EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Caça aos Gângsteres



Apenas Mais Um

Caça aos Gângsteres (EUA, 2012) aparenta ser um programa promissor, afinal, trata-se de um elenco estelar resgatando um filão que já rendeu pérolas como Os Intocáveis, por exemplo. Ocorre que, infelizmente, a expectativa não se concretiza em realidade em função da preocupação quanto ao conteúdo do projeto não ser a mesma quanto a sua forma. Sim, a produção apresenta ótimos trabalhos de direção de arte e de fotografia, destacando-se neste último diapasão os elaborados planos que em muito lembram enquadramentos de histórias em quadrinhos; todavia, o longa-metragem carece do charme dos filmes noir, em razão de um roteiro que é fraco não só pelos furos e soluções fáceis apresentadas mas, sobretudo, porque deficiente no que tange a construção de seus personagens – aos papeis coadjuvantes não é dispensada qualquer atenção, o que prejudica, por óbvio, a narrativa em seu conjunto final. Ademais, a obra dispensa por completo a oportunidade de refletir sobre até que ponto os atos da milícia formada pelos mocinhos poderiam se igualar aos dos mafiosos, daí resultar insuficiente para aqueles que almejam ver algo mais do que sequências estilizadas de violência.
Ao que parece, o diretor Ruben Fleischer, de Zumbilândia, detém um talento para a comédia que não se estende para enredos mais sérios. De qualquer forma, nem tudo restou perdido, eis que o cineasta teve a seu dispor Sean Penn em uma interpretação que pode até parecer over para alguns, mas que, no mínimo, demonstra o ator empenhado que é – mesmo que a participação da vez seja em um projeto mediano cujos realizadores são incapazes de explorar todas possibilidades do mesmo.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Gangster Squad
Direção: Ruben Fleischer
Produção: Dan Lin, Kevin McCormick, Michael Tadross
Roteiro: Will Beall
Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Sean Penn, Josh Brolin, Nick Nolte, Giovanni Ribisi, Josh Pence, Frank Grillo, Anthony Mackie, Robert Patrick, Michael Peña, Mireille Enos, Derek Mears, Sullivan Stanleton, TroyGarity, Jon Polito, Holt McCallany, Austin Highsmith, Jonny Coyne, Maxwell Perry Cotton, Brandon Molale, James Carpinello, Ambyr Childers, Dennis Cockrum, De'aundre Bonds, Jeff Wolfe, Jim Fitzpatrick, James Hébert, Austin Abrams, Christopher Aber, Mac Brandt, Haley Strode, Nancy McCrumb, Geoff Pilkington, Sophia Strauss, TonySagastizado I, Yvette Tucker, Kara C. Roberts, LeniFord, Katrina Munday, Pamela Cedar, Isabel Dresden, Trey Rogers, Carolina Prowido, Christopher Tisa, Joseph Olibrice, Mick Betancourt, Ron Pucillo
Fotografia: Dion Beebe                                Trilha Sonora: Carter Burwell
Estreia Mundial: 11.01.2013                       Estreia Brasil: 01.02.2013
Duração: 116 min.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Som ao Redor



Estado Violência

Intrigante é um adjetivo que bem se adequa a O Som ao Redor (Brasil, 2012). Em sua estreia na direção de longas Kleber Mendonça Filho assina uma história que não se encaixa no formato clássico da narrativa fílmica, tendo em vista, sobretudo, a importância dada ao tempo morto em sua mise-en-scène, o que não quer dizer, porém, que o filme se preste a assumir uma toada contemplativa e/ou silenciosa nos moldes firmados por Antonioni e Bergman, por exemplo.
Na verdade O Som ao Redor se vale de um caprichado trabalho de montagem para arquitetar num crescendo a sensação de que uma tragédia está prestes a ocorrer, o que, frise-se, visa não criar espaço para um clímax cinematográfico – até porque seu desfecho, tal qual a vida real, é deliberadamente anticlimático – e sim lembrar o público da ininterrupta sensação de insegurança experimentada pela classe média brasileira para a qual a obra tanto volta seu olhar. Por seu turno, como o próprio título sugere, a banda sonora possui papel de destaque na medida em que, através de ruídos diversos, invade os lares e cotidianos dos personagens como que a ‘ilustrar’ o medo que não mais é barrado pelas grades e portões das casas e prédios.
Uma vez esclarecido que a distinção de classes de nossa sociedade é fruto de um processo opressor de colonização, o drama direciona seu foco, como já dito, sobre a tão pouco filmada classe média e o faz de uma maneira singular porque praticamente palpável. Neste sentido, em locações pouco adulteradas pela direção de arte, Mendonça Filho espreita de modo quase documental o modo de falar e interagir das pessoas entre seus pares e subordinados e é justamente por abordar de maneira tão franca uma parcela da nação no que tange a instabilidade de seus relacionamentos, seu habitat, comportamento e temores que a realização soa tão cúmplice¹ e também tão incômoda, afinal, como qualquer brasileiro bem sabe, estamos constantemente a mercê de inimagináveis infortúnios advindos do Estado violência no qual vivemos.
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1.  Em compreensão semelhante Roberto Guerra afirma: “O filme mantém-se sustentado em pequenos acontecimentos mundanos, que se revelam ainda mais inquietantes do que aqueles vistos numa trama comum movida à ação e reação. A vida desses personagens, sua atitudes e também apatias e tédios diante das próprias existências são os responsáveis pela dinâmica asfixiante deste filme, por que não dizer, de horror. E o assustador e temerário aqui está na familiaridade que O Som ao Redor desperta na gente” (FONTE: http://www.cineclick.com.br/criticas/ficha/filme/o-som-ao-redor/id/3112. Acesso em 21.02.12).

FICHA TÉCNICA

Direção e Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Produção: Emilie Lesclaux

Elenco: Irma Brown, Sebastião Formiga, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, W. J. Solha, Lula Terra, Irandhir Santos, Waldemar José Solha, Yuri Holanda, Clébia Souza, Maria Luiza Tavares

Fotografia: Pedro Sotero                          Trilha Sonora: DJ Dolores

Estreia: 04.01.13

Duração: 131 min.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Voo



Retorno em Grande Estilo

Eis que Robert Zemeckis retorna ao mundo do live action e o faz em grande estilo, contrariando todas as expectativas negativas nesse sentido. Com efeito, o cineasta demonstra que ainda tem muito com o que colaborar para o cinema através de O Voo (EUA, 2012), um dramão que prende o espectador do início ao fim e que tem como maior virtude a firmeza com a qual caminha sem tecer julgamentos sobre seus personagens.
Dentro deste contexto, a sequência de abertura trata de indicar a essência adulta do enredo, bem como aproveita para esclarecer que desta vez Denzel Washington não interpreta mais um mocinho, o que não quer dizer, porém, que seja possível concluir que seu personagem é um vilão na acepção clássica do termo, afinal a dubiedade de seu comportamento e de seus atos de heroísmo e comiseração são tão relativizadas que nem mesmo o público consegue estabelecer um juízo de valor exato – e por isso inumano – sobre o mesmo.
Aliás, essa humanização dos personagens principal e coadjuvantes, frise-se, é um trunfo tão grande do roteiro que até mesmo certas escorregadas em clichês são facilmente relevadas, até porque ao texto eficiente e a ótima forma de Zemeckis soma-se o imponente trabalho de Washington que captando a intenção existente de não enquadrar o protagonista na simplória definição de certo ou errado não faz esforços para parecer cativante aos olhos do público, preferindo ao contrário apenas manter-se coerente com a personalidade arrogante mas também solidária de um homem que assim como qualquer pessoa possui mais de uma faceta em seu interior.
O elenco de O Voo ainda conta com a participação de nomes consagrados como John Goodman, Melissa Leo e Don Cheadle, contudo é Denzel Washington quem realmente brilha ao entregar a melhor interpretação de um alcoólatra já vista em décadas, o que, convenhamos, não é pouca coisa.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Flight
Direção: Robert Zemeckis
Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis
Roteiro: John Gatins
Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velazquez, Tamara Tunie, Garcelle Beauvais, Rhoda Griffis, Brian Geraghty, Adam Tomei, Michael Beasley, Kwesi Boakye, Bethany Anne Lind, Justin Martin, Adam C. Edwards, Steve Coulter, Ric Reitz, Philip Pavel, Tommy Kane, Boni Yanagisawa, Jackson Walker, Brian F. Durkin, Candace Blanchard, E. Roger Mitchell, Cabrenna H. Burks, Jason Benjamin, Tammy Luthi Retzlaff, Tara Jones, Miles Mussenden, L. Stephanie Ray, Carter Cabassa, Holly Firfer, Kevin Michael Murphy, Joel Rogers, Sharon Blackwood, John Crow, Thomas Elliott, J.T. Seidler, Harley Shellhammer, Dane Davenport, Gregory Marshall Smith, Ted Huckabee, Charlie E. Schmidt, Curtis Gammage, Anthony B. Harris, Todd Maynor, Al G. Sillah, Marie Keefe, Keith Ratchek, Tony D. Sims, Jennifer Olympia Bentley, Miller Carbon, Charles Casey, Jill Jane Clements, Alonzo Cook, Bradford Haynes, Zack Kibria, Camille Murray, Timothy Scott, Tony D. Sims, Jermaine Thomas
Fotografia: Don Burgess                                     Trilha Sonora: Alan Silvestri
Estreia Mundial: 02.11.2012                             Estreia Brasil: 08.02.2013
Duração: 138 min.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis



Colossal e Equivocado

Tal como o western, o musical é um gênero americano por excelência, o que não quer dizer, entretanto, que Hollywood já tenha conseguido engendrar uma fórmula infalível para seu sucesso, isso porque a produção musical comumente se configura ou como um acerto absoluto – vide os casos de West Side Story, My Fair Lady, Singin’ in the Rain e Hair – ou como um inconteste equívoco, categoria essa na qual se enquadra Os Miseráveis (EUA, 2012).
Todavia, para a análise não soar injusta, uma coisa há de ser logo reconhecida: a adaptação dirigida por Tom Hooper é um colosso em quesitos técnicos como fotografia, direção de arte e figurino, o que, por óbvio, gera a seguinte pergunta: quais então são os problemas do longa-metragem? Vejamos:
Considerando que o produto fílmico precisa a todo instante contar com a tolerância do público perante figuras serelepes que, ao invés de falar, cantam e, não raro, dançam, criar um musical para o cinema, cuja linguagem tanto busca funcionar como expressão da realidade, é uma tarefa árdua. Por conta dessa peculiaridade, as narrativas desse gênero precisam ser fluídas e hábeis o bastante para evitar que a experiência do espectador se torne enfadonha, requisito esse certamente não preenchido por Os Miseráveis.
Dito isso, ao longo de suas quase três horas de duração o filme se revela massacrante a quem o assiste, tendo em vista que seu roteiro fraqueja justamente no processo de articulação da trama e de distribuição da relevância entre os personagens. Assim, quem mais sofre desvantagem, nesse sentido, é o protagonista Jean Valjean que praticamente deixa de ser o polo central ao redor do qual gravitam os demais seres criados por Victor Hugo – tal como visto na outra e ótima versão cinematográfica homônima capitaneada, em 1995, por Claude Lelouch e estrelada por Jean-Paul Belmondo – daí que, não a toa, é possível perceber que o filme clama por mais tempo de tela para um surpreendente Hugh Jackman e, sobretudo, para a excelente Anne Hathaway, afinal, são eles os responsáveis pelos escassos momentos interessantes do longa-metragem, na medida em que driblam o excesso e, desse modo, avançam para muito além da superfície em seus papeis, êxito esse não repetido, por exemplo, pelos casais Eddie Redmayne e Amanda Seyfried – que colaboram para elevar a enésima potência a pieguice presente em muitos momentos da produção – e Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter – a quem são relegadas as partes mais constrangedoras da obra.
Um colosso técnico pontuado pelos arrebatadores desempenhos de Hugh Jackman e Anne Hathaway, mas que também se mostra piegas, constrangedor e enfadonho. Assim é Os Miseráveis, um título que não teme o excesso e que, por isso, tanto divide as opiniões a seu respeito.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Les Miserables
Direção: Tom Hooper
Produção: Eric Fellner, Debra Hayward, Cameron Mackintosh
Roteiro: William Nicholson, baseado na obra de Victor Hugo
Elenco: Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Hugh Jackman, Russell Crowe, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Aaron Tveit, Colm Wilkinson, Ella Hunt, George Blagden, Daniel Huttlestone, Bertie Carvel, Isabelle Allen, Frances Ruffelle, Alistair Brammer, Evie Wray, Kerry Ellis, Tim Downie, Killian Donnelly, Alexander Brooks, Fra Fee, Sophie Ellis, Jean-Marc Chautems, Jonny Purchase, Lily Laight, Linzi Hateley, Scott Stevenson, Nathanjohn Carter, Dick Ward, Nancy Sullivan, Gabriel Vick, Catherine Woolston, Jaygann Ayeh, Paul Leonard, Gino Picciano, Olivia Rose Aaron, Jackie Marks, Julia Worsley, AlisonTennant, Josh Wichard, Sara Pelosi, Henry Monk, Adebayo Bolaji, Sammy Harris, Adam Nowell, Rosa O'Reilly, Stevee Davies, Robyn North, James Charlton, Alice Fearn, Kelly-Anne Gower, Iwan Lewis, Jos Slovick, Richard Dalton, Matt Harrop, Mary Cormack, Gary Bland, Adam Pearce
Fotografia: Danny Cohen               Trilha Sonora: Claude-Michel Schönberg
Estreia no Brasil: 01.02. 2013        Estreia Mundial: 07.12.2012
Duração: 157 min.