EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quarta-feira, 27 de junho de 2012

E Aí... Comeu?

               Apenas Papai e Mamãe

       Por certo no intuito de garantir uma roupagem tipicamente cinematográfica ao texto da peça de teatro em que se baseia, E Aí... Comeu? (Brasil, 2012) investe grande parte de seu tempo em sequências passadas longe da mesa do bar. Ocorre que é naquele cenário – e também na casa de tolerância – que o filme apresenta alguns¹ bons momentos com diálogos travados sem constrangimento, daí que tudo o que se passa fora dali soa desinteressante, desnecessário.
      A explicação: o momento desfrutado com amigos no boteco possui uma essência de realidade paralela na qual as verdades e aborrecimentos do cotidiano, quando surgem, assumem um mero tom de desabafo, de forma que o mundo real é devidamente afastado à medida que o álcool vai deixando a cabeça zonza e as pernas bambas.
     Portanto, pouco importa ver com os próprios olhos as desventuras amorosas que o trio de amigos experimenta ao longo do dia. Lamentavelmente, em pensando diferente, direção e roteiro perdem a chance de entregar um trabalho integralmente despudorado, escrachado e autêntico. O chute, por isso, passa longe do gol² .
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1. Alguns porque, não raro, há cenas que não funcionam em virtude de as palavras de baixo calão parecerem faladas de modo inibido ao invés de desavergonhado.
2. Metáfora equivocada, convenhamos, em se tratando de personagens masculinas que em meio a tantas bebedeiras não falam um único instante sobre futebol.


Ficha Técnica
Direção: Felipe Joffily                  Produção: Augusto Casé
Roteiro: Lusa Silvestre, Marcelo Rubens Paiva

Fotografia: Marcelo Brasil            Direção de Arte: Tulé Peake
Trilha Sonora: Plínio Profeta         Montagem: Marcelo Moraes

Elenco: Bruno Mazzeo (Fernando)Dira Paes (Leila)Emílio Orciollo Neto (Fonsinho), Juliana Alves, Juliana Schalch, Katiuscia Canoro (Ana Paula)Laura Neiva (Gabi), Marcos Palmeira (Honório) Murilo Benício (Wolney)Tainá Müller (Vitória)
Estreia: 20 de Junho de 2012       Duração: 102 min.

domingo, 17 de junho de 2012

Prometheus

                 Auto-homenagem

               Em se tratando de indústria cinematográfica, Prometheus (EUA, 2012) constitui uma das jogadas mais oportunistas e inteligentes já vistas; afinal, o filme é mas não é um remake na medida em que também funciona como um prequel que, de forma ousada, não se contenta enquanto mera ferramenta de introdução a uma história já antes contada.
               Trocando em miúdos, ao invés do simples e objetivo jogo de gato e rato mostrado em Alien – O Oitavo Passageiro (EUA, 1979), a mais recente realização de Ridley Scoot lança mão de um argumento mais ambicioso que discorre sobre o nascimento da vida humana¹ e, de quebra, torna possível o surgimento uma franquia paralela a quadrilogia Alien.
               Ocorre que, mesmo buscando saltos maiores, consideráveis aspectos do conteúdo de Prometheus fazem com que a ficção científica se comporte por vezes como uma típica refilmagem. Desse modo, no que tange, por exemplo, os personagens dos títulos de 2012 e 1979 percebe-se, respectivamente, que a pesquisadora Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), é sim uma versão, também em trajes sumários, da valentona Ripley (Sigourney Weaver), ao passo que o ambíguo e nada confiável robô David (Michael Fassbender) serve de repaginação ao low tech cientista Ash (Ian Holm).
              Não fosse o bastante:
- a tolice de determinados astronautas ao lidar desprevenidamente com seres asquerosos e nunca antes vistos permanece tal qual a do longa-metragem de outrora;
- os relatórios finais das heroínas sobreviventes servem ‘coincidentemente’ de encerramentos para ambas as produções.
              Tantas semelhanças podem até levar a crer que Prometheus padece de um roteiro preguiçoso; todavia, em não sendo este o caso – afinal, como já dito, várias outras janelas são abertas – é preferível pensar que Scott optou por prestar uma espécie de auto-homenagem aquele que fora seu segundo trabalho como diretor. Se não supera o original – até porque, em correndo mais riscos, tropeços acabam sendo cometidos – seu novo filme pelo menos demonstra um inegável vigor², sendo ao lado da continuação comandada por James Cameron o que de melhor já se fez desde então em torno do monstrengo.
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1.Não à toa, o visual claustrofóbico das produções anteriores é abandonado em prol de uma concepção estética de planos épicos, grandiosos.
2.Comprovado, por exemplo, através da tensa sequência do aborto.





Ficha Técnica
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Damon Lindelof, Jon Spaihts
Produção: David Giler, Ridley Scott, Tony Scott, Walter Hill
Elenco: Noomi Rapace (Elizabeth Shaw)Michael Fassbender (David)Charlize Theron (Meredith Vickers)Idris Elba (Janek)Guy Pearce (Peter Weyland)Patrick Wilson (Shaw's Father)Kate Dickie (Ford)Benedict Wong (Ravel)Emun Elliott (Chance)Rafe Spall (Millburn)Sean Harris (Fifield)Logan Marshall-Green (Charlie Holloway)Lucy Hutchinson (Young Shaw)
Estreia no Brasil: 15.06.2012          Estreia Mundial: 08.06.2012
Duração: 123 min.

sábado, 16 de junho de 2012

Raul – O Início, o Fim e o Meio

              Pipoca aos Macacos?

          Embora documentário, Raul – O Início, o Fim e o Meio (Brasil, 2012) comete o grande equívoco de transformar seus depoentes em personagens (possíveis ou não) de si mesmos. Assim, Paulo Coelho se torna o vilão cujo remorso é nenhum por introduzir o músico a contracultura das drogas, Marcelo Nova – não obstante a opinião contrária de Caetano Veloso – é o sacana que provavelmente se aproveitou dos últimos dias de vida de Raul Seixas para alavancar a carreira não só deste mas principalmente sua e as ex-mulheres do rockeiro são coitadas que restaram abandonadas porque trocadas.
         Tudo bem, o tom novelesco do longa-metragem pode até talvez equivaler a realidade, porém, tamanha manipulação por parte da direção de Walter Carvalho agrega uma imensa falta de parcialidade as conclusões apresentadas, deficiência essa que se revela ainda mais latente em virtude da carência de imagens do ser homenageado falando de si mesmo.
                 Uma vez que as opiniões dos outros é que dão o tom do filme, certos aspectos da vida e da carreira de Raulzito acabam tratados de maneira superficial como, por exemplo, sua relação com o satanismo e a suposta perseguição sofrida pelo artista durante os anos de ditadura. Eis o caso em que ao invés de gritar “Toca Raul” a vontade é de dizer “Fala Raul!”.



Ficha Técnica    
Direção: Walter Carvalho                          

Có-direção: Evaldo Mocarzel
Produção:Alain Fresnot, Denis Feijão           

Roteiro: Leonardo Gudel
Fotografia: Lula Carvalho                          

Edição: Pablo Ribeiro
Estreia: 23.03.2012                                 

Duração: 120 min.

sábado, 9 de junho de 2012

Coleção Chico Buarque - Vol. 8 - O Futebol

     História, Memória e Lorota

              Em Chico Buarque – O Futebol (Brasil, 2006) o músico e escritor demonstra, para quem ainda possa duvidar, que de fato possui um Q.I. superior ao do resto dos mortais quando numa fala descompromissada revela que o belo e viciante hino do Politheama, o time de futebol por ele fundado, fora criado para embalar as partidas que a agremiação disputava quando ainda era apenas um time de futebol de botão. Uma brincadeira portanto, mas feita com absoluta maestria.
             Esse é apenas um dos muitos ‘causos’ contados por Chico num documentário que funde a memória futebolística do artista com a própria história do esporte. Por isso, o que se vê é um relato na medida do possível imparcial que ao invés de se restringir a fatos envolvendo o Fluminense, time pelo qual torce o cantor e compositor, abrange lembranças seja dos tempos áureos do Santos de Pelé, seja da trágica derrota do Brasil para o Uruguai no Maracanã, seja dos bad boys que ao longo das décadas passaram pelos gramados.
              Desse modo, o filme não pretende servir de associação entre a produção musical do artista e o esporte - já que o próprio Chico adianta que além do já mencionado hino compôs somente mais uma música em que o assunto estrito era o futebol - mas sim de tornar compreensível a importância e o fascínio que a prática difundida por Charles Miller¹ exerce na vida de Chico Buarque de Hollanda.
              Para tanto, o documentário percorre duas rotas paralelas sendo uma aquela em que Chico é entrevistado e outra aquela em que assume, ainda que timidamente, o papel de entrevistador quando encontra craques do passado, como o ídolo Pagão e o rei Pelé, e do presente representado pelo hoje defasado Ronaldinho Gaúcho².

              Em meio a tudo isso, Chico ainda encontra espaço para falar das peladas jogadas em campos nacionais e internacionais³, o que inclui as conversas de boleiro acerca de glórias deveras suspeitas de seu Politheama, aspecto esse que, aliás, denota o grande trunfo do filme: o senso de humor. Ouvir as histórias de Chico Buarque é como estar em uma mesa de bar com um amigo que trata o assunto futebol com a merecida seriedade mas que também não se furta de volta e meia inventar alguma lorota sobre o tema.              
             Com tantas coisas para tratar, não é de estranhar que este seja um dos volumes de maior duração da coleção, o que ainda assim é pouco tendo em vista que o bate-papo é daquele tipo pelo qual se torce para não ter fim – frustração essa que quando ocorre é aliviada com o também interessantíssimo material extra que acompanha o DVD.
             Considerando que a dobradinha cinema e futebol não possui muitos motivos para gerar orgulho – se é que existe algum título, nesse sentido, digno de nota – não deixa de ser curioso que um documentário feito para TV acabe suprindo essa lacuna. É gol do Chico!
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1. Alguns “historiadores contestam o pioneirismo de Charles Miller na história do futebol brasileiro, argumentando e apresentando documentação como prova de que o esporte mais popular do Brasil já era praticado no país antes da volta do famoso futebolista brasileiro da terra de seus antepassados. O escocês Thomas Donohoe teria sido o primeiro a promover uma partida de futebol no país” (FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Miller. Acesso em 09.06.2012).
2. Se com os dois primeiros o encontro resulta espontâneo – com direito até a dueto musical entre Chico e Pelé – a reunião com o atleta de Porto Alegre revela homens acanhados que, porém, manifestam admiração mútua não obstante as diferenças de tempo e espaço que os separam.
3. Não “foram poucas as vezes que ele [Chico] já se atreveu a mostrar seu dito talento como jogador “peladeiro”. Uma dessas vezes, aconteceu em 2006, na Copa da Alemanha quando ele integrou uma equipe de músicos e escritores brasileiros que jogou contra um combinado de jornalistas alemães. O jogo fez parte da Copa da Cultura, evento organizado pelo Ministério da Cultura brasileiro” (FONTE: http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/12/bola-e-o-moleque-o-moleque-e-bola.html. Acesso em 09.06.2012).




Ficha Técnica
Direção: Roberto Oliveira
Produção: André Arraes e Jorge Saad Jafet
Fotografia: João Wainer
Edição: André Wainer
Duração: 76 min.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Branca de Neve e o Caçador

                                      Traições que Vem Para o Bem

              No que tange o complexo trabalho de adaptação que o cinema exerce sobre obras literárias, Sérgio Rizzo opina:

                            “É preciso encontrar uma forma de equivalência que provoque no 
                             espectador uma sensação parecida a que o trecho do livro provocou 
                             no leitor, mas com o uso de imagens e de sons. Esse processo de
                             distanciamento do original, que alguns consideram traição, pode gerar, 
                             no fim, o modo mais nobre de fidelidade em uma adaptação: aquela que 
                             aproxima o espírito da transposição ao do original. [...]
                             [O filme, portanto, deve procurar] fazer justiça à essência do original 
                             sem transformar-se em escravo de sua estrutura. Traduzir bem [...]
                             envolve uma certa 
                             (e habilidosa) 
                             capacidade de 
                             trair”¹.

              Dentro deste contexto, uma vez que a versão mais tradicional e atualmente conhecida da história da Branca de Neve é representada pela animação comandada por Walt Disney em 1937, Branca de Neve e o Caçador (EUA, 2012) representa um curioso caso de produção que se afasta do parente cinematográfico mais próximo para, em contrapartida, se aproximar do tom sombrio originalmente pretendido pelos irmãos Grimm², opção essa que, por sua vez, não impede que consideráveis mudanças ao texto de origem sejam apresentadas como forma de imprimir personalidade própria a uma adaptação contemporânea que surpreende pela facilidade com que reúne a atenção e a emoção de um público que há muito já conhece o início, o meio e o fim da jornada da princesa órfã.
             Ok, não é possível ignorar que o roteiro deste novo título possui falhas que se confundem com o descompasso não raro mostrado por sua edição. São problemas visíveis, mas que, ainda assim, não retiram o charme de um trabalho impecável no que atine seus figurinos, direção de arte e de fotografia – elementos esses que juntos dão ao filme uma roupagem épica ao modo O Senhor dos Aneis. Por certo, tais escorregões não são suficientes para condenar o longa-metragem porque nítido é que determinadas passagens da trama foram mexidas não apenas para tornar diferente a versão mas também para atribuir densidade psicológica a personagens³ defendidos por um elenco azeitado, afinal: Charlize Theron, linda como de costume, exerce a vilania em modo turbo, Kristen Stewart, ótima, compõe uma nada delicada princesa e, por fim, um time de nomes consagrados do cinema inglês, como Bob Hoskins e Brian Gleeson, dão vida aos, agora, oito anões.
             Há traições que vem para o bem.
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1. Literatura & Cinema. In. Revista Língua Especial. Cinema & Linguagem. São Paulo: Segmento. Outubro de 2011. P. 10 e 14.
2. “Walt Disney amenizou o conto original, que é sombrio e tem lances bizarros, como a madrasta que assa e come o coração de veado pensando ser o da princesa; e a maçã envenenada que pula da boca de Branca depois de um tropeço dos serviçais que levavamo esquife de vidro para o castelo. Que beijoca de príncipe que nada” (FONTE: Revista Preview. ed. 32. São Paulo: Sampa, Maio de 2012. p.36).
3. Qualidade que, por exemplo, passou longe do horroroso A Garota da Capa Vermelha (EUA, 2011).


Ficha Técnica
Título Original: Snow White and the Huntsman
Direção: Rupert Sanders
Roteiro: Evan Daughterty, Florence Welch, Hossein Amini, John Lee Hancock
Produção: Gloria S. Borders, Joe Roth, Laurie Boccaccio, Palak Patel, Sam Mercer, Sarah Bradshaw
Elenco: Izzy Meikle-Small (Young Ravenna)Johnny Harris (Quert)Rachael Stirling (Anna)Ray Winstone (Trajan) Hattie Gotobed (Lily)Duncan JC Mais (The Shadow)Christian Wolf-La'Moy (Ravennas Archer)Xavier Atkins (Young Prince William)Liberty Ross (Queen Eleanor)Christopher Obi (Mirror Man) Mark Wingett (Tom The Rebel)Karen Anderson (X) (Dwarf)Craig Garner (Dwarf) Kristen Stewart (Branca de Neve)Nick Frost (Tiberius)Ian McShane (Caesar)Sarah Molkenthin (Peasant) Sam Claflin (Príncipe Charmant)Chris Hemsworth (Caçador)Charlize Theron (Rainha Má)Dave Legeno (Broch)Vincent Regan (Duke Hammond)Eddie Marsan (Hadrian)Noah Huntley (King Magnus)Joey Ansah (Aldan)Jamie Blackley (Iain)Lily Cole (Greta)Toby Jones (Claudius)Annabelle Wallis (Sara)Sam Spruell (Finn)Brian Gleeson (Gus)Bob Hoskins (Constantine)
Estreia Mundial/Brasil: 01.06.2012
Duração: 120 min.