EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 30 de novembro de 2013

Virada no Jogo / Recontagem



HBO e seu Poder de Fogo

O diretor Jay Roach e o roteirista Danny Strong se tornaram referências enquanto narradores dos vexames políticos vistos nas últimas eleições presidenciais norte-americanas. Em Recontagem (EUA, 2008) apresentaram uma investigação precisa acerca da vitória no tapetão de Bush sobre Al Gore, ao passo que no mais recente Virada no Jogo (EUA, 2011) buscaram explicar o que levou a equipe de John McCain, opoente de Barack Obama, a optar por Sarah Palin – governadora do Alasca que imaginava ser de Saddam Hussein a responsabilidade pelos eventos de 11 de Setembro – para ocupar a vaga de candidata republicana a vice-presidência.
Recontagem acaba, com justiça, passando a impressão de ser um filme mais completo e complexo porque sua história é mais repleta de meandros e conchavos do que a atrapalhada saga de McCain e Palin juntos rumos as urnas; porém, no caso de Virada no Jogo chama a atenção de modo deveras positivo como a estupidez de Palin é abordada sem qualquer sensacionalismo. Evitando ao máximo os julgamentos vazios, as produções expõem, respectivamente, as maracutaias e equívocos republicanos sem vangloriar seus rivais democratas. A preocupação, neste sentido, reside justamente em não partidarizar as abordagens e torná-las envolventes para o consumo doméstico de todas as classes, tarefas essas cumpridas com êxito em função de roteiros enxutos que traduzem para uma linguagem simples, mas não simplória, assuntos que corriam o risco de serem compreendidos por uma fatia menor de público.
Colaboram para tanto nomes de peso como Kevin Spacey em Recontagem e Tom Hanks (na produção), Julianne Moore e Woody Harrelson (no elenco) em Virada no Jogo. Tais estrelas agregam qualidade e credibilidade a projetos não a toa laureados com prêmios como o Emmy e o Globo de Ouro, estatueta última essa que Moore também levou para casa graças a uma interpretação de Palin que jamais resvala na caricatura nem comete o erro de enveredar pela comicidade. A atriz humaniza sua personagem – uma figura tão inacreditavelmente talentosa para a encenação e ignorante para assuntos basilares da História e da Geopolítica – ao mostrá-la ora como um colosso ora como uma mulher dilacerada, fragilizada pela solidão em meio a tantos e, principalmente, por ter virado repentinamente motivo de chacota internacional.
Fascinantes, os dramas atestam o poder de fogo da HBO não só para as séries como também para os telefilmes. Quem dera a TV brasileira se inspirasse com mais frequência em exemplos como esses.

Ficha Técnica – VIRADA NO JOGO

Título Original: Game Change

Direção: Jay Roach

Roteiro: Danny Strong

Produção: Amy Sayres

Produção Executiva: Gary Goetzman, Jay Roach, Tom Hanks

Elenco Julianne Moore, Ed Harris, Sarah Paulson, Woody Harrelson, Peter MacNicol, Jamey Sheridan, Ron Livingston

Fotografia: Jim Denault

Edição: Lucia Zucchetti

Estreia: 10.03.2012                             

Duração: 117 min.



Ficha Técnica – RECONTAGEM

Título Original: Recount

Direção: Jay Roach

Produção: Michael Hausman

Roteiro: Danny Strong

Elenco: Kevin Spacey, Ed Begley Jr., Laura Dern, Denis Leary, Tom Wilkinson, John Hurt, Bob Balaban

Fotografia: Jim Denault

Trilha Sonora: Dave Grusin

Estreia no Brasil: 25.05.2008                            

Duração: 116 min.

domingo, 24 de novembro de 2013

Frances Ha



As Aparências Enganam

Na superfície Frances Ha é um filme aparentemente bobo, engraçadinho; contudo, as várias camadas nele escondidas não exigem um mergulho muito profundo para serem percebidas. Isto posto, muitos veem no longa-metragem de Noah Baumbach – do impecável A Lula e a Baleia (2005) – uma repetição do estilo de Woody Allen em face, sobretudo, da verborragia e da fotografia em preto e branco que remetem a obras como Manhattan e Memórias, embora no conteúdo Frances divirja consideravelmente delas na medida em que  se debruça sobre questões estranhas ao universo de Allen.
Dentro deste contexto, o roteiro de Baumbach e da apaixonante Greta Gerwig direciona o olhar para uma fase específica enfrentada pelos recém-adultos, qual seja o, digamos, segundo ciclo de transições experimentado após a adolescência, leia-se, aquele instante em que ter saído de casa e começado a ganhar algum dinheiro não é mais suficiente, eis que chegada a hora de ser ainda mais rentável e responsável porque todos ao redor estão formando suas respectivas famílias e pavimentado em definitivo suas estradas para o futuro. Trata-se do momento em que os amigos de longa data se tornam esporádicos, por mais impossível que isso antes pudesse parecer, ocasião essa em que a despeito da evolução e amadurecimento daqueles, a exigência de semelhante passo e postura parece ainda um tanto prematura para alguns. 
Frances Ha exala esse espírito e o faz com autenticidade e bom humor, êxito esse garantido em grande parte por Greta Gerwig que apresenta o tipo de desempenho em que a atriz parece se confundir com a própria personagem. Cativante e melancólico, as vezes triste e, por isso, tão real, Frances Ha funciona como espelho do espectador no que atine a instantes que ele jamais imaginava um dia fossem lembrados pelo cinema. Verdadeiro, portanto.

Ficha Técnica


Direção: Noah Baumbach

Roteiro: Noah Baumbach, Greta Gerwig

Produção: Noah Baumbach, Scott Rudin, Lila Yacoub, Rodrigo Teixeira

Elenco: Greta Gerwig, Adam Driver, Mickey Sumner, Michael Zegen, Patrick Heusinger, Michael Esper


Fotografia: Sam Levy

Edição: Jennifer Lame

Estreia no Brasil: 23.08.2013                             Estreia Mundial: 17.05.13

Duração: 84 min.
Site: http://www.franceshamovie.com/

domingo, 17 de novembro de 2013

Os Suspeitos / Sobre Meninos e Lobos



Primogênito e Ultimogênito

Os Suspeitos (EUA, 2013) é o Sobre Meninos e Lobos (EUA, 2003) desta década. A comparação se justifica não apenas pela semelhança de seus motes como também pela acertada forma com que constroem o suspense em paralelo com o aprofundamento de seus respectivos núcleos familiares. Ademais, trata-se de filmes que nas mãos de simples funcionários resultariam banais, afinal seus enredos, de maneira inconteste, não gozam de muita originalidade. Todavia, a forma milimétrica com que fundem gêneros garante as obras êxito narrativo, além de reservar-lhes espaço na memória do espectador, o que, em última instância, denota a importância de seus diretores enquanto exímios contadores de histórias.
Clint Eastwood, em grande forma, dispensa apresentações e demonstra mais uma vez sua versatilidade, ao passo que Denis Villeneuve, após o aclamado Incêndios (Canadá/França, 2010), expõe novamente sua habilidade para desenvolver tramas que abrangem diversos personagens e tempos. Em ambos os títulos percebe-se o controle de cineastas que sabem exatamente  o que pretendem extrair do roteiro e do elenco. Nesse sentido, se em Sobre Meninos e Lobos Sean Penn, ao lado de coadjuvantes de peso, brilhava como o pai ferido pelo assassinato da filha, em Os Suspeitos  Hugh Jackman, também ladeado por vários atores de prestígio – o que inclui um Jake Gyllenhaal inspirado –, impressiona na pele do genitor de uma criança sequestrada. Nos dois exemplos são percebidos os trabalhos generosos dos atores uns para com os outros em benefício daquilo que tem a ser narrado. Essa junção precisa entre a misé-èn-scene, a técnica cinematográfica e o rico desempenho do elenco é produto do que fora coordenado pelas respectivas mentes que coordenam tais espetáculos, leia-se diretores que logram o mérito de entregar materiais mais longos que o normal mas que não por isso deixam de manter a plateia concentrada e tensa do início ao fim.
Dito isso, não se pode dizer que Os Suspeitos e Sobre Meninos e Lobos são produções que se completam porque nelas inexiste incompletude; na verdade, são títulos que se somam e provam que por mais parecida que uma história possa ser com outra, em havendo talento, sobrará sempre um modo inteligente e diferenciado de tratamento, o que logicamente implica respeito não somente para com todos os envolvidos na produção, como para com um público tão desdenhado pelas simplórias e corriqueiras repetições de fórmulas.

Ficha Técnica – SOBRE MENINOS E LOBOS
Título Original: Mystic River
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Brian Helgeland
Elenco Sean Penn, Kevin Bacon,  Tim Robbins, Adam Nelson,  Laurence Fishburne , Marcia Gay Harden,  Laura Linney , Emmy Rossum
Estreia no Brasil: 05.12.2003                             Estreia Mundial: 23.05.03
Duração: 138 min.





Ficha Técnica – OS SUSPEITOS
Título Original: Prisoners
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Aaron Guzikowski
Elenco: Hugh Jackman, Paula Dano, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Brad James, David Dastmalchian, Dylan Minnette, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons, Len Cariou, Maria Bello, Melissa Leo, Terrence Howard, Wayne Duvall, Zoe Borde
Estreia no Brasil: 18.10.2013                             Estreia Mundial: 25.10.13
Duração: 146 min.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Capitão Phillips



A Vez da Semiótica

São diversos os que afirmam – de forma por vezes até exacerbada, convenhamos – que Gravidade funciona como uma metáfora do estado de isolamento no qual o homem moderno tem se esmerado em permanecer, bem como dos traumas, complexos e medos que comumente o impedem de prosseguir, de olhar para o futuro. Se o filme de Alfonso Cuarón é tudo isso mesmo ou se, por outro lado, não passa de mero entretenimento de grife não vem ao caso discutir nesse momento, pois o que realmente importa dentro deste contexto é citar e se valer da semiótica presente em tais análises, instrumento esse que acabara se afastando do nicho intelectualóide ao qual tradicionalmente se filiara para, repentinamente, proliferar em análises populares.
Com efeito, uma vez que interpretações mais abrangentes tem vivido dias de ordinariedade, cabe aproveitar a ocasião para compreender Capitão Phillips conforme essa toada, isso porque, em suas entrelinhas, a obra apresenta frequentes simbolismos em torno de uma atividade diariamente testemunhada: o combate encarado pelo macho alfa no intuito de manter o poder e a liderança sobre os demais membros do bando. Nesse sentido, a competição permeia o longa-metragem de ponta a ponta seja entre os marítimos e militares norte-americanos, seja entre os piratas somalis, seja entre o comandante refém e o comandante sequestrador. Tal disputa de testosterona – sim, mulheres não compõem esse cenário – aliada a própria prática da pirataria denotam que por maiores que tenham sido as mudanças percebidas no mundo - conforme o teor da conversa dos personagens de Tom Hanks e Catherine Keener vista na sequência de abertura - certos comportamentos e tendências são atemporais e universais. Machos disputam entre si pela honra, pelo orgulho, pelo domínio alheio o que numa perspectiva macro leva ao embate de nações, aos conflitos internacionais que conhecemos.
Esse viés, ressalte-se, constitui o grande diferencial de Capitão Phillips, considerando que sua narrativa em muito lembra outro trabalho de Paul Greengrass, qual seja o espetacular Voo United 93. Enquanto neste último o público fora submetido a um ritmo frenético montado para simular em tempo real a agonia das vítimas daquele outro sequestro, em Capitão assiste-se uma narrativa mais cadenciada – afinal, o tempo no mar é outro – que, entretanto, não se traduz em vagareza, eis que o modus operandi do diretor permanece o mesmo: tom documental, câmera na mão, cortes mil e muitos closes para, assim, recriar a tensão experimentada na realidade, tarefa que, aliás, Greengrass repete com o mesmo êxito de outrora, resultado esse que o firma, sem exagero, como o cineasta que atualmente melhor sabe filmar histórias cujos desfechos já são conhecidos.
Se, a despeito das entrelinhas acerca do universo masculino, Capitão Phillips ainda assim em muito dialoga com Voo United 93, já próximo ao término uma guinada confere em definitivo para a produção em comento uma personalidade própria que a afasta da sombra do antecessor. O responsável por esse feito? Tom Hanks. Nos minutos finais todos os elogios a sua atuação passam a fazer sentido, lembrando-nos que ele é não apenas o ator dos papeis premiados mas também aquele de desempenhos fabulosos e subestimados como os de Náufrago e O Resgate do Soldado Ryan. Próximo a conclusão do drama, Hanks faz o espectador esquecer que está diante de uma estrela para, ato contínuo, crer que aquele nada mais é que um homem comum envolto em uma situação extraordinária. Ao lado dos coadjuvantes que brilhantemente interpretam os corsários, Hanks é o elemento que agrega valor extra a tensa e econômica misé-èn-scene de Greengrass. Ainda que o cineasta não abra espaço para firulas dramáticas, contentando-se tão somente com a recriação dos eventos reais e de toda a aflição neles envolvida, Hanks injeta humanidade ao drama sem soar piegas, deixando todos de nó na garganta e o filme arrebatador em sua conclusão.
Pelo visto, juntos, Hanks e Greengrass podem filmar desde a vida de Cristo até a Operação Valquíria que, por instantes, iremos ignorar como essas histórias terminam e roeremos as unhas.

Ficha Técnica


Título Original: Captain Phillips

Direção: Paul Greengrass

Roteiro: Billy Ray

Elenco: Tom Hanks, Catherine Keener, Max Martini, Corey Johnson, Barkhad Abdi, David Warshofsky, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed,  Mahat M. Ali, Michael Chernus, Mohamed Ali,  Issak Farah Samatar

Fotografia: Barry Ackroyd

Trilha Sonora: Henry Jackman Edição: Christopher Rouse

Estreia no Brasil: 08.11.2013                             Estreia Mundial: 11.10.13
Duração: 134 min.