sua irmã e os motivos que a levaram a se suicidar, tratando apenas num plano secundário o quanto tal tragédia afetara seu amadurecimento. Aliás, o trabalho de Flávio Frederico e Mariana Pamplona é diferente se comparado ao de Petra Costa na medida em que Mariana parece se enamorar de sua própria imagem concorrendo na tela com Iara Iavelberg ao ponto de, pasmem, o filme que deveria ser sobre esta última terminar com uma imagem de sua sobrinha quando criança.
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1. Não obstante as derrapadas dadas pelo documentário durante suas pesquisas, os resultados das investigações não podem ser rechaçados porque “em 2003, uma ação judicial determinou a exumação do corpo [...]. A conclusão do novo laudo, assinado pelo legista Daniel Munhoz, da USP, apontou que o tiro que causou a morte da militante fora dado a uma distância incompatível com o suicídio, abrindo espaço à tese de uma execução” (FONTE: http://glo.bo/1htM5Ic. Acesso em 13.06.14).

FICHA TÉCNICA

Direção: FLAVIO FREDERICO
Roteiro: MARIANA PAMPLONA
Produção: FLAVIO FREDERICO, MARIANA PAMPLONA
Fotografia: CARLOS ANDRÉ ZALASIK
Montagem: VÍTOR ALVES LOPES, FLAVIO FREDERICO
Música: JONAS TATIT
Duração: 91 min.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Grandes Garotos



Por um Triz
Neste novo século a França se qualificou como exímio pólo produtor de comédias, no que se incluem também as românticas, deixando para trás Hollywood e suas obras rasteiras. Para tanto, não se buscou reinventar a roda, mas tão somente aproveitar ideias já consagradas pelo cinema americano e adaptá-las ao olhar europeu, operação quase sempre feita com visível cuidado no que tange a coerência dos roteiros e a inteligência dos espectadores.
Considerada a ressalva já feita quanto a prática de um cinema que preza não pelo ineditismo e sim pela variação/adaptação, percebe-se que com o passar dos anos e ante a proliferação de títulos produzidos, as comédias francesas não mais tem precisado olhar para as realizações hollywoodianas, inspirando-se, na verdade, no que recentemente fora feito no próprio país no que se refere aquele gênero.
Dentro deste contexto, vejamos o exemplo de Grandes Garotos (França, 2013): trata-se este do típico filme de camaradagem, permeado por uma breve trama paralela de romance heterossexual e, o principal, a fissura de um dos personagens por um ícone da música. Feito tal escalonamento dos elementos do enredo, constata-se o seguinte rol, não exaustivo, de semelhanças para com outros filmes:
- a amizade entre figuras incomuns (aspecto esse que costuma variar noutros títulos quanto a idade, classe social, compleição física e etc.) que motiva umas das partes a retomar o gosto pela vida lembra o que fora relatado em Intocáveis¹ (França, 2011);
- se em Grandes Garotos um dos protagonistas é fã ardoroso de Iggy Pop (tal carta na manga oscila em produções parecidas entre celebridades do cinema, dos esportes...), Paris-Manhattan² (França, 2012), por seu turno, acompanha uma admiradora de Woody Allen que de tão fervorosa chega a tecer diálogos imaginários com o mesmo.
Destacadas tais similitudes surge a pergunta: em meio a abundante presença de situações e soluções de outrora Grandes Garotos funciona enquanto entretenimento? A resposta, por um triz, é positiva graças ao carisma do elenco responsável por fazer com que as piadas em sua maioria surtam o efeito esperado. Um alerta, contudo, há de ser aceso, pois fora o excesso de repetições de fórmulas que tornara a comédia americana tão irrelevante.
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1.Leia mais sobre Intocáveis em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/08/intocaveis.html.
2.Leia mais sobre Paris-Manhattan em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/09/paris-manhattan.html.

FICHA TÉCNICA

Título original: Les Gamins
Direção: Anthony Marciano
Produção: Alain Goldman
Roteiro: Anthony Marciano, Max Boublil
Elenco: Alain Chabat, Max Boublil, Sandrine Kiberlain, Mélanie Bernier, Iggy Pop
Duração: 95 min.