EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Lanterna Verde

Lanterna Queimada

Lanterna Verde nunca pertenceu ao rol dos meus heróis da cabeceira da infância. O motivo: a pura e simples predominância de tons verde e marrom não atraía meus olhos de criança. Nesta toada, estaríamos todos no lucro se tal opção cromática fosse o único problema do longa-metragem dirigido pelo experiente Martin Campbell, eis que a versão live action do personagem representa, na verdade, um passo para trás no que tange o amadurecimento galgado pelo gênero a partir de franquias com a dos X-Men e dos Batman de Christopher Nolan.
Devido a um roteiro repleto de furos, Lanterna Verde (EUA, 2011) desrespeita a inteligência do espectador ao se portar como uma obra a moda anos 80 – época em que o cinema brucutu de Stallone e Schwarzenegger dispensava a razoabilidade em nome da aventura – daí porque se mostra impressionante a falta de plausibilidade das soluções dadas para a trama¹.
Uma vez que os resultados de público e crítica não tem correspondido as expectativas dos produtores, uma continuação parece pouco provável de acontecer.  Todavia, a hipótese jamais deve ser descartada por completo, afinal se até Quarteto Fantástico (EUA, 2005) conseguiu ganhar uma sequência...
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1.     Dentro deste contexto, para não passar a imagem de que o filme é uma total perda de tempo, merece destaque a atuação de Peter Saasgard, cujo comprometimento com o trabalho o leva a passar por cima da equivocada escalação de Tim Robbins, bem como da canastrice de Ryan Reynolds.

COTAÇÃO - ۞۞

Título Original: Green Lantern
Direção: Martin Campbell
Elenco:Leanne Cochran (Janice Jordan)Jay O. Sanders (Carl Ferris)Ryan Reynolds (Hal Jordan / Lanterna Verde)Angela Bassett (Dr. Amanda Waller)Peter Sarsgaard (Dr. Hector Hammond)Mike Doyle (Jack Jordan)Jon Tenney (Martin Jordan)Jenna Craig (Carol Ferris at 11)Amy Carlson (Jessica Jordan)Blake Lively (Carol Ferris)Temuera Morrison (Abin Sur)Mark Strong (Sinestro)Tim Robbins (Senator Hammond)
Estreia no Brasil: 19 de Agosto de 2011
Estreia Mundial: 17 de Junho de 2011
Duração: 105 minutos

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Cowboys & Aliens

Mistura Indigesta

Nem bem Super 8 (EUA, 2011) chegou aos cinemas e eis que Steven Spielberg já apresenta outro produto que gravita em torno da temática extra-terrestre, qual seja Cowboys & Aliens (EUA, 2011), longa-metragem cuja produção também é assinada pelo igualmente cineasta Ron Howard – aquele que, no passado, já tentara relativizar a fórmula do western sobrepondo-lhe um viés sobrenatural no equivocado Desaparecidas (EUA, 2003).
                       Para ocupar a cadeira de diretor, Spielberg e Howard amealharam Jon Favreau – cujo trabalho em Homem de Ferro (EUA, 2008) fora admirado pelo criador de E.T. (EUA, 1982). Em seguida, levando em conta o prestígio de público e crítica, bem como o relacionamento já instituído com Favreau, buscou-se a contratação de Robert Downey Jr. para o papel do protagonista, estratégia essa que, como sabido, não vingou, acarretando, assim, a escalação do reserva, mas atual James Bond, Daniel Craig. Para completar o time, Harrison Ford fora chamado para exercer a função de antagonista, formando, desta feita, uma seleção de craques que asseguraria com folga a qualidade do entretenimento, correto? Errado.
                  Explique-se: o roteiro se mostra uma colcha de retalhos de êxitos cinematográficos de outrora. Assim, ao cavaleiro solitário tantas vezes encarnado por Clint Eastwood é aplicado um verniz desmemoriado que em muito lembra o Jason Bourne de Matt Damon, ao passo que o conflito entre humanos e seres de outro mundo tanto se assemelha ao desnecessário Guerra dos Mundos (EUA, 2005), de Spielberg, quanto – mas sem o mesmo charme – com o já citado Super 8, produzido por ... Spielberg.
                    Da dupla principal do elenco nada se pode esperar eis que Daniel Craig pouco se esforça na interpretação do tipo caladão-brucutu, enquanto Harrison Ford se limita a emprestar para seu personagem a boçalidade que lhe é intrínseca. Dentro deste contexto, quem perde são os personagens coadjuvantes que, apesar de defendidos por atores do calibre de Sam Rockwell e Paul Dano, são engolidos por clichês que lhes retiram qualquer relevância para a trama.
                    Em meio a esse panorama, Jon Favreau entrega um correto filme de faroeste – no que muito colabora a fotografia de Matthew Libatique – mas escorrega quando o assunto é ficção cientifica, seja por causa das soluções forçadas do script, seja em virtude da velha mania de, a partir do segundo ou terceiro ato, ignorar-se o texto em benefício da ação. Logo, o que teria tudo para ser uma inusitada, mas curiosa mescla de gêneros resulta num desnivelamento indigesto entre os mesmos, daí a conclusão de que o projeto poderia ser mais bem sucedido caso se contentasse enquanto western.
                 Por isso, resta a esperança de que Spielberg dê um basta, ou pelo menos um tempo, na sua obsessão por extraterrestres para, então, voltar a explorar assuntos diferentes. Talento para isso, seja como produtor ou diretor, ele tem.

 COTAÇÃO: ۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: Cowboys and Aliens
Direção: Jon Favreau
Elenco: Olivia Wilde (Ella)Buck Taylor (Wes Claiborne)Cooper Taylor (Mose Claiborne)Sam Rockwell (Doc)Clancy Brown (Meacham)Keith Carradine (Sheriff Taggart)Daniel Craig (Zeke Johnson)Adam Beach (Nat Colorado)Ana de la Reguera (Maria)Harrison Ford (Col. Woodrow Dolarhyde)Noah Ringer (Emmett)Abigail Spencer (Alice)Kenny Call (Greavey)Paul Dano (Percy)Matthew Taylor (Luke Claiborne)Brendan Wayne (Deputy Lyle)Chris Browning (Jed Parker)Raoul Trujillo (Grey Wolf)Walton Goggins (Hunt)
Fotografia: Matthew Libatique
Estreia no Brasil: 9 de Setembro de 2011
Estreia Mundial: 29 de Julho de 2011
Duração: 118 min.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Amor a Toda Prova

Além das Expectativas

O trailer de Amor a Toda Prova (EUA, 2011) levava a crer que o filme não passaria de uma variação do tema de Hitch – Conselheiro Amoroso (EUA, 2005), estratégia oportunista de marketing essa que se mostra, felizmente, equivocada, uma vez que o mote principal do romance estrelado por Will Smith não passa, na hipótese do primeiro título, de um elo condutor entre envolventes tramas paralelas.
Não fosse o bastante, o longa-metragem produzido por Steve Carrell ainda se diferencia do exemplo supracitado pela habilidade com que entrelaça enredos de diversos personagens, o que, convenhamos, representa uma aposta de risco, dada a maior probabilidade, nesse caso, da narrativa desandar ou do roteiro deixar furos, o que, ainda bem, não ocorre em momento algum com Amor a Toda Prova, afinal, seu scenario, além de muito bem amarrado, dribla clichês para, ato contínuo, entregar surpresas e piadas verdadeiramente engraçadas.
Sim, alguns personagens acabam tendo um tempo deveras reduzido na tela – como é o caso daqueles defendidos por Kevin Bacon, Julianne Moore e Marisa Tomei – desequilíbrio este que é superado pelos breves, mas certeiros, desempenhos destes atores, bem como justificado pela nítida intenção dos diretores Glen Ficarra e John Requa em compreender o amor a partir da ótica de três homens – o marido traído, o adolescente apaixonado e o galã fornicador –, contexto esse no qual brilham novamente os intérpretes e, em especial, Steve Carrel que mais uma vez confirma seu talento também para o drama.
Tomando como referência os formatos instituídos para o gênero comédia romântica, Amor a Toda Prova supera expectativas, uma vez que não só privilegia o texto como também lança mão de um elenco em ótima sintonia, sendo, desta feita, o tipo de obra que faz o espectador sair da sessão com um enorme sorriso no rosto (taí um clichê evitável, porém preciso), mérito esse que não deve por nada ser ignorado.

COTAÇÃO - ۞۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: Crazy, Stupid, Love
Roteiro: Dan Fogelman
Elenco: Emma Stone (Hannah)Ryan Gosling (Jacob Palmer)Marisa Tomei (Kate)John Carroll Lynch (Bernie Riley)Kevin Bacon (David Lindhagen)Julianne Moore (Emily Weaver)Steve Carell (Cal Weaver)Dan Butler (Cal's Boss)Micaela Johnson (Waitress)Tiara Parker (Gabby)Jonah Bobo (Robbie)Jenny Mollen (Lisa)Analeigh Tipton (Jessica)Beth Littleford (Claire)Richard Steven Horvitz (Lowe's Employee)Liza Lapira (Liz)Joey King (Molly)Crystal Reed (Amy Johnson)Olga Fonda (Danielle)
Música: Christophe Beck e Nick Urata
Fotografia: Andrew Dunn
Direção de Arte: Sue Chan
Figurino: Dayna Pink
Edição: Lee Haxall
Estreia no Brasil: 26 de Agosto de 2011
Estreia Mundial: 29 de Julho de 2011
Duração: 118 minutos

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Árvore da Vida/Limite

O Limite da Vida

I – A Árvore da Vida e Limite:

Terrence Mallick – de modo parecido aquele adotado por Stanley Kubrick em 2001 – Uma Odisseia no Espaço (EUA, 1968) – busca, em A Árvore da Vida (EUA, 2011), compreender o homem sob um viés cósmico, o que o leva, consequentemente, a percorrer o surgimento do universo, a era jurássica e seu fim, bem como aquele que será o nosso apocalipse. Tamanho percurso serve como referência e justificativa a angústia alimentada pelo homem em torno de sua finitude, afinal, uma vez ciente de sua fugacidade, o ser humano passa a questionar seu papel no mundo, surgindo daí perguntas de caráter ora metafísico ora filosófico ora religioso.
Neste sentido, os dramas e tragédias às vezes enfrentados por nós seriam obra do acaso ou corresponderiam aquilo que se convencionou chamar de justiça divina? Seríamos, então, joguetes do destino ou do Criador? Considerando que a morte nos aguarda desde o nascimento, qual, então, o sentido da vida?
Apesar de muitas serem as dúvidas, Mallick, dentro deste contexto, se preocupa menos em satisfazê-las e mais em proporcionar experimentações sensoriais capazes de levar cada um a tecer suas próprias conclusões, aspecto esse que leva A Árvore da Vida a se assemelhar, dessa vez com profundidade ainda maior, a outra obra, qual seja o insólito¹ Limite (Brasil, 1931) do brasileiro² Mário Peixoto, isso porque:
·      ambos os filmes se valem da percepção de clausura emanada da consciência da morte;
·      seus personagens são figuras errantes cujas trajetórias são caracterizadas ora pelo conformismo ora pela revolta ora pelo medo diante da inevitável limitação humana, razão pela qual alguns tem pressa em encurtar o caminho, eis que, aconteça o que acontecer, não há destino capaz de nos salvar da morte.

II - O Encontro de Terrence Mallick e Mário Peixoto:

Ante o exposto, A Árvore da Vida e Limite se confundem tanto no que diz respeito aos assuntos levantados como também quanto ao método utilizado para tanto. Herméticas, as produções não se prestam ao formato clássico da narrativa – embora no trabalho de Mallick seja mais fácil identificar e acompanhar um núcleo ficcional através do qual as idéias se desenvolvem – preferindo, desta feita, explorar, como já dito, o viés sensorial oriundo da interação do homem com seus pares e, sobretudo, com a natureza. Logo, a meta de Peixoto e Mallick não consiste em necessariamente contar uma história, concentrando-se, assim, na corporificação de uma tragédia universal, objetivo esse alcançado nas duas realizações mediante o uso de outros elementos em comum, senão vejamos³:
·   Fotografia: alterna takes fixos, rígidos com movimentos de câmera ora vertiginosos ora cadenciados.
·      Montagem: afasta a linearidade, em prol de planos completos em si mesmos cujo foco, conforme já dito, não paira sobre a narração, mas sim sobre o desenvolvimento um tema engendrado conforme a progressão das imagens.

III. E o Público?

Por óbvio que as escolhas de Mário Peixoto e Terrence Mallick acabam por não dialogar com a maior parte do público que, perante a complexa estética dos trabalhos, não consegue visualizar seus próprios dramas no conteúdo imagético. Inserido neste contexto, Nelson Pereira dos Santos certa vez abordou o insucesso comercial de suas duas primeiras realizações, Rio, Quarenta Graus³ (Brasil, 1955) e Rio, Zona Norte (Brasil, 1957) – não obstante a aclamação pela crítica –, nos seguintes termos:
“Esses resultados mostram que o público não tem aceitado nossos filmes, e acredito que por nossa culpa: ainda não sabemos fazer o filme que seja entendido por todos, porque não dominamos ainda o cinema como meio de expressão, e porque nos faltam tradição, escola e habilidade artesanal. Todos os filmes que fizemos e que faremos não se destinam a meia dúzia de pessoas, mas à grande maioria de nosso povo. E as rendas insignificantes que produziram mostram que não conseguimos ainda transmitir ao povo, com clareza e eficiência, a linguagem de emoção que o atinge diretamente.
Guardadas as devidas ressalvas quanto as particularidades que levam cada realização cinematográfica a não encontrar o respaldo popular⁵-⁶-⁷, é inconteste que o dilema entre a realização de um material deliberadamente palatável para as massas ou a composição de um trabalho de irrestrita fidelidade e convicção as idéias e ideais do realizador constitui o ponto nevrálgico que assombra a qualidade da atividade cinematográfica e que tanto já serviu para o bem quanto para o mal de determinados movimentos como a Nouvelle Vague e o nosso Cinema Novo, por exemplo.
Por isso, é sempre digno de louvor quando artistas como Peixoto e Mallick demonstram coragem e ousadia, ignorando formatos pré-concebidos e expectativas negativas para, ato contínuo, realizar experiências ímpares que, de maneira inequívoca, contribuem para enriquecer não só a nós espectadores como também ao próprio cinema.
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1.     Expressão utilizada por Saulo Pereira de Mello no livro-análise Limite. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
2.     Mário Peixoto afirmava ter nascido em Bruxelas, Bélgica; todavia, as provas o mostram como originário da Tijuca, Rio de Janeiro.
3.     Neste sentido, Saulo Mello in Limite.
4.     FABRIS, Mariarosaria. Nelson Pereira dos Santos. Um Olhar Neo-realista? São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.
5.     Rio, Quarenta Graus só teve seus custos cobertos após dois anos de exibição. Tal qual Rio, Zona Norte, a obra se propunha a apresentar um Rio de Janeiro pobre, realidade essa que não despertava a atenção de espectadores vitimados por uma atividade cinematográfica alienante e dominante até então: a chanchada.
6.     A estréia de Limite ocorreu de forma apenas não comercial. Organizada pela Cinédia em parceria com o Chaplin Club, a sessão inaugural, ocorrida em 17.05.1931, acabou em bate-boca entre defensores e detratores. A polêmica fez com que os distribuidores ignorassem a obra. Limite foi o único filme dirigido por Peixoto.
7.     A Árvore da Vida ainda não teve sua vida útil nos cinemas encerrada.

COTAÇÕES:
A Árvore da Vida - ۞۞۞۞     
Limite - ۞۞۞۞

Ficha Técnica - A Árvore da Vida
Título Original: The Tree of Life
Direção e Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Joanna Going (Jack's Wife)Bryce Boudoin (Robert)Hunter McCracken (Young Jack)Tye Sheridan (Steve)Nicolas Gonda (Mr. Reynolds)Jessica Chastain (Mrs. O'Brien)Will Wallace (Architect)Tamara Jolaine (Mrs. Stone)Jodie Moore (Mr. Walsh)Sean Penn (Jack)Christopher Ryan (Prisoner)Fiona Shaw (Grandmother)Anne Nabors (Rue)Margaret Hoard (Jane)Zach Irsik (Jack's Son)Brayden Whisenhunt (Jo Bates)Danielle Rene (Third Women)Kimberly Whalen (Mrs. Brown )Brad Pitt (Mr. O'Brien)Cole Cockburn (Harry Bates)Jackson Hurst (Uncle Ray) Michael S howers (Mr. Brown)Crystal Mantecon (Elisa)Kelly Koonce (Father Haynes)Savannah Welch (Mrs. Kimball)Jimmy Donaldson (Jimmy)Tommy Hollis (Tommy)
País de Origem: Estados Unidos da América
Estreia no Brasil: 12 de Agosto de 2011
Estreia Mundial: 8 de Julho de 2011
Duração: 138 minutos

Ficha Técnica – Limite
Direção, Produção, Roteiro e Montagem: Mário Peixoto
Direção de fotografia: Edgar Brazil
Elenco: Olga Breno (mulher nº 1), Taciana Rei (mulher nº 2), Carmen Santos (prostituta do cais), Raul Schnoor (homem nº 1), Brutus Pedreira (homem nº 2), Mário Peixoto (homem do cemitério) e Edgar Brazil (espectador adormecido)
Estreia: 17.05.1931
Duração: 120 min. à cadência de 16 quadros por segundo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres

Esse Comprometedor Objeto de Fascinação

Enquanto poeta e músico, o estilo de Serge Gainsbourg, apesar de não raro indecoroso, não primava por arroubos revolucionários enquanto expressão artística. Seu modo de vida excêntrico, entretanto, se aproximava ao de um autêntico rock star. Neste sentido, as inúmeras histórias que o cercam, verdadeiras ou inventadas, são abraçadas pela diretora Joann Sfar em Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres (França, 2010), aspecto esse para o qual se mostra imperioso informar que uma vez baseado na graphic novel de autoria da própria cineasta, o longa-metragem deixa de lado o realismo para dar vazão a uma toada lúdica e, por vezes, surreal, o que, ressalte-se, em momento algum significa um demérito para a produção, eis que a estranheza – aqui materializada no alter ego do protagonista – representa um bem vindo elemento de diferenciação que retira a cinebiografia do lugar comum.
É de se lamentar, porém, que tamanho fascínio de Sfarr pelo ídolo homenageado, leve a primeira, mesmo na presença de um fabuloso elenco, a sacrificar certos personagens coadjuvantes¹, dando-lhes abruptas entradas ou saídas de cena. Apesar de parecer insignificante ante o inegável alto astral do filme, este é um pecado relevante o bastante para tornar comprometido o bom andamento da narrativa.
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1.     No que se destaca a irreverente participação especial do cineasta Claude Chabrol pouco tempo antes de sua morte.

 COTAÇÃO: ۞۞۞


Ficha Técnica
Título Original: Gainsbourg (Vie Héroïque)
Direção e Roteiro: Joann Sfar
Elenco:  Eric Elmosnino (Serge Gainsbourg)Doug Jones (La Gueule)Anna Mouglalis (Juliette Gréco)Mylène Jampanoï (Bambou)Kacey Mottet Klein (Lucien Ginsburg)Razvan Vasilescu (Joseph Ginsburg)Dinara Drukarova (Olga Ginsburg)Philippe Katerine (Boris Vian)Deborah Grall (Elisabeth Levizky)Yolande Moreau (Fréhel)Lucy Gordon (Jane Birkin)Laetitia Casta (Brigitte Bardot)Sara Forestier (France Gall)Claude Chabrol (produtor musical de Gainsbourg)
Música: Olivier Daviaud
Edição: Maryline Monthieux
Fotografia: Guillaume Schiffman
Estreia no Brasil: 08 de Julho de 2011
Estreia Mundial: 20 de Janeiro de 2010
Duração: 130 minutos
Grande Cena: Gainsbourg grava, na Jamaica, uma versão reggae da Marselhesa.
Curiosidades:
“A intenção original de Joann Sfar era que Charlotte Gainsbourg, filha de Serge Gainsbourg, interpretasse o pai no filme. A atriz até aceitou a proposta mas, seis meses depois, desistiu do filme por ser doloroso demais interpretar o próprio pai. Sfar estava prestes a desistir do filme quando conheceu Eric Elmosnino, que ficou com o papel” (FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/gainsbourg-o-homem-que-amava-as-mulheres/noticias-e-curiosidades/).
“A atriz e modelo inglesa Lucy Gordon, que interpreta Jane Birkin no filme, cometeu o suicídio aos 28 anos, em 2009, pouco após o término das filmagens. Ela se enforcou no flat onde morava em Paris” (FONTE: Revista Preview. ed. 22. julho de 2011. p.50).

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Árvore


Metaforicamente Belo

No que diz respeito a absorção de signos e mensagens, a interação de uma obra cinematográfica com os espectadores é algo que indiscutivelmente varia conforme o grau de experiências e sentimentos acumulados ou no momento experimentados por cada um que a assiste.
A Árvore (França/Austrália, 2010), dentro deste contexto, é um filme que, do início ao fim, lança mão de metáforas para tratar sobre ritos de transição, hipótese essa na qual as ideias, apesar de claras, vem sempre embutidas em delicados e poéticos contextos imagéticos que levam o envolvimento do público – e não sua capacidade de compreensão – a oscilar conforme o fator outrora elencado.
Isto posto, analisemos seu enredo: abalada pela súbita morte daquele que era um marido e um pai, família se vê obrigada a lidar com a dor da ausência e a ensaiar os primeiros passos de independência que o prosseguimento da vida requer.
No papel esse pode até parecer um mote banal, mas eis que a diretora Julie Bertuccelli aproveita para entregar um belíssimo prólogo e adiantar, assim, o tom que será dado para a produção. Neste sentido, em duas sequências precisas quanto ao tempo, som e fotografia, Bertuccelli:
Ø apresenta a intimidade de um casal que mesmo após anos de relação ainda se mantém apaixonado;
Ø bem como, demonstra a veneração de uma filha por um pai – exemplificada no orgulho desta em  utilizar o relógio que diariamente era usado por aquele.
A partir desse ponto de partida a personagem Simone, única menina da família, é eleita como foco narrativo da trama, o que, ressalte-se, não implica dizer que os demais membros da despedaçada célula familiar sejam sacrificados, eis que, ao contrário, a forma com que cada um encara a perda é explorada por Bertuccelli com uma sutileza digna de Sofia Coppola.
Assim, eis o que se vê:
·      a filha Simone (brilhantemente interpretada pela novata Morgana Davies) é quem mais se permite encarar de frente a morte do pai – embora, na concepção quadrada dos adultos, a tentativa de resgate do genitor, através da figura de uma árvore, não passe de uma fuga permitida pelo mundo de imaginação próprio da infância – daí porque a garota é talvez a única que não se apresse a se acostumar com a ausência de seu ídolo, preferindo, assim, permanecer utilizando com devoção o mencionado relógio de pulso que lhe fora deixado como presente de despedida, além de continuar convivendo e conversando com pai agora para ela embrenhado na figueira que rodeia sua casa;
·    o filho do meio, na esperança de chamar a atenção e, ato contínuo, tirar a mãe do estado de letargia, corta ele próprio os cabelos. Tentando bancar o homem valente que não chora, o garoto também comunga do amor que sua irmã sente pela árvore e por seu significado enquanto elemento vivo que esteve sempre ao lado de sua família. Entretanto, a forma com que o menino demonstra seu carinho é velada, optando, desse modo, por olhar e apreciar a figueira através do computador, bem como a regá-la enquanto todos ainda dormem – para que, desta feita, ninguém presencie seu ato de cuidado e de transgressão as leis de racionamento;
·      o irmão mais velho se esconde na boçalidade da adolescência para ignorar o falecimento do pai, mas, ao substituir a mensagem que o falecido deixara na secretária eletrônica, acaba utilizando palavras semelhantes aquelas que foram apagadas. Titubeante quanto a necessidade de ajudar a mãe no processo de subsistência da família, o rapaz pede um emprego, porém, fica perdido e sem saber o que fazer quando é imediatamente admitido;
·      o filho caçula ainda nem fala, logo, não tem ciência imediata dos eventos ocorridos, o que, ainda assim, não impede seu amadurecimento, daí sua primeira frase completa (“Mamãe não quero morrer”) ser balbuciada numa situação de extremo risco;
·      por fim, a mãe, sem hesitar, adentra na melancolia, esquecendo por um instante de si, dos filhos e dos afazeres domésticos até que se vê obrigada a sair de casa para cuidar de coisas do dia-a-dia. Embora não aparente, a mulher não que se desapegar das lembranças – seja pela dificuldade em se desvencilhar das vestimentas do marido; seja pela facilidade em confundi-lo, vê-lo na presença de outro homem; seja pela naturalidade com que dorme entre galhos da árvore como se aqueles fossem os braços do ser amado – daí porque terá de aprender com a filha a melhor maneira de encarar a solidão e seguir adiante.
Superada a análise dos membros da família, cabe ainda dizer que tão eficiente quanto a abertura é o ato final do longa-metragem, ocasião essa em que uma nova metáfora é apresentada mediante a chegada de um ciclone que, se num primeiro olhar representa a devastação do lar e da vida daqueles personagens, em seguida, se revela como o instante em que a pessoa que se fora deixa de ser alternativamente materializada para se tornar uma feliz recordação de algo que um dia acontecera.
Dada a carga dramática de seu roteiro (adaptado), A Árvore poderia tranquilamente resvalar no tom novelesco, todavia, o lirismo e a forma positiva com que o presente é encenado e o futuro é sugerido deixam a agradável sensação de que, embora não escapemos da finitude característica do ciclo da vida, as lembranças daquilo que deixamos, daqueles que por nós passam, dão a ela o sabor inestimável e o sentido tão procurado.

COTAÇÃO۞۞۞۞

Título original: L'Arbre
Direção: Julie Bertuccelli
Roteiro: Julie Bertucelli, baseado em roteiro original de Elizabeth J. Mars e em livro de Judy Pascoe
Produção: Laetita Gonzalez
Elenco: Aden Young (Peter O'Neil )Patrick Boe (Mr. Lu) Bob MacKay (Ab)Zoe Boe (Megan Lu)Gillian Jones (Vonnie)Penne Hackforth-Jones (Mrs. Johnson)Gabriel Gotting (Charlie O'Neil)Charlotte Gainsbourg (Dawn O'Neil)Morgana Davies (Simone O'Neil)Marton Csokas (George Elrick)Christian Byers (Tim O'Neil )Tom Russell (Lou O'Neil )Arthur Dignam (Uncle Jack)
Fotografia: Nigel Bluck
Música: Grégoire Hetzel
Edição: François Gédigier
Figurino: Joanna Park
Duração: 100 min.
Curiosidade: “Coincidentemente, a diretora [Julie Bertucelli] passou por uma experiência parecida pouco antes das filmagens. Seu marido, o diretor de fotografia Christophe Pollock, morreu em 2006, deixando-a com dois filhos pequenos” (FONTE: http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/em+a+arvore+charlotte+gainsbourg+encara+morte+do+marido/n1237926299029.html).