EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




terça-feira, 29 de maio de 2012

Precisamos Falar Sobre o Kevin

                         Bode Expiatório

               Independentemente da toada que marque sua fonte literária de origem, sutileza, por certo, não é uma característica existente em Precisamos Falar Sobre o Kevin (Reino Unido, 2011); neste sentido, personagens são deliberadamente trabalhados para convencer o espectador acerca de impressões pré-concebidas, daí porque a este último são apresentadas figuras como o pai bobalhão e alienado ao que passa ao seu redor, o filho que desde muito cedo demonstra uma personalidade monstruosa e a mãe que aflita com o novo mundo descortinado pela maternidade não esconde nem mesmo do rebento certos acessos de desespero e fúria.
              Com efeito, é justamente por demonstrar uma humanidade que se choca com o comportamento idealizado e esperado de um pai e/ou de uma mãe que aquela mulher vai gradativamente sendo feita de bode expiatório seja pelos demais personagens que a cercam seja pelo próprio diretor Lynne Ramsay que não titubeia ao, através do uso de metáforas nada singelas, sujar de maneira insistente as mãos daquela mãe com a cor vermelha da morte, da humilhação, do julgamento.
              Sobre a necessidade humana de atribuir sentido a tudo, o que inclui a distribuição de culpa, Diogo Schelp discorre:

                                              “A tentativa de jogar a culpa por uma situação indesejada [...] nas 
                          costas de um único indivíduo ou grupo quase sempre inocente é uma 
                          prática que alguns estudiosos a consideram essencial para entender a vida 
                          em sociedade.
                          [...] cada ser humano tende a se considerar melhor do que realmente é, e
                          por isso tem dificuldade de admitir os próprios erros [...] Junte-se a isso a  
                          necessidade intrinsecamente humana de tentar encontrar um sentido, uma 
                          ordem no caos do mundo, e têm-se os elementos exatos para aceitarmos a 
                          primeira e a mais simples explicação que aparecer para os males a nos 
                          afligir. Desde muito cedo, provavelmente com o surgimento das primeiras 
                          crenças religiosas, a humanidade desenvolveu rituais para transferir a culpa
                          para pessoas, animais ou objetos como uma forma de purificação e 
                          recomeço. [...]
                                                 [...] a dificuldade de conciliar os desejos de todos cria tensões e violência. 
                          Para que a ordem social não imploda em atos de vingança, existem os 
                          rituais de sacrifício, em que os impulsos destrutivos são canalizados para 
                          um bode expiatório [...] Segundo René Girard [autor da teoria do desejo 
                          mimético], no momento em que o ser humano se conscientiza de que o 
                          bode expiatório nada mais é do que uma vítima inocente, seu sacrifício 
                          deixa de fazer sentido”¹.

              Dentro deste contexto, não há dúvida de que em meio a tamanha repreensão soma-se uma considerável dose de culpa que a própria mãe se atribui, afinal sua autoanálise suplanta a fase dos questionamentos vagos para, assim, detectar as falhas cometidas ao longo da criação do primogênito. Ocorre que, em não se tratando de um filme sutil, pouco espaço sobra para qualquer opinião própria do público, já que nítida se revela a forma como a obra se esmera em apedrejar sua protagonista² e ignorar, por conseguinte, qualquer noção de livre-arbítrio relacionada ao filho assassino.
             Tilda Swinton, ressalte-se, se dedica com o afinco de costume para aplicar camadas extras a uma mulher consumida pela culpa. Graças ao talento dela e da revelação Ezra Miller é possível identificar o único instante em aberto do longa-metragem, qual seja aquele em que perguntado pela genitora sobre o porquê de seus atos bárbaros, o agora presidiário Kevin responde já não ter mais como antes tanta certeza dos motivos. Eis o momento em que, ao contrário do que a produção tentara convencer ao longo de seu desenvolvimento, nem tudo na vida possui uma explicação hermética nem toda culpa possui um endereço certo.
___________________________
1.FONTE: A Arte de Culpar os Outros. In.: Revista Veja. Ed. 2269. Ano 45. São Paulo: Abril, 16.05. 2012. p.113-5.
 
2.Como se toda mãe que não conseguisse de imediato se conectar emocionalmente com a gravidez/maternidade tivesse de ser condenada a parir um anticristo.


Ficha Técnica
Título Original: We Need to Talk About Kevin
Direção:Lynne Ramsay                         

Roteiro:Lionel Shriver, Lynne Ramsay, Rory Kinnear
Produção:Jennifer Fox, Luc Roeg, Robert Salerno
Elenco:Ezra Miller (Kevin)Paul Diomede (Al)Joseph Melendez (Waiter) John C. Reilly (Franklin)Tilda Swinton (Eva)Siobhan Fallon (Wanda)Ashley Gerasimovich (Celia)Lauren Fox (Dr. Goldblatt)James Chen (Dr. Foulkes) Alex Manette (Colin)Erin Maya Darke (Rose)
Estreia no Brasil: 27.01.2012                 Estreia Mundial: 21.10.2011
Duração: 110 min.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Plano de Fuga

                     Fast Food

              Ser comumente comparado ao ótimo O Troco (EUA, 1999) é um indicativo de peso sobre as pretensões de Plano de Fuga (EUA, 2011). Estética suja, fotografia saturada (como forma de exaltar o calor mexicano), humor negro e violência a rodo são os ingredientes desta aventura que concilia o cinismo das últimas décadas com a faceta despudorada e nada careta de produções oitentistas estreladas pelos astros brucutus de então.
             É de se lamentar, portanto, que em terreno americano Mel Gibson não goze mais de privilégio suficiente para sozinho garantir o sucesso comercial de um filme; afinal, graças a influência dos deslizes cometidos pelo ator em sua vida pessoal, Plano de Fuga não fora sequer lançado nas salas de projeção yankees, o que, vale frisar, em nada assemelha a qualidade deste título com a de outros também arremessados diretamente no mercado de home-video e protagonizados por celebridades de outrora do cinema de ação como Steven Seagal e Jean-Claude Van Damme.
             Diferentemente desses ‘artistas’, Mel Gibson possui uma dose superior de talento a disposição seja do drama - conforme atestam as obras por ele dirigidas, bem como seu desempenho em Um Novo Despertar (EUA, 2011) - seja da comédia - basta lembrar os momentos divididos com Danny Glover e Joe Pesci na franquia Máquina Mortífera -, seja da aventura - não a toa Mad Max (Austrália, 1979) catapultou-o ao sucesso -, daí porque o carisma do ator não permite que sua participação neste novo trabalho seja eclipsada pelas boas cenas de perseguição e tiroteio arquitetadas pelo diretor Adrian Grunberg.
             Por certo, Plano de Fuga não mudará a vida de ninguém, podendo até, talvez, ser facilmente esquecido por quem o assistir, mas, ainda assim, em seus noventa minutos de duração a diversão restará garantida a quem não quiser se debruçar, por exemplo, sobre problemas como o olhar preconceituoso do norte-americano sobre seu vizinho mexicano. Taí um caso em que cérebro e estômago pedem para ser desconectados em proveito de uma autêntica fast food.                                                                               
Ficha Técnica                                                                                               
Título Original: Get the Gringo
Direção:Adrian Grunberg                 Produção:Bruce Davey, Stacy Perskie
Roteiro:Adrian Grunberg, Mel Gibson, Stacy Perskie
Elenco:Mel Gibson, Roberto Sosa (Carnal)Fernando Becerril (Prison Director) Tenoch Huerta (Carlos) Dean Norris (Bill)Bob Gunton (Mr. Kaufmann)Dolores Heredia (The Kid's Mom)Tom Schanley (Gregor)Jesús Ochoa (Caracas) Daniel Giménez Cacho (Javi) Peter Stormare (Frank)
País de Origem: Estados Unidos da América
Estreia no Brasil: 18.05.2012           Estreia Mundial: 26.08.2011
Duração: 95 min.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

50%

             Pérola a Ser Conhecida

             Há uma piada em 50% (EUA, 2011) que sintetiza a essência dessa dramédia, qual seja o momento em que Kyle (Seth Rogen) tenta animar o amigo que teve um câncer diagnosticado explicando que atualmente essa não é mais uma doença tão difícil de ser vencida, afinal, com frequência ficamos sabendo de celebridades como Patrick Swayze (??!!) que pularam tal fogueira com sucesso.
            Partindo, portanto, de um humor politicamente incorreto e de uma linguagem assumidamente pop (a citação a Laços de Ternura é simplesmente impagável), 50% se revela como um libelo a amizade que em última instância denota uma variação cheia de frescor para uma história já muito contada.
            Espirituosa, a obra de Jonathan Levine não só faz rir – seja de modo inteligente seja de forma chula – como também sensibiliza nos momentos mais dramáticos da trajetória de seu protagonista, escapando, desta feita, da armadilha da inverossimilhança que muitos filmes envolvendo pacientes com risco de morte – mas estranhamente serenos e conformados – acabam caindo.
            Não fosse o bastante a forma bem humorada, porém, ao mesmo tempo madura com que o roteiro¹ é manejado, o longa-metragem ainda conta com um elenco muito bem entrosado – aspecto esse em que se destaca Bryce Dallas Howard no auge de sua beleza – além de uma trilha musical, selecionada a dedo, que inclui canções de bandas como Radiohead e Pearl Jam – cuja belíssima Yellow Ledbetter encerra de maneira tocante a produção.
            Eis uma pérola a ser conhecida e divulgada.
___________________________
1. “O roteirista Will Reiser tinha 24 anos quando foi diagnosticado com um tipo raro de câncer e descobriu fazer parte de uma estatística de 50% de chance de sobrevivência – daí o título. O ator Seth Rogen, seu melhor amigo, acompanhou cada etapa da batalha e o fato de este filme existir é mais que bom sinal” (FONTE: ITIBERÊ, Suzana Uchôa. PREVIEW. Ed. 28. São Paulo: Sampa, Janeiro de 2012. p. 66).

 COTAÇÃO: ۞۞۞۞







Ficha Técnica
Título Original: 50/50
Direção: Jonathan Levine                  Roteiro: Will Reiser
Produção:Ben Karlin, Evan Goldberg, Seth Rogen
Elenco:Daniel Bacon (I) (Dr. Phillips)Joseph Gordon-Levitt (Adam) Matty Finochio (Ted)Philip Baker Hall (Alan)Seth Rogen (Kyle)Veena Sood (Nurse Stewart)Anjelica Huston (Diane) Darla Fay (Nurse Joanne)Marie Avgeropoulos (Allison)Bryce Dallas Howard (Rachael)Yee Jee Tso (Dr. Lee)Jessica Parker Kennedy (Jackie)Sarah Smyth (Jenny)Geoff Gustafson (Jeremy) Luisa D'Oliveira (Agabelle Loogenburgen)Andrew Airlie (Dr. Ross) Sugar Lyn Beard (Susan)Serge Houde (Richard)Anna Kendrick (Katie) William 'Big Sleeps' Stewart (George)Kyle Hunter (Will)
Estreia Mundial: 30.09.2011                Duração: 100 min.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Um Conto Chinês/Gran Torino

                           O Carro e a Vaca

                Em Um Conto Chinês (Argentina, 2011) uma vaca serve de elemento propulsor a uma improvável amizade que no futuro será estabelecida, ao passo que em Gran Torino (EUA, 2008) um automóvel será responsável pela aproximação de dois homens que, tal como no título argentino, nada possuem em comum. São ganchos aparentemente diferentes mas que, na verdade demonstram muito do quanto os dois filmes se completam, senão vejamos:
               Há circunstâncias e características que muito assemelham o metódico e eremita Roberto - protagonista da produção sul-americana - do ranzinza e antiquado Walt Kowalski – personagem principal de Gran Torino –, isso porque ambos são solitários ex-combatentes de guerras (das Malvinas e da Coréia, respectivamente) cujos atos então praticados deixaram marcas profundas em seus comportamentos e na forma como passaram a compreender o mundo e a vida. Não fosse o bastante, os dois tem suas rotinas subitamente alteradas em função do forçado convívio com orientais que as suas portas batem.
              Um Conto Chinês se vale de um roteiro extremamente hábil na articulação de detalhes. Logo, absolutamente nada na história se mostra aleatório, característica que, aliás, autoriza um eficiente flerte da trama com o absurdo. Dentro deste contexto, a considerável porção de excentricidade do trabalho do diretor e roteirista Sebastián Borensztein, felizmente, goza de sustentação própria graças a dose de plausibilidade que lhe é ministrada ao longo do filme, daí restar dispensado, nesse sentido, a cumplicidade do espectador, a quem é conferido apenas a faculdade de se deliciar com um humor refinado e competente quanto a construção da errática trajetória de um homem desesperado pelo término de uma boa ação que não deveria ter durado mais do que alguns minutos.               
               O longa-metragem dirigido por Clint Eastwood, por seu turno, não abre muito espaço para a comédia – a não ser indiretamente naquilo que se refere a conduta rabugenta de Kowalski –, enveredando, na verdade, pelo caminho da tensão que caracteriza a reunião de etnias díspares ao longo da região suburbana norte-americana, cenário esse no qual preconceito racial e xenofobia são não só diagnosticados como também tem suas origens investigadas. Dito isso, tal qual um Dirty Harry envelhecido, o personagem de Eastwood revela toda sua intolerância perante asiáticos, negros e latinos para, em seguida, trilhar uma rota de redenção que o torna, por fim, mais parecido com os inúmeros anti-heróis do velho oeste interpretados pelo ator durante sua carreira.
             Além dos elementos já comentados, há, ainda, outro grande ponto em comum entre Um Conto Chinês e Gran Torino, qual seja a excelência demonstrada por Ricardo Darín e Eastwood no que tange a defesa de seus papeis. Em virtude desses artistas as vicissitudes de homens ordinários envoltos em situações extraordinárias são mostradas em esplendor, o que explica o porquê de nenhum dos dois personagens ser abrangido pela simplória rotulação bom ou mau.

COTAÇÕES:
Um Conto Chinês - ۞۞۞۞       
Gran Torino - ۞۞۞۞

Ficha Técnica – Um Conto Chinês
Título Original: Un Cuento Chino
Direção e Roteiro: Sebastián Borensztein
Produção: Axel Kuschevatzky, Ben Odell, Carlos Mentasti, Gerardo Herrero, Isabel García Peralta, Josean Gómez, Juan Pablo Buscarini, Marcelo La Torre, Mariela Besuievski, Pablo Bossi
Elenco: Ricardo Darín (Roberto)Muriel Santa Ana (Mari)Ignacio Huang (Jun)Javier Pinto (Amante Italiano)
Estreia Mundial: 24.03.2011                          Duração: 93 min.
Ficha Técnica - Gran Torino
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Dave Johannson, Nick Schenk
Produtores: Bill Gerber, Clint Eastwood, Robert Lorenz
Elenco: Cory Hardrict (Duke)Geraldine Hughes (Karen Kowalski)John Carroll Lynch (Barber)Clint Eastwood (Walt Kowalski) Nana Gbewonyo (Monk)Christopher Carley (Father Janovich) Ahney Her (Sue Lor)Bee Vang (Tao Vang Lor) Brian Howe (Steve Kowalski)Doua Moua (Fong / Spider)Brian Haley (Mitch Kowalski)Dreama Walker (Ashley Kowalski)
Estreia no Brasil: 20.03.2009                         Duração: 117 min.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Paraísos Artificiais


           Não Fosse Pelo Cacoete...

           É bastante perceptível o esforço de Marcos Prado em não exercer juízo de valor nem tornar caricata a realidade paralela regada a drogas ilícitas pela qual transitam os jovens de Paraísos Artificiais (Brasil, 2012). O êxito de tal empenho não impede, porém, que o diretor seja vencido por um cacoete típico do filme-documentário¹ - gênero, aliás, que revelou o cineasta -, qual seja a linguagem-diagnóstico.
           Dentro deste contexto, o longa-metragem sugere que os excessos da juventude não necessariamente tardam a ser pagos, premissa essa que infelizmente não tem seu potencial explorado em plenitude graças a distância estabelecida entre as realidades do diretor e dos seres retratados, o que, consequentemente, acaba influenciando na recepção do material filmado pelo espectador que, por sua vez, é mantido na condição de voyeur sem jamais ser estimulado a se tornar cúmplice dos protagonistas e/ou de seus estilos de vida².
           Essa relação de alteridade, vale dizer, é o que limita Paraísos Artificiais a condição de uma mera história bem contada. Neste aspecto, a narrativa garante a atenção do público em razão de uma eficiente edição não-linear que, na medida do possível, dificulta a descoberta precoce das informações necessárias a montagem do quebra-cabeça. Somem-se a isso os ótimos trabalhos de direção de arte e de fotografia que retratam com fidelidade o ambiente característico das festas rave, bem como a estonteante interpretação de Nathalia Dill que consegue a façanha de ameaçar o trono de Camila Pitanga (e seu Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios) no quesito atuação mais sexy do ano.
___________________________
1. Em sua fase modernista.
 
2. Exemplo contrário, neste sentido, pode ser visto em Mistérios e Paixões (David Cronenberg, Canadá, 1991).

Ficha Técnica
Direção: Marcos Prado  
Roteiro: Cristiano Gualda, Marcos Prado, Pablo Padilla
Produção:James D'Arcy, José Padilha, Lili Nogueira, Marcos Prado, Tereza Gonzalez
Elenco: Nathalia Dill (Érika)Luca Bianchi (Nando)César Cardadeiro (Lipe)Divana Brandão (Márcia)Cadu Fávero (Anderson)Erom Cordeiro (Carlão)Roney Villela (Mark)Lívia de Bueno (Lara)Bernardo Melo Barreto (Patrick)Emílio Orciollo Neto (Mouse)
Estreia: 4 de Maio de 2012
Duração: 96 min.
Curiosidade: O título do filme faz “referência ao livro homônimo de 1860 em que o poeta francês Charles Baudelaire descreve seus delírios sob efeito do ópio e do haxixe e advoga-os como meio para buscar um estado humano ideal” (FONTE: Revista Veja. Ed. 2268. Ano 45. N° 19. São Paulo: Abril, 09.05. 2012. p.163).

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Garoto da Bicicleta/Tão Forte, Tão Perto

                               Ausência Paterna

              A ausência paterna é o assunto que dá o tom tanto em O Garoto da Bicicleta (Bélgica, 2011) quanto em Tão Forte, Tão Perto (EUA, 2011). No primeiro caso, a negligência explica porque o protagonista deixa de gozar da companhia do genitor, não obstante as tentativas daquele nesse sentido; já no segundo exemplo, a tragédia da queda das torres gêmeas justifica a súbita perda do pai experimentada pelo personagem principal.
             Se as razões para o sofrimento são diferentes, as toadas assumidas por cada filme assim também são, visto que enquanto a produção belga opta por uma narrativa realista e fechada, portanto, a firulas e sentimentalismos, o título norte-americano envereda justamente por esse caminho ao abordar de forma piegas o drama daqueles que padecem ante as consequências dos atentados terroristas de onze de setembro.
             Tal disparidade de abordagens, vale dizer, deixa para Stephen Daldry um saldo obviamente negativo, afinal, resta inevitável pensar que caso investisse num viés semelhante ao manejado pelos irmãos Dardenne – que tal qual em A Criança (Bélgica, 2005) investigam com frieza as nuances de uma família disfuncional – o cineasta, por certo não desperdiçaria a oportunidade que teve em mãos de abordar com mais profundidade e, logo, dignidade uma ferida americana ainda tão aberta.
              Por fim, se alguma semelhança além do tema pode ser encontrada entre as obras, isto se deve ao trabalho de suas atrizes, pois de um lado Cécile de France exerce no título belga o contraponto perfeito a irritante – mas realista – performance do garoto Thomas Doret, ao passo que em Tão Forte, Tão Perto Sandra Bullock, pasmem, acerta ao entregar uma interpretação contida que, por isso, se mostra muito superior a sua oscarizada e superestimada participação em Um Sonho Possível (EUA, 2009).

COTAÇÕES:
O Garoto da Bicicleta - ۞۞۞        
Tão Forte, Tão Perto - ۞۞


Ficha Técnica – O Garoto da Bicicleta
Título Original: Le Gamin au Vélo 
Direção e Roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Produção: Andrea Occhipinti, Denis Freyd, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Elenco: Jasser Jaafari (Nabil)Charles Monnoyer (Brian)Thomas Doret (Cyril Catoul)Jérémie Renier (Guy Catoul) Laurent Caron (Gilles) Jean-Michel Balthazar (Le voisin Val Polet)Romain Clavareau (Logan)Selma Alaoui (Nadine)Egon Di Mateo (Wes)Fabrizio Rongione (Le libraire)Cécile De France (Samantha)Youssef Tiberkanine (Mourad)
Estreia no Brasil: 18.11.2011                Estreia Mundial: 18.05.2011
Duração: 87 min.

Ficha Técnica – Tão, Forte, Tão Perto
Título Original: Extremely Loud and Incredibly Close
Direção:Stephen Daldry            Produção:Scott Rudin
Roteiro:Eric Roth, Jonathan Safran Foer
Elenco:Thomas Horn  (Oskar Schell) Max von Sydow (Thomas Schell Sr.)Jeffrey Wright Viola Davis Tom Hanks (Thomas Schell Jr.)Sandra Bullock (Oskar's Mother)John Goodman James Gandolfini (Ron)Adrian Martinez (Ball Black)Reagan Leonard (Ashen Lady) Chloe Elaine Scharf (Business Woman's Daughter)Griffin Newman (Arden Black)
Estreia no Brasil: 24.02.2012            Estreia Mundial: 30.12.2011
Duração: 129 min.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um Sonho de Amor

          Camadas Não Exploradas

        Figurino, direção de arte e fotografia são elementos que primam pela elegância em Um Sonho de Amor (Itália, 2009); é de se lamentar, contudo, que o mesmo não possa ser dito de seu roteiro, afinal, pouco importa a falta de ineditismo de uma história de amor proibido quando o que de fato incomoda é a sensação do quão pouco exploradas foram as várias camadas de seus personagens, sobretudo, secundários.
        Dentro deste contexto, o longa-metragem não se furta de indicar que o tradicionalismo da família retratada não é superior aos desvios de conduta de seus integrantes, constatação essa que, infelizmente, não é aprofundada em razão da prevalência que é dada ao comportamento infiel da protagonista – a sempre ótima Tilda Swinton¹ – que mesmo gozando de preferência no roteiro não deixa de ser castrada pelo machismo deste ao ser violenta e drasticamente punida pela forma com que se entrega a tentação extramatrimonial.
        Na tentativa de atribuir frescor a um material essencialmente convencional, o diretor ainda lança mão de flashbacks sobre um possível passado nebuloso da personagem, o que somado a uma edição por vezes não linear torna atabalhoado o desempenho da narrativa, num desperdício de tempo que poderia ser melhor aproveitado se gasto, como já sugerido, com o elenco de apoio.
___________________________
1. A atriz “participou de todo o processo de produção de Um Sonho de Amor, até para a captação de recursos ela arregaçou as mangas” (FONTE: PREVIEW. Ed. 27. São Paulo: Sampa, Dezembro de 2011. p. 74).
 
COTAÇÃO: ۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Io Sono L’amore
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: Barbara Alberti, Ivan Cotroneo, Luca Guadagnino, Walter Fasano
Produtores:Alessandro Usai, Francesco Melzi d'Eril, Luca Guadagnino, Marco Morabito, Massimiliano Violante, Tilda Swinton
Elenco: Waris Ahluwalia (Sr. Kubelkian)Edoardo Gabbriellini (Antonio Biscaglia)Flavio Parenti (Edoardo Recchi Jr.)Martina Codecasa (Delfina)Tilda Swinton (Emma Recchi)Marisa Berenson (Allegra Recchi)Maria Paiato (Ida Roselli)Diane Fleri (Eva Ugolini)Pippo Delbono (Tancredi Recchi)Alba Rohrwacher (Elisabetta Recchi)Mattia Zaccaro (Gianluca Recchi)Gabriele Ferzetti (Edoardo Recchi Sr.)
Estreia no Brasil: 19 de Agosto de 2011
Estreia Mundial: 5 de Setembro de 2009
Duração: 120 min.