EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 29 de janeiro de 2012

Millennium/Os Homens que não Amavam as Mulheres

                         Filme Para Fãs?

               Ao que parece Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres (EUA, 2011) é um filme melhor aproveitado por quem já assistiu a versão sueca lançada em 2009 e, principalmente, por quem já consumiu os best-sellers escritos por Stieg Larsson. Explique-se: assim como as versões cinematográficas se equivalem em termos de irregularidade também se completam no que tange o aprofundamento de diferentes quesitos.
              Com efeito, ao passo que o longa-metragem sueco soa mais cru e virulento, a obra de David Fincher se esmera na tensão sexual entre os personagens – daí dar mais atenção, por exemplo, a personagem Erika Berger, praticamente ignorada no exemplar sueco. Por outro lado, enquanto no filme dirigido por Niels Arden Oplev prevalece uma total fidelidade ao material de origem, a adaptação hollywoodiana traz ligeiras mas substanciais alterações que, se não comprometem o todo, são suficientes para trair determinadas essências dos personagens – neste diapasão, resta deveras equivocada a confissão de Lisbeth Salander sobre seu passado nebuloso, opção essa que além de adiantar eventos oriundos do segundo livro da trilogia, ainda quebra a natureza originalmente reservada da personagem.
              Todos esses são fatores, como dito, melhor identificados por quem já se debruçou sobre as páginas de Larsson, daí que para tais pessoas talvez resulte mais fácil compreender as mencionadas irregularidades de ritmo das transposições cinematográficas, eis que, dentre os três livros, o primeiro é justamente aquele que de modo mais lento se impõe perante o leitor, dado o grande número de personagens e eventos distribuídos ao longo de inúmeras elipses temporais e espaciais. Considerando que a linguagem do cinema não detém o mesmo tempo de maturação da literatura, os exemplares fílmicos acabam se limitando enquanto o suspense que envolve o desaparecimento de uma pessoa, deixando, portanto, de explorar com mais afinco dois grandes temas reais que dialogam ao longo de todo o livro, quais sejam os crimes praticados contra as mulheres e as negociatas de investidores europeus com membros da máfia.
              Dentro deste contexto, além das equivalentes propostas estéticas – o que soou um tanto frustrante para quem esperava mais de um David Fincher aqui bastante anticlimático – ambos os filmes apresentam eficientes interpretações de Lisbeth Salander – a melhor personagem criada em décadas no universo literário -, saltando aos olhos, desta feita, a entrega de Rooney Mara e Noomi Rapace ao papel. Neste passo, se a versão sueca de Mikael Blomkvist ganhou um intérprete apático (Michael Nyqvist), a norte-americana coincidentemente comete o mesmo erro graças a escalação de Daniel Craig para o papel (eis o caso de se perguntar: por que não se lançou mão do óbvio, qual seja a escalação de George Clooney?).
              Por fim, cabe frisar que os dois suspenses dispõem de competentes trabalhos de montagem, o que no caso da obra de Fincher ganha ainda mais destaque em razão de uma banda sonora que entrecorta diálogos sem necessariamente mostrar suas fontes, administrando e condensando, assim, consideráveis frações da história.
              Aguardemos, então, as adaptações dos volumes dois e três da trilogia, visto que é nestes livros que se encontram as cerejas do bolo de Larsson.

COTAÇÕES:
Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres - ۞۞۞        
Os Homens que não Amavam as Mulheres - ۞۞۞۞

Ficha Técnica - Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres
Título Original: The Girl with the Dragon Tattoo
Direção: David Fincher
Roteiro: Steven Zaillian
Produção: Ceán Chaffin, Ole Søndberg, Scott Rudin, Søren Stærmose
Elenco: Joely Richardson (Anita Vanger)Joel Kinnaman (Christer Malm)Embeth Davidtz (Annika Blomkvist) Moa Garpendal (Young Harriet Vanger)Christopher Plummer (Henrik Vanger)Donald Sumpter (Detective Morell)Stellan Skarsgård (Martin Vanger)Steven BerkoffRobin Wright (Erika Berger)Yorick van Wageningen (Nils Bjurman)David Dencik (Young Morell)Bengt C.W. Carlsson (Holger Palmgren)Matthew Wolf (Tech Clerk)Julian Sands (Young Henrik Vanger)Goran Visnjic (Dragan Armansky)Rooney Mara (Lisbeth Salander)Arly Jover (Liv)Daniel Craig (Mikael Blomkvist)Geraldine James (Cecilia Vanger)Cate Montgomery (Lea Persson)
Música: Trent Reznor e Atticus Ross
Fotografia: Jeff Cronenweth
Direção de arte: Frida Arvidsson, Linda Jansson, Pernilla Olsson, Tom Reta, Kajsa Severin e Mikael Varhelyi
Figurino: Trish Summerville
Edição: Kirk Baxter e Angus Wall
Estreia no Brasil: 27 de Janeiro de 2012
Estreia Mundial: 21 de Dezembro de 2011
Duração: 158 min.
Curiosidades:
“Embora Fincher não esteja confirmado na direção, Mara e Craig já possuem contrato para atuarem nas versões hollywoodianas de A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar” (FONTE: http://www.adorocinema.com/colunas/millennium-os-homens-que-nao-amavam-as-mulheres-1335/).
“Pelo desempenho na trilogia sueca dando vida a Lisbeth Salander, a atriz Noomi Rapace chegou a ter uma campanha capitaneada por criticos, pedindo o seu retorno para o papel, mas ela mesma recusou a ideia, declarando insatisfação de repetir o mesmo personagem por três vezes nas mesmas histórias” (FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/millennium-os-homens-que-nao-amavam-as-mulheres/noticias-e-curiosidades/).

Ficha Técnica – Os Homens que não Amavam as Mulheres
Título Original: Män Som Hatar Kvinnor
Direção:Niels Arden Oplev
Roteiro: Nikolaj Arcel, Rasmus Heisterberg
Produção: Søren Stærmose,
Elenco: Linn Björlund (Young Anita Vanger)Georgi Staykov (Alexander Zalachenko) Reuben Sallmander (Enrico Giannini) Nina Norén (Agneta Salander) Michael Nyqvist (Mikael Blomkvist)Annika Hallin (Annika Giannini)Isabella Isacson (Monica Giannini)Lena Endre (Erika Berger)Peter Haber (Martin Vanger)Sven-Bertil Taube (Henrik Vanger)Willie Andréason (Birger Vanger) Margareta Stone (Birgit Falk)Marika Lagercrantz (Cecilia Vanger)Noomi Rapace (Lisbeth Salander)Fredrik Ohlsson (Gunnar Brännlund)Gösta Bredefeldt (Harald Vanger)Stefan Sauk (Hans-Erik Wennerström)David Dencik (Janne Dahlman)Peter Andersson (Nils Bjurman)Ingvar Hirdwall (Dirch Frode)Sofia Brattwall (Marie )Ewa Fröling (Harriet Vanger) Yasmine Garbi (Miriam Wu) Björn Granath (Gustav Morell)Laura Lind (Jennie Giannini)Jacob Ericksson (Christer Malm)Tehilla Blad (Young Lisbeth Salander)Julia Sporre (Young Harriet Vanger)Michalis Koutsogiannakis (Dragan Armanskij)Sofia Ledarp (Malin Erikson)Tomas Köhler ('Plague')Christian Fiedler (Otto Falk)Gunnel Lindblom (Isabella Vanger)
Música: Jacob Groth
Fotografia: Jens Fischer e Eric Kress
Direção de Arte: Niels Sejer (desenho de produção)
Figurino: Cilla Rörby
Edição: Anne Osterud
Estreia no Brasil: 23 de Outubro de 2009
Estreia Mundial: 27 de Fevereiro de 2009
Duração: 152 min.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pearl Jam Twenty




                           Justa Homenagem

                  Ao contrário de muitas biografias e filmes oportunistas que narram a “história” de celebridades momentâneas da música, a importância do Pearl Jam para o cenário musical internacional torna mais do que justo o registro cinematográfico de uma trajetória que já soma vinte anos. Dito isso, a roteirização e direção do projeto Pearl Jam Twenty (EUA, 2011) não poderiam estar em mãos melhores do que as de Cameron Crowe, eis que, além da óbvia intimidade com os assuntos abordados - dada sua anterior carreira como repórter musical -, o diretor traz em sua filmografia duas pérolas da junção rock e cinema, quais sejam os filmes Singles – Vida de Solteiro (EUA, 1992) e Quase Famosos (EUA, 2000).
                  Neste passo, PJ 20 resume em duas horas a história da banda desde seus primórdios em Seattle até os dias atuais quando, passados vinte anos, seus integrantes tiram lições dos acertos e erros acumulados com o tempo, realçando, por fim, que, independentemente dos percalços típicos de qualquer casamento, o grupo permanece seguindo em frente - tal como fala a música Alive, corretamente selecionada para encerrar o documentário.
                  Por isso, PJ 20 serve de aula introdutória para aqueles que desconhecem peculiaridades não só da banda como também da cena grunge que assolou a indústria da música nos anos 90 graças a contribuição tanto de Eddie Vedder e seus companheiros, quanto de Chris Cornell e seu Soundgarden, além, é claro, de Alice in Chains e Nirvana. E é fazendo um apanhado geral das circunstâncias espaciais e temporais ao longo de duas décadas que Cameron Crowe alcança seu objetivo maior: demonstrar como, apesar de ainda hoje se mostrarem intimidados e pressionados pela fama, Vedder e os demais membros do Pearl Jam não se esfacelaram enquanto grupo tal como ocorreu com a maioria dos artistas grunges. 
                  Assim, o documentário revela que a persistência da banda não se dera de forma tranqüila nem formatada, uma vez que os músicos jamais se eximiram de enfrentar e de dizer não as regras e exigências do mercado fonográfico e audiovisual, daí que a forma incomum e estranha com a qual sempre lidou com o sucesso fez do Pearl Jam uma das poucas bandas capazes de manter, com dignidade, um pé no mainstream e outro no universo alternativo de origem¹, o que, por certo, contribui para que o grupo mantenha seus fãs de outrora e angarie novos a cada turnê e/ou álbum novo.
                  Considerando que os componentes da banda não possuem a menor intenção de se portar como rock stars – embora Eddie Vedder seja assim visto por muitos – Cameron Crowe os entrevista, de maneira isolada, sem a intenção de obter revelações bombásticas e/ou histórias encenadas. Ato contínuo, a sobriedade atual dos músicos é posta em contraponto com imagens de arquivo de shows, principalmente de início de carreira, nos quais fúria e energia eram despejados sobre a plateia.
                  Desta feita, as imagens reunidas trazem mostras:
- do comportamento da banda nos palcos, tanto no passado quanto no presente²;
- da integração dos músicos quando os primeiros passos rumo ao estrelato eram dados.
                 Isto posto, falta a Pearl Jam Twenty revelar como se dá a convivência dos músicos hoje em dia, afinal, da forma como fora concluído, restou pouco palpável a amizade entre os mesmos. Problema de agenda, solicitação da própria banda ou opção estética do diretor? A resposta pouco importa para o fã já acostumado com as esquisitices de seus ídolos, mas pesa para o crítico incomodado com a carência de um elemento humano fundamental ao longa-metragem.
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1.Outro exemplo, neste diapasão, é encontrado na figura do Radiohead.
2.Apesar de o processo natural de envelhecimento dos músicos ter tornado suas apresentações mais comedidas, o mesmo não se pode dizer de canções cujas pancadas continuam tão fortes quanto a época de Ten – primeiro álbum lançado pela banda.


COTAÇÃO - ۞۞۞

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Cameron Crowe
Produção: Andy Fischer, Cameron Crowe, Kelly Curtis, Morgan Neville
Fotografia: Nicola Marsh
Edição: Kevin Klauber e Chris Perkel
Estreia no Brasil: 20.09.2011
Duração: 119 min.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Cavalo de Guerra

                                                           A Violação do Maravilhoso

                             Para o cineasta francês Jean Cocteau, o artista do cinema:

                                       jamais abandona a intenção geral de acolher o poético. [...] O mais 
                                       importante, sem dúvida, aquilo em que não deixa de insistir, é a 
                                       confiança no mundo como reserva do maravilhoso: a poesia, o 
                                       maravilhoso, não são produzidos pelo artista nem pela arte, são
                                       descobertos e veiculados. O artista é aquele que sabe reconhecer
                                       essa brecha que se abre inesperadamente.¹

                             Nitidamente intencionado a ser uma homenagem a época de ouro do cinema hollywoodiano, Cavalo de Guerra (EUA, 2011) possui uma clara estrutura em torno de sequências minuciosamente pensadas - quanto a enquadramento, iluminação e música - para gerar emoção nos espectadores.
                   Ocorre, porém, que tudo é tão deliberado, tão plasticamente fabricado que, ao invés de tocar, o filme só consegue aborrecer. Neste sentido, o teor poético, maravilhoso do qual Cocteau falava não advém aqui de uma fenda surgida de modo inesperado, sendo, na verdade, pretensamente produzida por Steven Spielberg que, assim, dispara um tiro no pé ao insistir em maneirismos piegas que só contribuem para tornar vazia a experiência.
                   Tecnicamente o longa-metragem pode lograr méritos em sua fotografia, como outrora sugerido, virtude essa que, entretanto, detém uma capacidade ínfima de salvar um projeto equivocado desde sua intenção de origem, qual seja sensibilizar o público através da manipulação, isto é, por meio da narração do drama um pobre animal que, além de forçado a superar limites, chega vencedor ao fim de sua jornada.
                    Essa zona de conforto de formatos pré-concebidos é o que, vale ressaltar, tem maculado a filmografia de Spielberg; afinal, foram poucas nas últimas décadas as apostas mais arriscadas e diversificadas feitas por ele, o que é uma pena eis que quando assim experimenta, o diretor não raro atinge bons resultados, conforme atestam, por exemplo, A Lista de Schindler (EUA, 1993), Prenda-me Se for Capaz (EUA, 2002) e Munique (EUA, 2005) .
                    Visto que esta é uma tendência não muito indicada para se ter como expectativa, resta a esperança de que após trabalhar com ETs, tubarões, dinossauros e cavalos, Spielberg resolva ter como protagonista de um futuro filme para a família o marreco sem nome que rouba para si todas as cenas nas quais aparece em Cavalo de Guerra. Taí o único personagem digno de destaque em um épico marcado por tipos insossos e não raro irritantes.
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1.AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Campinas: Papirus, 2004. p. 151.

COTAÇÃO - ۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: War Horse
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Bridget Lee Hall, Richard Curtis baseados no livro de Michael Morpurgo
Produção: Adam Somner, Frank Marshall, Revel Guest, Steven Spielberg
Elenco: Leonard Carow (Michael)Rainier Bock (Brandt)Patrick Kennedy (Tenente Waverly)David Kross (Gunther)Niels Arestrup (Avô)Tom Hiddleston (Capitão Nichols)Stephen Graham (Sargento Sam Perkins)Pip Torrens (Major Tompkins) Rainer Bock (Brandt)Benedict Cumberbatch (Major Stewart)David Thewlis (Lyons)Emily Watson (Rose Narracott)Peter Mullan (Ted Narracott)Celine Buckens (Emilie)Geoff Bell (Sgt. Sam Perkins)Robert Emms (David Lyons) Eddie MarsanToby Kebbell (Geordie)Jeremy Irvine (Albert)Nicolas Bro (Friedrich)
Música: John Williams
Fotografia: Janusz Kaminski
Direção de Arte: Andrew Ackland-Snow, Alastair Bullock, Molly Hughes, Kevin Jenkins, Neil Lamont e Gary Tomkins
Figurino: Joanna Johnston
Edição: Michael Kahn
Estreia no Brasil: 6 de Janeiro de 2012
Estreia Mundial: 28 de Dezembro de 2011
Duração: 146 min.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Caminho da Liberdade


Mediano

Caminho da Liberdade (EUA, 2010) constitui mais um dentre os inúmeros casos de filmes que prometem mais do que cumprem, eis que expectativas não faltavam para esta saga de sobrevivência de proporções épicas¹, dirigida pelo celebrado Peter Weir e composta por um elenco de nomes consagrados como Ed Harris, Colin Farrell e Saoirse Ronan.
Tantos elementos favoráveis, entretanto, não impedem a sensação de que, embora correto sob uma ótica panorâmica, o longa-metragem apresenta deficiências difíceis de serem relevadas, senão vejamos:
A princípio, o tom contido e não raro frio com que o drama é abordado não deve ser estranhado, eis que esta é uma característica comum a outras obras de Weir como, por exemplo, O Ano que Vivemos em Perigo (EUA, 1982), O Show de Truman (EUA, 1998) e Mestre dos Mares (EUA, 2003) aspecto esse que, de qualquer forma, torna a narrativa carente de alguns momentos emblemáticos mas estranhamente ‘saltados’².
Ademais, apesar de ao todo serem oito os andarilhos que rumam em busca da liberdade, não há um tratamento igualitário de suas personalidades e aflições, afinal, enquanto para metade dos personagens é dada considerável atenção – em razão das estrelas que os interpretam – outra metade fica relegada a uma função que não pode nem mesmo ser compreendida como coadjuvante, tamanho o descaso para com eles manifestado.
Como outrora dito, não obstante as visíveis falhas de condução apresentadas,  Caminho da Liberdade consegue, por fim, se impor como o típico programa de cotação mediana, o que, convenhamos, constitui um trunfo garantido, sobretudo, pela eficiente direção de fotografia e pelo correto trabalho de Jim Sturgess aqui escalado para liderar um time de atores reunidos em condições climáticas deveras adversas.
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1.     “A trama é inspirada no romance The Long Walk: The True Story of a Trek to Freedom, do polonês Slavomir Rawicz. Nunca se provou a veracidade do relato, um mero detalhe para Weir que tomou a fonte como ponto de partida da narrativa ficcional” (FONTE: Preview. Ed. 19. São Paulo: Sampa, Abril de 2011. p. 45.
2. Daí porque soa estranho a forma abrupta como a fuga do gulag é encenada. Neste sentido, uma vez desinteressado na ação e no suspense inerentes a escapada da prisão, Weir abre mão da tensão concernente a um aspecto crucial da trama.

 COTAÇÃO۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: The Way Back
Direção: Peter Weir
Roteiro: Keith R. Clarke, Peter Weir, baseado em livro de Slavomir Rawicz
Elenco: Anton Trendafilov (Steam Man)Dragos Bucur (Zoran)Saoirse Ronan (Irena)Jim Sturgess (Janusz)Ed Harris (Mr. Smith)Gustaf Skarsgård (Voss)Mark Strong (Khabarov)Alexandru Potocean (Tomasz)Stanislav Pishtalov (Commandant)Sebastian Urzendowsky (Kazik) Irinei Konstantinov (Janusz - 1989) Meglena Karalambova (Janusz's Wife - 1989) Sally Edwards (Janusz's Wife - 1939)Colin Farrell (Valka)
Música: Burkhard von Dallwitz
Fotografia: Russell Boyd
Direção de Arte: Kes Bonnet
Figurino: Wendy Stites
Edição: Lee Smith
Estreia no Brasil: 13 de Maio de 2011
Duração: 133 min.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Bonequinha de Luxo/Disque Butterfield 8

Cinema Super e Subestimado

um paradigma, por ter sido substituído, não perde a sua validade científica, ele apenas deixa de ser utilizado, cai em desuso. Em arte (...) a obra não deixa de ter valor por ter sido executada sob perspectivas passadas. A diferença (...) é que em ciência o pesquisador descarta mais rapidamente a sua história, os paradigmas são substituídos e esquecidos mais rapidamente. O referencial histórico tem, nesse sentido um valor menor, enquanto em arte esse valor histórico é de suma importância, sendo fundamental para a formação de qualquer artista”¹


Considerado um marco do romantismo no cinema, Bonequinha de Luxo (EUA, 1961) ditou moda e estabeleceu um ícone na filmografia de Audrey Hepburn, qual seja a sofisticada, mas fútil Holly Golightly. Passados mais de cinqüenta desde seu lançamento, o filme permanece tanto reunindo legiões de fãs quanto gozando de prestígio entre os críticos, circunstância essa que enseja o seguinte questionamento: é merecido ainda hoje tamanho sucesso?
Por certo não, afinal, se as suavizações ao romance de Truman Capote poderiam ser necessárias em 1961 - época em que o aspecto comportamental da sociedade americana ainda estava atrelado aos bons costumes da década anterior; quando, portanto, a revolução sexual e a contracultura das drogas ainda eram realidades distantes -, hoje a superficialidade com que a história original é abordada depõe imensamente contra o produto final.
Neste sentido, embora um certo ar de ambigüidade flutue pelo longa-metragem no que diz respeito as formas com que o casal de protagonistas garante seu sustento,  tal sugestão, vale dizer, é sempre amenizada através das inserções ora de cenas de puro pastelão ora por diálogos moralistas indicando peso na consciência dos personagens.
Desta feita, a prostituta e o gigolô nunca se assumem como tais, preferindo, assim, a imagem de meros receptores de favores financeiros, o que, infelizmente faz com que
- os conflitos soem rasos;
- as motivações para as mudanças resultem pouco convincentes.
Assim, tudo é arquitetado para tornar a experiência palatável a um gosto mediano e pouco interessado em polêmicas², daí a toada infantilóide da direção de Blake Edwards.
 Logo, é possível concluir que Bonequinha de Luxo mantém uma relevância estética que, infelizmente, não encontra correspondência quanto a seu conteúdo, isso porque é inegável o abismo de diferença qualitativa entre a obra e, por exemplo, o hoje esquecido Disque Butterfield 8 (EUA, 1960) que, abordando semelhante tema, compõe um retrato denso e adulto sobre a vida de uma garota de programa no que tange os reflexos psicológicos, familiares e afetivos da profissão.
Não fosse o bastante os diferentes tratamentos dados ao tema em termos de roteirização e direção, a distância entre projetos a princípio tão próximos quanto ao assunto abordado é acentuada em razão das diametralmente opostas interpretações de suas respectivas atrizes, visto que, ao contrário da interpretação abobalhada e fofinha de Audrey Hepburn, Butterfield 8 conta com a exuberante e melancólica performance de Elizabeth Taylor - laureada na ocasião com seu primeiro Oscar.
Apesar de lançado apenas um ano antes de Bonequinha de Luxo, Disque Butterfield 8 não fincou seus pés no passado como aquele, optando, desse modo, por olhar para frente e apostar nas reviravoltas sociais que o futuro traria logo adiante. Eis o injusto caso de obras, respectivamente, super e subestimadas.
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1.ZAMBONI, Sílvio. A Pesquisa em Arte: Um Paralelo Entre Arte e Ciência. São Paulo: Autores Associados, 1998. P. 36-7.
2.“No romance [original], Holly (...) tem, por exemplo, uma ‘aventura’ com outra mulher. Os produtores do filme acharam que tais atributos não eram apropriados à imagem de Hepburn e esses foram, então, omitidos” (FONTE: 501 Filmes que Merecem Ser Vistos. São Paulo: Larousse do Brasil, 2009. P. 299.

COTAÇÕES:
Bonequinha de Luxo - ۞۞        
Disque Butterfield 8 - ۞۞۞۞

Ficha Técnica – Bonequinha de Luxo
Título Original: Breakfast at Tiffany's
Direção: Blake Edwards
Produção: Martin Jurow e Richard Shepherd
Roteiro: George Axelrod
Elenco: Darryl Alan Reed (Sally Tomato) Audrey Hepburn (Holly Golightly) Beverly Powers (Miss Beverly Hills)Annabella Soong (Chinese Party Guest)Helen Spring (Party Guest)Dorothy Whitney (Mag Wildwood) Stanley Adams (Rusty Trawler) Joseph J. Greene (Mr. O'Shaunessy) Claude Stroud (Sid Arbuck)Patricia Neal (2-E (Mrs. Failenson))Buddy Ebsen (Doc Golightly)Martin Balsam (O. J. Berman)Mickey Rooney (Mr. Yunioshi) George Peppard (Paul 'Fred' Varjak)
Música: Henry Mancini
Fotografia: Franz Planer e Philip H. Lathrop
Direção de Arte: Roland Anderson e Hal Pereira
Figurino: Hubert de Givenchy e Pauline Trigere
Edição: Howard A. Smith
Estreia Mundial: 13.11.1961
Duração: 115 minutos

Ficha Técnica – Disque Butterfield 8
Título Original: Butterfield 8
Direção: Daniel Mann
Roteiro: John Michael Hayes e Charles Schnee, baseado em livro de John O'Hara
Produção: Pandro S. Berman
Elenco: Elizabeth Taylor, Laurence Harvey, Eddie Fisher, Dina Merrill, Mildred Dunnock, George Voskovec, Susan Oliver, Kay Medford, Jeffrey Lynn, Betty Field
Fotografia: Charles Harten e Joseph Ruttenberg
Direção de Arte: George W. Davis e Urie McCleary
Edição: Ralph E. Winters
Figurino: Helen Rose
Estreia Mundial: 04.11.1960
Duração: 109 min.