EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 11 de junho de 2013

O Grande Gatsby



Feito uma Gazela

A conclusão é simples: quando se preocupa em contar uma história Baz Luhrmann alcança inconteste eficiência, quando, de modo inverso, se esmera em ser apenas afetado seu trabalho resulta histérico e exagerado. O Grande Gatsby (EUA, 2013) muitas vezes lembra Moulin Rouge e seu parecido drama de um amor impossível; a diferença, porém, é que enquanto a ousadia pós-moderna desse segundo o impedia de ser cafona – ainda que Ewan Mcgregor com sua atuação histriônica em muito se esforçasse nesse sentido – o filme estralado por Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan revela timidez no toque pós-modernista – a trilha sonora é o maior exemplo disso – e total desinibição para aquilo que é over.
Dentro deste contexto, em certa passagem a mãe da personagem Daisy (C. Mulligan) a recrimina por andar galopando, o que não deixa de ser curioso, afinal é o próprio longa-metragem que, na verdade, descarada e desnecessariamente por vezes assim se comporta. Sim, os figurinos e cenários são opulentos, majestosos – mas isso já havia sido visto com serventia maior no já citado musical Moulin Rouge – compondo, assim, um visual belo, todavia, maculado pela infeliz insistência no uso de truques de computação gráfica e tomadas aéreas que por vezes fazem o espectador estranhamente pensar que está vendo um dos capítulos da saga O Senhor dos Anéis.
Menos mal que no bojo do novelão que é a trama de O Grande Gatsby há um casal competente de atores que se sobrepõe a penteadeira de quenga que não raro é a direção de Luhrmann - entretanto, como para cada escolha correta há outra equivocada, Tobey Maguire compromete enquanto fio condutor da narrativa na medida em que sua limitação o permite a apenas repetir os trejeitos abobalhados de um certo Peter Parker.
Com efeito, se de um lado Austrália, por exemplo, era bobo e ufanista, O Grande Gatsby, por seu turno, soa pretensioso – como ignorar que a mise-en-scène de Luhrmann, no que tange a encenação do sucesso alcançado por Gatsby, emula a ascensão de Charles Foster Kane? – e, como já dito, afetado, o que denota a natureza ultimamente equivocada das sempre arriscadas decisões tomadas pelo cineasta australiano. Sob um prisma piedoso, resta provada, em contrapartida, a corajosa fidelidade do artista em relação a um estilo por ele difundido, o que dessa vez leva a obra em comento a ao menos rivalizar pelo título de “filme exagerado do ano” com o até então imbatível Os Miseráveis. E quem não gostar dessa toada que vá assistir Os Mercenários.

Ficha Técnica


Título Original: The Great Gatsby

Direção: Baz Luhrmann

Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce

Produção: Baz Luhrmann, Catherine Knapman, Catherine Martin, Douglas Wick, Lucy Fisher

Elenco: Amitabh Bachchan, Arthur Dignam, Barry Otto, Brendan Maclean, Callan McAuliffe, Carey Mulligan, Corey Mills, Daniel Newman, Drew Pearson, Elizabeth Debicki, Felix Williamson, Gemma Ward, Goran D. Kleut, Isla Fisher, Jacek Koman, Jack Thompson, Jason Clarke, Joel Edgerton, Kate Mulvany, Kim Knuckey, Leonardo DiCaprio, Max Cullen, Stephen James King, Tobey Maguire, Vince Colosimo

Fotografia: Simon Duggan

Estreia no Brasil: 07.06.2013                        Estreia Mundial: 10.05.2013

Duração: 142 min.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Faroeste Caboclo



Para o Desespero dos Fãs

Convenhamos: 99% do público brasileiro de Faroeste Caboclo (Brasil, 2013) já sabe de antemão o início, o meio e o fim de sua trama porque conhecedor da canção homônima de Renato Russo. Logo, é fácil concluir que esse contingente não busca surpresas mas apenas uma adaptação fiel e minimamente satisfatória para com a tão idolatrada música. Lamentavelmente, porém, tais expectativas são frustradas na medida em que:

- flashbacks são inseridos numa narrativa que é originalmente linear, denotando, assim, o afã, por parte da edição, de agregar ao filme um ineditismo idealizado tão somente pelos egos daqueles que pretendiam apor suas próprias assinaturas sobre a criação de Renato Russo;
- o time de roteiristas envolvido no projeto não consegue aproveitar o roteiro pronto que é a canção, o que leva certas passagens desta, para o desespero dos fãs mais xiitas, a serem ora omitidas/descartadas ora alteradas ora solucionadas de forma duvidosa;
- o triângulo amoroso da versão cinematográfica pouco convence, o que em grande parte se deve ao ineficaz delineamento do personagem Jeremias que, para piorar, é encarnado por um limitado Felipe Abib;
- momentos tensos da canção como o estupro de João de Santo Cristo e o duelo final são encenados de forma apressada e anticlimática.
Se por um lado a essência da canção é cinematograficamente prejudicada em razão de escolhas equivocadas como a superestimação do viés romântico em detrimento da conotação política que caracterizara aquela, determinados aspectos do longa-metragem, sobretudo técnicos, garantem-no, por outro lado, a dose de valor salvadora, no que se destacam os impecáveis trabalhos de fotografia e de direção de arte, bem como a presença de Isis Valverde linda e ótima enquanto Maria Lúcia. Ok, essas são virtudes que merecem o devido registro, mas que, em última instância, não são o bastante para manter de pé um filme baseado em tão vigoroso e aclamado título. A maior prova disso é que a execução da música Faroeste Caboclo durante os créditos finais possui um efeito acachapante sobre o filme¹, lembrando-nos, como se preciso fosse, qual das duas obras é a que possui verdadeira importância.
Tomara que Eduardo e Mônica, caso um dia vá realmente para as telas do cinema, tenha sorte melhor.
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1.Em sentido parecido Rubes Ewald Filho afirma: “a semelhança do filme com a famosa e longa canção é muito vaga e distante. Você pode ouvi-la nos letreiros finais e vai ficar estarrecido como pouco tem a ver com o filme. Que basicamente é uma historia de drogas, os personagens passam o tempo todo fumando maconha [...] e depois cheirando cocaína com arroubos de Scarface.” (FONTE:  http://rubensewaldfilho.blogspot.com.br/2013/05/faroeste-caboclo.html. Acesso em 03.06.2013).

FICHA TÉCNICA

Direção: René Sampaio
Roteiro: Marcos Bernstein, Victor Atherino, Paulo Lins
Produção: Barbara Isabella Rocha
Elenco: Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Felipe Abib, Marcos Paulo, Antonio Calloni, Cinara Leal,Rodrigo Pandolfo, Juliana Manfredini, Cesar Troncoso
Fotografia: Gustavo Hadba           
Montagem: Marcelo Moraes
Estreia: 30.05.2013               
Duração: 106 min.