EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 30 de maio de 2013

Depois de Lúcia



Exercício de Exasperação

O roteiro de Depois de Lúcia (México, 2012) é dividido estruturalmente em três atos que podem ser assim denominados: instalação, abuso e revanche. A seu modo cada um desses capítulos causa o incômodo pretendido, sendo o primeiro através da sensação de estranheza diante de um ambiente novo, o segundo por meio da estupefação perante o grau de sordidez atingido pelo homem e o terceiro pela tolerância com que compreendemos a necessidade de vingança.

Assim, por mais radical que se revelem os caminhos da narrativa, nada soa distante ou impossível de ocorrer na realidade de qualquer um, eis que no fundo reconhecemos o quão pequenos e baixos podemos vir a ser – sim, os atos de bullying aos quais é submetida a protagonista podem parecer exagerados para uns, impressão essa que é logo dissipada se lembrarmos que nosso próprio país já confirmou, através da tragédia do índio queimado vivo, que não há limite para a maldade.
No intuito de não estender a digressão e retornar, desta feita, a análise da obra, é imperioso dizer que Depois de Lúcia configura um exemplo de trabalho cinematográfico no qual se detecta sem esforços a excelência do roteiro – engana-se quem pensa que este é um filme centrado apenas no problema do bullying¹, pois é latente também, por exemplo, o questionamento sobre a inconsequência que marca uma geração tão acostumada com a exposição – e da direção, isso porque o cineasta Michel Franco potencializa a tensão de sua história com um número mínimo de recursos. Sua insistência, nesse sentido, em planos fixos e longos e a total ausência de música exasperam aflição dentro e fora da tela, culminando numa cena final impactante ao extremo que dificilmente sairá da mente do espectador.
Por fim, o naturalismo das atuações é outro fator de acerto da direção, no que se destaca a participação de Tessa Ia que, enquanto personagem principal, estampa em seu rosto transformações experimentadas por aquela que vão desde a forma aparentemente tranquila com que lida com o luto, até a lascívia advinda do início da vida sexual, bem como o cansaço acarretado por uma rotina de humilhações. Eis uma atriz bastante nova que enfrentou com êxito um papel dificílimo. Fiquemos de olho nela.
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1.  Sobre as muitas trilhas percorridas pelo script de Depois de Lúcia, Juan Pablo Villalobos ressalta que: “O mais simples seria dizer que estamos diante de uma obra sobre assédio escolar [...]. No entanto, o longa se revela muito mais do que isso. [...] O resultado é uma narrativa tensa do princípio ao fim, que produz uma sensação permanente de angústia. Um drama que ameaça virar thriller, mas que não o faz porque nunca abdica de privilegiar sua vocação intimista” (Revista Bravo. Ed. 187. São Paulo; Abril, Março de 2013. p. 38). Por seu turno, Suzana Uchôa Itiberê esclarece que o filme “é um drama familiar contemporâneo que fala de perda, carência, romance e violência sem obviedades, e com certa crueza” (Revista Preview. Ano 3. ed. 42. São Paulo: Sampa, Março de 2013. p.64).

FICHA TÉCNICA

Título Original: Después de Lucía
Direção e Roteiro: Michel Franco
Produção: Alexis Fridman, Billy Rovzar, Elias Menasse, Fernando Rovzar, Marco Polo Constandse, Michel Franco
Elenco: Gonzalo Vega Jr., Hernán Mendoza, Monica del Carmen, Tamara Yazbek, Tessa Ia
Fotografia: Chuy Chávez
Estreia no Brasil: 22.03.2013                Estreia Mundial: 03.10. 2012
Duração: 103 min.

sábado, 25 de maio de 2013

Terapia de Risco



Fim de um Ciclo

Terapia de Risco (EUA, 2013) é o último trabalho de Steven Soderbergh antes do início de um período dedicado a produções televisivas. Dito isso, resta claro que o diretor se empenhou em encerrar com vigor um ciclo cinematográfico marcado por muita quantidade e esparsa qualidade. Uma vez que recentes produções suas como Che, À Toda Prova, O Desinformante! e Magic Mike revelavam uma dose maior de problemas do que de virtudes, tornou-se comum que os lançamentos do cineasta carecessem de expectativas, realidade essan interrompida pela grata surpresa que é Terapia de Risco.

Munido de um roteiro marcado por reviravoltas tão interessantes como, por exemplo, as do contemporâneo Em Transe (Reino Unido, 2013), Soderbergh conduz com habilidade o thriller concentrando-se na história e não nas firulas estéticas que pouco acrescentaram a seus últimos filmes. Colabora também para o êxito da empreitada o fato de o diretor dessa vez trabalhar com um número menor de personagens e estrelas, o que impede a repetição de elementos supérfluos testemunhada em obras pretéritas como Contágio. E esse elenco reduzido, vale dizer, não deixa a tensão esmorecer em momento algum, destacando-se, nesse sentido, Rooney Mara que, ótima, demonstra não ser atrizde um papel só, agregando, assim, outra mulher atormentada e misteriosa a sua filmografia.
Terapia de Risco comprova que ainda existe em Steven Soderbergh um artista digno de respeito, afinal, não sobra dúvida que, a partir do primeiro ponto de virada do roteiro, qualquer que fosse o caminho escolhido para a trama, seja o drama ou o suspense, a atenção do espectador não seria dissipada porque já totalmente captada até então, o que, em última instância, denota o controle do diretor sobre a narrativa. Resta, portanto, aguardar pelo dia em que Soderbergh porá o pé no freio e compreenderá que menos às vezes é mais.

Ficha Técnica

Título Original: Side Effects
Direção: Steven Soderbergh
Produção: Scott Z. Burns, Lorenzo di Bonaventura, Gregory Jacobs
Roteiro: Scott Z. Burns
Elenco: Channing Tatum, Rooney Mara, Jude Law, Catherine Zeta-Jones, Mamie Gummer, Vinessa Shaw, David Costabile, Greg Paul, Laila Robins, Ashlie Atkinson, Kerry O'Malley, Andrea Bogart, Polly Draper, Nicole Ansari-Cox, Kelly Southerland, Peter Y. Kim, James Martinez, Carol Commissiong, Onika Day, Mario Moise Fontaine, Kevin Cannon, Michael Nathanson, Kenneth Simmons, Aaron Roman Weiner, Dylan Clark Marshall, Anthony J. Ribustello, Dennis Rees, Johnny Sanchez, Gil O'Brien, Lucinda Lewis, Vladimi Versailles, J. Claude Deering, Sean Marrinan, John Mitchell, Alan R. Rodriguez, Volieda Webb, Ilyana Kadushin, Sheila Tapia, Hollie K. Seidel, Kimberly Hana Nguyen, Blago Simon, Johan Matton, Laurence Covington, David Fierro, Timothy Klein, Zivile Kaminskaite, Leeann Hellijas, Larissa Laurel, Michelle Vergara Moore, Carol Stanzione, Brian Distance, Susan Gross, Carmen Pelaez, Nick Nappy, Nancy Nagrant, Erica Watson, Mitchell Michaliszyn, Alice Niedermair, Tischa Culver, Debbie Friedlander, Vince Hickman, Munro M. Bonnell, Ralph Meyer, Lisa Regal, John Farrer, Rosemary Howard, Annika Merkel, Jenny Rostain
Fotografia: Peter Andrews                           Trilha Sonora: Thomas Newman
Estreia no Brasil: 17.05.2013                       Estreia Mundial: 07.02.2013
Duração: 106 min.

sábado, 18 de maio de 2013

Pedalando com Molière



Aula de Roteiro

Em Pedalando com Molière (França, 2011) dois atores se reúnem para ensaiar a peça O Misantropo; neste processo, a história de aversão ao ser humano e à natureza humana por aqueles encarnada acaba se confundindo, servindo de paralelo para o que eles próprios experimentam entre si e com os que lhe são próximos.
Não resta dúvida que essa fusão da ficção do texto de Molière e da realidade enfrentada pelos atores/personagens poderia resultar densa, sisuda, mas, eis que o roteiro de Philippe Le Guay inteligentemente envereda pelo caminho do humor tornando charmosíssimo o longa-metragem e, o que é melhor, sem jamais vulgarizá-lo. Não fosse o bastante, o mesmo roteiro ainda revela um notável destemor ao apostar num ponto de virada que inevitavelmente acarreta uma conclusão de gosto amargo, porém, deveras coerente seja com o que um dia escrevera Molière seja com o ser humano e sua natural essência mesquinha.
Por último, a análise restaria incompleta caso não fosse ressaltado que o êxito do produto final se deve não só a riqueza de seu texto mas também em muito aos onipresentes Fabrice Luchini e Lambert Wilson que juntos dão show entregando uma parceira, sem exageros, facilmente classificável como uma das mais marcantes do cinema francês.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Alceste à Bicyclette
Direção e Roteiro: Philippe Le Guay
Produção: Anne-Dominique Toussaint
Elenco: Fabrice Luchini, Lambert Wilson, Maya Sansa, Camille Japy, Annie Mercier, Laurie Bordesoules
Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Duração: 105 min.

sábado, 11 de maio de 2013

Somos Tão Jovens



Manfredini e o BRock

“ – Ai, não acredito que já acabou”, “ – Poxa, eu queria que agora começasse Faroeste Caboclo”, foram frases que ouvi ao término de Somos Tão Jovens (Brasil, 2011), lamentação essa ratificada pelo restante da plateia que, em coro, soltou ao fim da sessão um “aaaaaaaaaaaaa” dos mais sinceros. Tamanha vontade de não interromper a experiência se deve ao fato de ser este um trabalho deveras cativante que abrange não só os primeiros passos artísticos do ídolo de uma geração como também sintetiza uma fração da história do nascimento do BRock, último movimento musical de valor testemunhado em nossas terras.
É bem verdade que o recorte candango desse levante já havia sido visto recentemente no documentário Rock Brasília – Era de Ouro (Brasil, 2011), contudo, Somos Tão Jovens vai além da frieza da linguagem documental e injeta doses e mais doses de emoção na recriação de uma época, de um local e na encenação de fatos dispersos que contribuiriam para a sedimentação de um novo rumo a ser tomado pela música brasileira¹.
Neste passo, impressiona a riqueza de detalhes percebida na direção de arte responsável por trazer as telas a Brasília dos anos 70, nos figurinos precisamente conectados ao que então era usado e, sobretudo, no roteiro que reúne um grande número de eventos para narrar o surgimento de um ícone cuja história se confunde com a de sua própria geração. Assim, o filme destaca momentos preciosos como, por exemplo, as reuniões da turma da colina, os desencontros entre a disco music tocada nas rádios e o punk rock idolatrado por aqueles adolescentes, as menções ao Colégio Marista no qual eles estudavam, a aproximação de Renato Russo com André Pretorius e Hermano Vianna, o ataque de pânico de Ico Ouro Preto, irmão de Dinho, minutos antes de uma apresentação do Aborto Elétrico, o show realizado no município de Pato de Minas – atenção nesse momento para a participação especialíssima de Philippe Seabra, integrante do Plebe Rude, na pele de um prefeito pasmo com a juventude que a sua frente se mostrava – a famosa festa da rockonha que levou muitos em cana, a colaboração dos Paralamas do Sucesso para o futuro lançamento nacional da Legião Urbana,  e por aí vai...
Praticamente tudo o que ocorrera musicalmente na capital federal naquele período fora registrado no script de Marcos Bernstein que ainda encontra espaço para criar a personagem semificcional Aninha – a qual, junto ao protagonista, participa de uma das sequências mais iluminadas do longa-metragem ao som de “Ainda é Cedo”. No que tange as músicas, pulsam na tela de tal forma os primeiros rocks compostos por Renato na fase Aborto Elétrico - no que se destaca a versão de “Tédio com um T Bem Grande Pra Você” - bem como as canções da fase ‘trovador solitário’, que ao espectador se revela impossível conter o desejo de cantarolá-las.
Por óbvio, o absoluto êxito dessas recriações em muito se deve a mediúnica interpretação de Thiago Mendonça que impressiona não só pela aparência física e dominação precisa das expressões faciais e trejeitos do músico, mas principalmente pelo alcance de um tom vocal que de tão idêntico transforma o Renato Russo que conhecemos e sua versão cinematográfica num só ser, repetindo, assim, uma façanha antes feita por Daniel Oliveira em Cazuza – O Tempo Não Pára (Brasil, 2004).
A minuciosa e competente encenação dos eventos citados ilustra de modo definitivo o que aspirava Renato Russo e o que significava para ele seus amigos o que hoje é conhecido como BRock, movimento que de acordo com a ótica de um dos melhores e mais gabaritados relatores do período, Arthur Dapieve:
“Era o reflexo retardado no Brasil menos da música do que da atitude do movimento punk anglo-americano: do-it-yourself, ainda que não saiba tocar, ainda que não saiba cantar, pois o rock não é virtuoso. Era um novo rock brasileiro, curado da purple-haze psicodélica-progressiva dos anos 70, livre de letras metafóricas e do instrumental state-of-the-art, falando em português claro de coisas comuns ao pessoal de sua própria geração:amor, ética, sexo, política, polaroides urbanos, dores de crescimento e maturação – mensagens transmitidas pelas brechas do processo de redemocratização”².
Somos Tão Jovens possui potencial para ser um fenômeno de bilheteria não apenas porque fala de Renato Russo, mas especialmente por ser um trabalho redondo, muito bem costurado, dirigido e narrado³ cujas falhas são detectadas somente após um deliberado exercício de chatice (sim, as versões de Herbert Vianna e Dinho Ouro Preto são fakes até o último fio de cabelo) que, entretanto, jamais sobrepõe o saborosíssimo saldo final de um projeto que, convenhamos, não inspirava muita expectativa.
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1.   O “estouro da geração 80, com discos bem distantes do padrão MPB, forçou a indústria fonográfica brasileira a se matricular num curso intensivo de produção e de técnicas de gravação. ‘A grande renovação daquela geração foi tecnológica’, opina Carlos Beni, ex-baterista do Kid Abelha e produtor do Biquini Cavadão. “Nossa contribuição musical não se compara a da Bossa Nova, por exemplo. Houve uma renovação de linguagem nas letras, foi basicamente isso. Mas, em técnica de gravação, produção e arranjo, houve um salto. Os artistas da MPB não se preocupavam com isso” (FONTE: Showbizz. Ed. 16. Ano 14, n° 12. Dezembro de 1998. p. 34).
2.     BRock – O Rock Brasileiro dos anos 80. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. p. 195.
3.  Afinal, a cinebiografia trata de explorar a cumplicidade do público soltando ganchos nos diálogos que remetem as canções compostas por Renato Russo.

FICHA TÉCNICA


Direção: Antonio Carlos Fontoura

Produção: Letícia Fontoura, Antonio Fontoura

Roteiro: Marcos Bernstein

Elenco: Thiago Mendonça, Sandra Corveloni, Marcos Breda, Laila Zaid, Bianca Comparato, Bruno Torres, Daniel Passi, Sérgio Dalcin, Conrado Godoy, Nathalia Lima Verde, Ibsen Perucci, Edu Moraes, Olivia Torres, Kotoe Karasawa, André de Carvalho, Leonardo Villas Braga, Victor Carballar, Thiago Casado, Antonio Bento, Nicolau Villa-Lobos, Waldomiro Alves, Natasha Stransky, Rene Machado, Kael Studart, Vitor Bonfá, Henrique Pires, Maísa Lacerda, Paulo Wenceslau

Fotografia: Alexandre Ermel

Trilha Sonora: Carlos Trilha

Estreia: 03.05.2013

Duração: 104 min.