EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 30 de setembro de 2012

Habemus Papam



Ser ou Não Ser

Habemus Papam (Itália/França, 2011), como o próprio título sugere, situa sua trama em meio a realização de um conclave papal. Ao tratar de tal assunto, o diretor Nanni Moretti passa longe, porém, dos jogos políticos e de poder que envolvem tal sucessão – conforme visto, por exemplo, no best-seller As Sandálias do Pescador, adaptado para o cinema em 1968 – e opta por uma toada irônica na qual nenhum integrante do alto clero deseja assumir tamanha responsabilidade que é ser o Santo Padre.
Sim, a premissa pode parecer inverossímil, mas não há como não se envolver com a sutileza do humor que pontua a história de um homem em grave crise vocacional. Neste sentido, Moretti não almeja ser um crítico da Igreja Católica – até porque, na verdade, acaba revelando inegável simpatia pelo Vaticano, a despeito de alguns comentários sobre seus privilégios e regalias – mas sim explorar as consequências do ato de um único ser humano perante multidões de fieis.
Dito isso, o balanço exato entre comédia e drama, vale dizer, é resultado não só de um roteiro burilado como também de um excepcional elenco. Ao lado do protagonista Michel Piccoli, todos os demais artistas que interpretam os membros do Colégio de Cardeais se revelam mestres em expressar muito a partir de gestos contidos e olhares repletos de significados – que o diga a ótima sequência do campeonato de vôlei!

FICHA TÉCNICA
Diretor: Nanni Moretti
Produção: Jean Labadie, Nanni Moretti, Domenico Procacci
Roteiro: Nanni Moretti, Francesco Piccolo, Federica Pontremoli
Elenco: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Margherita Buy, Franco Graziosi, Leonardo Della Bianca
Fotografia: Alessandro Pesci             Trilha Sonora: Franco Piersanti
Estreia no Brasil: 16.03.2012              Estreia Mundial: 15.04.2011
Duração: 102 min.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ted



Sexo, Drogas, Rock and Roll e Pelúcia

Ted (EUA, 2012) é, definitivamente, um filme para não ser levado a sério, constatação essa que, aliás, representa seu grande mérito. Lamentavelmente, porém, o estúdio por trás da obra deve ter temido a reação do público perante um urso de pelúcia que – ao contrário da candura demonstrada por um bichinho semelhante em Inteligência Artificial (EUA, 2001) – curte cocaína, cerveja e sexo pago, o que, por certo, explica o tom de culpa que a comédia adota a partir de sua segunda metade.
Ok, fazer a personalidade do brinquedo evoluir conforme o passar das décadas a ponto de torná-lo uma ex-celebridade envelhecida e rebelde fora uma grande sacada do roteiro; por outro lado, levá-lo a experimentar dilemas de gente grande e trajetórias de redenção típicas dos anti-heróis soa como uma tentativa boba de emprestar moralidade a história, o que, convenhamos, revela desnecessária insegurança dos produtores, uma vez que o barato da obra advém justamente do caráter politicamente incorreto de seu protagonista.
Neste sentido, Teddy não se parece com um Alf (EUA, 1986) nem com um Howard, The Duck (EUA, 1986), mas sim com a inacreditavelmente desbocada Hit Girl de Kick Ass (EUA, 2010)¹, pois tal qual ela, o ursinho é um boca suja que não esconde sua obscenidade nem se esquiva de distribuir sopapos quando provocado, ‘virtudes’ que, vale dizer, o colocam imediatamente na galeria dos principais personagens criados através da computação gráfica.
Deliciosamente surreal, Ted flerta também com a cultura nerd ao reverenciar o hoje tosco longa-metragem do super herói Flash Gordon, aventura embalada ao som do grupo Queen e estrelada pelo canastrão Sam J. Jones² que fez a alegria da criançada no início dos anos 80. Não a toa, a interrupção desse universo pop, saudosista e irresponsável por aquela toada sisuda já comentada anteriormente gera uma óbvia conclusão: ser adulto é chato pra c...
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1.Comparação, ressalte-se, que busca fugir da óbvia semelhança do filme e de seu protagonista para com o humor dos seriados animados “Family Guy” e “American Dad” também criados pelo diretor e roteirista Seth MacFarlane.
2.Não deixa de ser irônico, dentro deste contexto, que Sam J. Jones divida a tela com aquele que é talvez hoje o maior canastrão do cinema hollywoodiano: Mark Wahlberg. Se esse é o caso de uma piada pré-concebida não há como saber; de qualquer forma, inevitável é especular o quanto a produção cresceria se estrelada por um ator mais competente e mais digno de fazer parceria com um personagem tão incrível quanto Teddy.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Seth MacFarlane
Produção: Jason Clark, John Jacobs, Seth MacFarlane, Scott Stuber, Wellesley Wild
Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild
Elenco: Mila Kunis, Mark Wahlberg, Giovanni Ribisi, Jessica Stroup, Patrick Warburton, Seth MacFarlane, Joel McHale, Laura Vandervoort, Melissa Ordway, Aedin Mincks, Ralph Garman, Ginger Gonzaga, Alexandra East, Sam J. Jones
Fotografia: Michael Barrett                 Trilha Sonora: Walter Murphy
Duração: 106 min.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Tomboy



Dando a Cara à Tapa

Espécie de versão mirim de Meninos Não Choram (EUA, 1999), Tomboy (França, 2011) impressiona pelo destemor com que assume riscos. Ao abordar a espinhosa questão da identidade sexual e troca de gênero ainda na infância, a diretora e roteirista Céline Sciamma dá a cara à tapa, mas sai vitoriosa do desafio, tendo em vista que a naturalidade e a sensibilidade com que trata o assunto não deixam margens a qualquer polêmica vazia.
Dentro deste contexto, mostra-se de enorme importância a qualidade do trabalho das crianças que compõem o elenco. Com efeito, tamanho é o despojamento de suas atuações que a câmera de Sciamma se torna mera observadora da dinâmica de interação entre aquelas ao invés de ponto de referência para enquadramento de encenações. Neste sentido, salta aos olhos o talento de Zoé Héran que enquanto protagonista assume a responsabilidade de fazer com que toda a obra funcione, peso esse que parece não ter exercido nenhuma diferença, considerando que o que se vê na tela é uma composição dramática digna das atrizes mais consagradas. Com um olhar que mistura angústia, aflição e coragem, a pequena atriz se aproveita também de sua compleição física para convencer de uma forma tal que muitos podem até pensar se tratar de um garoto quem está ali interpretando.
Vale dizer que o texto conciso¹ de Céline Sciamma apresenta soluções que surpreendem, sugestões que pairam no ar e lacunas sem preenchimento, o que, por óbvio, se assemelha a vida real de conclusões e desfechos jamais exatos. Por isso, resulta convincente a tranquilidade da irmã caçula perante as escolhas da primogênita, assim como soa verossímil o choque da mãe ante a inevitável descoberta e a forma velada com que o pai lida com o assunto e dispensa tratamento um tanto masculinizado a pré-adolescente.
Desinteressado em julgar seus personagens, o longa-metragem, na verdade, busca manter em evidência a forma díspar com que a sexualidade da garota é tratada dentro da própria casa como amostra das muitas atribulações e preconceitos que serão experimentados durante toda uma trajetória por quem decide ir de encontro aquilo que é naturalmente esperado. Um belo filme.
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1.Nesta toada, Luiz Zanin escreve: “Sensível e despojado, Tomboy diz tudo o que é preciso sobre o assunto, sem desperdiçar uma única imagem e sem jogar qualquer palavra fora. O espectador, cansado de filmes empetecados e sem alma, agradece (FONTE: http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/tomboy/ Acesso em 17.9.12).

FICHA TÉCNICA                                                                                                               
Direção e Roteiro: Céline Sciamma
Produção: Bénédicte Couvreur
Elenco: Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani, Mathieu Demy, Yohan Vero, Noah Vero, Cheyenne Lainé, Rayan Boubekri, Christel Baras
Fotografia: Crystel Fournier                   Trilha Sonora: Jean-Baptiste de Laubier
Estreia Mundial: 20.04.2011                   Estreia Brasil: 20.01.2012
Duração: 82 min.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo



O Amor nos Tempos do Apocalipse

Procura-se um Amigo Para o Fim do Mundo (EUA, 2012) manifesta inegável inspiração em Sentidos do Amor (Alemanha/Reino Unido, 2011), afinal, ambos os filmes tratam do amor surgido entre pessoas desoladas pelo pandemônio em que o mundo, em tempos apocalípticos, se tornara. Assim, enquanto no primeiro a balbúrdia é fruto da iminente colisão de um asteroide com a Terra – acidente que, extinguirá, por óbvio, nosso planeta – o segundo título não sugere necessariamente o fim da raça humana, porém estabelece o caos a partir de uma pandemia que retira gradualmente do homem cada um de seus cinco sentidos, o que acarreta, por conseguinte, a ruptura da sociedade e de seus valores morais.
Firmadas as semelhanças, cabe dizer que Procura-se um Amigo não chega a alcançar as mesmas altas notas de dramaticidade do drama inglês¹, constatação essa derivada não somente do fato de se tratar de um trabalho de estreia de uma diretora (e roteirista) ainda carente de uma assinatura própria, mas, principalmente, em razão do salutar comprometimento do texto para com a comédia também. Desta feita, interessada em explorar os desvios de conduta do homem ante a certeza de um amanhã que não virá, Lorene Scafaria extrai de forma sutil, em conjunto com seu elenco², situações cômicas que em muito colaboram para fazer com que a obra não soe piegas em momento algum.
Sensível, Procura-se um Amigo possui o grande mérito de demonstrar, tal qual seu parente (nem tão) distante Sentidos do Amor que temas catastróficos não demandam obrigatoriamente encenações épicas, eis que é no conteúdo e não na forma que reside o valor de qualquer trabalho artístico, daí que a catarse pode sim advir, como na sequência final da produção em análise, de um simples vai e vem de plano e contraplano emoldurado por uma trilha sonora composta de ruídos assustadores e diálogos certeiros. Simples assim.
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1. Leia mais sobre Sentidos do Amor em http://setimacritica.blogspot.com.br/2012/07/sentidos-do-amor.html.
2. Dentro deste contexto, Steve Carell mostra novamente habilidade num papel dramático - que, aliás, em muito lembra seu personagem em Amor A Toda Prova (EUA, 2011) -, ao passo que Keira Knightley acerta o tom, tornando convincente, portanto, a química existente entre o casal de protagonistas.

Ficha Técnica
Título Original: Seeking a Friend for the End of the World
Direção e Roteiro: Lorene Scafaria
Produção: Steve Golin, Joy Gorman, Steven M. Rales, Mark Roybal
Elenco: Brad Morris, Steve Carell, Nancy Carell, Mark Moses, Roger Aaron Brown, Rob Huebel, Trisha Gorman, Keira Knightley, Adam Brody, Tonita Castro
Fotografia: Tim Orr
Trilha Sonora: Jonathan Sadoff, Rob Simonsen
Estreia no Brasil: 31.08. 2012          Estreia Mundial: 22.06.2012
Duração: 101 min.