EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Um Retrato de Woody Allen



Intimidade Nem Tão Desconhecida

Um Retrato de Woody Allen (Reino Unido, 1998) é a prova cabal, para quem ainda ouse duvidar, de que muitos dos personagens criados e, não raro, interpretados pelo cineasta são extensões de sua própria persona. Inseguro, hipocondríaco e detentor de todas as fobias imagináveis, Allen expõe no documentário a paixão pelo jazz e sua atividade enquanto músico, quesito esse em que, há de se convir, o filme deixa a desejar na medida em que pouco explora o conhecimento teórico e prático do artista sobre o assunto. Na verdade, a obra de Barbara Kopple preocupa-se mais em ser um diário de viagem do tour europeu de Woody com sua banda, opção que acaba funcionando tendo em vista que não deixa de ser curioso testemunhar o gênio em seu íntimo, aspecto esse em que se destaca sua controversa relação com a parceira Soon Yi Previn. Juntos, os dois muitas vezes parecem mãe e filho, não obstante a diferença contrária de idades, tamanha a naturalidade com que ela o conduz em meio as manias e esquisitices que frequentemente o tentam a estacionar, bem como lhe atribui broncas dignas da mais zelosa das genitoras.
Merece também registro a inabilidade de Allen em manter um contato próximo com seus colegas de banda. Seu afastamento, vale dizer, o torna parecido a um empregador que, no máximo, consegue dialogar com o gerente de sua empresa – daí, portanto, a surpresa de muitos ao constatarem que Woody lembrara o nome de todos os músicos durante uma apresentação do grupo. Por fim, uma bem vinda divagação vocacional é levantada quando após o último show da turnê, o cineasta declara numa rápida entrevista que a música consiste, para ele, em hobby cujo retorno financeiro não possui importância. Ok, a declaração é válida, embora, no fundo saibamos que, se pudesse, Woody Allen abandonaria sem pestanejar o cinema para se dedicar exclusivamente a seu “passatempo”. Menos mal que seu ganha pão não consiste em ofício tão ordinário quanto o de um farmacêutico, profissão que seus pais tanto desejavam que o filho exercesse ao lado de uma esposa judia – conforme revelado numa hilariante sequência final em que elogios e farpas são trocados entre os três.

Ficha Técnica
Título Original: Wild Man Blues
Direção: Barbara Kopple
Produção: Jean Doumanian, J.E. Baeaucaire
Estreia Brasil: 21.08.1998
Duração: 105 min.

domingo, 18 de novembro de 2012

Magic Mike



Contação de História

Assim como fizera em seu penúltimo filme A Toda Prova (EUA/Irlanda, 2011), Steven Soderbergh realiza um convencional exercício de contação de história em Magic Mike (EUA, 2012), o que, covenhamos, é pouco para um cineasta de sua envergadura que já há tempos vem trabalhando muito e convencendo pouco. Neste passo, seu novo longa-metragem certamente não está blindado contra determinadas críticas, senão vejamos:
É inconteste que na obra em comento o diretor deixa de lado o voyeurismo de Confissões de Uma Garota de Programa (EUA, 2008) em prol de uma toada exibicionista, o que, apesar de agradar as alas feminina e homossexual, acaba por limitar a abordagem a uma prática fetichista que pouco se esforça para, com raras exceções, compreender ou investigar as reais nuances existentes por trás das máscaras e fantasias utilizadas por aqueles que ganham a vida se despindo.
Dentro deste contexto, numa exemplificação contrária aquilo que fora praticado por Soderbergh, Paul Thomas Anderson realizou em Boogie Nights (EUA, 1997) um brilhante retrato tanto de uma época quanto de uma indústria, qual seja a do cinema pornográfico dos anos setenta. Tal resultado, frise-se, fora reflexo da atenção dada a cada um dos inúmeros personagens integrados ao enredo do filme, de forma que todos juntos formavam um interessantíssimo amálgama capaz de ilustrar e explicar o que de fato compunha aquele ramo de trabalho em tal período.
Dito isso, por maior que seja seu empenho, resta, por exemplo, nitidamente desperdiçado em Magic Mike o potencial dramático do papel de Matthew McConaughey, constatação que, aliás, pode ser aplicada a quase todas as demais figuras que o circundam no palco. Quanto a Channing Tatum e Alex Pettyfer, os seres por eles interpretados acabam por disputar a posição de protagonista da trama, na medida em que fundem o passado e o presente da história real de Tatum que, por seu turno, aproveita a oportunidade para entregar o melhor desempenho até então de sua carreira – conclusão que, sejamos justos, ainda não é suficiente para uma consagração tendo em vista que a função de stripper já havia sido profissionalmente executada antes pelo ator.
E é por se concentrar exclusivamente nos personagens de Tatum e Pettyfer que o desfecho para eles apresentado soa preguiçoso porque amparado em clichês.  Não a toa, no que tange a trilogia do sexo orquestrada Soderbergh, Sexo Mentiras e Videotape (EUA, 1989) permanece como o mais provocativo ao passo que Confissões de Uma Garota de Programa¹ ecoa como o mais experimental e, finalmente, Magic Mike se revela como o mais acomodado de todos – não obstante a irritante mania do cineasta em lançar mão de filtros que agregam um tom sépia asséptico sobre a fotografia e a misé-èn-scene. 
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1. Leia mais sobre Confissões de uma Garota de Programa no link http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/10/confissoes-de-uma-garota-de-programa.html.

FICHA TÉCNICA
Direção e Fotografia: Steven Soderbergh
Produção: Reid Carolin, Gregory Jacobs, Channing Tatum, Nick Wechsler
Roteiro: Reid Carolin
Elenco: Channing Tatum, Joe Manganiello, Alex Pettyfer, Matt Bomer, Olivia Munn, Matthew McConaughey, Mircea Monroe, Riley Keough, Denise Vasi, Cody Horn, Kevin Nash, Adam Rodriguez
Estreia Mundial: 29.06.2012              Estreia no Brasil: 28.09.2012
Duração: 110 min.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Jovens Adultos



Salve a Parceria

De uns anos para cá Hollywood tem explorado com eficiência o filão ‘adultos que insistem em manter os pés na adolescência’, vide, por exemplo, os notáveis Separados Pelo Casamento (EUA, 2006) e Ted (EUA, 2012). Jovens Adultos (EUA, 2011) dá novo fôlego a premissa ao apresentar, desta vez, uma mulher de comportamento inadequado a faixa etária. Egoísta e presunçosa, a personagem criada por Diablo Cody não fora programada para agradar, dada a amargura com que encara a felicidade alheia e a realidade um tanto fracassada da sua própria vida, razão pela qual o filme surpreende ao se debruçar com muito mais afinco sobre o drama do que sobre a comédia. Segundo a precisa ótica de Fátima Gigliotti, essa é uma produção “corajosamente coerente”¹ que, de modo diverso a Juno (EUA, 2007) – primeira parceria de Cody com o cineasta Jason Reitman – não concede a seus personagens o benefício do arrependimento ou da redenção, o que, em última instância, inviabiliza um maior envolvimento do público para com a história narrada, consequência essa, ressalte-se, assumida com destemor seja pelo roteiro, seja pela direção, seja pela protagonista Charlize Theron que, excelente, demonstra a quem ainda duvidasse que sua beleza não ofusca compete nem compete com seu talento.
A partir de Jovens Adultos é possível concluir que Diablo Cody não há de ser compreendida como artista de um êxito só, já que cartas na manga, pelo visto, ela ainda tem a sacar. Cabe a mesma, portanto, deixar enterrado os arroubos de estrelismo que lhe permitiram levar adiante uma bobagem do tamanho de Garota Infernal (EUA, 2009) para, em contrapartida, se concentrar nas ideias interessantes e sarcásticas vindas de sua mente e (por que não?) na produtiva dobradinha instituída com Reitman, afinal, em time que está ganhando...
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1.Revista Preview. Ano 3. ed. 35. São Paulo: Sampa, Agosto de 2012. p.74.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Jason Reitman
Roteiro: Diablo Cody
Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith, Charlize Theron
Elenco: Patrick Wilson, Charlize Theron, J.K. Simmons, Elizabeth Reaser, Patton Oswalt, Emily Meade, Collette Wolfe, Brady Smith, Louisa Krause, Ella Rae Peck, Hettienne Park
Fotografia: Eric Steelberg                               Trilha Sonora: Rolfe Kent
Estreia no Brasil: 6.04.2012                           Estreia Mundial: 16.12. 2011
Duração: 94 min.