EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 9 de junho de 2012

Coleção Chico Buarque - Vol. 8 - O Futebol

     História, Memória e Lorota

              Em Chico Buarque – O Futebol (Brasil, 2006) o músico e escritor demonstra, para quem ainda possa duvidar, que de fato possui um Q.I. superior ao do resto dos mortais quando numa fala descompromissada revela que o belo e viciante hino do Politheama, o time de futebol por ele fundado, fora criado para embalar as partidas que a agremiação disputava quando ainda era apenas um time de futebol de botão. Uma brincadeira portanto, mas feita com absoluta maestria.
             Esse é apenas um dos muitos ‘causos’ contados por Chico num documentário que funde a memória futebolística do artista com a própria história do esporte. Por isso, o que se vê é um relato na medida do possível imparcial que ao invés de se restringir a fatos envolvendo o Fluminense, time pelo qual torce o cantor e compositor, abrange lembranças seja dos tempos áureos do Santos de Pelé, seja da trágica derrota do Brasil para o Uruguai no Maracanã, seja dos bad boys que ao longo das décadas passaram pelos gramados.
              Desse modo, o filme não pretende servir de associação entre a produção musical do artista e o esporte - já que o próprio Chico adianta que além do já mencionado hino compôs somente mais uma música em que o assunto estrito era o futebol - mas sim de tornar compreensível a importância e o fascínio que a prática difundida por Charles Miller¹ exerce na vida de Chico Buarque de Hollanda.
              Para tanto, o documentário percorre duas rotas paralelas sendo uma aquela em que Chico é entrevistado e outra aquela em que assume, ainda que timidamente, o papel de entrevistador quando encontra craques do passado, como o ídolo Pagão e o rei Pelé, e do presente representado pelo hoje defasado Ronaldinho Gaúcho².

              Em meio a tudo isso, Chico ainda encontra espaço para falar das peladas jogadas em campos nacionais e internacionais³, o que inclui as conversas de boleiro acerca de glórias deveras suspeitas de seu Politheama, aspecto esse que, aliás, denota o grande trunfo do filme: o senso de humor. Ouvir as histórias de Chico Buarque é como estar em uma mesa de bar com um amigo que trata o assunto futebol com a merecida seriedade mas que também não se furta de volta e meia inventar alguma lorota sobre o tema.              
             Com tantas coisas para tratar, não é de estranhar que este seja um dos volumes de maior duração da coleção, o que ainda assim é pouco tendo em vista que o bate-papo é daquele tipo pelo qual se torce para não ter fim – frustração essa que quando ocorre é aliviada com o também interessantíssimo material extra que acompanha o DVD.
             Considerando que a dobradinha cinema e futebol não possui muitos motivos para gerar orgulho – se é que existe algum título, nesse sentido, digno de nota – não deixa de ser curioso que um documentário feito para TV acabe suprindo essa lacuna. É gol do Chico!
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1. Alguns “historiadores contestam o pioneirismo de Charles Miller na história do futebol brasileiro, argumentando e apresentando documentação como prova de que o esporte mais popular do Brasil já era praticado no país antes da volta do famoso futebolista brasileiro da terra de seus antepassados. O escocês Thomas Donohoe teria sido o primeiro a promover uma partida de futebol no país” (FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Miller. Acesso em 09.06.2012).
2. Se com os dois primeiros o encontro resulta espontâneo – com direito até a dueto musical entre Chico e Pelé – a reunião com o atleta de Porto Alegre revela homens acanhados que, porém, manifestam admiração mútua não obstante as diferenças de tempo e espaço que os separam.
3. Não “foram poucas as vezes que ele [Chico] já se atreveu a mostrar seu dito talento como jogador “peladeiro”. Uma dessas vezes, aconteceu em 2006, na Copa da Alemanha quando ele integrou uma equipe de músicos e escritores brasileiros que jogou contra um combinado de jornalistas alemães. O jogo fez parte da Copa da Cultura, evento organizado pelo Ministério da Cultura brasileiro” (FONTE: http://www.literaturanaarquibancada.com/2011/12/bola-e-o-moleque-o-moleque-e-bola.html. Acesso em 09.06.2012).




Ficha Técnica
Direção: Roberto Oliveira
Produção: André Arraes e Jorge Saad Jafet
Fotografia: João Wainer
Edição: André Wainer
Duração: 76 min.

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