EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 24 de abril de 2014

Jogo de Cena



A Metalinguagem no Documentário

O metadocumentário, como o próprio nome indica, é uma vertente do gênero não ficcional que se presta a investigar os meandros do fazer cinematográfico. Com efeito, um exemplo de obra dessa categoria reside em Santiago (Brasil, 2007), filme que desnuda não só a figura do mordomo que por anos serviu a família do diretor João Moreira Salles como também as escolhas desse último seja durante as entrevistas realizadas com aquele primeiro, seja ao longo do processo de captação de imagens adicionais, proporcionando, desse modo, aquela que talvez seja a mais honesta auto-análise acerca do quanto de real e de transformado existe num documentário¹.
Dito isso, Jogo de Cena (Brasil, 2007), por seu turno, realiza o casamento fílmico perfeito com Santiago na medida em que tal qual este apresenta tanto uma considerável carga emotiva – vide as histórias de vida das várias mulheres entrevistadas² – quanto uma profunda abordagem sobre o rompimento da barreira existente entre o verdadeiro e o falso.
No caso do trabalho de Eduardo Coutinho, a metalinguagem se reflete não num olhar sobre o cineasta, seus métodos e decisões, mas sim sobre o ato de interpretar e o quanto nele pode haver ou não distanciamento do intérprete perante o papel defendido. Neste passo, Marília Pera defende a fala que lhe cabe com um calculismo que beira frieza, denotando, por conseguinte, um exercício técnico irreparável que a impede de ser arrastada para a dor dos seres que vivifica. De modo inverso, Andrea Beltrão e, sobretudo, Fernanda Torres sentem cada emoção advinda dos relatos por elas interpretados, transitando, desta feita, ora entre seus próprios sentimentos ora entre o texto de referência propriamente dito. A partir da entrega dessas duas atrizes, a distinção entre o ser e o não ser começa a ser devidamente borrada até chegar ao ponto em que não mais interessa saber quem atua e quem relata suas próprias experiências, dado o fascínio que a essa altura já se instalara no espectador pelos dramas narrados e suas “protagonistas”. Tal êxito, vale dizer, é fruto do arco dramático que Coutinho constrói a partir da seleção de entrevistas realizadas. Assim, a maternidade, por exemplo, é um assunto recorrente ao lado de outras questões afetivas envolvendo casamento, abandono e crise familiar³.
O sucesso da articulação entre verdade e encenação e a manutenção do interesse da platéia perante histórias que se repetem ou que não raro se parecem se deve a um elemento magistralmente utilizado: a edição, isso porque Coutinho sabe a hora certa de cortar, de retomar uma fala, de colocar outra em paralelo, para, consequentemente, confundir e encantar. Não à toa para Consuelo Lins e Claúdia Mesquita, filmes como Santiago e Jogo de Cena:
“produzem experiências e reflexões através da forma como são montados. É na articulação das imagens no tempo da projeção que oscilações, incertezas, sensações, reflexões e aprendizados se dão; é na duração que a impressão de realidade e a crença do espectador tão caras a tradição do documentário são colocadas em questão”.
Trocando em miúdos, realizações como Santiago e Jogo de Cena garantem ao documentário contemporâneo brasileiro a virtude de mostrar que, por vezes, confundir é a forma maior de estudar o homem e o cinema.
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1. Leia mais sobre Santiago em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/04/cabra-marcado-para-morrersantiago.html.
2.  Conforme explicam Consuelo Lins e Cláudia Mesquita, Coutinho dessa vez entrevista apenas mulheres “porque, para ele, mulheres são o que ele não é, o ‘outro’ que busca em seus filmes“ (Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 78).
3.  Neste diapasão, um único depoimento destoa do resto e soa até fútil eis que concentrado tão somente nas dificuldades enfrentadas por uma mulher de meia idade para engrenar um relacionamento a dois.
4.  LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia Mesquita. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p.82.

FICHA TÉCNICA
Direção: Eduardo Coutinho
Edição: Jordana Berg
Duração: 105 min.

sábado, 19 de abril de 2014

O Amor é um Crime Perfeito



O Noir Vive

O Amor é um Crime Perfeito (Suíça/França, 2013) se comporta como uma espécie de noir ambientado na neve (!!) com generosas doses de influência do cinema de Claude Chabrol. Neste sentido, o filme transita por tais referências sem, felizmente, se estagnar nelas, compondo assim sua própria identidade por meio não de um jogo de gato e rato e de solução de mistério, mas sim de estudo do comportamento das figuras retratadas e de suas ambiguidades perante as graduais revelações do enredo.
Neste passo, as aparências são cuidadosamente trabalhadas para confundir, contexto esse em que o sexo contribui para tornar sedutores e enigmáticos tais seres na medida em que ora estão entregues aos instintos mais primitivos da sexualidade ora estão em posição de domínio provocando e manipulando por meio da libido.
                      O alcance dessa dubiedade, vale dizer, se deve a presteza do elenco, com destaque para Sara Forestier, exalando sensualidade, e Mathieu Amalric cujo brilhantismo novamente salta aos olhos através das inúmeras nuances por ele garantidas a seu personagem, um Don Juan ao modo Dr. Jekyll¹. Junte-se a isso locações certeiras dentre as quais merecem registro: as paradisíacas paisagens em meio a neve responsáveis por denotar o estado de espírito solitário dos personagens, bem como a instituição de ensino onde trabalha o protagonista, recinto esse de arrojada arquitetura cujas diversas e grandiosas rampas podem, ser exagero, servir de metáfora aos altos e baixos experimentados pelo sedutor professor vivido por Amalric.
Revela o filme, desta feita, uma equilibrada junção de elementos narrativos mergulhados em subjetividade e informações intrínsecas. Em mãos erradas tal enredo poderia facilmente resultar num mero e banal romance policial, o que em não tendo ocorrido faz deste um trabalho adulto, portanto.  
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1.  Com efeito, Amalric pertence aquela rara estirpe de intérpretes que economizam nos recursos utilizados porque com pouco já conseguem muito, vide sua atuação em O Escafandro e a Borboleta.

Ficha Técnica

Título Original: L'Amour Est Un Crime Parfait

Direção e Roteiro Adaptado: Jean-Marie Larrieu, Arnaud Larrieu
Produção: Sidonie Dumas
Elenco: Sara Forestier, Mathieu Amalric, Maiwenn, Denis Podalydès, Karin Viard,  Marion Duval
Duração: 104 min.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A Grande Volta / Um Plano Perfeito



Born in the U.S.A.

                      Para o (des)conforto daqueles que acham que o cinema europeu possui uma estética obrigatoriamente peculiar, A Grande Volta (França, 2012) e Um Plano Perfeito (França, 2012) chamam a atenção pelo excesso de influências hollywoodianas demonstradas.
                      Com efeito, de um lado tem-se o típico longa-metragem esportivo, protagonizado por um homem comum instado a superar os desafios impostos pela vida e pelo esporte, enquanto no outro corner o que se vê é a tradicional comédia romântica encabeçada por um casal que inicialmente se detesta para adiante descobrir-se apaixonado.
Neste passo, o que distancia uma obra da outra, além dos gêneros, é a forma com que cada uma abraça os clichês de cada formato, afinal:
- A Grande Volta se contenta com a medalha de filme francês mais americano já realizado, tamanha a similitude de linguagem seja no que tange a construção da imagem seja no que atine o enredo; trocando em miúdos, a saga de François, uma espécie de Forrest Gump da bicicleta, é narrada em meio a trilha sonora edificante, personagens coadjuvantes engraçadinhos e edição picotada, o que resulta numa repetição de cacoetes e ideias de outrora que retira da obra qualquer ineditismo e a torna apenas mais uma em meio a tantas outras do tipo;
- Um Plano Perfeito assume suas semelhanças para com os parentes americanos mas não o faz com desrespeito ao público, na medida em que reúne esforços para levar a tela um roteiro minimamente inteligente; dentro deste contexto, a ausência de comodismo quanto ao manejo dos clichês dá vazão a trechos deliciosamente absurdos e inusitados, tornando a obra hilária do início ao fim.
 A comédia estrelada por Dany Boon e Diane Kruger - bastante a vontade em um papel cômico - pode não inventar a roda, porém, graças a entrosadíssima dupla central de atores e a um script deveras burilado, supera com folga os respectivos exemplares norte-americanos da última década, ao passo que A Grande Volta, por seu turno, em meio a planos grandiosos, hordas de figurantes e esquadrilhas da fumaça, não vai além de uma embalagem vultosa, uma obra de pouco valor responsável por um desperdício imenso de dinheiro.
Isso soa familiar...

Ficha Técnica – A Grande Volta
Título Original: La Grande Boucle
Direção: Laurent Tuel
Roteiro: Yohan Lévy
Elenco: Clovis Cornillac, Bouli Lanners, Ary Abittan, Elodie Bouchez, Bruno Lochet
Duração: 98 min.


Ficha Técnica – Um Plano Perfeito
Título Original: Un plan parfait
Direção: Pascal Chaumeil
Roteiro: Yoann Gromb
Produção: Laurent Zeitoun
Elenco: Diane Kruger, Dany Boon, Alice Pol, Olivier Claverie, Laure Calamy
Duração: 104 min.

domingo, 13 de abril de 2014

Suzanne / Uma Relação Delicada



Abaixo o Feminismo

A julgar pelo conteúdo de duas recentes produções francesas lançadas no Festival Varilux de Cinema Francês 2014, o feminismo anda em baixa no país da Nouvelle Vague, afinal, tanto Suzanne (França, 2013) quanto Uma Relação Delicada (França/Alemanha/Bélgica, 2012) se dedicam ao drama enfrentado por mulheres irritantemente deslumbradas pelos machos alfas que as ladeiam.

No caso do primeiro título a personagem principal é uma jovem mãe solteira que abandona tudo e todos, no que se inclui o emprego e especialmente o filho pequeno, para seguir o amado, ao passo que no segundo longa-metragem é uma mulher, desta vez, culta, madura e bem sucedida que, fragilizada pela deficiência física que a acometera após um acidente vascular cerebral, sucumbe ao charme rústico de um vigarista emprenhado em extorqui-la.
Neste diapasão, a dependência emocional dessas figuras para com os representantes do sexo masculino por vezes beira a insanidade e a improbabilidade tamanha a insensatez com que agem. A diferença entre elas, além da idade, reside no poder diferenciado que as duas dispõem de contar com a conivência do público, visto que enquanto a Suzanne é reservado todo tipo de julgamento moral dentro e fora da tela – dada a irresponsabilidade com que finge exercer a maternidade – a hemiplégica da segunda produção conta com certa dose de tolerância do espectador em razão de seu quadro clínico e também porque suas loucuras não prejudicam ninguém além dela própria, diferentemente de Suzanne que em virtude de suas equivocadas escolhas compromete toda uma interação familiar – daí se tornar a mesma e, por conseguinte, o filme  difíceis de engolir.
 Uma Relação Delicada, apesar de toda sua estranheza, se mostra um tanto mais palatável de digerir graças sobretudo a presença de Isabelle Huppert, uma atriz de inconteste talento que sem muito esforço colabora para tornar crível a postura aparentemente superior, porém, na verdade, submissa de Maud, a cineasta paralítica.
Com efeito, em meio aos erros e acertos de cada filme, não há como definir com precisão se o aparente retrocesso feminino neles projetado resulta de:
- uma mera provocação de Katell Quillévéré, diretora de Suzanne
- ou de um ato de expiação/exorcismo de Catherine Breillat, cineasta que filmara em Uma Relação Delicada, sem qualquer indício de autopiedade, parte da história de sua própria vida
- ou se, em contrapartida, reflete um atual parâmetro comportamental feminino na França.
Em sendo preciso arriscar um palpite, uma conclusão vem a mente: em terra de primeira dama traída, quem tem um homem é rainha.

Ficha Técnica – Suzanne


Direção: Katell Quillévéré

Roteiro: Mariette Désert, Katell Quillévéré

Produção: Bruno Levy

Elenco: Sara Forestier, François Damiens, Adèle Haenel, Paul Hamy, Anne Le Ny, Corinne Masiero, Lola Duenas, Karim Leklou


Duração: 94 min.



Ficha Técnica – Uma Relação Delicada


Título Original: Abus de Faiblesse

Direção e Roteiro: Catherine Breillat

Produção: Jean-François Lepetit

Elenco: Isabelle Huppert, Kool Shen, Laurence Ursino, Christophe Sermet

Duração: 104 min.