EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 26 de janeiro de 2013

Django Livre



Um Bom Problema

Django Livre (EUA, 2012) possui todos os elementos que caracterizam o cinema de Quentin Tarantino e que fazem a alegria de seus fãs, quais sejam: as referências/homenagens a obras cinematográficas de outrora, a violência estilizada, o senso de humor ácido – ainda que camuflado de nonsense¹ –, a participação sempre curiosa do diretor no elenco e a trilha musical ousada e precisa².
Saltam aos olhos também, como de costume, o dom do artista na direção de seus atores. A seu dispor, nomes como Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Don Johnson e, claro, Christopher Waltz alcançam tons superlativos de interpretação nem sempre repetidos com outros diretores, o que muito provavelmente se deve a originalidade da escrita tarantinesca.
 Ante tantas qualidades, o que impede, então, que o faroeste em comento receba uma cotação máxima? O excesso. Ao contrário da regularidade com que, por exemplo, Woody Allen produz seus títulos, Tarantino consome mais tempo para criar, o que acaba tornando seus lançamentos verdadeiros eventos nos quais os filmes são frequentemente marcados por uma longa duração e por um acúmulo gigante de boas ideias.
Ocorre que se o projeto Kill Bill (EUA, 2003/2004) deixou a sensação de que seus dois volumes poderiam ter sido condensados num único - tendo em vista que sua primeira parte detinha mais forma que conteúdo - Django Livre não revela sequer uma ideia irrelevante. O problema, porém, é que tanta originalidade acaba por comprometer o filme em seu ritmo e torná-lo um tanto demorado. Por isso, será que, enfim, essa seria a hipótese correta de uma divisão da obra em duas partes? Independentemente da resposta, são raros os cineastas que um dia padeceram do excesso de talento, o que, convenhamos, não deixa de ser um bom problema.
___________________________
1.Tarantino tem abordado temas cada vez mais sérios como o anterior genocídio de judeus em Bastardos Inglórios e agora a escravidão, mas o faz de uma forma ímpar na medida em que sua visão ferina não se torna enfadonha porque permeada de tiradas cômicas altamente reflexivas. Dito isso, como não explodir em gargalhada diante da sequência da atabalhoada reunião de integrantes da Klu Klux Klan e, ao mesmo tempo, não pensar na pequenez e arrogância da causa discriminatória?
2.“James Brown e 2Pac cantando juntos na trilha de um filme que se passa nos Estados Unidos pré-abolição da escravatura. Você não vai ter tempo de considerar as muitas implicações temporais e metafóricas da trilha sonora de Django Livre, porque essa, como todas as outras trilhas dos filmes de Tarantino, empolga além de qualquer consideração racional. Com uma seleção de funk, soul e hip hop, clássicos e contemporâneos, e o melhor das trilhas incidentais dos westerns de Leone e Corbucci, a trilha de Django Livre é a mixtape mais original já feita por Tarantino” (FONTE: Revista VIP. Ed. 334. Ano 32. N° 01. São Paulo: Abril, Janeiro de 2013. p.31).

Ficha Técnica

Título Original: Django Unchained

Direção e Roteiro: Quentin Tarantino

Produção: Reginald Hudlin, Pilar Savone, Stacey Sher, Harvey Weinstein

Elenco: Leonardo DiCaprio,  Samuel L. Jackson, Christoph Waltz, Jamie Foxx, Kerry Washington, Walton Goggins, James Remar, Don Johnson, Anthony LaPaglia, Tom Savini, James Russo, Gerald McRaney, M.C. Gainey, Laura Cayouette, Gary Grubbs, Dennis Christopher, Rex Linn, Tom Wopat, Lewis Smith, Evan Parke, Sharon Pierre-Louis, Nichole Galicia, Cooper Huckabee, Misty Upham, Todd Allen, Catherine Lambert, David Steen, Shannon Hazlett, Johnny Otto, LaTeace Towns-Cuellar, Danièle Watts, Miriam F. Glover, Kinetic, Justin Hall, Jake Garber, Christopher Berry, Johnny McPhail, Mustafa Harris, Dana Michelle Gourrier, Michael McGinty , Jonah Hill

Fotografia: Robert Richardson             Trilha Sonora: Mary Ramos

Estreia Mundial: 25.12.2012                Estreia Brasil: 18.01.2013
Duração: 165 min.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi



A Aura em Tempos de Virtualidade

Ao analisar As Aventuras de Pi (EUA, 2012) Isabela Boscov ressalta que o filme de Ang Lee funde “ação real e computação gráfica com virtuosismo ímpar” na medida em que um de seus protagonistas é “um tigre feito em computador, mas insanamente felino em todos os pormenores e até na ‘aura’, por assim dizer”¹.
Essa descrição traz à lembrança a teoria de Walter Benjamin sobre a obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, visto que, para o teórico, a tecnologia capaz de reproduzir cópias de um trabalho artístico teria o condão de macular a aura existente no produto de origem² – não obstante a inquestionável popularização e democratização obtida pela arte a partir de tais técnicas.
Dito isso, As Aventuras de Pi indica novos rumos para a relação 'tecnologia x aura' apontada por Benjamin, ao passo em que lança mão da virtualidade para construir um ser na prática inexistente, mas dotado de tamanhos instintos e comportamentos típicos de sua espécie que inevitável é vê-lo como algo real - essa falsa sensação de realidade, aliás, se deve justamente a percepção de que aquele animal possui sim uma aura que o leva, de modo tão obstinado quanto seu parceiro de naufrágio Pi, a lutar pela sobrevivência.
Assim, se no passado os avanços tecnológicos foram vistos como responsáveis por limar a aura da arte, agora podem ser encarados contrariamente eis que hábeis a, de modo inverso, criar a mesma. É claro que essa não é a primeira tentativa nesse sentido³, todavia, em se tratando de uma abordagem poética mais abraçada com a noção de aura tal como delineada por Benjamin, As Aventuras de Pi, na figura do tigre Richard Parker, fora a obra que até agora obteve os resultados mais significativos.
Ressalte-se, ainda, que o longa-metragem ainda faz uma rápida abordagem sobre os muitos caminhos da fé e da religião percorridos por Pi⁴, embora para Ang Lee esse viés sirva apenas de introdução a personalidade de um garoto que, graças ao cultivo de uma imensa espiritualidade, consegue permanecer buscando um sentido para tudo, ainda que não raro deixe de vê-lo, o que, conforme a precisa ótica de I. Boscov revela por parte da produção uma “tentativa de entender o ser, e mais ainda de compreender porque o homem quer sempre continuar sendo, mesmo perante os mais duros testes, em face das mais tristes perdas e entre as mais eternas desesperanças”⁵.
Por fim, se o nome Pi, além da constante 3,14, também pode ser compreendido como a relação entre todos os segredos do universo, o nome Richard Parker, por seu turno, traz em si a carga de tragédia e de tristeza aos poucos contornada pelo passar do tempo e pela vontade de seguir adiante. Aurático isso, não?
__________________
1.   Revista Veja. Ed. 2299. Ano 45. N° 50. São Paulo: Abril, 12.12. 2012. p.201.
2. Segundo W. Benjamin: “O aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade (...). A esfera da autenticidade, como um todo, escapa à reprodutibilidade técnica (...) a reprodução substitui a existência única da obra por uma existência serial” (FONTE: ‘A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica’ in Magia e Técnica, Arte e Política. p. 167-8).
3.   O urso Ted da comédia homônima de 2012 também pode ser inserido nesse contexto.
4.  Aspecto esse que, vale dizer, aproxima o livro original de Yann Martel de outra obra literária, qual seja A Viagem de Théo de Catherine Clément.
5.   Op. Cit.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Life of Pi

Diretor: Ang Lee

Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark

Roteiro: David Magee, baseado na novela Yann Martel

Elenco: Tobey Maguire, Irrfan Khan, Gérard Depardieu, Suraj Sharma, Adil Hussain, Ayush Tandon

Fotografia: Claudio Miranda                 Trilha Sonora: Mychael Danna

Estreia no Brasil: 21.12.2012                Estreia Mundial: 28.09.2012

Duração: 129 min.
Curiosidade: O ateliê de efeitos digitais Rhythm & Hues teve então de criar um felino de verossimilhança infalível. A equipe modelou seu animal digital como se fosse um experimento biológico: construiu-o a partir do esqueleto, ‘estendeu’ os músculos sobre os ossos seguindo a anatomia real dos tigres, prendeu a pele aos músculos e por fim despendeu milhares de horas/máquina tornando a pelagem realista” (Revista Veja. Ed. 2299. Ano 45. N° 50. São Paulo: Abril, 12.12. 2012. p.201).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

À Beira do Abismo



Genesis

Nem Sam Worthington nem Elizabeth Banks nem Ed Harris; a verdadeira estrela de À Beira do Abismo (EUA, 2012) atende pelo nome de Genesis Rodriguez. Esbanjando beleza e simpatia a atriz nascida em Miami é quem agrega algum frescor a uma produção que se contenta em requentar trechos de histórias já vistas antes¹.
Esperto, o diretor Asger Leth percebe o trunfo que possui e trata de colocar a moça em trajes sumários. Genesis, por sua vez, ao mesmo tempo em que não se acanha perante tal exposição - porque sabedora de sua sensualidade - não utiliza o atributo físico como muleta, haja vista a desenvoltura com que percorre as vias do humor e da aventura.
No papel de uma garota descolada em práticas um tanto ilícitas, a atriz rouba para si todas as cenas das quais participa, o que acaba fazendo com que a atenção do espectador se volte exclusivamente para ela em detrimento, assim, dos demais elementos do longa-metragem. Tal resultado, por óbvio, soa magnífico para Genesis, porém, pouco satisfatório para o trabalho de Leth em seu conjunto – o que, honestamente, pouco importa para quem, capturado pelo carisma da artista, ficar ao término da sessão pensando apenas em assistir os demais filmes que a tenham no elenco².
___________________________
1.   É graças a Genesis Rodriguez, aliás, que até mesmo uma sequência tão clichê como a da dúvida sobre qual fio cortar para desarmar um alarme (que aqui substitui a tradicional bomba relógio) se torna palatável.
2.    A atriz contracena com Rodrigo Santoro e Arnold Schwarzenegger no recém-lançado The Last Stand.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Man on a Ledge
Direção: Asger Leth
Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian
Roteiro: Pablo F. Fenjves
Elenco: Elizabeth Banks, Sam Worthington, Jamie Bell, Ed Harris, Edward Burns, Anthony Mackie, Kyra Sedgwick, Genesis Rodriguez, William Sadler, Jonah Falcon, Joe Urban, Liz Holtan, Afton Williamson, Pooja Kumar, Brett G. Smith, Jimmy Palumbo, Alex Ziwak, Geoffrey Cantor, Jeff Grossman, J. Bernard Calloway, Erryn Arkin, Naeem Uzimann, John Cenatiempo, Johnathan Hallgrey, Aprella, Frank Pando, Johnny Solo, James Yaegashi, Jabari Gray
Fotografia: Paul Cameron            Trilha Sonora: Henry Jackman
Estreia Mundial: 13.01. 2012      Estreia Brasil: 3.02. 2012
Duração: 109 min.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Cinema Verité



É Tudo Verdade?

Em 1971 um programa de televisão se propôs a acompanhar, in loco, o cotidiano dos Loud, uma típica família norte-americana de classe média alta. Nascia assim o primeiro reality show e suas consequentes discussões sobre invasão de privacidade.
Uma vez pioneira dentro desse segmento, a produção ainda padecia da falta de fronteiras bem delimitadas. Enquanto para o produtor Craig Gilbert aquela não passava de uma oportunidade inovadora de angariar as benesses advindas da alta audiência – cujo ponto de vista era devidamente manipulado seja pelos cortes da edição, seja pela própria intervenção daquele profissional que, desprezando qualquer toada documental que pudesse ser atribuída ao projeto, preferia funcionar como uma espécie de instância narrativa concentrada em ditar os rumos a serem tomados pela “história”¹ – para a equipe de filmagem prevalecia, por outro lado, o desejo de se assemelhar ao tão falado cinema verdade sobre o qual europeus como Jean Rouch se debruçavam².
Neste último aspecto, a ausência de uma tecnologia capaz de preencher a residência da família com câmeras automáticas, tornava imprescindível a presença física dos cinegrafistas ao lado dos seres retratados, o que, além de firmar laços de afeto e responsabilidade entre as partes, fazia cair por terra qualquer imparcialidade pretendida.
Cinema Verité (EUA, 2011), dentro deste contexto, alcança todas essas notas ao fazer da ambiguidade dos personagens um espelho da própria ambiguidade do programa. Para tanto, de grande colaboração se mostram as performances de Diane Lane e Tim Robbins que juntos vivificam uma felicidade de fachada prestes a ruir. James Gandolfini, por seu turno, se junta a dupla para tornar ainda mais dúbias as relações humanas e profissionais abordadas³. A partir do momento em que cada um desses três revela suas reais essências, o reality show também assim se mostra, num processo até compreensível em se tratando de um intermitente sistema, emocional, de vigilância.
Taí um filme que George Orwell talvez gostasse de assistir...
___________________________
1.     Vale dizer que a estratégia do produtor Craig Gilbert para vender o produto à recém-nascida TV pública norte americana já indicavam as futuras e até hoje comuns inquietações sobre o caráter oportunista e/ou antropológico de produções desse tipo na medida em que o discurso daquele firmava o programa como uma “experiência em antropologia cultural”, “semelhante às que a antropóloga Margareth Mead realizara em Samoa e na Nova Guiné nos anos 1920 e 30”. Neste diapasão, “em vez de buscar o ‘exotismo’ de culturas distantes”, Gilbert propunha “observar de perto a sociedade americana, na época sacudida de alto a baixo por rupturas sociais, comportamentais, sexuais, culturais” (FONTE: BAHIANA, Ana Maria. Cinema Verité: o estranho legado do primeiro reality show da TV. Disponível no sítio http://anamariabahiana.blogosfera.uol.com.br/2011/04/27/cinema-verite-o-primeiro-reality-show-e-seu-estranho-legado/. Acesso em 12.01.13).
2.     Cinema direto é uma designação que se confunde com cinema-verdade, teorizado por Dziga Vertov (Kino-Pravda) e batizado por Jean Rouch como cinéma vérité.
O conceito surge no final dos anos cinquenta e refere-se, na teoria e prática, a um gênero de documentário que se empenha em captar, sem fins didáticos ou de ilustração histórica, a realidade tal e qual ela é, isto é, que procura "reproduzir" aquilo que na realidade acontece. É um cinema do real que, admitindo um certo grau de subjetividade enquanto forma de expressão, a procura ultrapassar pelo uso de técnicas que garantem a fiabilidade ao objeto ou evento reproduzidos pela câmara, instrumento tão rigoroso como, por exemplo, a fita métrica, usada para medir o tamanho de um determinado objeto. Assume-se, nas suas aplicações, como ferramenta científica ao serviço da verdade. Filmando o Homem, a máquina será um meio privilegiado ao serviço da antropologia (ou da etnografia, enquanto filme etnográfico), quer como instrumento de registro e de pesquisa (research footage) quer como objeto de estudo naquilo que produz (record fotage), na ficção ou no documentário (FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinema_directo. Acesso em 12.01.13).
3.     É certo que a narrativa acaba se concentrando em demasiado nesses três seres, deixando, por conseguinte, de explorar mais a fundo outros interessantes papeis como os dos já citados cinegrafistas, além, é claro, do filho homossexual que perante as câmeras e holofotes instiga questionamentos sobre até que ponto seu comportamento é fruto de uma teatralidade deliberada ou natural. Essa opção de centrar a trama sobre um número reduzido de personagens não deixa de ser uma escolha válida em termos de narratologia, porém, inevitavelmente angaria ao telefilme certo ar de incompletude.

Ficha Técnica
Direção: Shari Springer Berman, Robert Pulcini
Roteiro: David Seltzer                          Produção: Karyn McCarthy
Elenco: Dendrie Taylor (Sally)Diane Lane (Pat Loud)Emilio Rivera (Watchman)Jake Richardson (Tommy Goodwin)James GandolfiniJames Urbaniak (Dick Cavett)Kaitlyn Dever (Michelle Loud)Kathleen Quinlan (Michelle Loud)Lolita Davidovich (Val)Nick Eversman (Grant Loud)Patrick Fugit (Alan Raymond)Robert Curtis Brown (Anthropologist)Sean O'Bryan (Johnny Hall)Shanna Collins (Susan Raymond)Stephen Caffrey (Tom)Thomas Dekker (Lance Loud)Tim Robbins (Bill Loud)
Fotografia: Affonso Beato                    Trilha sonora: Rolfe Kent
Duração: 91 min.