EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Rock of Ages – O Filme


Saudade de Cameron Crowe

                      Sem valor tal como um rock farofa dos mais espalhafatosos. Assim é Rock of AgesO Filme (EUA, 2012), musical que se perde, não obstante o precioso assunto a ser explorado, graças a falta de comprometimento para com a história a ser contada. Neste passo, preocupada tão somente com o visual dos números musicais, a produção não esconde que o fiapo de roteiro filmado serve tão somente para justificar a inserção de hits conhecidos mundo afora, razão pela qual os personagens, deixados ao leo, resultam vazios quando não deslocados ou desnecessários – aspecto esse em que as maiores vítimas são Catherine Zeta-Jones, escalada em um núcleo que pouca conexão possui com o restante da obra, e Russel Brand a quem foi conferido um papel que se inexistente falta alguma faria no contexto geral do enredo. Não a toa, portanto, o longa-metragem demonstra um conjunto nada harmonioso de partes cuja comunicação é ínfima e cuja irregularidade é latente.
                        Quem salva o filme em alguns momentos é Tom Cruise que mais uma vez demonstra como seu rendimento é superior quando os holofotes não incidem exclusivamente sobre ele. Extremamente a vontade na pele de um rock star à la Axl Rose, o ator aproveita, ainda, para mostrar boa química com sua parceira de cena Malin Akerman – a qual, vale dizer, vem se revelando uma camaleoa, tamanhas as mudanças na aparência experimentadas a cada novo projeto.
                       Apenas a qualidade do desempenho de Tom Cruise, entretanto, não é suficiente para esconder a ineficiência da produção quanto ao manuseio de uma matéria-prima interessantíssima, qual seja a cena rock da segunda metade da década de 80, daí que ao invés de ser envolvente, divertido e mordaz – como fora, por exemplo, o remake de Hairspray (EUA, 2007) também dirigido por Adam ShankmanRock of Ages se conforma em ser uma espécie de episódio estendido de Glee¹, eis que calcado, principalmente, no romance bobo e previsível encenado pelo casal Diego Boneta e Julianne Hough, figuras essas esforçadas e de rostinhos bonitos, mas desprovidas de qualquer energia rock and roll.
                       Nas mãos de um Cameron Crowe esse seria um show digno de bis.
_____________________
1.     Ressalte-se que Adam Shankman também dirigiu vários episódios do seriado, o que, por certo, explica o caráter formulaico de seu trabalho em Rock of Ages.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Adam Shankman
Elenco: Tom Cruise, Malin Akerman, Bryan Cranston, Catherine Zeta-Jones, Alec Baldwin, Paul Giamatti, Russell Brand, Julianne Hough, Will Forte, Diego Boneta
Produção: Jennifer Gibgot, Garret Grant, Tobey Maguire, Scott Prisand, Adam Shankman, Matt Weaver
Roteiro: Chris D'Arienzo, Allan Loeb, Justin Theroux
Fotografia: Bojan Bazelli
Trilha Sonora: Adam Anders
Duração: 122 min.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O Monge


Mar de Referências

                   O Monge (França/Espanha, 2011) tem um jeitão de thriller hollywoodiano embora não abdique da perfumaria europeia característica de sua nacionalidade. Neste passo, tal aroma se mostra perceptível, por exemplo, nos cortes que fechando em círculo a lente da câmera emulam um recurso comumente utilizado a época do cinema mudo, principalmente dentro da estética expressionista de fotografia com altos contrastes entre claro e escuro.
                     Não a toa a trama do religioso que tem suas crenças testadas e aniquiladas por Lúcifer em muito se relaciona com um universo recorrente no expressionismo alemão, qual seja o da literatura romântico-fantástica que se debruçava sobre experiências irrealistas marcadas pelas jornadas de poder de seres destituídos de bondade, cujos desdobramentos demoníacos lhes garantiam a transição entre várias identidades e/ou corpos conforme a necessidade de suas obsessões malévolas e de seus objetivos violentos¹.
                    As referências, ressalte-se, não param por aí, visto que:
o pequeno trecho da freira que tem um ‘desvio de conduta’ drasticamente punido remete a personagem Suzanne do filme A Religiosa (França, 1966) - adaptação da obra do iluminista Denis Diderot comandada por Jacques Rivette;
o cerne do enredo, qual seja o processo que torna corrompida a natureza e fé do monge lembra por demais os vários percalços e dramas experimentados por Viridiana no filme homônimo de Luis Buñuel rodado na Espanha em 1961².
          Em meio a este cenário, cabe frisar que a produção em análise é, na verdade, a adaptação cinematográfica de um romance gótico, publicado em 1796 por Matthew G. Lewis, cujos elementos e reviravoltas já haviam tanto sido trabalhados antes quanto retrabalhados posteriormente em obras literárias das mais diversas, o que, por certo, justifica o quê de previsibilidade que as vezes paira no ar, característica essa que, ao invés de ser encarada como demérito do longa-metragem, há de ser contextualizada com base nas referências suscitadas para que, desta feita, prevaleça na memória a toada elegante, misteriosa e sensual do trabalho do diretor Dominik Moll.
            Ante o exposto, O Monge merece ser compreendido como um eficiente entretenimento para adultos, o que, convenhamos, é um relevante ponto positivo, considerando que, com raras exceções, esse é um filão cada vez mais esquecido pela indústria cinematográfica. Destaque-se, por fim, o elenco composto por Vincent Cassel, em mais uma atuação irretocável, e Déborah François interpretando o tipo ambíguo e sedutor que tão bem lhe cai desde o ótimo Ao Lado da Pianista (França, 2006).
_____________________
1. Neste sentido, se destacam, a título de exemplo, obras como As Mãos de Orlac (1924) suspense dirigido por Robert Wiene e Fausto (1926) de F.W.Murnau.
2.  Leia mais sobre Viridiana e A Religiosa em http://setimacritica.blogspot.com.br/2010/10/viridiana-religiosa.html.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Le Moine
Direção: Dominik Moll
Produção: Michel Saint-Jean
Roteiro: Dominik Moll, Anne-Louise Trividic
Elenco: Vincent Cassel, Déborah François, Joséphine Japy, Sergi López, Catherine Mouchet, Jordi Dauder, Geraldine Chaplin, Roxane Duran, Frédéric Noaille, Javivi, Martine Vandeville
Fotografia: Patrick Blossier
Trilha Sonora: Alberto Iglesias
Estreia Mundial: 11.07.2011
Estreia no Brasil: 07.09.12
Duração: 101 min.

domingo, 26 de agosto de 2012

Febre do Rato


Cru e Objetivo

O trailer de Febre do Rato (Brasil, 2011) deixava a impressão de ser o resumo de uma obra hermeticamente destinada a poucos. Ledo engano! O novo trabalho de Cláudio Assis revela, na verdade, uma crueza e uma objetividade similares as dele próprio enquanto a pessoa polêmica e contundente que é. Dessa maneira, o cineasta fala de poesia mas sem abdicar de questões envolvendo as mazelas socioeconômicas de uma metrópole.  Assim, seja em função dos personagens marginais, seja em virtude da estética naturalista¹, o longa-metragem dialoga tanto com o cinema Novo – em especial no que atine o quê de Terra em Transe (1967) nele existente – quanto com o movimento udigrudi – capitaneado por Rogério Sganzerla e seu O Bandido da Luz Vermelha (1968) – , guardando para si, porém, um elemento diferencial, qual seja a sofisticação que embala a imagem de ponta a ponta, resultado esse, vale dizer, garantido, sobretudo, pelo belíssimo trabalho de fotografia de Walter Carvalho e pela criteriosa trilha musical presente.
No que diz respeito ao roteiro, cabe salientar que a inocência caracterizadora do espírito anárquico do protagonista Zizo – brilhantemente interpretado por Irandhir Santos – é ferozmente atropelada pela truculência do Estado e seu poder de polícia, conclusão essa que pode desagradar face a ambiguidade exalada: seria essa uma visão pessimista ou moralista da sociedade? Em não sendo Cláudio Assis um artista de meias palavras, tal lacuna incomoda ao mesmo tempo que, de modo inverso, pode ser compreendida como um convite a reflexão. Com efeito, é por não se enquadrar naquilo que é rotineira e convencionalmente feito e, ainda assim, falar diretamente com um público que acaba tendo seus valores cutucados que Febre do Rato se destaca em meio a produção cinematográfica dos últimos tempos.
___________________________
1.Neste sentido, Cláudio Assis comenta: “O cinema brasileiro está careta. A televisão encaretou o cinema brasileiro. Qual é o problema de todos ficarem nus? [...] Aquelas pessoas suam, bebem, comem, amam, dormem. Simplesmente vivem e estar nu faz parte disso. Não vejo nada de agressivo e nem forçado. É apenas uma questão estética. O filme mostra como é a vida. O nu cabe ali. Faz sentido para retratar aquelas pessoas de forma naturalista. Não é feito para chocar ou chamar a atenção.” (PREVIEW. Ed. 33. São Paulo: Sampa, Junho de 2012. p. 9).

FICHA TÉCNICA
Direção: Cláudio Assis
Roteiro: Hilton Lacerda
Produção: Julia Moraes, Claudio Assis
Elenco: Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Angela Leal, Maria Gladys, Conceição Camarotti, Mariana Nunes, Juliano Cazarré, Victor Araújo, Hugo Gila, Tânia Granussi
Fotografia: Walter Carvalho
Estreia: 22.06.2012                 
Duração: 110 min.