EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Religiosa



Devoção Comprometedora

É impossível tratar de A Religiosa (França/Alemanha/Bélgica, 2013) sem levar em consideração a versão anteriormente filmada por Jacques Rivette em 1966, afinal, o que este último tinha de cruel e pessimista¹, a atual adaptação dirigida por Guillaume Nicloux possui de contida e até, pasmem, de esperançosa.

Nicloux já declarou que por pouco não se tornou padre quando jovem², daí ser possível inferir que de sua parte existe uma relação de devoção perante a Igreja católica, o que talvez explique porque em momento algum seu filme faz o espectador sentir, provar a dor de Suzanne Simonin, uma jovem enclausurada, contra sua vontade, em conventos onde fica exposta a toda sorte de humilhações e torturas. Neste sentido, a forma incisiva com que Rivette mostrara os rituais sádicos de freiras ante a ovelha negra do grupo perde espaço na versão de 2013 para um tipo de assédio visualmente mais brando, qual seja o de ordem sexual, eis que Nicloux prefere se concentrar nas investidas que a personagem principal recebe de uma madre superiora lésbica – Isabelle Huppert em momento um tanto constrangedor. Não que o assunto merecesse ser ignorado, porém, a insistência demonstrada para com ele denota tanto um viés fetichista quanto uma tentativa de minimização do calvário enfrentado pela protagonista para um nível próximo ao suportável.

No papel principal Pauline Étienne até tenta alcançar o tom de sofrimento mostrado por Anna Karina na obra de Rivette mas acaba prejudicada pelas opções de seu diretor, o que inclui equivocados cortes para imagens que, mesmo clamando por serem escancaradas, ficam apenas subentendidas. Não fosse o bastante, a conclusão diversa ao trabalho de Rivette e ao texto original do iluminista Denis Diderot enfraquece a mensagem anticlerical a qual o filme se propõe propagar, visto que para Nicloux a fé é algo superior a obstáculos da vida, motivo pelo qual quem não a perde tem garantido para si um generoso final feliz. Trata-se, desse modo, de um encerramento decepcionante se lembrado for que no trabalho de Diderot publicado em 1796 na produção liderada por Rivette a religiosa em questão se tornava extremamente brutalizada por tudo aquilo que a humanidade lhe oferecera, deixando, assim, sua crença de possuir significado. Realístico, portanto, ao invés de iludido como o término inventado por Guillaume Nicloux.
___________________________
1.  Leia mais sobre a versão dirigida por Jacques Rivette em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/10/viridiana-religiosa.html.

Ficha Técnica
Titulo Original: La religieuse
Direção: Guillaume Nicloux
Roteiro: Guillaume Nicloux e Jérôme Beaujour
Produção: M. Reza Bahar, Jacques-Henri Bronckart, Olivier Bronckart, Sylvie Pialat, Benoît Quainon, Nicole Ringhut
Elenco: Pauline Étienne, Isabelle Huppert, Louise Bourgoin, Francoise Lebrun, Martina Gedeck, Agathe Bonitzer, Alice de Lencquesaing, Marc Barbé.
Fotografia: Yves Cape
Estreia no Brasil: 30.08.13
Duração: 114 min.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Tatuagem / Dzi Croquettes



Quando a Ficção Não Acompanha a Realidade

                    Embora inspirado no grupo de teatro Vivencial que, na segunda metade da década de 1970, “atraía intelectuais e artistas para a sua plateia em um cabaré de Olinda, Pernambuco”¹ Tatuagem (Brasil, 2013) é, convenhamos, uma versão ficcional do documentário Dzi Croquettes (Brasil, 2010) cuja estrutura, por seu turno, é basicamente dividida em três pisos, quais sejam a formação e difusão do grupo teatral, seu deslocamento geográfico em meio a ditadura dos anos de chumbo e o fim seja da trupe seja da maioria dos indivíduos que a compunham. Dentro deste contexto, Tatuagem transita entre as duas primeiras partes do documentário, concentrando-se, portanto, no aspecto dramatúrgico da atividade dos personagens bem como em suas relações afetivas.
                       Com efeito, assim como o protagonista Clécio (Irandhir Santos) se esforça para não estabelecer o conflito perante o amado e seus respectivos atos de infidelidade, o longa-metragem também evita explorar a fundo questões espinhosas como a realidade ditatorial e opressora do período, o que deixa uma sensação de incompletude a um trabalho que poderia ser mais abrangente em suas discussões.
                     Na verdade em certos momentos Tatuagem até ameaça ser apoteótico no que atine o choque entre o comportamento de uma minoria e os padrões impostos por um regime, porém, infelizmente, as soluções nesse sentido apresentadas pela narrativa são sempre anticlimáticas e, por conseguinte, frustrantes.  Assim, o foco da estreia de Hilton Lacerda enquanto cineasta se restringe a:
- reproduzir shows andróginos e permeados de corpos (semi)nus, tal qual faziam os dzi croquettes, missão essa, vale dizer,  cumprida com bastante esmero graças a ótima direção de arte e a Irandhir Santos em desempenho brilhante, como de costume;
- abordar uma história de amor entre dois homens – enredo esse que, por si só, nada possui de inovador.
                    Ao ser cauteloso ante o contexto histórico brasileiro daqueles anos Tatuagem desperdiça o fator político que seria seu grande trunfo, ao contrário de Dzi Croquettes que logra o êxito de ocupar um lugar de destaque na memória justamente por demonstrar o que significava ousar enquanto artista em tempos de censura. A ficção, desta vez, não acompanhou a realidade a contento.
___________________________
1. FÉLIX, Renato in PREVIEW. Ed. 50. São Paulo: Sampa, Novembro de 2013. p. 48.

Ficha Técnica – Tatuagem 
Direção e Roteiro: Hilton Lacerda
Produção: João Vieira Jr., Chico Ribeiro e Ofir Figueiredo
Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo Garcia, Ariclenes Barroso, Sylvia Prado, Nash Laila, Sílvio Restiffe, Arthur Canavarro, Clébia Souza, Erivaldo Oliveira, Mariah Texeira, Diego Salvador, Everton Gomes,Rafael Guedes,Jennyfer Caldas,Iara Campos
Fotografia: Ivo Lopes Araújo                           Música: DJ Dolores
Montagem: Mair Tavares                                Direção de Arte: Renata Pinheiro
Figurino: Chris Garrido                                    Maquiagem: Donna Meirelles
Estreia: 15.11.2013
Duração: 105 min.

Ficha Técnica – Dzi Croquettes
Direção: Tatiana Issa, Raphael Alvarez
Estreia: 16.07.2010
Duração: 110 min.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Trapaça



Ambição Admirável

                  Chamar David O. Russell de um cineasta superestimado já se tornou clichê, apesar da veracidade da afirmação. Certas qualidades suas, entretanto, não podem ser negadas, quais sejam a preocupação de sempre pôr os personagens em primeiro lugar, bem como a forma como permite que seus atores ousem, experimentem e, por conseguinte, brilhem, conforme assim relatado por Jennifer Lawrence: “Ele dá tanta liberdade que às vezes o que está no roteiro vira algo totalmente diferente”¹.

                Conhecedor de seu ponto forte, Russell demonstra não temer a possibilidade de ser visto como um realizador dependente do talento dos intérpretes e, desta feita, se vale da máxima “em time que está ganhando não se mexe” ao escalar para Trapaça (EUA, 2013) praticamente todos aqueles que em seus dois trabalhos anteriores foram indicados/consagrados ao/com o Oscar². Desta feita, o diretor tem a sua disposição
·      vindos de O Vencedor¹ (EUA, 2010): Christian Bale, como sempre fazendo o que quer com seu corpo, e Amy Adams elevando a um grau ainda maior a faceta sensual vista naquele filme;
·   saídos de O Lado Bom da Vida (EUA, 2012): Bradley Cooper mostrando outra vez que sob a batuta de Russell consegue alcançar notas diferenciadas de interpretação, Jennifer Lawrence atestando ser a pessoa ideal para as figuras insanas e bipolares das produções do diretor e Robert De Niro, em uma espécie de aparição surpresa.
       Como sabido, embora pecassem pela postura formulaica de enredos envolvendo as trajetórias de superação de seres fracassados, os dois últimos títulos dirigidos e roteirizados por Russell levaram membros de seus elencos ao recebimento de diversas premiações. Logo, se não conseguira nessas ocasiões chamar atenção pela originalidade de suas obras, o cineasta, ao menos, fora saudado por arrancar interpretações fabulosas de seus atores.
                  Com efeito, no caso de Trapaça, Russell se afasta das repetições narrativas de outrora e envereda por um intricado jogo de aparências, mentiras e falcatruas. Neste passo, embora não consiga manter durante toda a produção o mesmo fôlego de seu início e de seu último quarto de duração – o miolo do longa-metragem transita no campo da normalidade daquilo que é visto nos filmes de golpe – Russell entrega o trabalho mais ambicioso feito desde o ótimo e já longínquo Três Reis (EUA, 1999), isso porque American Hustle é não apenas uma história de trapaceiros como também é um filme de época, o que inclui todo um apanhado de elementos culturais e comportamentais dos anos 1970, daí perceber-se o esmero no que tange:
- o uso de uma fotografia granulada e cheia de cores conectadas  ao visual setentista,
- figurinos, maquiagens e penteados que funcionam como personagens a parte tamanha a exuberância dos mesmos,
.- a acertada, na maioria das vezes, seleção e encaixe de hits musicais daquela década.

              Tais recursos são reunidos em torno de uma toada operística, propositalmente hiperbólica, pensada para tornar natural tanto as condutas extremas dos personagens quanto as consequentes doses de humor decorrentes de seus atos. E como Trapaça funciona enquanto comédia! Sem apelar para piadas, Russell faz rir a partir de uma espécie de exagero que não se confunde nem com o escracho nem com o nonsense – destacando-se neste aspecto, frise-se outra vez, J. Lawrence, no auge da beleza, encarnando um tipo que passeia entre a idiotice e a esperteza.
                      Por certo nas mãos de um diretor como Martin Scorcese, Trapaça resultaria mais sexy – ainda há certa hesitação de Russell ao lidar com o erotismo – e denso – afinal, o esquema de corrupção entre políticos e mafiosos não é aqui objeto de aprofundamento. Ocorre que, como já dito, para Russell o que interessa é se debruçar sobre os personagens, suas vicissitudes e conflitos internos e externos, daí que tudo que os rodeia assume, de modo até compreensivo, um plano subalterno, cuja função é servir de pano de fundo justificador de seus percursos errantes e de toda a ironia deles advinda. E, a partir dessas eleições, o trabalho, apesar de inconstante, resulta charmoso e eficiente, pois mesmo que Trapaça também seja um ‘filme de atores’, há em meio a essa característica outros excelentes fatores técnicos – como a montagem e os outrora citados – que juntos agregam ao produto final uma embalagem das mais sedutoras, tornando-o marcante a despeito das ressalvas.
___________________________
1.     Revista Preview. Ano 5. ed. 52. São Paulo: Sampa, Janeiro de 2014. p. 26.
2.     Exceto por Melissa Leo, vencedora do prêmio de melhor atriz coadjuvante por O Vencedor.
3.     Leia mais sobre O Vencedor e O Lado Bom da Vida em http://setimacritica.blogspot.com.br/2011/03/o-vencedor.html e http://setimacritica.blogspot.com.br/2013/02/o-lado-bom-da-vida.html.

Ficha Técnica

Título Original: American Hustle
Direção: David O. Russell
Roteiro: Eric Singer, David O. Russell
Produção: Richard Suckle, Charles Roven, Megan Ellison
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Jeremy Renner, Shea Whigham, Michael Peña, Louis C. K., Jack Huston, Paul Herman, Matthew Russell, Anthony Zerbe, Alessandro Nivola, Melissa McMeekin
Música: Danny Elfman                                           Fotografia: Linus Sandgren
Figurino: Michael Wilkinson
Edição: Crispin Struthers, Alan Baumgarten, Jay Cassidy
Estreia no Brasil: 07.02.2014                                Estreia Mundial: 12.12.13
Duração: 138 min.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street



A Jovialidade de Scorsese

Histórias de ascensão e queda são comuns na filmografia de Martin Scorsese, por isso, chama atenção a forma inteligente porque diferenciada, farsesca como o mestre conduz a narrativa de O Lobo de Wall Street (EUA, 2013). Fugindo de qualquer traço de repetição ou de mesmice, o diretor entrega A Comédia que faltava em sua obra – sim, o monótono O Rei da Comédia (EUA/1981) não é representativo dentro deste contexto – além de revelar uma jovialidade que muitos artistas já passados dos 60, 70 anos de idade não dispõem.
Ágil, irônico e muitíssimo engraçado o longa-metragem envereda por assuntos duros como dependência química e a selva de pedras que é o mercado da bolsa de valores sem perder o bom humor, o que pode até significar uma ótica equivocada para alguns mas que, em contrapartida, enche os olhos de quem compreende que o produto artístico é uma representação e não obrigatoriamente uma cópia da realidade.
Além de impecável em quesitos técnicos como fotografia, direção de arte e edição, o filme ainda apresenta um elenco que dá o sangue para melhor aproveitar a oportunidade de trabalhar sob a batuta de Scorsese. Assim, em papeis menores Mattew McConaughey – superando-se a cada dia – e Jonah Hill impressionam e arrancam risadas sem esforço, enquanto Leonardo DiCaprio apresenta a superlativa atuação de sua carreira, portando-se como um colosso ora furioso ora pacato ora alucinado².
Com efeito, mesmo que próximo ao término O Lobo de Wall Street altere sua toada frenética por um tom mais sisudo nada, entretanto, macula a produção com a pecha da caretice, até porque não há qualquer intenção em adequar a realização à faixas etárias mais jovens. Explique-se: Scorsese não teme em restringir seu público e os resultados da bilheteria e abarrota o filme com cenas de sexo, nu frontal e consumo de drogas, além de não se incomodar em ultrapassar, bastante, a duração padrão, em termos de comédia, das duas horas, razão pela qual quando diminui a velocidade da narrativa já perto da sua conclusão o cineasta visa tão somente manter a misé-èn-scene coerente ao estado de espírito do protagonista e não tornar ou manter o produto agradável ao público.
Desta feita, O Lobo de Wall Street é mais um excelente título de um diretor dos mais apaixonados pelo ofício³ que há anos mantém um altíssimo nível de qualidade em sua trajetória cinematográfica. Aliás, alguém lembra o último filme de Scorsese que não fora, no mínimo, ótimo? O Rei da Comédia? Gangues de Nova York (EUA/2002)? O Aviador (EUA/2004) ? São pouquíssimas as opções.
_______________________________
1.     Vide os casos de Touro Indomável, Os Bons Companheiros e, em menor escala, de A Invenção de Hugo Cabret.
2.     Neste sentido, contando apenas com poucos metros de chão e alguns degraus DiCaprio presenteia o cinema com a, sem exagero, antológica sequência em que drogado rasteja até seu automóvel.
3.     Em O Lobo de Wall Street Scorcese novamente confessa sua cinefilia tal qual no anterior A Invenção de Hugo Cabret e, desta vez, o faz seja com citações sutis a obras como Freaks e Rocco e seus Irmãos seja com a utilização de outros cineastas no elenco quais sejam Rob Reiner, Spike Jonze e Jon Favreau.

Ficha Técnica


Título Original: The Wolf of Wall Street

Direção: Martin Scorsese

Produção: Martin Scorsese, Leonardo DiCaprio, Riza Aziz, Emma Koskoff, Joey McFarland

Roteiro: Terence Winter (Baseado em livro de Jordan Belfort)

Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Mattew McConaughey, Rob Reiner, Jon Favreau, Spike Jonze, Jean Dujardin

Edição: Thelma Schoonmaker                       Fotografia: Rodrigo Prieto

Estreia: 25.12.2013                                          Estreia no Brasil: 24.01.14
Duração: 179 min.