EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Serra Pelada

Serra Cinematográfica

Serra Pelada (Brasil, 2013) é uma espécie de Cidade de Deus versão garimpo com ecos de Scarface, o que é bom na medida em que denota os méritos técnicos da super-produção dirigida por Heitor Dhalia, entretanto, ruim, já que as referências se impõem refletindo a carência do roteiro no que tange o ineditismo.
A repetição de elementos narrativos de outrora, de qualquer modo, não chega a ser um problema incontornável e sim tolerável graças ao pulso firme de Dhalia que, após uma péssima passagem pelo cinema americano, volta a ser o ótimo contador de histórias de ocasiões pretéritas reunindo diversas colaborações valiosas num todo harmônico que em momento algum peca pelo exagero – na verdade, o diretor opta por uma toada, sempre quando possível, contida, poupando, assim, o grande público da sanguinolência explícita que marcava aquela corrida pelo ouro.
Com efeito, Dhalia dribla eventuais limitações de recursos necessários para a reprodução do formigueiro humano que era o garimpo paraense mesclando imagens de arquivos com encenações filmadas, via de regra, em planos pouco abertos. A estratégia, cabe reconhecer, nem sempre funciona, pois, ao contrário, por exemplo, do chileno No que utilizara um mesmo formato de vídeo em toda sua duração para, desta feita, borrar a diferença entre o real e o fake, essa distinção se mostra sempre evidente no título nacional, afinal, o trabalho de fotografia é visível para a plateia em razão da paleta de tons quentes e da iluminação levemente estourada que conferem as sequências um quê cinematográfico estranho ao material audiovisual vindo de arquivos.
Tal como a linha narrativa do filme possui lados positivo e negativo, se por um lado a direção de fotografia apresenta o incômodo viés da diferenciação entre o que fora ou não feito para o cinema, por outro lado, o mesmo elemento técnico possui o mérito de emular características climáticas, geográficas e culturais de uma região durante a década de 80, êxito esse que se estende a direção de arte, aos figurinos e, especialmente, a trilha musical. Neste passo, Serra Pelada apresenta um curioso apanhado do cancioneiro popular que embalava o interior do Pará naquele período, seleção esta que, dada a forma precisa com a qual é utilizada, se transforma num poderoso recurso (extra)diegético.
Quanto ao elenco Juliano Cazarré, embora não seja uma escolha brilhante, não chega a comprometer e, o que é mais importante, revela uma indiscutível química com sua parceira de cena Sophie Charlotte a qual, por seu turno, faz uma arrebatadora estreia no cinema através de uma atuação despudorada e corajosa, distante anos-luz dos inexpressivos papeis televisivos por ela assumidos. Na pele de uma (ex)prostituta a atriz exala sensualidade e aflição, estabelecendo para si um padrão alto de qualidade que desde já desperta curiosidade para o que virá no futuro em sua filmografia. De volta a ala masculina, quem brilha são aqueles que interpretam os seres exclusivamente maus, quais sejam Matheus Nachtergaele e Wagner Moura. Assim como seu personagem Cenoura em Cidade de Deus, Matheus interpreta um chefão que sucumbe perante as rotineiras batalhas de poder, compondo aqui um tipo asqueroso e vil. Por último, Wagner Moura rouba para si considerável atenção pelo filme, acrescentando mais um desempenho inesquecível a galeria de figuras memoráveis por ele vivificadas. Seu negociante Lindo Rico é quase surreal tamanha a rapidez e frieza com que transita da paciência para a brutalidade, valendo-se o ator, para tanto, de trejeitos sutis e marcantes que tornam seu personagem impressionante porque assustador, o que para Serra Pelada e, principalmente, para Moura representa um trunfo inigualável.
Lamentavelmente, contudo, tanto Nachtergaele quanto Moura, não obstante suas fabulosas interpretações, dispõem de pouquíssimo tempo em tela. Eis o caso em que uma eventual versão do diretor, desde que mais longa, seria muito bem-vinda até para, quem sabe, vermos uma obra mais explicitamente compromissada com a “boa e velha ultra-violência” de Serra Pelada.

FICHA TÉCNICA

Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Heitor Dhalia, Vera Egito
Produção: Heitor Dhalia, Wagner Moura, José Alvarenga Jr.
Elenco: Juliano Cazarré, Sophie Charlotte, Wagner Moura, Matheus Nachtergaele, Júlio Andrade, Lyu Arisson, Jesuíta Barbosa
Fotografia: Ricardo Della Rosa                
Estreia no Brasil: 18.10.13            
Duração: 100 min.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ferrugem e Osso



O Amor nos Tempos do Estranho

Ferrugem e Osso (França/Bélgica, 2012) é resultado do trabalho de adaptação de contos do autor Craig Davidson, assunto esse sobre o qual o cineasta Jacques Audiard comenta:
“No original há apenas situações, atmosferas, não há história de amor, o acidente é com um rapaz, [a adaptação] não é ao pé da letra, embora recrie a atmosfera e seja fiel a muitos dos acontecimentos. Nunca imaginaria uma realidade que envolvesse um parque aquático, um boxeador e uma mulher sem pernas”¹.
Essa disparidade de elementos narrativos - aos quais se somam, ainda, crise econômica, disfunção familiar e instalação de câmeras clandestinas - é o que mais chama a atenção no longa-metragem de Audiard, isso porque a produção abraça toda essa gama de temas sem precisar recorrer ao formato do filme coral e seus inúmeros personagens. Ao manter o foco, de maneira inversa, sobre o casal de protagonistas e alguns poucos coadjuvantes, o roteiro de Audiard apresenta uma incrível capacidade de coesão que torna plenamente verossímil o drama narrado - por mais estranho que ele pareça...
Aliás, a estranheza é uma bem-vinda característica de Ferrugem e Osso na medida em que reflete o quão esquisitas ou diferentes também se tornaram as relações humanas. E é aí que reside a atualidade da obra, visto que, por exemplo, a ambiguidade de seu personagem principal, qual seja um homem bruto, mas também solidário, negligente, porém, zeloso, se confunde, com a dubiedade dos relacionamentos atuais.
É claro que uma proposta complexa como essa não seria vitoriosa sem a presença de atores capazes de alcançar tais notas. Para tanto, Marion Cotillard brilha no papel mais desafiador de sua carreira desde a encarnação de Edith Piaf e, do outro lado, Mathias Schoenaerts impressiona pelo troglodita e pelo poço de gentileza que é em cena. Na regência do espetáculo Jacques Audiard, por seu turno, é um prudente observador que evita psicologismos para não tomar partido nem tecer julgamentos. A ele não interessa saber se entre o casal há amor ou sexo, compromisso ou diversão. Todos são bons e também maus; todos são vítimas e principalmente cúmplices, assim como tudo o que é estranho também, é belo². No universo de Ferrugem e Osso aquilo que é esteticamente agradável ganha contornos cruéis, enquanto as coisas mais comumente reprováveis ganham surpreendentes requintes de beleza – que o diga Katy Perry e seu hit Firework³.
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1.FONTE: Revista Preview. Ano 3. ed. 40. São Paulo: Sampa, Janeiro de 2013. p. 21.
2.Vide as cenas de sexo ímpares cuja atmosfera lírica Beto Brant tentou anteriormente sem êxito alcançar em Crime Delicado.
3.“’Jamais teria escolhido essa canção,mas era a que tocavam no show’ contou Jacques Audiard, reclamando do preço pago pelos direitos autorais” (Op. Cit. p. 21).

FICHA TÉCNICA

Título Original: De Rouille Et D’os

Direção : Jacques Audiard

Roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain, baseado em livro de Craig Davidson

Elenco: Marion Cotillard, Mathias Schoenaerts, Céline Sallete, Yannick Choirat, Jean-Michel Correia, Mourad Frarema, Bouli Lanners, Corinne Masiero, Armand Verdure

Música: Alexandre Desplat                 Edição: Juliette Welfling

Estreia no Brasil: 03.05.13             Estreia Mundial: 17.05.12

Duração: 122 min.

sábado, 19 de outubro de 2013

Mamonas pra Sempre



Sobretudo Incompleto

Mamonas pra Sempre (Brasil, 2009) é o tipo de documentário que funciona enquanto homenagem mas que pouco contribui para revelar quem eram os verdadeiros homens por trás dos personagens nonsense por eles encarnados. Não fosse pelos primeiros quinze minutos dedicados a história do grupo enquanto banda Utopia e a trechos do depoimento do produtor musical Rick Bonadio, o filme pouco se diferenciaria da tonelada de matérias televisivas já feitas sobre os músicos. 
                  Dentro deste contexto, Bonadio é o único que ousa falar sobre as reais personalidades de cada membro da banda, bem como a meter o dedo na ferida comentando o quão incômoda era a constante presença nos bastidores de uma certa namorada do vocalista Dinho. Considerando, porém, que o relato neste sentido advém de um único indivíduo, fica a sensação de que mais pessoas deveriam ter sido entrevistadas para a composição de um mosaico mais abrangente de opiniões não apenas sobre os rockeiros circenses como também sobre a importância ou não histórica do grupo e de suas baboseiras para o cenário musical brasileiro da primeira metade dos anos 90. Ademais, o foco – até certo ponto natural – sobre a figura do carismático Dinho soa um tanto exacerbado na medida em que, exceto por informações básicas acerca dos respectivos papeis no grupo, pouco se investiga sobre os demais mamonas.

Tanta incompletude, vale dizer, alcança seu ápice na abordagem da tragédia que vitimou os músicos. Decidido a não ser sensacionalista, como tantos veículos de comunicação foram a época do acidente de avião que pôs fim a existência terrena daqueles artistas, o diretor Claudio Khans opta por se concentrar na vida e a lançar um olhar apenas breve sobre  o sinistro já citado. Sem dúvida o cineasta não pode ser criticado por falta de posicionamento, contudo, sua decisão acaba se mostrando radical ao passo em que não fornece qualquer dado, por exemplo,  técnico sobre os problemas que levaram a queda do jatinho no qual viajava a banda. Pelo visto, Khans parte do pressuposto de que os espectadores já foram por demais bombardeados com detalhes dessa espécie, esquecendo, em contrapartida que seu trabalho será uma eterna fonte de pesquisa para futuras gerações, daí porque privar o documentário de uma análise apurada sobre um evento tão extraordinário caracteriza em definitivo a obra como um produto sobretudo incompleto, o que, sem exageros, representa uma falha praticamente teratológica em termos de linguagem documental.

Ficha Técnica

Direção: Claudio Khans
Estreia: 17.06.2011
Duração: 84 min.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Gravidade



Dupla Possibilidade

Embora as críticas estejam sendo bastante positivas e empolgadas com relação a Gravidade (EUA, 2013), há, vale dizer, duas possibilidades de analisar o filme, senão vejamos:

Vi e Gostei: Alfonso Cuarón realiza, seis anos após Filhos da Esperança, mais um excelente exercício de direção, operando técnicas inovadoras¹ e efeitos visuais fantásticos que, ao invés de se sobreporem a história, trabalham em prol da construção do suspense exigido pela trama. Munido de apenas dois atores em cena, Cuarón edifica um espetáculo arrebatador para os olhos e nervos amparado por uma vigorosa banda sonora que intercala com maestria o silêncio a uma trilha musical angustiante porque aflitiva. Valendo-se, ainda, de um meticuloso processo de transição das filmagens para o 3D, o cineasta demonstra toda a força narrativa desse instrumento recriando, desse modo, as mais acachapantes imagens do espaço vistas desde ... 2001! Entretenimento de primeira linha, Gravidade não perde tempo com flashbacks e demais informações desnecessárias, concentrando-se, portanto, tão somente em levar sua protagonista a um exaustivo percurso de luta pela sobrevivência e o espectador a um integral envolvimento para com o drama e as emoções vindas da tela, o que, em última instância, demonstra que, felizmente, ainda há vida inteligente no universo do cinemão hollywoodiano.


Vi e Me Frustrei: Não obstante Alfonso Cuarón já tenha em entrevistas de divulgação declarado a existência de simbolismos no enredo escrito por ele e seu filho, resta pouco significativo – a não ser, talvez, para aqueles dotados de uma sensibilidade exacerbada – que, por exemplo, os destroços que orbitam em torno da espaçonave onde se encontram os personagens de Gravidade representem os obstáculos e traumas que, não raro, nos impedem de caminhar para a frente e de encarar o futuro. Ao contrário do que realizara na obra-prima Filhos da Esperança, Cuarón dirige sua atenção para o quesito diversão, deixando, assim, num plano abaixo eventuais questões filosóficas e/ou metafísicas - que, frise-se, poderiam ser exploradas para além da belíssima sequência em que Sandra Bullock gravita em posição fetal. Gravidade, dessa maneira, é programa feito para, acima de tudo, entreter. A intenção, neste sentido, é menos fazer o público refletir e mais roer as unhas ante a tensão². Tal opção não necessariamente representa um defeito, mas, por certo, haverá de desagradar a parcela que ficara mal acostumada com toda a densidade presente na distopia cerebral que fora o outrora citado Filhos da Esperança. Não se trata de dizer que Cuarón tenha sido ineficiente em Gravidade, já que o longa-metragem apresenta uma técnica irreparável do artista; contudo, inevitavelmente fica no ar a indagação: o quão existencialista se transformaria o mesmo roteiro nas mãos de um Terrence Malick e de uma Noomi Rapace?
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1.  “Para filmar os 90 minutos da produção, foram usadas técnicas variadas e criadas novas tecnologias. [...] Algumas vezes [Sandra Bullock] era pendurada por 12 cabos. Em outras ocasiões, seu corpo era manipulado pelos mesmos especialistas em marionetes que fizeram a peça Cavalo de Guerra. Em muitos outros momentos, ficava sozinha dentro de um cubo iluminado por LEDs e com câmeras operadas por robôs, com o humano mais próximo a 15 metros de distância. [...] Cada passo foi pré-programado num computador, e o timig tinha de ser exato” (Revista Preview. Ano 3. ed. 48. São Paulo: Sampa, Setembro de 2013. p. 20-1).
2. Aspecto esse que talvez pudesse ser até um pouco burilado eis que os infindáveis reveses enfrentados pela personagem principal vão, já próximo ao fim, adquirindo uma indevida conotação cômica.

Ficha Técnica

Título Original: Gravity

Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón

Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris (voz)

Música: Steven Price

Direção de Arte: Andy Nicholson

Figurino: Jany Temime

Edição: Mark Sanger, Alfonso Cuáron

Estreia no Brasil: 11.10.2013                   Estreia Mundial: 03.10.2013
Duração: 90 min.