EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




domingo, 30 de outubro de 2011

O Palhaço

Que Venha Mais!

Em O Palhaço (Brasil, 2011) Selton Mello lança um olhar sobre a melancolia de um artista circense em dúvida quanto a sua vocação. Considerando que tais conceito e ambientação já haviam sido tratados, por exemplo, por Chaplin, Fellini e até mesmo Cacá Diegues em seu Bye Bye Brasil (Brasil, 1980), Selton corria o sério risco de entregar um trabalho que chovesse no molhado, sendo, assim, aquém das comparações.
Neste sentido, se em Feliz Natal (Brasil, 2008) o então cineasta estreante não negava a inspiração nas realizações de John Cassavetes, em seu segundo longa-metragem o agora diretor de televisão e cinema também não tenta camuflar suas influências, o que, além de revelar honestidade perante si e perante o respeitável público, lhe permite dar o necessário passo adiante rumo a aquisição de uma marca que lhe seja própria.
Para tanto, Selton se vale de uma precisão técnica que, somada a escolhas inteligentes, o habilitam a, sem maquinações, compor uma obra deliciosamente poética e esperançosa; daí ser possível concluir que a força de seu projeto advém menos da temática – que em momento algum se insinua inédita – e mais da forma como esta é lapidada. Um exemplo disso, cabe dizer, reside na metáfora do protagonista que, de posse tão somente da certidão de nascimento, fica angustiado ao ser rotineiramente instado a apresentar RG, CPF e comprovante de residência, ideia essa que resume de maneira brilhante a atemporal história da crise de identidade enfrentada por um ser desmotivado com o rumo da vida.
Primorosamente decupado e fotografado, O Palhaço traz em seu bojo um belo exercício de direção de arte e uma magistral trilha sonora cuja presença marcante, ressalte-se, faz a música extravasar as fronteiras da diegese, para, ato contínuo, assumir no filme uma espécie de função narradora. Por fim, no que tange a condução dos atores, o cineasta demonstra mais uma vez sensibilidade para a tarefa, a qual desta vez é cumprida com senso de humor suficiente para tornar impagáveis algumas das diversas participações especiais por ele arquitetadas – dentre as quais se destacam, por óbvio, as aparições de Moacyr Franco, na pele de um delegado mercenário, e de Tonico Pereira encarnado irmãos gêmeos um tanto quanto turrões.
Todos esses são fatores que, uma vez reunidos com eficiência por Selton Mello, acarretam para este um atestado de competência apto a afastar qualquer hipótese de limitação de seu talento ao trabalho de estreia, motivo pelo qual muito mais se pode esperar do futuro. O cinema nacional agradece.

COTAÇÃO۞۞۞۞

Ficha Técnica
Direção: Selton Mello
Roteiro: Marcelo Vindicatto e Selton Mello
Elenco: Hossen Minussi (Chico Lorota)Teuda Bara (Dona Zaira)Selton Mello (Benjamim/Palhaço Pangaré)Danton Mello (Aldo), Larissa Manoela (Guilhermina)Giselle Motta (Lola)Paulo José (Valdemar/Palhaço Puro Sangue)Thogun (Gordini)Fabiana Karla (Tonha)Tonico Pereira (Beto/Deto Papagaio)Moacyr Franco (Delegado Justo)Tony Tonelada (Meio Quilo)Renato Macedo (Borrachinha)Ferrugem (Atendente da Prefeitura)Cadu Fávero (Tony Lo Bianco)Álamo Facó (João Lorota)Moacir FrancoJorge Loredo (Nei)Jackson Antunes (Juca Bigode)Bruna Chiaradia (Justine)Maira Chasseraux (Lara Lane)Erom Cordeiro (Robson Felix)Maria Manoella
Música: Plínio Profeta
Fotografia: Adrian Teijido
Direção de Arte: Claudio Amaral Peixoto
Figurino: Kika Lopes
Edição: Marília Moraes
Estreia no Brasil: 28 de Outubro de 2011
Duração: 88 min.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cópia Fiel

Diálogo Intertextual

Para Walter Benjamin:
Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única no lugar em que ela se encontra. É nessa existência única, e somente nela, que se desdobra a história da obra. Essa história compreende não apenas as transformações que ela sofreu, com a passagem do tempo, em sua estrutura física, como as relações de propriedade em que ela ingressou.
(...) O aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade (...). A esfera da autenticidade, como um todo, escapa à reprodutibilidade técnica (...) a reprodução substitui a existência única da obra por uma existência serial”¹.
Desta feita, segundo o pensador, a cópia da experimentação artística é destituída da ‘aura’ inerente ao produto original, demérito esse que pouco preocupa o escritor inglês James Miller (William Shimell) que, por sua vez, prefere pregar nas páginas de seu livro Copie Conforme o valor prático da reprodução como uma qualidade capaz de igualá-la em importância ao material no qual fora baseada – conclusão que, aliás, já havia sido em parte reconhecida pelo próprio W. Benjamin nos seguintes termos: “a reprodução técnica pode colocar a cópia o original em situações impossíveis para o próprio original. Ela pode, principalmente, aproximar do indivíduo a obra”².
Cópia Fiel (França/Itália/Irã, 2010) já seria deveras interessante caso seu foco se limitasse a questão supracitada, mas eis que o diretor Abbas Kiarostami saca uma genial carta da manga ao transplantar tais conceitos teóricos para o campo prático das relações humanas, estabelecendo, assim, entre o casal de protagonistas um embate fictício que, entretanto, reproduz com ‘fidelidade’ o cotidiano e os dramas vividos entre pessoas que ao longo dos anos perderam o compasso do amor.
Por um momento surreal, o diálogo travado entre o escritor e a dona de galeria – estupendamente interpretada por Juliette Binoche – vai aos poucos conquistando o espectador seja pela carga dramática, seja pelo humor sutil, seja pela eficiência demonstrada como exemplo prático de uma tese.
Dentro deste contexto, conforme reconhecido por muitos, o enredo de Cópia Fiel inegavelmente remete a Antes do Amanhecer (EUA, 1995) e Antes do Pôr-do-Sol (EUA, 2004) de Richard Linklater, pois, tal como no primeiro caso, tem-se no filme de Kiarostami um homem e uma mulher de nacionalidades distintas que ao longo de um dia – e de muitas caminhadas – descobrem-se atraídos um pelo outro, ao passo que a maturidade dos personagens de Ethan Hawke e Julie Delpy, vista na sequência da história de Linklater, se relaciona com a ausência de inocência dos seres vividos por Binoche e Shimell, ressalvado, por óbvio, o fato de que enquanto os primeiros rememoram sentimentos entre eles realmente partilhados, estes últimos não passam de reflexos das suas reais experiências, isto é, uma cópia fiel - logo, falsa - da realidade.
Ao criar uma narrativa que traça uma linha paralela entre a arte e a vida, teria Kiarostami forjado um método esdrúxulo e, portanto, forçado de sustentação das idéias defendidas por seu protagonista? Por certo não, afinal "A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade" (Pablo Picasso).
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1.     ‘A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica’ in Magia e Técnica, Arte e Política. p. 167-8
2.   Op. Cit. p. 168.

COTAÇÃO۞۞۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Copie Conforme
Direção e Roteiro: Abbas Kiarostami
Produção: Nathanaël Karmitz, Angelo Barbagallo, Charles Gillibert, Marin Karmitz e Abbas Kiarostami
Elenco: William Shimell, Juliette Binoche, Jean-Claude Carrière
Fotografia: Luca Bigazzi
Direção de Arte: Ludovica Ferrario
Edição: Bahman Kiarostami
Estreia no Brasil: 18 de Março de 2011
Duração: 106 min.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Face Oculta


Era Uma Vez um Clímax

É impossível assistir Face Oculta (EUA, 2010) sem lembrar a todo instante de Psicose (EUA, 1960), afinal, seu protagonista, tal qual Norman Bates, adquirira após a morte da mãe distúrbios de dupla personalidade que o levam a se travestir com as roupas daquela. Diferentemente do clássico de Hitchcock, a obra do estreante Michael Lander não envereda pelo caminho da violência, preferindo, assim, focar-se no aspecto psicológico do ser retratado. O problema, dentro deste contexto, reside no fato de sermos obrigados a aceitar que, dentre as inúmeras pessoas que estabelecem contato com a versão feminina do personagem, nenhuma sequer suspeite estar perante um homem vestido de mulher. Tal forçada de barra é até atenuada graças a estrutura do roteiro que num crescendo leva o público a crer que alguma reviravolta virá pela frente; mas, eis que o clímax não chega e o espectador, frustrado, fica com cara de quem comeu e não gostou vendo os créditos subirem. Tamanha ludibriação, vale frisar, não há nem mesmo de ser aplacada sob o manto de uma justificativa ‘cabeça’ do tipo ‘o filme revela uma ousada opção de quebra de clichês’; afinal, toda a sua trama é, de maneira inconteste, calcada em parâmetros narrativos consolidados. Por isso, o que fica – além dos ótimos trabalhos de Bill Pullman e Cillian Murphy –, é a impressão de que, apesar do desejo de ser diferente, o que realmente falta para Face Oculta é a coragem de se assumir enquanto o projeto convencional que é.

COTAÇÃO۞۞۞

Ficha Técnica
Título Original: Peacock
Direção: Michael Lander
Roteiro: Ryan O Roy e Michael Lander
Produção: Barry Mendel
Música: Brian Reitzell
Fotografia: Philippe Rousselot
Direção de Arte: Anthony Dunne
Figurino: Suttirat Anne Larlarb
Edição: Sally Menke e Jeffrey M. Werner
Elenco: Bill Pullman (Edmund French), Cillian Murphy (John/Emma Skillpa), Ellen Page (Maggie), Susan Sarandon (Fanny Crill), Josh Lucas (Officer Tom McGonigle),Keith Carradine (Ray Crill), Eden Bodnar (Louise Sternberg), Graham Beckel (Connor Black), Chris Carlson (Neil), Virginia Newcomb (Doris), Nathan Christopher Haase (Cal)
Estreia no Brasil: 28 de Maio de 2010
Duração: 90 min.