EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 29 de dezembro de 2012

Melhores Filmes de 2012


          2012 começou com todo gás para os cinéfilos de Belém. Após um primeiro semestre marcado por grandes filmes, a segunda metade do ano demonstrou uma certa desacelerada e, já próximo a seu fim, retomou o fôlego revelando gratas surpresas aos amantes da sétima arte. Desta feita, vejamos então o que de melhor foi exibido ao longo desses meses no circuito comercial/alternativo da cidade das mangueiras. Ah, a lista desse ano tem como novidade a eleição dos melhores trabalhos a partir de categorias técnicas específicas. Aproveite a leitura, discorde ou aprove quanto aos votos dados e, sobretudo, confira sem falta a todas essas ótimas manifestações artísticas. Até 2013!

1.   L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância
Bruto e também elegante; cru e ao mesmo tempo poético; deprimente, mas romântico; sensual, porém, bizarro. Para quem ainda não viu, eis, enfim, um filme imperdível.

2.   Shame
Shame é uma das mais belas, tristes e, por conseguinte, sinceras obras dos últimos anos. Nossos agradecimentos a Steve McQueen, Michael Fassbender e Carrey Mulligan que juntos criaram um filme milimetricamente pensado e bem feito.

3.   A Separação
Merecidamente laureado com Oscar de melhor filme estrangeiro, A Separação é um fabuloso retrato de pessoas. Tratando de relações humanas/familiares o longa-metragem indica que não somos necessariamente cercados por heróis ou vilões mas sim por seres falíveis que não raro tropeçam perante as boas intenções e padecem face as conseqüências.

4.   A Invenção de Hugo Cabret
Martin Scorcese presta sua maior homenagem ao cinema em forma de filme para a família. Ao relembrar o talento e importância de George Méliès para a sétima arte, A Invenção de Hugo Cabret se revela obrigatório a qualquer cinéfilo.

5.   Drive
O Taxi Driver do novo milênio, Drive é um trabalho vintage, também conectado as diretrizes (a)morais de hoje.

6.   Febre do Rato
A crítica ficou dividida quanto a este último trabalho de Cláudio Assis. Bobagem, Febre do Rato é o melhor e mais ousado filme brasileiro do ano. A falsa aparência hermética, neste sentido, revela, na verdade um longa-metragem que fala diretamente ao público sem abrir mão da poesia.

7.   O Impossível
Duas forças da natureza em duelo: Naomi Watts e o tsunami que devastou o litoral da Tailândia. O filme: O Impossível; aquele que “transforma o cinema catástrofe em uma obra de arte”.

8.   Tomboy
Tomboy impressiona pelo destemor com que assume riscos. Ao abordar a espinhosa questão da identidade sexual e troca de gênero ainda na infância, o filme não deixa margem a qualquer polêmica vazia, graças a naturalidade e sensibilidade com que trata o assunto.

9.   Um Conto Chinês
Um Conto Chinês se vale de um roteiro extremamente hábil na articulação de detalhes. Assim, absolutamente nada na história se mostra aleatório, característica que, aliás, autoriza um eficiente flerte da trama com o absurdo.

10.         Os Descendentes
George Clooney dá um show em drama cujo formato pode até não primar pelo ineditismo, mas que comove graças a honestidade com que deflagra as emoções pretendidas.

12. Pina
13. Transeunte
15. Cosmópolis
16. Deus da Carnificina
17. Xingu
18. Argo
20. Fausto

Melhor Documentário: Pina
Melhor Direção: Martin Scorcese (A Invenção de Hugo Cabret)
Melhor Ator: Michael Fassbender (Shame)
Melhor Ator Coadjuvante: Omar Sy (Intocáveis)
Melhor Atriz: Naomi Watts (O Impossível)
Melhor Atriz Coadjuvante: Carey Mullingan (Shame)
Melhores Efeitos Especiais: As Aventuras de Pi
Melhor Fotografia: L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância
Melhor Trilha Sonora: L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância
Melhor Montagem: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Direção de Arte: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Figurino: L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância
Roteiro Original: A Separação
Roteiro Adaptado: Fausto

O Impossível



Ainda Há Esperança

Acachapante: eis o adjetivo que melhor define O Impossível (EUA/Espanha, 2012). Se Clint Eastwood já havia em Além da Vida (EUA, 2010) dado uma amostra do que seria em termos visuais a magnitude trágica representada por um tsunami, o espanhol Juan Antonio Bayona concentra todas as suas forças em tal fenômeno da natureza, potencializando ao enésimo grau os reflexos emocionais deste por meio da improvável, entretanto real, história de uma família separada pelas ondas gigantes.
Neste sentido, Bayona sabe que o enredo por ele descoberto em meio aos relatos de sobreviventes da tragédia é absurdamente incrível, daí porque não perde tempo tentando acrescentar à trama qualquer eventual e desnecessário toque pessoal. Em razão da enorme dramaticidade apresentada pela história desde a fase de coleta de depoimentos¹, o cineasta interfere o mínimo possível neste diapasão, deixando, assim, a cargo de seu elenco – no que se destaca Naomi Watts, uma outra força da natureza, pode-se dizer – as emoções geradas a partir do medo e do desespero envoltos na perspectiva que os personagens possuem de jamais rever os familiares perdidos após a chegada do tsunami. Uma vez conectada aos padrões hollywoodianos de roteiro desde sua raiz, a história, por conseguinte, dispensa qualquer intervenção de cunho filosófico e/ou religioso por parte da instância narrativa para a qual, por seu turno, sobre apenas a preocupação de tratar da esperança e da força de vontade movidas a partir do amor ao próximo - sim, o egoísmo por vezes dá as caras, porém, é a generosidade para com o semelhante, mesmo em meio a um cenário tão caótico, que acaba fazendo do homem um ser ainda digno de confiança.
Em sendo um filme sobre perdas – da inocência, sobretudo – mas também sobre reencontros, O Impossível logra o enorme êxito de falar aos sentimentos sem, contudo, parecer piegas. Bayona, vale dizer, emula o binômio ‘tensão-emoção’ que Steven Spielberg tão bem dominou em início de carreira, na medida em que arranca lágrimas sem, para tanto, recorrer a firulas estéticas manipuladoras. Sóbrio, mas, ao mesmo tempo arrebatador em seus elementos melodramáticos, o trabalho de Bayona explode aos olhos e ouvidos nas sequências de tensão seja pela forma como, por exemplo, maneja a montagem paralela, pelo modo como utiliza a banda sonora para fritar os nervos da plateia ante os ruídos de pernas fraturadas e peles rasgadas, seja, por fim, para fazer o espectador provar da dor não só interior como também exterior, física daqueles que foram vitimados pelo desastre natural supracitado. Dessa maneira, somos arremessados para o epicentro do tumulto com eficiência tal que passamos a compreender, praticamente com experiência de causa, o que é fazer parte de um evento catastrófico desse porte. Em curtas e alheias palavras, o longa-metragem “transforma o cinema catástrofe em uma obra de arte”².
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1.“Bayona saiu a campo paera recolher informações das pessoas que viveram aquele trauma e, entre a centena de histórias que ouviu, encontrou o caso extraordinário de um casal de espanhóis e seus três filho – no filmes, eles são ingleses” (ITIBERÊ, Suzana Uchôa in Revista Preview. Ano 3. ed. 39. São Paulo: Sampa, Dezembro de 2012. p.64).
2.Op. Cit. p. 64.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Juan Antonio Bayona
Produção: Belén Atienza, Álvaro Augustín, Enrique López Lavigne , Ghislain Barrois
Roteiro: Sergio G. Sánchez
Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Russell Geoffrey Banks, Marta Etura, Geraldine Chaplin, Sönke Nöhring, Dominic Power, Olivia Jackson, Oaklee Pendegast, Bruce Blain, Teo Quintavalle, Nicola Harrison, Samuel Joslin, Gitte Witt, Byron Gibson, Oak Keerati, Laura Power, Natalie Lorence, Ploy Jindachote, Johan Sundberg, Cecilia Arnold, Henry Reed, Georgina L. Baert, Jan Roland Sundberg, Vanesa de la Haza, Christopher Alan Byrd, George Baker, Oli Pascoe, Lancelot Kwok, David Firestar, Marco Naddei, Desmond O'Neill
Fotografia: Óscar Faura                       Trilha Sonora: Fernando Velázquez
Estreia no Brasil: 21.122012                Estreia Mundial: 11.10.2012
Duração: 107 min.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Todo Poderoso: O Filme – 100 Anos de Timão



Vai Corinthians!

Aviso aos navegantes: Todo Poderoso: O Filme – 100 Anos de Timão (Brasil, 2010) é uma produção dedicada a torcedores corintianos; ato contínuo, os comentários traçados adiante serão frutos da visão apaixonada de um membro deste felizardo grupo, o que justifica a passionalidade presente tanto na análise quanto em seu objeto.
Com o objetivo de abranger a história do time de Parque São Jorge ao longo de seu primeiro centenário, o documentário se mostra melhor, porque mais completo, que o anterior Fiel (Brasil, 2009), cujo recorte, apesar de consideravelmente menor – o filme se debruçava apenas sobre o amor e fidelidade da torcida ante o período mais drástico experimentado pelo Corinthians: o rebaixamento para a segunda divisão – não significou um resultado além do mediano.
Dito isso, Todo Poderoso demonstra ótima capacidade de síntese na medida em que condensa os muitos feitos e conquistas obtidas pelo Timão durante esses cem anos sem que o olhar resulte superficial. A bem da verdade, para momentos gloriosos como o título de 1977, a invasão do Maracanã pela torcida na partida contra o Fluminense e os primeiros títulos dos campeonatos brasileiro e mundial da Fifa são empregadas doses consideráveis de tempo, ao passo que para o fundo do poço – leia-se queda para a série B – é reservado apenas uma vista d’olhos que denota o quão amarga é a lembrança.
No que tange os entrevistados, chama a atenção a sinceridade de ex-atletas não vinculados ao clube, como Raí e Ademir da Guia, ao reconhecerem, ainda que meio a contragosto, a importância do clube para o futebol brasileiro. Quanto aos notórios corintianos, a obviedade é driblada na medida em que os depoimentos de personalidades como Andrés Sánchez e o eterno craque Neto não preponderam em termos de duração sobre as falas de torcedores, jornalistas – destaque aqui para as exageradas e, por isso, hilárias ponderações de Juca Kfouri – e demais pessoas ligadas ao Timão.
É certo que no início a insistência dos diretores para com encenações de ‘causos’ do passado se mostra boba e desnecessária, tendo em vista que nenhuma reconstituição é mais perfeita ou mais saborosa do que as cenas perfiladas nas mentes de cada um de nós a partir dos papos de boleiros escutados. Ademais, o filme apresenta um primoroso resgate de imagens históricas que reforça a natureza gratuita e avulsa das supracitadas recriações.
De qualquer forma, esse é um deslize de pouca significância ante o prazer maior que o longa-metragem proporciona. Aliás, apenas uma coisa supera o orgulho que Todo Poderoso causa a seus fieis súditos, qual seja a alegria de perceber que num curto intervalo de dois anos, a produção se tornou deveras desatualizada; afinal, a verdadeira comemoração do centenário se deu dois anos depois quando, em 2012, o Coringão levou para casa, de maneira invicta, a tão desejada taça da Libertadores da América, sagrando-se meses depois bicampeão do mundo em partida disputada no Japão contra o aguerrido Chelsea.

Ficha Técnica
Direção: Ricardo Aidar e André Garolii
Roteiro: Ricardo Aidar e Celso Unzelte
Estreia no Brasil: 30.07.2010
Duração: 100 min.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Janela Indiscreta



Influência Eterna

Ao discorrer sobre Janela Indiscreta (EUA, 1954) Joshua Klein descreve o título como um “estudo fascinante sobre a obsessão e o voyeurisno, Janela Indiscreta combina um elenco perfeito, um roteiro perfeito e principalmente um cenário perfeito para um filme - que é ainda melhor do que a soma de suas partes”¹. Ante o exposto, vale a pena dissecar o pensamento citado para entender o porquê de tanto elogios.

  1. Fascinante estudo sobre a obsessão e o voyeurismo:

Inicialmente cabe dizer que o sentimento de culpa atravessa todo o longa-metragem seja no que diz respeito ao comportamento voyeur do fotógrafo Jeffries, interpretado por James Stewart – que, – seja quanto a forma obsessiva com que se empenha a convencer os outros de que um morador do prédio em frente ao seu assassinara a esposa. Neste diapasão, o protagonista é, não raro, julgado por espiar os outros bem como criticado por tecer teorias incriminadoras que não possuem qualquer respaldo probatório. Assim, tem-se um personagem que parte de uma lógica não cartesiana e que uma vez não tendo testado nem demonstrado indícios favoráveis a sua linha de raciocínio, acaba limitado a frágeis suposições sobre a autoria de um suposto crime², restrição essa que, entretanto, não o impede de convencer outras pessoas a praticar atos como invasão de domicilio e usurpação de poder de polícia em favor da comprovação de sua tese³ - aspecto esse em que o diretor Alfred Hitchcock, graças ao jogo de campo e contracampo arquitetado, torna o espectador não só cúmplice como também participante dos atos de intromissão do protagonista na vida dos vizinhos.

  1. Elenco perfeito:

Mesmo em meio a uma quase total imobilidade de seu personagem, James Stewart consegue transitar facilmente por sentimentos como tédio, culpa, aflição, alívio e medo, além de injetar nos diálogos a ironia tão comum ao humor inglês de Hitchcock. Stewart, aliás, faz uma ótima parceria com Thelma Ritter que ao seu lado funciona como uma espécie de voz da consciência pronta para também reforçar o tom cômico da obra. Grace Kelly, por seu turno, injeta sensualidade em uma atuação elegante e ao mesmo tempo despojada que combina perfeitamente os elementos exigidos por seu papel.

  1. Um roteiro perfeito e principalmente um cenário perfeito:

Quanto ao roteiro, cabe destacar sua excelência primeiramente pela forma como adaptara o conto original de Cornell Woolrich, acrescentando muitos personagens antes inexistentes, como alguns dos vizinhos vistos pelos olhos de Stewart, além da própria socialite vivida por Grace Kelly. A junção dessas inovações, vale dizer, potencializou o trabalho na medida em que lhe garantiu uma muito bem dosada e sincronizada mistura de gêneros como drama, suspense, policial e comédia, sem que o foco jamais fosse ofuscado por historietas coadjuvantes pertencentes ao ecossistema encenado.
Não fosse o bastante, o script denota um sem número de soluções visuais que dispensam diálogos face o universo diegético da rotina de um homem que muitas vezes sozinho não tem com quem compartilhar de imediato aquilo que vê seus vizinhos fazendo. A intervenção externa aos eventos ocorridos nos apartamentos dos vizinhos do protagonista é, neste passo, quase nula. Não há aqui montagem paralela para demarcar fatos acontecidos em locais muito distantes, eis que a diegese se limita ao espaço do mega cenário montado, o que explica a absoluta prevalência dos já mencionados plano e contraplano no trabalho de decupagem.
Dentro deste contexto, no que concerne a construção da trilha sonora, Peter Bogdanovich chama a atenção para o fato de que o filme, uma vez intencionalmente voltado a ser uma representação da realidade, como manda a tradição do cinema clássico, é curiosamente desprovido de música em sua quase totalidade. Conforme sua ótica: “A única música era a que alguém tocava do outro lado. Alguém ouvia um disco ou tocava piano. Fora isso, não havia música, o que na época constituía uma trilha sonora incomum e ousada. Dá uma espécie de verossimilhança, a noção de que ninguém interfere, de que isto é real. E Hitchcock estava ciente disso”⁴.
Ainda quanto ao aspecto da concepção visual determinada a partir do roteiro, cabe frisar que Janela Indiscreta estabelece um nítido paralelo entre cinema e teatro ao passo em que, por exemplo, firma uma geometria cenográfica calcada no vértice imaginário do olhar, eis que o espectador, tal qual como se estivesse num teatro, assiste por meio dos olhos e da lente fotográfica do personagem principal uma espécie de peça cujo palco (apartamentos do prédio em frente ao de Jeffries) é separado da plateia por um fosso tipicamente teatral representado pelo pátio que separa os dois prédios. Tal compreensão fílmica, saliente-se, tem como origem o raciocínio de Ismail Xavier para quem: “Filme de estúdio, Janela Indiscreta é ostensivo na estrutura teatral da cenografia que, ao longo do filme, não se altera, como quando assistimos a uma peça com unidade de lugar⁵.
Em sentido parecido, Robin Wood, autor de Hitchcock’s Film Revisited, observa que: “Jeffries e outras personagens usam os apartamentos opostos como uma espécie de tela de cinema. Fazem o que eu acho que a maioria faz quando vê cinema. Identificam-se em parte com outros, comparam em parte as suas vidas de várias com as vidas de outros, usam essas vidas para falar das suas próprias vidas de várias formas”⁶.
Como muito já fora adiantado sobre a importância do cenário em Rear Window, a abordagem, por fim, merece ser complementada pelas palavras, novamente, de Joshua Klein que assim conclui: “Janela Indiscreta é construído de forma tão minuciosa quanto seu complexo cenário. Assisti-lo é como observar um ecossistema vivo, pulsante”⁷.

  1. Um filme que é ainda melhor do que a soma de suas partes:

Alçado a condição de personagem, o cenário desta obra-prima fora fruto de um complexo trabalho de engenharia cuja autorização para construção só fora dada pelo estúdio porque quem capitaneava o projeto era ninguém menos que Alfred Hitchcock, o exímio contador de histórias, responsável ao término da pós-produção por juntar com inquestionável homogeneidade todas as partes citadas e, por conseguinte, tornar o resultado final mais grandioso que qualquer um dos importantes elementos técnico-narrativos analisados ao longo do texto.
Por isso tudo, Janela Indiscreta permanece tecnicamente impecável e invejavelmente eficiente em termos de narratologia. Não à toa, qualquer filme que se propõe a explorar o tema do voyeurismo – como Peeping Tom, de Michael Powell, e Não Amarás, de Krzysztof Kieslowski – acaba revelando em sua essência ecos da realização de Hitchock, influência, aliás que deverá continuar para sempre ocorrendo...
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1.Edward Buscombe in 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2008. p. 294.
2.Dentro deste contexto, sugere-se a leitura de CABRERA, Júlio. Descartes e os fotógrafos indiscretos (A dúvida e o problema do conhecimento) in O cinema pensa: uma introdução a filosofia através dos filmes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. cap. 5,  p. 140-158.
3.Tamanha conduta culposa, frise-se, é espiada no clímax através da “descoberta“ do assassino que, na concepção de Ismail Xavier, exerce um papel de bode expiatório na medida em que comete um sacrifício que adiante trará melhorias para a vida de toda uma comunidade, no que se incluem o protagonista e os vizinhos que individualmente ganham seus respectivos finais felizes. Dito isso, recomenda-se a leitura de Cinema e Teatro – A Noção Clássica de Representação e a Teoria do Espetáculo, de Griffith a Hitchcock in XAVIER, Ismail (org). O cinema no século. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 247-266.
4-6. Entrevista extraída do documentário Rear Window Ethics – Remembering and Restoring a Hitchcock Classic.
5.Cinema e Teatro – A Noção Clássica de Representação e a Teoria do Espetáculo, de Griffith a Hitchcock in O cinema no século. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 247-266.
7.Op. Cit. p. 295.

FICHA TÉCNICA
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: James C. Katz
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no conto ‘It Had to be Murder’ de Cornell Woolrich
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Sara Berner, Frank Cady, Jesslyn Fax, Rand Harper, Irene Winston, Havis Davenport
Fotografia: Robert Burks
Trilha Sonora: Franz Waxman
Duração: 112 min.