EDITORIAL

Após muito pensar sobre a descrição do blog, topei com o seguinte texto de Leon Cakoff, in Os Filmes da Minha Vida, São Paulo: Imprensa Oficial, 2010: “qualquer imagem de qualquer época, mesmo que seja manipulada, pode ter seu valor enquanto documento. (...) Todas as imagens tem uma função. (...) A Elite pensante, em qualquer geração ou situação, corre um perigo muito grande. O de torcer o nariz para o que seja popular. (...) o ruim, na pior das hipóteses, nos ajuda a discernir o que é melhor”.

Assim, o cinema de qualquer período, lugar e/ou artista poderá aqui ser analisado, sem que a distinção entre filme de arte e diversão escapista interfira no processo, afinal, tanto o rigor quanto o formalismo em demasia podem impedir a descoberta de pequenos grandes prazeres muitas vezes encontrados nas pedras menos lapidadas. Ou, como diria um conhecido nosso, numa síntese descaradamente pop: “why so serious?”.




sábado, 28 de maio de 2011

Se Beber Não Case – Parte II

                                                                   Quando Ideias se Tornam um Formato

                            Durante as filmagens de Se Beber Não Case – Parte II (EUA, 2011) o diretor Todd Phillips assim declarou para a imprensa:
“O sucesso do filme tem a ver com as surpresas, as situações inesperadas que ajudam a manter a graça. (...) Como nos superarmos? Agora estamos mais à vontade com os personagens. Eles eram a surpresa no primeiro filme. Agora, a novidade tem de vir dos obstáculos e situações a que vamos submetê-los”.¹
                                Neste sentido, se, por um lado, o cineasta acerta ao ditar a receita do sucesso de público e crítica do primeiro filme, por outro, promete mais do que cumpre para a aguardada sequência.
                          Uma ressalva, porém, há ser feita: Phillips evita o padrão hype adotado pela maioria das continuações produzidas em Hollywood preferindo, portanto, manter-se fiel a seu trio de personagens principais, daí a história fincar o foco sobre eles sem apelar para coadjuvantes e/ou participações especiais desnecessárias.
O problema, entretanto, consiste no fato de que tal fidelidade não se resume aos protagonistas mas também ao já mencionado formato da produção anterior. Por isso, Se Beber Não Case II, enquanto comédia, se contenta em ser uma reedição das piadas de outrora – ainda que numa dose muito maior de elementos politicamente incorretos –, o que, convenhamos, é muito pouco quando comparado as idéias hilárias de tão absurdas trazidas na primeira parte.
Não fosse o bastante perder a oportunidade de dar um passo adiante na saga dos amigos envoltos em bebedeiras e confusões, Todd Phillips pesa a mão em determinadas sequências, impregnando a comédia com um estranho quê de violência, daí o ator Zach Galifianakis não exagerar ao dizer que “Se tirassem as piadas daria um belo thriller”², afinal, por vezes Se Beber...Parte II lembra mais um longa-metragem de aventura, tal qual Esquadrão Classe A. Assim, se este, porventura, tiver sido o viés escolhido para diversificar e dar personalidade própria a sequência, não há como negar que o tiro saiu pela culatra.
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1.     Revista Preview. Ed. 20. Ano 2. Maio de 2011. p.32.
2.     Op. Cit. P. 35

COTAÇÃO - ۞۞۞
Ficha Técnica
Titulo Original: The Hangover – Part II 
Direção: Todd Phillips 
Roteiro: Craig Mazin, Scot Armstrong, Todd Phillips 
Elenco: Aedin Mincks (Young Alan)Karen Jean Wu (Flight Attendant)Bradley Cooper (Phil Wenneck), Nick Cassavetes (tatuador), Sondra Currie (Linda Garner) Mike Tyson, William A. Johnson (Young Stu)Mamie Van Doren Ken Jeong (Mr. Chow)Todd Phillips (Mr. Creepy) Paul Giamatti(Kingsley), Jamie Chung Kelli Stoner (Mr. Chow's Girl)Zach Galifianakis (Alan Garner)Justin Bartha (Doug Billings)Ed Helms (Stu Price) 
Estreia no Brasil: 27 de Maio de 2011 
Duração: 102 minutos

terça-feira, 24 de maio de 2011

Fitzcarraldo

Uma Megalomaníaca Declaração de Amor

Conforme esclarece o glossário do livro ... Ismos – Para entender o Cinema, mise-em-scéne é “a composição e a colocação de elementos dentro de um enquadramento individual”¹. Tal conceito, portanto, se funde a noção de decupagem, considerando que esta constitui a etapa da produção na qual são determinados os planos, o quê e de que forma será registrado pela câmera².
Isto posto, a compreensão das referidas técnica e nomenclatura se mostra fundamental para a melhor absorção e análise de Fitzcarraldo (Alemanha Ocidental/Peru, 1982), afinal é justamente através do requinte com que compõe as tomadas – auxiliado, é claro, por seu diretor de fotografia e colaborador habitual Thomas Mauch – que Werner Herzog demonstra que o controle sobre a obra jamais escapara de suas mãos – não obstante o caos que imperava nas gravações, em plena mata, do processo de transporte de uma embarcação de 160 toneladas por sobre uma montanha.
Sim, pessoas morreram durante as filmagens – que, vale frisar, não possuem qualquer retoque ou ajuda do hoje rotineiro chroma key³ – doenças e deslizamentos de lama impunham interrupções e atrasos nas filmagens, índios se ofereciam para dar cabo do endiabrado Klaus Kinski, recursos financeiros passaram a ter de ser levantados pelo próprio diretor, entre diversos outros problemas. Todavia, ainda que a beira de um colapso, Herzog conseguiu manter pulso firme não permitindo, assim, que tantos reveses falassem mais alto que a qualidade deste trabalho cuja natureza épica-obsessiva-megalomaníaca se confunde com o próprio calvário do protagonista, daí, tal qual o amor de Fitzcarraldo pela ópera, o cineasta lograr o êxito de superar todo e qualquer desafio para, ato contínuo, entregar uma declaração de amor a arte e, em especial, ao cinema.
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1.    BERGAN, Ronald. ... Ismos – Para entender o Cinema. São Paulo: Globo, 2010. p. 146.
2.    Para Noel Burch o filme deve ser entendido como uma série de fatias de espaço (o enquadramento de cada plano, fixo ou em movimento) e de tempo (a duração de cada plano), daí poder ser construído um significado cumulativo para a noção de decupagem que, dessa forma, há de ser compreendida como: (a) a planificação por escrito de cada cena do filme, com indicações técnicas detalhadas; (b) o conjunto de escolhas feitas pelo realizador quando da filmagem, envolvendo planos e possíveis cortes; (c) a feitura mais íntima da obra acabada, resultante da convergência das decupagens sobre as fatias de tempo e de espaço. Neste sentido, BURCH, Noël. Práxis do Cinema. São Paulo: Perspectiva, 1969.
3.    Técnica de processamento de imagens voltada a eliminar o fundo de uma cena para isolar os personagens ou objetos de interesse que posteriormente são combinados com outro cenário.

COTAÇÃO۞۞۞۞۞

Ficha técnica
Direção e Roteiro: Werner Herzog
Produção: Werner Herzog e Lucki Stipetic
Elenco: Klaus Kinski, Claudia Cardinale, José Lewgoy, Miguel Ángel Fuentes, Grande Otelo, Milton Nascimento
Fotografia: Thomas Mauch
Música: Popol Vuh
Duração: 157 minutos

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Kick-Ass – Quebrando Tudo

Hit Girl: A Guilty Pleasure

Há filmes que, dentro de um segmento, conseguem ir além de formatos já estatuídos, firmando, assim, um passo adiante para o gênero. Neste sentido, Kick-Ass – Quebrando Tudo (EUA, 2010) agrega novo fôlego às transposições cinematográficas de histórias em quadrinhos graças, sobretudo, a iniciativa de produtores e do diretor Matthew Vaughn em manter o espírito anárquico e politicamente incorreto do material original¹.
Desse modo, em tempos de obras tão conformistas e padronizadas, não deixa de ser um alento ver um trabalho voltado ao grande público não se curvar perante imposições mercadológicas e apresentar sem qualquer pudor, por exemplo, uma personagem tão cativante e sacana como é a incrível Hit Girl.
Aliás, há tempos o cinema não tirava da manga algo tão provocativo como a heroína mirim de vocabulário chulo e de inegável talento para a matança. Em razão, portanto, da improbabilidade de seu comportamento – somado a genial interpretação de Chloe Moretz - Kick-Ass se torna muito mais que uma inteligente brincadeira com os elementos das histórias de super-heróis, isso porque, apesar de embalada num viés pop, Hit Girl oferece uma acepção nova para a expressão guilty pleasure ao se mostrar fascinante e divertida mesmo quando sabemos que a realidade de crianças que pegam em armas para matar e delinqüir não é uma ficção em países como os do continente africano e até mesmo no Brasil.
 Mas, para não parecer que o longa-metragem se resume a presença dessa personagem coadjuvante, cabem as devidas referências aos seus demais méritos, quais sejam, por exemplo, a esperta montagem que divide com maestria o tempo entre protagonista e demais personagens, bem como o eficiente trabalho de figurino que logra o êxito de transformar as fantasias dos heróis mascarados em ícones pop. Além disso, Kick-Ass soma pontos mais do que necessários na desgastada filmografia de Nicolas Cage que finalmente acerta na escolha de um papel – coisa que não acontecia desde o já longínquo O Sol de Cada Manhã (EUA, Gore Verbinski, 2006).
Por fim, é uma pena que a aguardada continuação da aventura não tenha previsão para ser produzida, afinal, a co-roteirista Jane Goldman assim revelou em entrevista: “Eu não acho que vai acontecer. Não está sendo feito. Estamos todos fazendo coisas diferentes no momento. Gostaríamos muito de fazê-lo novamente, mas todos nós temos sido empurrados em direções diferentes”². Isto posto, fica a certeza de que jamais veremos novamente a Hit Girl criança em ação, afinal, se hoje Chloe Moretz já é uma adolescente, dependendo da demora com que a sequência seja providenciada a atriz pode até lá ter alcançado a idade adulta. Infelizmente todos crescem...
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1.  Dentro deste contexto: “Depois de ter sido rejeitado por vários estúdios, Matthew Vaughn decidiu bancar o projeto através de um jantar de arrecadação. Depois de pronto, vendeu para a Universal por um valor maior do que tinha pedido anteriormente”. FONTE: http://www.adorocinema.com/filmes/kick-ass-quebrando-tudo/noticias-e-curiosidades/.
2.     FONTE: http://cinepop.com.br/noticias2/kickass2_103.htm.

COTAÇÃO: ۞۞۞۞

Ficha Técnica
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman, Matthew Vaughn baseado nos quadrinhos de Mark Millar & John Romita Jr.
Elenco: Kofi Natei (Rasul)Xander Berkeley (Detective Vic Gigante)Clark Duke (Marty) Mark Strong (Frank D'Amico)Omari Hardwick (Marcus) Christopher Mintz-Plasse (Chris D'Amico/Red Mist) Tim Plester (Danil)Tangara Jones (Gang Girl)Michael Rispoli (Big Joe) Randall Batinkoff (Tre Fernandez)Lyndsy Fonseca (Katie Deauxma)Nicolas Cage (Damon Macready) Stu 'Large' Riley (Stu) Ashleigh Hubbard (Blonde) Chloe Moretz (Mindy Macready/Hit-Girl)Deborah Twiss (Mrs. Zane)Aaron Johnson (Dave Lizewski/Kick-Ass) Tamer Hassan (Mike)Kenneth Simmons (Kenny) Adrian Martinez (Ginger Goon)
Figurino: Sammy Sheldon
Edição: Eddie Hamilton, Jon Harris e Pietro Scalia
Estreia no Brasil: 18 de Junho de 2010
Duração: 117 minutos

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Inverno da Alma

Peculiaridades Legais

                                A lei 8009/1990 determina em seu art. 1° que:
“O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e neles residam”.
Indo mais além, o referido diploma legal esclarece que:
“A impenhorabilidade compreende o imóvel sobre o qual se assentam a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados”.¹
                        Dessa forma, o direito brasileiro protege contra cobrança de dívidas o “imóvel utilizado pelo casal ou pela entidade familiar para moradia permanente”². Dentro deste contexto, realidade diferente é vivida nos Estados Unidos, país onde o legislador, ao que tudo indica, não concede ao devedor semelhantes garantias. Um exemplo disso é visto no filme Inverno da Alma (EUA, 2010), cujo enredo gira em torno de uma família ameaçada de despejo em razão da condição de foragido da Justiça ostentada pelo “chefe da casa”.
                   Explique-se: como parte do pagamento da fiança que permitira sua liberdade, o ex-presidiário dera como garantia justamente a propriedade familiar; neste sentido, uma vez desaparecido, o dever de comparecimento rotineiro do réu perante as autoridades não é atendido e, em contrapartida, o bem imóvel se torna apto a apropriação pelo Estado.  Logo, ante a iminente condição de desabrigados dos irmãos menores e da mãe inválida, a filha adolescente sai em busca do genitor numa jornada marcada pelo desespero e pela coragem.
                             Em alusão a ambientação da história - que, por sua vez, se confunde com os próprios sentimentos dos personagens -, Inverno da Alma é lapidado pela cineasta Debra Granik de maneira fria e silenciosa, o que muito lhe aproxima de outra produção independente, qual seja o drama Rio Congelado (Frozen River, 2009). Todavia, a obra em comento goza de um importante fator capaz de lhe agrega superioridade, qual seja a impressionante presença em cena da novata Jennifer Lawrence.
                             Lançando mão de uma interpretação minimalista, a atriz mostra total segurança em um papel constantemente denso, experiência essa que atinge seu ápice quando no clímax do longa-metragem a jovem deixa o espectador com um nó na garganta diante de seu grito mudo.
                          Uma vez que esta já pode ser entendida como uma cena memorável da história do cinema, fica a ansiedade para que tão logo sejam lançados outros trabalhos da diretora e da atriz responsáveis por tal façanha.
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1. Art. 1°. Parágrafo único.  2. Art. 5°
 COTAÇÃO: ۞۞۞
Ficha Técnica
Título Original: Winter's Bone
Direção: Debra Granik
Elenco:  Kevin Breznahan (Little Arthur)Garret Dillahunt (Sheriff Baskin)Lauren Sweetser (Gail)Shelley Waggener (Sonya)Tate Taylor (Satterfield)Jennifer Lawrence (Ree Dolly)Brandon Gray (Spider Milton)Dale Dickey (Merab)John Hawkes (Teardrop)Sheryl Lee (April)Casey MacLaren (Megan)
Edição: Affonso Gonçalves
Estreia no Brasil: 28 de Janeiro de 2011
Duração: 100 minutos

domingo, 8 de maio de 2011

A Fita Branca

Origens e Razões do Mal

                          Mais do que uma parábola sobre a ascensão do regime nazista, A Fita Branca (Áustria, França, Alemanha, Itália, 2009) constitui um valioso estudo sobre as origens e razões do mal. Nesta toada, submissão e morte são elementos que permeiam a narrativa de ponta a ponta, afinal, o diretor Michael Haneke faz questão de mostrar que a opressão do homem pelo homem não se esgota enquanto produto de desigualdades sociais, visto que é dentro da própria casa, no seio da família que o oprimido se vinga contra a sujeição externa que lhe é imposta, daí violência doméstica e exercício abusivo do pátrio-poder serem assuntos cruciais no longa-metragem.
                    Crus e secos os filmes de Haneke não buscam servir de entretenimento nem dar respostas imediatas; no caso de A Fita Branca o cineasta, tal como experimentara antes em Caché (Áustria, França, Alemanha, Itália, 2005), não se preocupa em definir culpados para os crimes encenados – muito embora aponte sugestões nesse sentido – preferindo, por outro lado, centrar o foco sobre as razões para certas facetas do, não raro bestial, comportamento humano.
                            Esteticamente perfeita, a obra se vale, ainda, de um elenco primoroso – no qual se destacam, sobretudo, os atores-mirins escalados – bem como de uma fotografia amparada no vazio de planos abertos para determinar a densidade como elemento de similitude em um trabalho de forma e conteúdo tão privilegiados.
COTAÇÃO: ۞۞۞۞۞

Ficha Técnica

Título Original: Das Weisse Band 
Direção e Roteiro: Michael Haneke 
Elenco: Janina Fautz (Erna)Gabriela Maria Schmeide (The Steward's Wife)Birgit Minichmayr (Frieda)Sebastian Hülk (Max) Nino Seide (Nino Seide) Hanus Polak Jr. (Detective) Sara Schivazappa (The Italian Nanny)Michael Kranz (The Home Teacher) Arndt Schwering-Sohnrey (Farmer)Anne-Kathrin Gummich (Eva's Mother)Theo Trebs (Ferdinand)Vincent Krüger (Fritz)Ernst Jacobi (The School Teacher (voice))Carmen-Maja Antoni (Bathing Midwife))Marisa Growaldt (The Maid)Florian Köhler (Farmer)Michael Schenk (Detective)Enno Trebs (Georg)Rainer Bock (The Doctor)Fion Mutert (Sigi)Ursina Lardi (The Baronin) Branko Samarovski (The Farmer)Eddy Grahl (Karli)Susanne Lothar (The Midwife)Christian Klischat (Gendarm)Kristina Kneppek (Else)Kai-Peter Malina (Karl)Detlev Buck (Eva's Father)Aaron Denkel (Kurti)Stephanie Amarell (Sophie))Ulrich Tukur (The Baron)Johanna Busse (Margarete)Levin Henning (Adolf)Leonard Proxauf (Martin)Maria-Victoria Dragus (Klara)Steffi Kühnert (The Pastor's Wife)Burghart Klaußner (The Pastor)Christian Friedel (The School Teacher)Leonie Benesch (Eva)Thibault Sérié (Gustav)
Fotografia: Christian Berger
Direção de Arte: Anja Muller
Figurino: Moidele Bickel
Edição: Monika Willi
Estreia no Brasil: 12 de Fevereiro de 2009
Duração: 144 minutos