EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 27 de novembro de 2011

Meu País


Eficiente Porque Sincero

Meu País (Brasil, 2011) tem muito a ver com a história de vida de seu diretor André Ristum¹, daí saltar aos olhos a principal qualidade de seu primeiro longa-metragem de ficção, qual seja a honestidade com que é desenvolvida a trama de desavenças familiares ocultas por diferenças geográficas. Embora o roteiro não prime pela originalidade, o que realmente importa neste trabalho é a sensibilidade com que os dramas dos personagens são tratados, mérito esse, vale frisar, que suplanta até mesmo a falta de empatia perante os três irmãos que protagonizam a obra – afinal, enquanto Cauã Reymond repete o tom estabanado mostrado em Não Se Pode Viver Sem Amor (Brasil, 2011), Rodrigo Santoro aposta num tom deveras aborrecido e Débora Falabella pouco convence como deficiente mental.
Como dito, tal ineficiência de parte do elenco é superada pela direção de Ristum que não se esforça em tornar simpáticos aos olhos do público personagens por vezes tão egoístas quanto qualquer um de nós². Dentro deste contexto, o cineasta agrega pontos extras ao tom minimalista de Meu País ganha graças a exclusão de diálogos eficientemente substituídos por olhares emoldurados, por sua vez, em uma fotografia granulada que confere ao filme certo ar atemporal. Fiquemos atentos para constatar se Ristum demonstrará semelhante talento em futuros trabalhos que sejam completamente estranhos a sua vivência pessoal.
___________________________
1.“Descendente de italianos – a mãe e a irmã ainda moram na Europa -, Ristum se dividiu entre os dois países e sempre experimentou um sentimento de estrangeirismo. ‘Era como se eu não fosse nem daqui, nem de lá’, diz” (FONTE: Revista Preview, Ed. 24. São Paulo: Sampa. p. 48). “André Ristum trouxe para o roteiro alguns elementos de sua história, como o período em que morou com o pai na Itália, devido ao exílio durante a ditadura militar brasileira” (FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/meu-pais/noticias-e-curiosidades/).
2.Neste diapasão, colabora em muito para a pretensão do cineasta o final em aberto cujo valor reside na sugestão de que a vida nem sempre dispõe de conclusões bem acabadas e felizes como as que são mostradas no cinema

 COTAÇÃO: ۞۞۞

Ficha Técnica

Direção:Andre Ristum
Elenco: Paulo José (Armando)Eduardo Semerjian (Dr. Osvaldo)Cauã Reymond (Tiago)Débora Falabella (Manuela)Luciano Chirolli (Moreira)Nicola Siri (Giovanni)Rodrigo Santoro (Marcos)Anita Caprioli (Giulia)Stephanie de Jongh (Joana)
Música: Patrick de Jongh
Fotografia: Hélcio Alemão Nagamine
Estreia no Brasil: 7 de Outubro de 2011
Duração: 95 min.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Incêndios/A História Oficial


Política e Melodrama

Incêndios (Incendies, Canadá, 2010) narra a trajetória de irmãos em busca de respostas para o, até então não conhecido, passado de seus pais. A partir de tal mote, a narrativa se bifurca através de longos flashbacks para, desta feita, alternar a tensão ora no presente ora no que um dia fora vivido pela mãe do casal de gêmeos, proporcionando, ao fim, um mergulho no horror de conflitos político-religiosos. Infelizmente, tal estrutura narrativa acaba demonstrando fraqueza em determinadas passagens graças ao tom novelesco que a trama adquire - daí importantes descobertas amargarem certa dose de previsibilidade - característica essa que, entretanto, não diminui a força das imagens e da mensagem pretendida.
A toada melodramática de Incêndios, vale dizer, o aproxima de outro drama político, qual seja o premiado A História Oficial (La Historia Oficial, Argentina, 1985), cujo roteiro também envereda pela busca de uma pessoa, dessa vez, a suposta mãe biológica – desaparecida nos anos da ditadura militar Argentina – de uma criança entregue para adoção a uma professora de história que, ironicamente, ignora a realidade ditatorial de seu país, preferindo, portanto, concentrar suas aulas nas explicações dos eventos de outrora.
               Enquanto a produção canadense disponibiliza a visualização de fatos ocorridos em meio a repressão para, ato contínuo, traçar um paralelo com os eventos que os sucederam, A História Oficial mantém-se fixado no presente, fazendo, por conseguinte, uma avaliação de dentro para fora, isto é, a partir de um embate doméstico que funciona como exemplo de conseqüência referente a situações macro.
                   Tratam-se, portanto, de propostas diferentes mas que dialogam entre si em virtude do conteúdo politizado e da abordagem romanceada. No caso do trabalho argentino – vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro – o tempo foi implacável no sentido de limitar seu valor a denúncia político-social realizada, em detrimento dos atributos estéticos/cinematográficos da obra– agora vistos como convencionais. Resta saber se Incêndios – candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro – também demonstrará tal deficiência daqui a alguns anos¹ ou se, de maneira inversa, continuará gerando a atual sensação de incômodo perpassada ao longo de sua exibição.
___________________________
1.     Não obstante as qualidades já mencionadas, bem como os competentes trabalhos de edição e fotografia, colabora a favor de tal hipótese a equivocada escalação de atores cujas idades aparentadas não atendem as exigências da trama..

COTAÇÕES:
Incêndios - ۞۞۞۞    
A História Oficial - ۞۞۞

Ficha Técnica - Incêndios
Direção:Denis Villeneuve
Roteiro: Denis Villeneuve, baseado em peça teatral de Wajdi Mouawad
Produção: Kim McCraw, Luc Déry
Elenco:Maxim Gaudette (Simon Marwan)Anthony Ecclissi (Lifeguard) Bader Alami (Nicolas)Baya Belal (Maika)Rémy Girard (Notary Jean Lebel)Nabil Sawalha (Fahim)Abdelghafour Elaaziz (Abou Tarek)Allen Altman (Notary Maddad)Mohamed Majd (Chamseddine)Mélissa Désormeaux-Poulin (Jeanne Marwan)Lubna Azabal (Nawal Marwan)Yousef Shweihat (Sharif)
Música: Grégoire Hetzel
Fotografia: André Turpin
Edição: Monique Dartonne
Estreia Mundial: 4 de Setembro de 2010
Duração: 130 minutos

Ficha Técnica – A História Oficial
Direção:Luis Puenzo
Duração: 112 minutos
Curiosidade: “Recentemente o que parecia ser uma suposição, uma leitura ficcional da realidade argentina durante o regime militar, relatada nesse filme, parece ter se concretizado como fato real. A fundadora do movimento Avós da Praça de Maio acredita ter encontrado sua neta que fora adotada pelos donos do jornal Clarín após seus pais terem sido sequestrados pelos militares” (FONTE: http://pipocacomentada.wordpress.com/2010/10/01/a-historia-oficial/).

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A Casa dos Sonhos


Craig e Sheridan: Uma Dupla Atrapalhada

Ok, não se há de contestar que Daniel Craig surpreendeu e calou a boca de muitos ao compor um James Bond truculento e antenado com o novo século. Daí, porém, a pensar que o ator dispõe de talento para interpretar um personagem com maior densidade dramática são outros quinhentos. Em A Casa dos Sonhos (EUA, 2011) Craig recebe um papel que exige bem mais do que olhares sorrateiros e distribuição de socos e pontapés, motivo pelo qual se não chega a decepcionar – afinal não se deve esperar muito de sua limitada capacidade interpretativa – por outro lado, compromete ainda mais uma produção em sua essência equivocada. Explique-se: há projetos que mesmo padecendo de falhas no roteiro e/ou de direções burocráticas, acabam logrando certa simpatia, em virtude do trabalho de atores que, carregando o filme nas costas, salvam-no do completo desastre. O mesmo não acontece com a nova obra de Jim Sheridan, eis que, não obstante a deficitária participação de Craig, a trama limita a um ínfimo segundo plano personagens que, graças ao carisma de intérpretes como Naomi Watts, Rachel Weisz e Elias Koteas, poderiam tranqüilamente agregar valores ao longa-metragem. Ao invés disso, Sheridan opta por manter o foco em Craig, enveredando em seguida por uma teia de idéias já apresentadas e consagradas em trabalhos como, por exemplo, O Iluminado (EUA, 1980) e A Ilha do Medo (EUA, 2010). E é por trabalhar com elementos já tão conhecidos de outrora que A Casa dos Sonhos não prega um susto sequer, chegando a, o que é pior, causar irritação em virtude da frustrada tentativa de manipulação das emoções do espectador mediante o uso da trilha sonora. Quando nem mesmo uma artimanha maniqueísta como essa funciona, é chegado o momento de questionar o que o diretor estava fazendo no set de filmagem¹.
___________________________
1. “Jim Sheridan alegou divergências com relação ao corte final para não querer ver seu nome presente na produção (...) de longe fica parecendo que Sheridan não gostou do resultado de seu longa e agora está querendo pular fora do barco. É difícil acreditar que um diretor como ele, que teve nada menos que cinco indicações ao Oscar, tenha entrado num projeto grande sem ter se assegurado de que tinha o corte final” (FONTE: http://www.adorocinema.com/colunas/a-casa-dos-sonhos-1272/).
COTAÇÃO: ۞۞
Ficha Técnica
Direção: Jim Sheridan
Roteiro: David Loucka
Elenco: Daniel Craig (Will Atenton)Elias Koteas (Boyce)Taylor Geare (Trish)Claire Geare (Dee Dee)Marton Csokas (Jack Patterson)Mark Wilson (Dennis Conklin)Jonathan Potts (Tony Ferguson)Lynne Griffin (Sadie)Naomi Watts (Ann Patterson)Rachel Weisz (Libby Atenton)Gregory Smith (Artie)Sarah Gadon (Cindi)Chris (I) Owens (Tom Barrion)Marlee Otto (Zara)Bernadette Quigley (Heather Keeler)
Estreia no Brasil: 4 de Novembro de 2011
Estreia Mundial: 30 de Setembro de 2011
Duração: 92 min.
Curiosidade: “o novo longa deve ser lembrado ao menos pelo fato de ter preparado o terreno para o casamento de Daniel Craig e Rachel Weisz. Mas só por isso, afinal os próprios atores se recusaram a participar da campanha de divulgação” (FONTE: http://www.adorocinema.com/colunas/a-casa-dos-sonhos-1272/).

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Gigantes de Aço

Saborosa Sessão da Tarde

Muitos tem visto em Gigantes de Aço (EUA, 2011) uma espécie de versão robotizada da história de Rocky Balboa. Tudo bem, muitos dos elementos daquela narrativa se fazem presentes na aventura dirigida por Shawn Levy, como por exemplo: o homem de meia idade fracassado, a redenção pessoal/profissional por meio do esporte e, sobretudo, as artimanhas relativas ao boxe; porém, o viés da aproximação entre pai e filho assemelha o filme estrelado por Hugh Jackman, de forma ainda mais considerável, a outro sucesso de Sylvester Stallone, qual seja Falcão – O Campeão dos Campeões (EUA, 1987)¹. Neste sentido, saem de cena as disputas de queda de braço e entram em foco os duelos entre máquinas. Logo, é fácil perceber que a intenção em Gigantes não é inovar, mas sim trabalhar com elementos consagrados pelo cinema pipoca da década de 80, missão essa que é cumprida de forma satisfatória – contrariando, assim, as baixas expectativas geradas por seu trailer – uma vez que o longa-metragem se revela como uma saborosa sessão da tarde, melhor aproveitada, é claro, por quem foi testemunha da produção oitentista mencionada alhures. Desta feita, para que a diversão seja completa, é preciso se deixar levar pelo alto astral da história e dos personagens; exigir mais que o mero entretenimento fará do programa uma perda de tempo.
___________________________
1.     Tal análise limita o parâmetro comparativo aos filmes de Sylvester Stallone, daí ter sido desconsiderado o também clássico O Campeão (EUA, 1979).

COTAÇÃO - ۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Real Steel
Direção: Shawn Levy
Elenco: Ron Causey (Kingpin's Henchman)Steven Scott (Lieutenant - Kingpin) Hugh Jackman (Charlie Kenton) Karl Yune (Tak Mashido) Evangeline Lilly, John Dezsi (Drunkard) Michael Patrick Carmody (Axelrod Handler) Marco Ruggeri (Cliff) James Rebhorn Dakota Goyo (Max)Kevin Durand (Ricky)
Música: Danny Elfman
Fotografia: Mauro Fiore
Direção de Arte: Seth Reed, Jason Baldwin Stewart e Jeff Wisniewski
Figurino: Marlene Stewart
Edição: Dean Zimmerman
Estreia no Brasil: 21 de Outubro de 2011
Estreia Mundial: 6 de Outubro de 2011
Duração: 107 min.