EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Gonzaga – De Pai Pra Filho



Irregularidade e Coragem

A iniciativa de realizar um filme biográfico tomando como parâmetro a relação pai e filho experimentada pelo ser homenageado denota uma estratégia voltada a driblar o aspecto formulaico percebido nos roteiros de obras dessa espécie, recurso que, entretanto, não chega a ser inédito eis que também utilizado pelo próprio diretor Breno Silveira em seu longa-metragem de estreia 2 Filhos de Francisco (Brasil, 2005).
No caso de Gonzaga – De Pai Pra Filho (Brasil, 2012) a estratégia nem sempre dá certo graças ao tom excessivamente novelesco que o cineasta emprega para a primeira parte do drama, quando são mostrados os primeiros passos do rei do baião tanto na carreira quanto na fase adulta. Felizmente um salto de qualidade é sentido a partir do momento em que ao embate entre Gonzagão e Gonzaguinha é dada atenção exclusiva, o que se deve, sobretudo, ao trabalho do ator Julio Andrade que em sendo tão preciso em sua encarnação do rebento famoso e precocemente morto relega a uma função de coadjuvante aquele que deveria ser o verdadeiro protagonista da homenagem.
Em meio a sua irregularidade, a realização merece, porém, receber um crédito em virtude da coragem demonstrada ao pintar com traços nem sempre gentis o retrato de Luiz Gonzaga, não se deixando, desta feita, influenciar pela importância do mesmo para a música brasileira ao ponto de camuflar o homem duro que era aquele nordestino em seu íntimo – resultado, vale dizer, que só fora possível face a colaboração da família Gonzaga que permitiu o acesso da equipe de produção as mais de quinze horas de gravações feitas por Gonzaguinha enquanto conversava com o pai.

FICHA TÉCNICA
Direção: Brano Silveira
Produção: Breno Silveira, Marcia Braga, Eliana Soárez
Roteiro: Patricia Andrade
Elenco: Adelio Lima, Chambinho do Acordeon, Land Vieira, Julio Andrade, Giancarlo di Tomazzio, Alison Santos, Nanda Costa, Silvia Buarque, Luciano Quirino, Claudio Jaborandy, Cyria Coentro, Olivia Araújo, Zezé Motta, João Miguel.
Fotografia: Adrian Teijido
Trilha Sonora: Berna Ceppas
Estreia: 26.10.2012
Duração: 130 min.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

The Love We Make



E Paul Acerta Novamente...

A carreira musical de Paul McCartney jamais foi nem poderá ser repudiada. Suas inserções no campo audiovisual, porém, foram comumente achincalhadas graças a baixa qualidade do material produzido, daí serem, não raro, compreendidas como reflexos de um ego inflado momentaneamente incapaz de discernir entre ideias maravilhosas e péssimas.  
Neste sentido, filmes como Magical Mistery Tour (Reino Unido, 1967) e Give My Regards to Broad Street (Reino Unido, 1984) são rotineiramente citados como os mais toscos projetos capitaneados pelo músico. Exceção em meio a esse cenário, Let It Be¹ (Reino Unido, 1970) até hoje é o documentário definitivo sobre os Beatles, graças a crueza com que não se eximiu de mostrar as feridas abertas da banda, daí ser possível concluir que quando não interessado em manter controle total sobre as imagens captadas, ficando, ao contrário, deliberadamente exposto ao perigo representado por situações inusitadas, Paul alcança resultados mais satisfatórios e importantes, teoria essa reforçada por The Love We Make (EUA, 2011), longa-metragem fruto da amizade do roqueiro com o poderoso Harvey Miramax Weinstein.
Idealizado como o registro do envolvimento de McCartney com o mega show beneficente realizado em Nova York pouco mais de dois meses após os atentados terroristas de onze de setembro, o documentário, na verdade, vai além dessa pretensão uma vez que também permite ao espectador testemunhar alguns dos primeiros passos do ex-beatle ao lado da banda que hoje o acompanha há mais de dez anos, bem como o contínuo assédio recebido de anônimos e famosos, o que inclui figuras do quilate de Ozzy Osbourne, James Taylor, Billy Joel e Sheryl Crow agindo com total reverência, num misto de tietagem e respeito que os torna fãs comuns, distantes anos luz dos grandes artistas que também são.
Em meio a tamanha popularidade, cabe ao baixista exercer com desenvoltura e naturalidade o papel de bom moço por décadas assumido, postura, entretanto, que não lhe deixa imune a muitos momentos constrangedores sabiamente mantidos na edição final de The Love We Make. Graças a essa abertura para as surpresas do dia a dia, ressalte-se, a produção não só torna Paul ainda mais humano como também reserva cenas saborosíssimas, cujas descrições são descartadas em benefício do ineditismo.
Com efeito, o documentário dá uma mostra do que representa estar na pele daquele que talvez seja o artista vivo mais amado do planeta. Ciente do impacto causado por sua obra e, consequentemente, pelos atos por ele praticados, Paul inteligentemente capta o amor que lhe é dedicado mundo afora e em seguida o repassa, em termos práticos, a milhares de pessoas necessitadas. Um exemplo a ser copiado.
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1.     Leia mais sobre Let It Be em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/09/let-it-be.html.

Ficha Técnica
Direção: Bradley Kaplan e Albert Maysles
Produção: Bradley Kaplan
Produção Executiva: Paul McCartney
Edição: Ian Markiewicz
Duração: 90 min.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Atividade Paranormal 4



Faltou o Coelho

O sucesso da franquia Atividade Paranormal se deve a eficiência com que, ao longo de seus três primeiros capítulos, conseguiu pregar sustos em plateias de todo o mundo. Neste sentido, não obstante parta de uma fórmula fixa – imagens supostamente reais vistas através de uma câmera subjetiva¹ – seus filmes normalmente retiravam algum novo coelho da cartola, o que conferia a cada capítulo um valor próprio², qualidade essa que, infelizmente, revela-se ausente no quarto episódio da série.
Sem qualquer carta na manga que garanta seu lugar na memória do público, Atividade Paranormal 4 (EUA, 2012) é o exemplar, dentre os demais, que menos tenta se passar por uma legítima gravação amadora e mais assume nuances cinematográficas, na medida em que utiliza truques de montagem, efeitos especiais mais complexos e até uma referência/homenagem ao clássico O Iluminado (EUA, 1980) de Stanley Kubrick. Talvez o uso desses elementos, vale especular, tenha sido a saída encontrada para camuflar não só a falta de qualquer fator inovador que marca negativamente o longa-metragem como também o roteiro preguiçoso que, além de repleto de lacunas, não hesita em repetir tipos e comportamentos vistos nas produções anteriores.
Ademais, não bastassem os deméritos já elencados, enquanto os volumes pretéritos demonstravam imensa paciência para trabalhar o suspense e preparar o efeito surpresa, esta quarta parte se apressa demasiadamente em aplicar sustos bobos quando não previsíveis e repetitivos. Terá, portanto, chegado o momento da série ser extinta? A sequência mostrada após os créditos finais mostra que para os produtores muito dinheiro ainda há de ser produzido a partir da franquia, seja essa uma boa ou uma péssima ideia.
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1.     A tentativa de se fazer passar por um verdadeiro registro audiovisual amador afasta esses filmes da categoria mockumentary, tendo em vista que tal rótulo é preenchido por obras que se assumem enquanto documentários profissionais mas que, na verdade, são produções sobre eventos e/ou pessoas irreais.
2.     No caso de Atividade Paranormal 3 não há como serem esquecidas as sequências envolvendo uma câmera amarrada na base de um ventilador, de forma que a cada movimento deste para esquerda ou para a direita ao espectador restava a apreensão quanto aquilo que poderia surgir na tela. No que tange Atividade Paranormal 2 sugere-se a leitura da crítica publicada no link http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/11/atividade-paranormal-2.html.

Ficha Técnica
Título Original: Paranormal Activity 4
Direção: Ariel Schulman, Henry Joost
Roteiro: Oren Peli, Zack Estrin
Produção: Oren Peli,  Jason Blum, Akiva Goldsman, Steven Schneider
Elenco: Alisha Boe (Tara)Brady Allen (Robbie)Kathryn Newton (Alex), Katie Featherston (Katie) Matt Shively, Tommy Miranda (Jackson)
Estreia no Brasil: 19.10.12                  Estreia Mundial: 17.10.12
Duração: 90 min.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Música Segundo Tom Jobim



Vale o Quanto Toca

Documentário, vídeo-clip ou compilação caseira? A Música Segundo Tom Jobim (Brasil, 2011) não exclui nenhuma dessas possibilidades na medida em que jamais procura alcançar a completude informativa, preferindo, em contrapartida, se comportar apenas como uma homenagem cuja maior pretensão é mostrar a trajetória que as canções do maestro soberano trilharam mundo afora nas vozes e instrumentos de diversos artistas.
Nelson Pereira dos Santos por várias vezes declarou ter evitado impor a seu filme uma roupagem televisiva, daí porque utilizou apenas imagens preexistentes e rechaçou diálogos e legendas identificadoras daqueles que aparecem na tela. Para o cineasta a linguagem cinematográfica há de ser manejada de modo diferenciado em razão de sua natureza artística. Assim, de acordo com sua concepção, o pensamento jobiniano “A linguagem musical basta” pode ser literalmente aplicado ao cinema, conclusão que, convenhamos, tende a empobrecer um exercício midiático cujas possibilidades são infinitas justamente por se configurar na junção de todas as formas de manifestação da arte.
Em se tratando de um produto gerado do início ao fim na mesa de edição é inegável que certos deslizes da montagem assumem proporções maiores que em qualquer outro longa-metragem, o que explica o incômodo causado por certas transições abruptas e pela insistência demonstrada perante determinadas músicas. Não a toa, enquanto técnica, A Música Segundo Tom Jobim é um trabalho trôpego que se contenta com pouco, ao passo que na condição de instrumento fomentador de emoções, a produção se revela um delicioso espetáculo sensorial, mérito esse que, ressalte-se, é fruto exclusivo da genialidade de Tom Jobim e de seus parceiros de composição, não havendo, portanto, que se cogitar de qualquer influência da equipe de produção do filme nesse sentido.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Nelson Pereira dos Santos, Dora Jobim
Produção: Ivelise Ferreira, Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos, Miúcha Buarque
Trilha Sonora: Paulo Jobim
Estreia no Brasil: 20.01..2012
Duração: 88 min.