EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Melhores de 2011


Para qualquer cinéfilo final de ano é sinônimo de lista do que melhor fora visto nos cinemas ao longo dos meses. Pensando nisso, o espaço, pelo segundo ano consecutivo, publica o seu rol dos principais filmes exibidos em 2011 nos circuitos comercial/alternativo da cidade de Belém. Vamos aos títulos:

01. Cisne Negro
Natalie Portman, Mila Kunis e Vincent Cassel se juntam a Darren Aronofsky para compor a mais importante obra do diretor desde Réquiem Para um Sonho. Arrebatador!

02. A Fita Branca
Apesar do atraso na chegada aos cinemas de Belém, A Fita Branca garante a vice liderança graças ao trabalho de Michael Haneke que aqui investiga as origens e razões do mal numa obra instigante e provocativa.

03. Cópia Fiel
Arte e realidade se misturam em discussão a respeito do valor da cópia seja do ponto de vista intelectual, seja sob a ótica das relações humanas. O espectador, dentro deste contexto, é agraciado com o brilhante roteiro de Abbas Kiarostami e a excelente performance de Juliette Binoche.

04. Um Lugar Qualquer
Sofia Coppola lança mão, mais uma vez, de uma toada minimalista para o tratamento de um drama que, desta vez, tem muito a ver com sua própria história. Sutilmente belo.

05. 127 Horas
A emocionante história do alpinista Aron Ralston ganha uma competente versão cinematográfica graças a inteligente direção de Danny Boyle e ao sensível trabalho de James Franco. Eis o tipo de filme que em outras mãos poderia ter um resultado desastroso.

06. Namorados Para Sempre
Um retrato maduro e cru sobre um relacionamento a dois. Altos e baixos, momentos de ternura e de puro egoísmo são encenados com sinceridade neste pequeno grande filme de Derek Cianfrance.

07. A Pele que Habito

Eis que Almodóvar mais uma vez surpreende ao realizar uma obra de gênero que, nas entrelinhas, revela um retorno do diretor para seu antigo modo de fazer filmes. Bizarro, sensual e imperdível.

08. A Árvore da Vida

Eficiente em sua pretensão, Terrence Mallick leva ao limite a interação homem-natureza ao relacionar a história do núcleo central de personagens com o próprio surgimento e extinção da vida.

09. O Palhaço
Selton Mello prova que seu talento enquanto diretor não ficara limitado a Feliz Natal, realizando aqui um trabalho primoroso em sua técnica e delicioso em seu conteúdo.

10. Melancolia
O fim do mundo arquitetado por Lars Von Trier serve de moldura para os dramas de personagens interpretados por um grande elenco no qual se incluem Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, Udo Kier, Stellan Skargård e John Hurt.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A Pele que Habito


Retorno as Origens

O cinema de Pedro Almodóvar é dividido em duas fases, sendo a primeira composta por obras kitsch, espalhafatosas, nas quais o escracho ditava o tom de histórias bizarras e carregadas de erotismo, como é o caso, por exemplo, de Matador (1986) e Kika (1994). Já a partir de A Flor do Meu Segredo (1995), a atividade do espanhol sofreu uma inversão de predominâncias, daí o melodrama passar a ser a bola da vez em filmes como Fale com Ela (2002) e Abraços Partidos (2009), produções essas que embora ainda trouxessem uma ou outra das excentricidades típicas do diretor, se portavam em grande parte do tempo como trabalhos deveras sisudos.
Após uma fracassada tentativa de retorno àquele universo inicial de sua carreira – qual seja o fraco Volver (2006) – eis que Almodóvar, através de A Pele que Habito (Espanha, 2011), finalmente retorna, em excelente forma, para aquele estilo de narrativa que lhe fora tão peculiar e que lhe alçara ao sucesso de público e crítica.  Dentro deste contexto, após décadas sem filmar com Antonio Banderas, o cineasta recruta, não a toa, o ator símbolo daquele período para protagonizar o longa-metragem, escolha essa que se mostra bastante acertada eis que, além de cair como uma luva na pele um médico à la Dr. Frankestein, as fraquezas de seu personagem ainda estimulam uma prazerosa lembrança para com o seqüestrador também por ele interpretado em Ata-me! (1990).
Quanto ao roteiro¹, cabe dizer que A Pele que Habito denota sim algumas pontas soltas, escorregões esses que, entretanto, não diminuem o brilho de um conteúdo, em sua completude, tão perverso quanto Oldboy (Coréia do Sul, 2003) e tão sexy quanto Instinto Selvagem (EUA, 1992). Neste sentido, amor e morte caminham lado a lado numa trama que além de fomentar relevantes reflexões sobre bioética, ainda revela um senso de humor que a primeira vista pode até parecer involuntário ou deslocado, mas que, na verdade, fora deliberadamente pensado para tornar a experiência ainda mais incorreta e amoral².
Não obstante suas diversas qualidades, A Pele que Habito tem sido incorreta e surpreendentemente subestimado pela crítica especializada que não tem comprado a idéia do filme ser, também, uma espécie de incursão de gênero do cineasta espanhol, mais especificamente pelo terror. Tal recepção, vale dizer, representa um injusto passo atrás na carreira de um profissional tão acostumado a receber prêmios e elogios; tomara que essas opiniões não sejam relevantes ao ponto de fazê-lo novamente abandonar seu antigo modo de fazer filmes.
___________________________
1.Como sabido, o roteiro foi reescrito nove vezes.
2.Imprevisível e impactante em reviravoltas cuidadosamente musicadas, A Pele que Habito apresenta, por fim, um happy end ao melhor estilo Almodóvar, tamanha a malícia com que o absurdo é tratado.

COTAÇÃO - ۞۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: La Piel que habito
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar, baseado no livro Tarantula de Thierry Jonquet
Música: Alberto Iglesias
Fotografia: José Luis Alcaine
Direção de Arte: Carlos Bodelón
Figurino: Paco Delgado
Edição: José Salcedo
Estreia no Brasil: 4 de Novembro de 2011
Estreia Mundial: 17 de Agosto de 2011
Duração: 117 min.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Os 3


Dupla Frente de Batalha

Dentre tantas produções já realizadas sobre a história de um triângulo amoroso, Os 3 (Brasil, 2011) se impõe como uma espécie de versão nacional do noventista Três Formas de Amar, (EUA, 1994) dado seu inegável foco no público jovem¹. Neste passo, Nando Olival lança mão de sacadas espertas como meio de atribuir certo ineditismo a trama, daí ser inserido entre as complicações amorosas do trio de protagonistas um enredo sobre a perda de privacidade e de identidade em tempos de reality shows, aspecto esse no qual o diretor logra êxito de em determinados momentos borrar com eficiência a fronteira entre ficção e realidade.
É certo que o longa-metragem poderia ser mais denso em suas duas frentes de batalha (amor/sexualidade e exposição da intimidade), porém, resta nítido que a intenção aqui não fora compor um ‘filme cabeça’, mas sim um programa que de modo inteligente resultasse atraente para uma platéia que transita entre o fim da adolescência e início da vida adulta, tarefa essa, frise-se, cumprida com mérito graças a maneira sincera com que tal faixa etária é retratada².
Por fim, merece ser destacado o trabalho da atriz Juliana Schalch, que com sua beleza e talento, agrega a obra o tom sexy e cool pretendido pelo roteiro; fiquemos de olho nela...
___________________________
1.     Dentro deste contexto, Nando Olival presta homenagem ao principal filme já feito sobre o tema, Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois (França, 1961), ao inserir uma rápida cena em tributo àquele, qual seja a disputa de corrida entre os três enamorados.
2.     Daí as rodas de conversa embaladas por sucos e vitaminas – ao estilo Malhação – abrirem espaço para bate papos norteados pela divisão de baseados e garrafas de vodka barata.

COTAÇÃO - ۞۞۞

Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Nando Olival
Produção: Nando Olival e Ricardo Della Rosa
Música: Ed Cortês
Fotografia: Ricardo Della Rosa
Direção de Arte: Clô Azevedo
Edição: Daniel Rezende
Duração: 80 min
Curiosidades:
“Apesar de estar pronto desde novembro de 2009, apenas chegou ao circuito comercial em 11 de novembro de 2011”. Neste sentido, embora tenha “sido lançado em circuito antes, Juliana Schalch rodou Tropa de Elite 2 (2010) após o término das filmagens de Os 3” (FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/os-3/noticias-e-curiosidades/).
“Nando Olival é também o diretor de ‘Eduardo e Mônica’, campanha publicitária que fez muita gente acreditar que se tratava na verdade de um longa-metragem (FONTE: http://www.adorocinema.com/colunas/entrevista-os-3-1275/).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Melancolia


Ao Gosto do Freguês

I – Parte Um: Justine

Na autobiografia ‘Mutações’, a atriz Liv Ullmann assim escreve sobre seu relacionamento com Ingmar Bergman na ilha de Fårö:
“Certa vez, nós nos afastamos dos outros e descobrimos uma pequena crista de pedras cinzentas com terra árida, estéril, do outro lado. Ficamos lá sentados, olhando o mar, pela primeira vez completamente parado, ao sol.
(...)
No lugar onde nos sentávamos, ele construiu sua casa.
E aquilo mudou a sua vida. E a minha.
Da próxima vez em que vi a ilha, era inverno. (...) Nosso futuro lar estava sendo construído. Juntos, fomos vê-lo pela primeira vez. (...)
Alguém trouxera champanha e eu quebrei a garrafa, fizemos discursos e batizamos a casa.
Caminhamos pela praia, que só tinha pedras, e tiramos fotos um do outro. Eu pareço feliz em todas elas, mas sei que estava pensando: Isto é um sonho. Estou participando do sonho de outra pessoa.
E o que fora antes minha vida era irreal, estava distante”¹.
“O medo de magoar, o medo da autoridade, a necessidade de amor, colocaram-me em situações do maior desamparo. Suprimi meus próprios e vontades e, sempre ansiosa para agradar, fiz o que se esperava de mim”².

Em Melancolia (Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011) a personagem Justine - interpretada com brilhantismo por Kirsten Dunst - tanto experimenta sensações semelhantes as de Ullman, quanto passa por situação parecida com aquela acima transcrita – qual seja a cena em que a mulher é, na festa de seu casamento, surpreendida pelo marido com a notícia de que este no dia anterior comprara um pedaço de chão para o casal estabelecer sua morada.
Incapaz de manifestar alegria pela revelação que lhe fora confiada, pela festa que seu cunhado lhe proporcionara e pela promoção que seu patrão na mesma noite lhe concedera, Justine agoniza perante as expectativas e deveres que lhe são endereçados e acaba, desta feita, implementando a fuga aconselhada pela mãe e dada como exemplo pelo pai.

II – Parte Dois: Claire

Considerando que Melancolia se trata do filme apocalíptico de Lars Von Trier, cabe ao segundo capítulo da obra a tarefa de explorar o tema, o que é feito mediante a análise do comportamento de Claire, seja socorrendo a depressiva irmã Justine, seja controlando seu próprio pavor perante as pessimistas previsões envolvendo o fim do mundo.

III – Parte Três: Junção

Embora apresente uma inconteste desarmonia entre capítulos compostos por tramas tão distintas, Melancolia demonstra sim um elo condutor entre as partes, qual seja o viés psicológico de relações humanas que beiram o colapso; daí porque o aspecto catastrófico do extermínio da vida humana serve, na verdade, como moldura e também como ponto de referência para a alteração de comportamentos perante o fim iminente³-.
Neste diapasão, o desenvolvimento do roteiro pode parecer arrastado para aqueles que se identificam com as toadas mais contundentes e radicais de outros filmes de Trier como Dogville (2003) e Anticristo (2009), fração de público essa que, entretanto, pode se deleitar com:
·      a incrível beleza plástica do prelúdio – cuja semelhança para com Anticristo, quanto a técnica, salta aos olhos;
·      a delicada composição da sequência final que, mesmo de forma pessimista, denota um quê de redenção para os personagens;
·      o exímio trabalho de fotografia que, mesmo limitado a poucos cenários e locações, logra o êxito de causar um constante impacto visual;
·      a eficiente união de imagem e som, neste caso representado por um vigoroso naipe de músicas clássicas;
·       a possibilidade de ver um elenco com estrelas do porte de Kirsten Dunst, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, Udo Kier, Stellan Skargård e John Hurt contracenando em cenário e contexto que deixariam orgulhosos cineastas como Robert Altman e Ingmar Bergman;
·      Charlotte Gainsbourg que, com a competência que lhe é rotineira, interpreta um papel que remete ao de seu parceiro de cena em Anticristo, Willem Dafoe.
Dito isso, a escolha sobre o que há de melhor no longa-metragem fica, por fim, ao gosto do freguês.
__________________
1.  Mutações. 10ª ed.Rio de Janeiro: Nórdica. p. 101-2.
2.  Op. Cit. p. 133.
3. Graças a essa circunstância, os fracos se tornam fortes e vice-versa.
4. Não à toa Lars Von Trier revela desde o sensacional prólogo o fim que sua história terá, o que afasta ainda mais sua obra de outras de igual tema que, de maneira diversa, fazem suspense com a possibilidade de devastação da Terra.

COTAÇÃO۞۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Melancholia
Direção e Roteiro:Lars Von Trier
Elenco:John Hurt (Dexter)Alexander Skarsgård (Michael)Charlotte Gainsbourg (Claire)Stellan Skarsgård (Jack)Charlotte Rampling (Gaby)Cameron Spurr (Leo)Kiefer Sutherland (John)Jesper Christensen (Little Father)Brady Corbet (Tim)Udo Kier (Wedding planner)Kirsten Dunst (Justine)
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Direção de Arte: Simone Grau
Figurino: Manon Rasmussen
Edição: Molly Marlene Stensgaard e Morten Hojbjerg
País de Origem: Dinamarca
Estreia no Brasil: 5 de Agosto de 2011
Estreia Mundial: 27 de Maio de 2011
Duração: 130 min.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Film Socialisme


Godard: O Avesso da Obsolescência

Em Film Socialisme (França/Suíça 2010) Jean-Luc Godard utiliza a tecnologia digital para compor algo que mais parece uma versão estendida de um trabalho de vídeo arte do que um exemplo de produção cinematográfica propriamente dita. Neste sentido, o diretor francês continua escrevendo com a câmera, leia-se: radicalizando quanto a forma imagética em primazia do texto. Por isso, a narrativa inexiste e os personagens são relegados a mera função discursiva, isto é, de leitura das linhas do ‘roteiro’ – o que explica porque atores aparecem quase que sempre com seus rostos envoltos em penumbra.
Não fosse o bastante, Godard:
·   pratica uma espontânea mutilação de seu longa-metragem ao impedir a atribuição de legendas integrais para as narrações e diálogos falados em francês e alemão, o que revela uma anárquica intenção de tornar o filme, sob o aspecto da lingüística, uma verdadeira torre de Babel ou até, talvez, um utópico desejo de comunicação universal capaz de extravasar as fronteiras da língua - hipótese essa, convenhamos, menos provável face o caráter iconoclasta do artista.
·   como de costume, abre mão de uma conexão cristalina entre as partes, obrigando o espectador a primeiro intelectualizar acerca do que é mostrado para, em seguida, estabelecer uma junção lógica e/ou sensorial do material para, assim, se for o caso, travar uma relação emocional com a obra.
Quanto ao conteúdo de suas idéias, Godard pode, em tempos tão cínicos, parecer datado para alguns ou, de maneira contrária, pode para outros soar como uma ainda relevante voz de protesto contra instituições e convenções de todas as espécies. De qualquer forma, compreendendo/concordando ou não, (com) aquilo que fora por ele filmado, é inconteste que o tempo não serviu para torná-lo obsoleto, uma vez que mesmo aos 80 anos de idade o cineasta permanece provocando e gerando polêmica acerca da natureza e da função do cinema, o que, por certo, constitui um grande préstimo contra o engessamento da atividade cinematográfica.
COTAÇÃO: ۞۞۞
Ficha Técnica
Direção e Roteiro: Jean-Luc Godard
Produção: Ruth Waldburger
Fotografia: Fabrice Aragno e Paul Grivas
Estreia no Brasil: 3 de Dezembro de 2010
Duração: 101 min.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Amanhã Nunca Mais


Passo Maior que as Pernas

Amanhã Nunca Mais (Brasil, 2011) é dotado de inúmeras referências, dentre as quais saltam aos olhos: a cena de abertura ao estilo Um Dia de Fúria (EUA, 1993), a trama de percalços ao longo de uma noite também vista em Depois de Horas (EUA, 1985) e o protagonista passivo que pressionado por situações extraordinárias explode em fúria e violência tal como o personagem de Dustin Hoffman em Sob o Domínio do Medo (EUA, 1971).
O problema, dentro deste contexto, reside na falta de personalidade própria do título brasileiro que, por sua vez, acaba perdendo a oportunidade de ser um interessante estudo sobre comportamentos alterados pelo sufocamento de uma metrópole para, assim, se contentar com a apresentação de um festival de tipos caricatos em meio a situações absurdas.
Não fosse o bastante, o diretor Tadeu Jungle opta por entregar tudo mastigado ao espectador - ignorando, portanto, palavras como síntese e sugestão¹ - através do esteio de uma trilha sonora insistentemente moldada para conduzir as reações do público, o que, convenhamos, é lamentável, visto que apesar de contar com efeitos sonoros extremamente bem editados, a música tão presente em cada cena serva apenas para tornar a experiência um enfado.
Dito isso, embora não se trate, ainda bem, de um filme de longa duração, o que fica é a impressão de que Amanhã Nunca Mais, face o teor repetitivo de seu enredo, alcançaria um melhor rendimento caso se limitasse ao formato de um curta-metragem. Eis o típico caso em que o passo dado fora maior do que as pernas.
___________________________
1.     Para não soar injusto, cabe dizer que uma sugestão é sim feita, e bem, qual seja a exposição da situação profissional/financeira do personagem principal, isto é, do médico anestesista que mesmo trabalhando dia e noite em plantões consecutivos ainda não consegue lograr um status econômico privilegiado; afinal, seu automóvel é popular, seu passeio com a família é para um balneário freqüentado por classes B e C e sua casa suburbana e apertada por certo não comporta as expectativas suas e de sua mulher. Tal realidade é mostrada nem sempre com sutileza, mas, ao se apoiar tão somente na força das imagens e nos sentidos do espectador, revela o quanto o trabalho de Tadeu Jungle seria melhor se ousasse mais nesse sentido.

COTAÇÃO: ۞۞

Ficha Técnica
Direção: Tadeu Jungle
Elenco:Lázaro Ramos (Walter)Maria Luisa Mendonça (Miriam)Fernanda Machado (Solange)Milhem Cortaz (Geraldo)Luis Miranda (Motoboy)Paula Braun (Renata)Vic Militello (Dona Olga)Carlos Meceni (Cirurgião-chefe)Imara Reis, Arthur Kohl
Música: André Abujamra e Márcio Nigro
Fotografia: Ricardo Della Rosa
Edição: Estevan Santos e Jon Kadosca
Estreia: 11 de Novembro de 2011
Duração: 78 min.